Notas iniciais
Alguém vai pra casa hoje...
E alguém vai se meter com trambicagens...

Trilha Indicada: Arctic Monkeys – When The Sun Goes Down

http://www.youtube.com/watch?v=ii2_ALLufQA&feature=fvst

Olhos entreabertos me avisam que a manhã chegara, tão rápido. Iluminava parcialmente meu quarto, luz que incidia pela janela. Não parecia nublado, nem frio. Bocejo me pedindo mais 5 minutinhos, daqueles que duram meia horinha e nos atrasa. Me espreguiço e procuro o relógio. Ainda tenho que continuar a fazer aquele trabalho chato de Legislação Social... Aff.

E em pensar que hoje tenho que ir pra faculdade. Pelo menos que o diretor Fabiano não tenha sentido minha falta, pra não me dar alguma advertência. Reclamara uma vez do descompromisso do Bruno. Se bem que Djane também tá meio ausente e temos razões parecidas para estar assim. De qualquer maneira, eu sou aluna e aluno quase nunca tem razão perante a diretoria.

Não quero que a professora tome meu partido, sei me defender... Só tenho que me esforçar com essa monitoria, até porque da galera que estava doente, nem todos ainda voltaram aos seus postos e minhas notas dependem do evento que estamos promovendo. Mesmo sendo liberada por três professores, tenho duas provas pra fazer das duas disciplinas que me sobraram.

Dou um pulo da cama ao ver que vai dar 11h da manhã. Putz, dormi demais! Esqueci de colocar o alarme pra tocar... Eu devia já ter feito alguma coisa dessa pesquisa e não vai dar pra começar agora. Ah, vai ficar assim.

Sento na cama sem coragem. Melhor tomar banho e almoçar logo, pra poder ir ao hospital. Não posso perder a saída do Vinícius de jeito nenhum. Com o trabalho depois me viro. Assim aproveito minha preguiça mais um pouquinho...

O dia da alta chegara. Um sorriso bobo se desenha e uma felicidade me banha. A professora deve tá que não se aguenta de felicidade. Quando lhe contei ontem a novidade... Nossa, quase indescritível o que senti ao contar, imagina ela ao saber. O filho dela estava cedendo, um pouco que seja. Parecia que há anos eu tinha conversado com ele ou brigado com ele... e nem fazia um mês que tínhamos nos conhecido.

Havia algo nisso tudo que me fazia me importar de verdade e era com isso que eu contava para ajudar, do jeito que me parecesse certo... o que não garante muita coisa. O fato é, eu me sentia bem fazendo isso. Quer dizer, me apeguei e por isso não vou deixar tudo passar sem me ver envolvida.

Me espreguiço pra começar o dia bem. Ligo a rádio num aparelho próximo a minha cama e saio cantando... sem me ligar em nenhuma letra, só cantando mesmo. Meu novo e ótimo dia começava muito bem.

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Tem coisas que demoram a mudar mesmo. Realidade de estudante sem carona então... a gente só sabe que caminhar para a parada e pegar um ônibus vale a viagem quando temos algo importante no fim do caminho. Mandei uma mensagem pro meu irmão antes de sair de casa, perguntando se ele poderia aparecer por lá quem sabe. Ainda não respondeu, deve estar ocupado.

Não estava quente demais. O sol, com o passar do tempo, foi se escondendo nas diversas nuvens brancas. Se chovesse hoje, não seria agora. Estava nublado, não do tipo que indica chuva, só escondia o sol e eu agradecia. Nem o fato de estar carregando meu material da faculdade no meio do ônibus lotado desse horário me retirava o sorriso dos lábios. Agora dei pra rir sozinha. Mentira, sempre fazia isso e cumprimentava a cobradora com um aceno de bom dia pra camuflar um pouquinho.

Pra algumas pessoas um mínimo aceno ou bom dia já ajudava. Das 20, 30 pessoas que você passa todo dia minutos do transporte público, costumamos não pensar no por que andam se esgueirando pra dormir, por que estão emburradas ou porque ficam olhando a avenida passar. Cada um preso no seu mundinho, naquele problema, na possível solução...

O mesmo para aqueles que andamos lado a lado nas calçadas. Se chegasse a perguntar, bom, aí sim poderiam olhar estranho por perguntar. É um mundo estranho. O fato de nos importarmos com os outros que não nos são próximos surpreendem as pessoas... Isso se não fizer parte do seu trabalho, como os bombeiros, policiais ou mesmo os médicos.

Mesmo assim, sempre vai ter aquele que vai dizer que eles estão ganhando dinheiro pra isso, da mesma forma que sempre tem uma criança chorando no ônibus no dia que você mais quer ter paz ou tem um engarrafamento quilométrico quando se está atrasado. De fato, existem bons dias e maus dias, nos resta saber lidar com eles.

Só nunca contamos com aquele dia que o chaveiro da bolsa da moça que passa atrás de nós engancha no nosso cinto e até conseguir espaço pra desfazer o troço no meio de tanta gente – algumas até que se solidarizam e se afastam ou tentam puxar o chaveiro – percebemos que a sua parada de descida passou e lhe resta apenas aceitar as desculpas da moça, sem gritar com ela. Ou poderia estourar se o dia tivesse começado ruim. Não é meu caso, mas se fosse aquele moço que vi mais ao fundo do transporte, acho que foi mais seguro ter acontecido comigo, pois nessa até o motorista poderia sair ofendido.

Andando o caminho de volta por ter saltado uma parada depois, apresso o passo ao ver no visor do celular que eram 12h30 e... ser pontual é tão difícil. Passo pelo fundo do hospital, indo pelo estacionamento, pra chegar à entrada... e, com o que me deparo, me deixa confusa... Aquele é o... Diogo?

Cautelosamente me escondo numa árvore do estacionamento e fico de butuca espiando. Deus, que boba eu sou, e daí se ele tá de caso com uma médica? Espera, o quê? Claro que é ele, reconheço por ser a camisa que eu andei pra cima e pra baixo no dia anterior por causa do Murilo. Devia estar saindo do seu plantão. A moça com quem ele está – em seu momento mais íntimo, pode-se dizer assim – veste bata branca e uniforme azul claro por baixo. Incrível é poder ver isso de onde estou, o que quer dizer que qualquer um pode ver.

Só pode ser médica porque o uniforme da enfermaria é rosa. Pensando bem, o Murilo não fez nenhuma piada com o Diogo sobre a vestimenta rosa. Não que eu tenha ouvido. Bom, se estão aí pra todo mundo que passar ver, posso passar de boa.

Saio da árvore e ao chegar próximo da virada onde encontraria a entrada principal, a moça, médica, espanta-se comigo com um gritinho meio agudo e se afasta de Diogo rapidamente, ambos se ajeitando como se quisessem manter, sei lá, a pose? Não entendi. Estavam a céu aberto.

- Hey, Mi-ilena. Tão cedo por... por aqui.

Não esqueci, claro, o que ele me disse ontem. Só que, agora, ante o constrangimento, me pego pensando: será que ELA sabe? Poxa, ela sendo loira não quer dizer que devemos duvidar de sua inteligência. Ela é médica, deve ter estudado muito pra isso. E não seria justo com ela se eles estiverem juntos, ou mesmo apenas de casinho. Esse Diogo usufrui muito de sua boa imagem – e bota BOA nisso.

- Oi. Hoje é a alta do Vinícius.

- Ah, é mesmo. Fico feliz por ele ter melhorado. Não vemos isso todos os dias. Quer dizer, de um paciente nas condições dele. Manda um abraço pra ele por mim.

- Hum. Claro. Tenho que ir, estão me esperando.

Sustento mais o material entre os braços a minha frente e sigo caminho. Não demora muito quando Diogo segura meu ombro e me para:

- Er... Milena, eu sei que você ainda ta chateada comigo, por ontem, mas... será que você pode não comentar sobre o que você acaba de ver? Eu sei que é pedir demais. Eu não quero ter que comprometer... você sabe.

Aponta para a médica que ficou atrás de nós. Ao me virar, ela fica ruborizada, roendo uma unha. Olhando melhor, sinto que a conheço de algum lugar. Num sei, devo tê-la visto pelo hospital esses tempos que vim. Só por consideração a ela que respondo ao Diogo, porque se dependesse dele, não sei se poderia garantir alguma coisa, mesmo não tendo contado a ninguém sobre o ocorrido ontem. Não que não tenha dado tempo.

- Tudo bem. Só porque ela também tá envolvida. Isso tudo ainda não fez sentido pra mim e não querendo saber mesmo, deixamos como está.

- Brigado, Lena. Isso significa muito vindo de você.

Ele... ele ficou ruborizado? Olho da médica pra ele desorientada, buscando a lógica e nada me vinha na cabeça. Bom, deve ser a vergonha. Ele devia mesmo se envergonhar. Safado.

- Então... já vou. E... você tá com batom manchado aí no queixo.

Me viro sorridente e o deixo esfregando o queixo. Não tinha marca de batom nada nele. Mas ele não sabia disso. Queria testá-lo.

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Saindo do elevador, encontro meu irmão no corredor próximo à recepção. Mas já? Como ele chegou tão rápido?

- Eita, demorou, hein.

- Como você chegou primeiro que eu?

- Quando recebi sua mensagem tava de saída do trabalho, fui liberado cedo. Então vim logo. Tenho que resolver umas paradas daqui a pouco.

- Ah tá. Tive uns contratempos, sabe como é o trânsito essa hora. E aí, me diz, ele já foi liberado?

- Já. A professora foi resolver com o tal Filipe sobre o pagamento. Ela tá muito feliz, graças a você, maninha. Foi estranho vê-los, sabendo você-sabe-o-quê.

Ih, eu contei ontem pro Murilo. Ando muito esquecida. Mas trouxe o vestido da enfermeira que me emprestou, limpo e seco. Ontem à noite foi a única coisa que consegui fazer antes de cair na cama. Pela manhã o encontrei secando. Acho que dona Bia deve ter visto na máquina de levar quando chegou pra trabalhar.

- Tá, não precisa ficar falando assim. Eles não sabem que você sabe sobre você-sabe-o-quê. Só contei porque... bem, era você. Pra quem mais eu poderia dizer?

- Não sei se vejo isso como elogio ou ofensa... De qualquer jeito, é bom saber. Você tem isso de querer manter tudo para si, tem que compartilhar.

- Eu sei. Eu tento... e voltando ao caso, você já viu o Vini?

- Ainda não, parece que tá tomando banho. Cheguei faz uns 20 minutos.

- Hum. Então segura aqui meu material que eu tenho que devolver o vestido da amiga do Diogo e pegar o meu de volta. Isso se eu achar a mulher.

- Ah, verdade. Sorte a minha de não ter pegado gripe de novo, porque até chegar ao meu trabalho e trocar de roupa, fiquei bastante tempo de roupa molhada. Vai lá, fico por aqui. Tava vendo se eu encontrava a Mônica.

- Quem?

- Aquela enfermeira que me aplicou injeção, a que me deu o número de telefone.

- A que deu um número falso, você quer dizer.

- Bom, eu não vejo assim. Ela deve ter se enganado.

- Certo. Aham.

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Marlene é o nome da enfermeira. Só isso que Diogo tinha me dito ontem quando nos apresentou. Só não me disse que tinha três Marlenes trabalhando nesse hospital. A moça da recepção ainda por cima é novata e sua supervisora não estava no momento, então não adiantava o quanto eu descrevesse a Marlene que me emprestara o vestido.

Segurando a alça da minha bolsa transversal saí pelos corredores do 4º andar atrás da mulher, apelando pra sorte de encontrá-la. Distraída nessa busca, um segurança me toca no ombro, desconfiado. Depois de conhecer uns profissionais daqui acho que tenho medo de saber o que ele tem a me dizer.

- Você é a... Mi... Milena?

- Da parte de quem?

- Minha e do Diogo.

Falou em Diogo: pronto, é trambicagem.

- Qual é a senha?

Pera, o quê?

- Que senha? Do que você está falando?

- O Diogo não te disse?

- Ele não falou nada de senha. Falei com ele ainda agora e não mencionou nada a respeito. Bem, ele estava um tanto ocupado, não falou muita coisa.

- Esse garoto vive aprontando.

Num diga! Praticamente engoli essas palavras. Não sei do que ele sabe ou a que se refere, então melhor ficar de bico calado e espero que fale alguma coisa por si só.

- Você é a moça que pediu umas imagens da segurança?

- Ah, sim. Isso ele me disse ontem. O que tem?

- Achei o vídeo. Nem precisei das coordenadas de dia e hora, ouvi uns comentários sobre esse dia... logo que cheguei pro plantão, me mostraram. Você é bem brava, hein, garota.

Quando eu tinha me referido aos guardas e sua diversão da madrugada, pensei estar blefando, falando besteira. Mas olha que não era verdade? E estando dentro da ilegalidade, cúmplice de Diogo, por que não usufruir um pouco também? Se é pra fazer merda, tem que fazer direito, sem vestígios.

- E o que preciso fazer pra ter acesso a uma cópia?

- Bom, nada. Está aqui gravado nesse CD. O “pagamento” foi feito pelo Diogo.

- Que “pagamento”?

- Ah, isso eu não posso comentar. Para todos os efeitos, você não recebeu de mim.

Até parece que eu falaria ou poderia falar alguma coisa. Pra quem falaria? Estaria denunciando a mim mesma, oras. Deve ser protocolo de trambicagem, até isso tem umas regras básicas. Tenho que falar com o Diogo sobre isso depois. Isso se eu ainda o ver.

O segurança se afastou para voltar para seu posto, olhando vez e vez para os lados e câmeras de vigilância do corredor. Como num filme, acabei também participando dessa arte do disfarce pra guardar cautelosamente o CD na bolsa. Antes de ir, toquei-lhe o ombro e ele se espantou:

- O quê?

- Er... brigada. Pelo CD.

- Hum. De nada.

- Pode me dar uma informação? Estou procurando a enfermeira Marlene, ela é um pouco mais alta que eu e tem os cabelos claros, curto.

- Sei quem é. Estava na enfermaria do nível II ainda pouco. Não sei se está por... Oh, olha ela ali.

Apontou-me a enfermeira que estava saindo do elevador naquele momento. Agradeci e corri até a Marlene. Ela vinha conversando com a doutora que estava com Diogo na hora que cheguei. Sorri pra elas e Marlene entendeu minha deixa de entregar o vestido. Guiou-me de volta ao vestiário feminino, deixando a doutora pra trás, ainda desconcertada. É, se tratando do Diogo, eu poderia ficar desconcertada por ela, porque ambas entramos no jogo dele.

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13 horas pontuais marca o visor do meu celular quando as portas do elevador abrem para o terceiro nível. Finalmente! Dou uma corridinha para ir para o quarto do Vini e encontro algumas pessoas por lá, no corredor. Numa espécie de rodinha tinha uma enfermeira conversando com Filipe, Murilo e uma garota segurando um balão. Parecia uma nuvem branca. O balão, não a garota... Não entendi essa do balão. Mas eita, eita que meu irmão não perde tempo pra cima da garota. Assim fica mais difícil de arranjá-lo com a Dani. Não tenho culpa se ainda não sobrou muito tempo pra cuidar disso.

- Olá.

- Hey, Milena, essa é a...

- Becca. Prazer.

- Prazer. Você é amiga do meu irmão?

Nessa hora, Filipe para de falar com a enfermeira e passa os braços pelos ombros da garota. Faltava me dizer que era outra filha e que o Vini tinha uma irmã que ele não sabia também. Ela não era parecida com nenhum dos dois, porém, a última vez que pensei sobre algo de genética não ajudou muita coisa. Antes fosse isso, antes fosse... e não uma falha da minha memória novamente, quando ouvi tais palavras:

- Não, essa é a namorada do Vinícius que lhe falei ontem, Rebecca.

- Na verdade, senhor Filipe...

Oh. Mal me dá tempo de soltar o ar quando a garota ia falar alguma coisa. Eu não sei se realmente ia querer saber o que ela tinha a dizer, o fato é que interromperam o momento. Djane abriu a porta pra apresentar um renovado e pronto Vinícius. Era hora de ir pra casa.

Notas finais
Então Filipe tinha razão? Existia mesmo alguém?
É melhor o Vinícius começar a dar umas explicações, hein.