Mantendo O Equilíbrio (Temp 1 + Temp 2)
31 Capítulo 2
Notas iniciais
Sim, era o Diogo.
Tinha duas pessoas na fila no espaço entre nós. Quando eu paralisei nas minhas desculpas, essas duas pessoas decidiram sair da fila para trocar o produto que tinha em mãos por causa da data de validade, que foi o que consegui entender quando eles saíram e lá estava Diogo.
Não estava de farda de enfermeiro, carregava uma cesta com besteiras como salgadinhos, chocolate, sorvete, biscoitos e outras guloseimas mais que não deu pra verificar pela breve olhada que dei. Mexendo no celular, ele não me viu de imediato, mas com a saída daqueles clientes que estavam entre nós, levantou o olhar e me encontrou. Diria que foi uma cena um tanto interessante quando ele abriu aquele sorriso dele instantaneamente, isso se não fosse o incômodo que ficou entre nós desde nossas últimas conversas. Traste.
– Hey, Milena, que coincidência.
– Hey... Diogo.
Foi isso que chamou a atenção de Vinícius para que virasse. Acho que não gostou de ser interrompido, porque seu rosto se fechou um pouco e deu um leve aceno contido para Diogo. Este fica bem surpreso ao vê-lo ali.
– Hey, cara. De boa, não? Fico muito feliz quando vejo os pacientes por aí, ainda mais como uma recuperação como a sua. É estranho dizer isso, mas eu senti falta logo quando você foi embora... a gente mal conversou, eu sei, mas a energia que você deu de esperança a toda equipe, e ainda a presença da Milena por lá, foi muito mais que válida. Acredito que foi um marco para muitos que estiveram ali.
Sei. Sei por que ele gostava de me ter por perto. Mil vezes, traste.
De qualquer forma, ele me ajudou – de “terceiras intenções”, mas ajudou – e por causa dele tenho um trunfo contra qualquer atividade suspeita do meu irmão. É por causa disso que estou na fila, para fazer novas cópias. Queria lhe perguntar como foi o pagamento que o segurança me falou naquele dia, só que com Vinícius ao meu lado – bem estranho de uma forma que eu não consigo entender seu comportamento – não dá pra comentar sobre o assunto.
– Valeu. Pra vocês significou muito, mas eu mais do que queria sair de lá faz tempos... odeio hospitais. Sem ofensa.
– Sem problema. Então, hã... Milena, você está bem? Digo, você viu aquela chuva de sábado pra domingo? Foi violenta... Quando começaram os trovões, logo me lembrei de você e fiquei torcendo para que você... você sabe...
Se ele esteve preocupado eu não sei dizer, mas a cara de surpreso e descrença que Vinícius fez ficou bem estampada enquanto Diogo hesitava em detalhar sobre minha fobia. Já eu... eu queria disfarçar qualquer sentimento que me vinha, como arrepios, suor nas mãos e inquietação por ser levada àquela noite em particular. Sinto que isso me deixa bem exposta, não só pelo contato que tive com Vini, mas também pela fobia que tanto me envergonha... é um caso que sempre que posso, prefiro não comentar. O desconforto logo é percebido pela minha falta de resposta. Vinícius se pronuncia antes de qualquer esboço de resposta minha:
– Ela te contou sobre isso?
– Gente, desculpa a indelicadeza... vocês aí se curtindo e eu trazendo assuntos nada a ver... Olha, a fila tá andando.
Nos movemos com a fila, já próximos do caixa. Com esse último comentário de Diogo me senti mais impelida a falar, quer dizer, explicar o que acontecia para que não tivesse a impressão errada – impressão que eu desejava no fundo ser verdade e não é. Cale-se vozinha irritante que fica toda hora lembrando isso!
– Er... nós não estamos juntos. Tipo juntos juntos...
A atendente nos chama atenção, que é nossa vez, então me aproximo do caixa com Vini na minha cola, coloco os CDs na bancada e ele joga uma barra de chocolate com uma caixinha de chicletes junto. Não vi a hora que ele tinha pegado esses produtos... Vejo quando ele tira um cartão da carteira para entregar à atendente que registrava os produtos e o paro:
– Vini, pra quê cartão? Isso num deve dar nem 10 reais...
– Deixa que eu pago, Milena.
– Vini, o que foi?
Ele não me olha e entrega o cartão à moça do caixa. Indignada, tomo da mão da mulher, lhe entrego uma nota de 10 e fulmino Vinícius, descrente do comportamento dele. O que foi que ele ficou todo assim? Guardo seu cartão na minha bolsa pra ele não tentar nada e isso o faz suspirar alto como se estivesse impaciente, bufando. Pois que fique emburrado por eu ter pagado a compra, oras.
Não bastando isso, Diogo chega apoiando sua cesta de compra na bancada de registro do caixa logo atrás de Vinícius e vê os CDs que o empacotador coloca numa sacolinha pequena. Ele fala justamente o que eu queria que ele pudesse engolir:
– Esses CDs... é para o que eu estou pensando que seja?
De repente todo mundo virou. Quer dizer, não todo mundo. O empacotador desligado, a atendente perdida na história, eu fulminante e Vinicius mais uma vez bufante. Com essa Diogo se cala, olhando para sua cesta, tirando as coisas para passar à atendente. Pego as sacolas, já que Vinícius sai quase em disparada para o estacionamento, sem falar nada. O que? Ele ficou zangado porque Diogo quase adivinhou meu plano? Dou um aceno de tchau ao enfermeiro e sigo o gênio-difícil-bufante ao estacionamento. Ah, agora ele quer ficar em silêncio, né?
~;~
Vinícius maneja o carro com raiva contida pela avenida saindo do estacionamento da loja. Não falei nada quando entrei esperando que ele comentasse alguma coisa primeiro... Só que ele não disse uma palavra e isso me incomodou. O silêncio desconfortável era claro, salvo pela rádio que ele tinha ligado, que pra mim não era de valia se nem conseguia me concentrar pra reconhecer o que quer que tocava ali. Tinha que fazê-lo falar.
Remexi na sacola de compra.
– Você quer chocolate? Chiclete?
– Não.
– Sabe que nem vi quando você os pegou...
– Tava concentrada em outra coisa. Ou outro alguém.
– O que você quer dizer?
– Milena, não se faça de boba, eu entendi, tá?
– Eu não entendi, oras. Me diz.
– Deixa pra lá.
– Não, não deixo. O que é, hein? Por que isso agora? Se você tirou o chocolate e o chiclete é porque queria. Agora num quer mais, é?
– Você pagou, é seu.
– Há! Quer dizer que se você tivesse pagado, os CDs seriam seus? Era isso que você queria? Fala sério, está chateado por besteira... só porque eu peguei seu cartão. Se é esse o caso, toma teu cartão.
Ele para ante um semáforo, com uns dois carros a nossa frente, parecia que fingia se concentrar na avenida para não me olhar. Vi que segurava firme o volante e a marcha. Chateada, não revido a rispidez, coloco o cartão no painel do carro, junto com o chocolate e o chiclete.
– Não foi pelo cartão, você sabe.
– Então o quê? Eu, de alguma forma, queimei seu ego por facilitar a compra?
– Poxa, Milena, para com isso... me irrita você fingir adivinhação sabendo que não é nada dessas besteiras. Não adianta agora você querer me dar atenção...
– Ok, valeu pela ofensa. Se é isso que você quer, fique com esse seu bico sozinho.
Cruzo os braços e me viro no banco para ver melhor a avenida. O sinal nada de abrir. Parece que eles fecham de propósito quando queremos que eles abram. Por visão periférica o sinto mexer-se inquieto no banco. Sua mão que estava na marcha senta no meu braço ao seu lado. Não era ele que queria ficar na dele, calado?
– Milena?
– Hum.
– Milena...
– O quê? Você quer voltar lá e pagar com SEU cartão?
– E você, quer ficar de conversinha com o outro, né? Cheio de segredinhos vocês dois.
É, acho que o problema maior não é bem o pagamento.
Ele realmente não gostou por ter sido interrompido, tendo menos atenção. Se fosse outro caso poderia até dizer que é ciúmes, mas... nam, não é. Isso só plantaria esperanças que devo matar de imediato. Porque ou matava esses fios de esperança ou era meu coração que seria a vítima de homicídio depois.
– Eu estava sendo educada, diferente de você, né?
– O que eu ia fazer, então? Balançar a cabeça pra conversa de vocês? E como que ele sabe da sua fobia? Por que ele pode comentar e eu não? Ah, sei, por isso que eu saí dali, não queria ficar de vela... de novo. Por isso que você disse que não estávamos juntos, né? Pra dar o aviso de que ele teria passagem livre...
O sinal finalmente abre e ele, totalmente inquieto, dirige entrando no seu bairro. O caminho que pegava era diferente de sua casa, devia estar seguindo para a locadora. Na minha cabeça só aparecia coisas tipo “O quê? Como ele pode pensar isso? O que tem a ver uma coisa com a outra?”. Bufei totalmente descrente:
– Não acredito que você me disse uma coisa dessas... eu disse aquilo para que ele não tivesse a impressão errada. E, olha que inesperado, quem teve a impressão errada foi você. Porque, “helloooo?”, quem tem namorada é você?! Esqueceu foi? E se ele sabe da minha... fobia... foi porque ele presenciou, sem que eu quisesse, pois se dependesse de mim, ninguém veria. E não, eu odeio quem comenta sobre isso... Você sabe muito bem que eu não gosto de falar, a simples menção já me deixa alterada... Além disso, para deixar bem claro, não, eu não estou interessada no enfermeiro traste!
Quase cuspi com desgosto por estar falando de Diogo, porque pra mim é inaceitável achar que eu pudesse ficar pensando nesse cara quando ele não era mais que uma pessoa questionável, que, com um comportamento inadequado, criou um tipo de repulsa em mim. Só então percebo que estamos parados numa rua, em frente à locadora. Não fazemos o mínimo movimento de saída do carro, ele só desliga o motor e suspira forte, passando uma mão do rosto. Não podia ver bem seu semblante, via apenas ele segurar firme o volante com uma mão. A voz que se seguiu era um pouco gélida:
– Ele te fez alguma coisa?
– Co-o-omo assim? Por quê?
– Você falou dele com desprezo... Ele TE fez alguma coisa? Responde.
– Nã-ão. Ele não me machucou se é isso que você quer dizer. Eu só disse isso porque...
– Porque...?
– Porque eu soube de... coisas... que me fizeram me decepcionar com ele. Foi um comportamento inadequado o dele... Mas isso é uma outra história e meio longa, não vale a falação, nem a mínima menção. Além do mais, eu não quero estar envolvida nisso. Feliz agora?
– Não. Visivelmente ele sabe dos CDs e você nem quis me dizer... Se ele é essa pessoa ruim que você fala, por que eu não posso saber?
– Ai Vini, sério, melhor você não saber. Quanto menos pessoas souberem, melhor, acredite em mim. É muita besteira. Sei nem como ele adivinhou. Ou acha que adivinhou...
– Se é besteira, por que não posso saber? Eu não vou sair nos quatro ventos falando se é por isso qu...
– Não, não é por isso. É uma besteira, mas do tipo que eu me envergonharia, tá? E meio que tem a ver com a história do Diogo, que eu não posso comentar. Só porque eu sei isso não me dá o direito de falar aos “quatro ventos”.
– Eu não sou quatro ventos, eu...
– Eu sei. Não vamos brigar por isso, não vale a pena.
Mais calmo ele guarda seu cartão, se estica para o banco de trás para pegar os filmes e desce do carro para devolver na locadora. Continuo na mesma, melhor ficar no carro. Meu celular logo vibra na bolsa com um barulhinho de mensagem. A caçada por ele na bolsa – nem é tão grande assim, mas se perde fácil – é o tempo de Vini fazer a devolução e caminhar de volta.
A mensagem é de Flávia e diz “Que tal a gente ‘matar’ uma aulinha amanhã? Dar uma saída... menos PAGODE, PELAMOR”. É, ela ficou bolada por causa daquele dia que saí com Daniela e Bruno. Mas... por que amanhã?
Na hora que Vinícius entra no carro, ligando o motor, reencaro o visor do celular e dou um grunhido sobressaltado pelo espaço do carro ao me lembrar da minha burrada. Meu Deus, que péssima amiga eu sou! Tô ferrada!
– O que? O que foi?
– Vini, eu preciso ir. Acabei de lembrar uma coisa e se eu não fizer, eu tô mais que ferrada. Caramba, não acredito que eu esqueci isso.
– O que? Eu te levo. O que foi? Milena?
– Eu... tá, me mata. Eu esqueci que o aniversário da minha amiga Flávia é amanhã e eu não preparei nada. Nem presente eu tenho! Eu tenho que correr para o shopping agora mesmo!
– Ok, calma. Vou te ajudar nessa.
~;~
Respondi a mensagem de Flávia fazendo mistério, como se tivesse alguma coisa programada – e não tinha a menor ideia do que fazer para o aniversário dela, precisava de um plano urgentemente – dizendo que já tinha uma ideia e que só poderia sair na hora do intervalo, que eu não poderia faltar aula de Economia.
Como o caminho para o shopping era um pouco longe, retomei a conversa da loja de conveniências em que Vinícius foi interrompido. Queria lhe mostrar que eu me importava com ele, não poderia ignorar algo que ele queria compartilhar comigo. Bem mais relaxado, ele descreve o que foi a surpresa do domingo:
– Meu avô e eu não somos muito próximos, nunca fomos. Mas foi legal ele aparecer por lá. Ele se espantou por eu estar na minha antiga casa, porque teve uma vez que eu estava tão sufocado pela minha mãe que pedi a ele ajuda para uma emancipação. Ele não quis me ajudar, não era a favor nem de mim nem de minha mãe, por isso recorri ao meu tio. Acabou não dando certo mesmo essa emancipação. Aí teve uma hora, logo depois do almoço que eu estava conversando com ele sobre isso, de estar de volta a minha antiga casa, quando meu tio, que também tinha ido ao almoço, quis me persuadir a voltar atrás na minha decisão. Meu avô não gostou dessa atitude e meio que o cortou...
Há! Bem feito!
A conversa com Djane no domingo no carro sobre suas chances e a mensagem que me enviara me veem à cabeça, pensando em como se encaixaria nessa história. Ele me tinha por inteiro presa ao seu relato que nem via as avenidas que passávamos. Na verdade, estava virada pra ele no banco passageiro, esperando pelo “babado”:
– Ah, meu tio... ele ficou indignado, partiu pra falar de minha mãe. Nessa hora eu me pronunciei. Disse a ele que a decisão era minha e que já tinha sido tomada, que ele não podia ser grosseiro com minha mãe, porque isso só faz piorar as coisas. Foi muito estranho... eu não sei de onde tudo isso saiu de mim, só vi quando estava de pé na sala e meu avô se levantou para me dar tapinhas nas costas em apoio do que eu falava.
Uau. Nem eu esperava por essa... Nem visualizar acho que consigo, de Filipe levar um chega-pra-lá. Poxa, essas coisas eu num vejo! – o que é errado pensar, seria sim uma intrusa num almoço de família, mas que queria ver a cara do Filipe, eu queria, nem que fosse através de uma câmera escondida.
– E o que seu tio falou?
– Nada, ficou calado. Ele é estranho, como já te falei... dessa vez ele foi mais estranho. Senti que ele estava planejando alguma coisa, ele não quer me dizer o que é. Se tem algo a ver com aquela história de antes do meu acidente, eu não quero saber. Não mais.
Hum. Foi bom ele ter levado essa na cara, porém, nem tudo anda as mil maravilhas. Djane vai ter que ser mais rápida quanto ao seu plano de contar toda a verdade... Filipe deve tá possesso com essa.
– E, bom, teve uma coisa...
– O quê?
– Depois da bronca que meu avô me deu por ter sido imprudente no dia lá do acidente e repreender minha mãe por ter deixado tudo por debaixo dos panos, dona Ana chegou com um lanche para os convidados. Era café e biscoitos... me lembrei da sua história com seu avô, então brincando eu perguntei a ele se ele queria ver um filme de terror... Minha mãe engasgou com o café. Engraçado é que não foi bem meu avô que mostrou parecer que eu tinha um parafuso a menos, foi meu tio.
– Há! Não acredito! Eu te disse...
– E ele aceitou. Não sei qual foi o problema do meu tio, ele logo saiu quando eu coloquei o DVD pra rodar. Tudo foi, no mínimo, estranho. E não falo do filme. Minha mãe se escondia com a almofada cada vez que as coisas ficavam suspeitas, o que era quase toda hora, e meu avô ria. Ria, Milena! Num filme de terror! Eu não consigo lembrar a última vez que estive assim confortável com meus familiares, parecia que eu vivia em um mundo paralelo. Vinícius no país dos espelhos. Depois meu avô me acompanhou numa ida ao apartamento pra pegar o resto das minhas coisas e levá-las de volta para minha antiga casa, peguei até meu carro... Encontramos meu tio de saída por lá e ele não falou nada... Nada! Tô te dizendo, acho que tô quase topando com a Alice dentro do espelho...
O que eu via era tudo muito misturado, surpresa, contentamento, relaxo, animação... sua voz calma e brincalhona fazia jus a sua face. Nossas risadas se entrelaçavam de um jeito que nem parecia que tínhamos brigado instantes atrás. Estava tão conectada a ele que, quando parou o carro, quase perguntei por que ele parou, então me dei conta que estávamos no estacionamento do shopping.
– O que você pensa em comprar, afinal?
– Sei lá, se eu não achar o DVD da banda que ela gosta, procuro algum box de uma série que ela ame. Ou uma bijuteria legal... Roupa é última opção.
Fomos a duas lojas de CDs e DVDs e não tinha o que eu queria. Ou o que ela queria... porque não era bem um lançamento que eu procurava. Era um DVD de uns anos atrás, mas que eu sei que ela adorava ver no Youtube. Apelei pra uma loja de diversidades, daquelas que parece loja de conveniências tendo de tudo um pouco. Nessa procura saí na frente falando, descrevendo o DVD que eu tava atrás, aí virei numa seção para chegar à parte dos CDs e DVDs quando vi que falava sozinha. Vinícius tinha ficado pra trás ou se perdido de mim. Então voltei o meu caminho e... olha, o achei.
Com a Becca.
Quem fica no shopping, plena 15h30 da tarde de uma segunda-feira fazendo compras? Ela não tinha o que fazer não? É, é hipocrisia de se pensar isso, já que eu estou no shopping numa segunda à tarde... mas é porque é uma emergência. Ela estava atrás dele, segurando-o com as mãos tapando os olhos dele, falando no ouvido. Não era uma visão agradável, principalmente quando eu podia ver seu riso à distância.
Sinto um quente no estômago que parecia me dizer “olha aí o porquê”, o porquê de eu querer evitar todas as esperanças. Deixo-o ali e sigo o caminho de onde eu estava indo, precisava de foco, isso. Antes fosse fria com meu coração do que lhe dar corda.
Mas quem diz que a imagem sai da minha cabeça? Eu vou passando os DVDs com a mão numa procura infinita sem saber o que bem tinha na frente, tentando controlar qualquer desvio da minha respiração, quando algo gruda na minha perna. Quase dei um grito pelo susto, nem deu pra pular com aquilo preso na perna. Quer dizer, com aquele ser pequeno grudado nela. Inesperadamente ali estava o irmãozinho da Natália. As pessoas adoram brincar com a força do meu coração, só pode.
– Menino, quer me matar é?
– Ô tia, eu quis fazer uma surpresa.
O guri me chamou de tia... TIA! Não sou velha assim não, tenho mal meus 20 aninhos... na flor da idade. Tenho idade pra ser irmã dele, não tia. Mas o que ele faz aqui? Essas crianças andam matando aula é? Detalhe, ele não largava minha perna, continuava agarrado a ela, olhava pra cima pra falar comigo.
– Tia não, Milena. Quê que você faz aqui, garoto? Tem escola não?
– Minha escola é de manhã, vim comprar um presente pra minha irmã. Ela vai voltar só para o aniversário dela.
– Ah é? Quando vai ser?
– Daqui a umas semanas. Você é minha convidada.
– Eu? Mas... olha, com quem você veio? Não tá perdido, tá?
– Não, vim com minha mãe, ela tá olhando uns celulares e eu vim procurar um DVD pra Natália. Você também tá procurando DVD?
– Tô. Também é presente, para uma amiga que tem aniversário amanhã.
– Eu posso ir ao aniversário também?
– Ah, não vai ter festa, querido.
– Poooooxa...
Para um penetra ele até que fez um bico fofo. Faço um carinho no seu cabelo lembrando a loucura que foi aquele dia com a Dani e o Bruno. Espera, será que ele tá sabendo que a Natália vai voltar? Ai, a Dani não vai gostar muito disso, principalmente se o Bruno for convidado pra festa de aniversário... tenho que ver isso com ela depois. Curiosamente tinha outra coisa em mente...
– Hey, me diz uma coisa. De onde saiu o nome “Drifus” para um cachorro?
– Eu num sei direito, é alguma história que meu pai contou. Olha, eu tenho que ir, minha mãe deve tá me procurando. Só vou pegar esse aqui e ir. Tchau.
E o garoto sai correndo, com um DVD de “De volta à Lagoa Azul” na mão. Sério que isso está a venda? Sério que é isso que ele quer dar para a irmã? Belo presente... Não sei o que é mais questionável, o presente ou o nome Drifus. Observei até que ele virou para outra seção, foi então que outras pessoas reapareceram...
– Milena, tava te procurando... Olha quem eu achei.
– Oi? Ah, oi... eu tava por aqui. Imaginei que você tinha se perdido, mas nem pude procurar, um... conhecido... apareceu e me distraí.
O sorriso de Vinícius meio que morre quando cito o conhecido. Rebecca estava ao seu lado, de braço dado com ele numa alegria só, nem percebeu quando o namorado ficou assim. Nam, deve ter sido impressão minha. Cumprimento e até abraço a menina, ela não tem culpa de ser um empecilho... não, quer dizer, ela não... ah, deixa pra lá. Ela é boa gente.
– O Vini contou que você está atrás de um DVD de aniversário, eu o vi por aqui quando passei ainda pouco com a Michelle. E está de promoção, sorte a sua. Ah, essa é a Michelle, minha amiga.
– Oi, prazer, Milena.
– Prazer.
Nem tinha visto a menina do lado dela. Até que parecia com ela ligeiramente, quase mesma altura, cabelos longos, bem arrumadas, bem animadas, podiam ser irmãs... Viu como ela é boa gente? Além de prestativa, ela é simpática. Bem que poderia ser uma vaca... Se fosse vaca eu não me sentiria tão culpada de sentir o que sinto quando estou perto do namorado dela.
Engato uma conversa com elas sobre achar agulha no palheiro, pois era isso que parecia, e logo achamos o DVD. A caminho da fila para pagar, elas se despedem dizendo que outras coisas pra procurar, então que noto que elas tinham uma cesta no braço, com panelas e outras coisas domésticas. Deve ser pra prima que casou... Bom, eu que não ia ser indiscreta de perguntar. Vinícius? Esse estava bem pensativo...
– O que tanto você pensa?
– Nada não.
– Sei, e essa sobrancelha que me diz o contrário?
– Er... eu lembrei uma coisa que eu tinha que fazer hoje...
– Ah, desculpa, eu só vou pagar isso e a gente pode ir embora. A fila nem tá grande.
– Não, não precisa. Eu posso ver qualquer hora... E, mudando de assunto, quem você encontrou por aqui? Falta dizer que foi o cara da foto...
– Nam, nem diz uma coisas dessas. Ficaria sem expressão de novo... Quem eu encontrei foi... Bem, eu não sei o nome dele, só sei que ele é irmão da ex-namorada do meu amigo Bruno. Lembra aquela história da minha “odisseia”, que eu tive que correr de um cachorro e me machuquei no processo? Pois então, foi na casa desse “conhecido”.
– Hum. Lembro... você disse que ia me contar a história e não me contou depois.
– É que é meio longa.
– Sem problema, a gente sai daqui pra uma lanchonete e você me conta isso direito. Não pense que dessa vez vai me enganar e me deixar no vácuo.
– Tá, mas não vale rir.
– Se é com você na história, fica difícil prometer. AI.
~;~
– Eu tenho a ideia perfeita.
– Com essa expressão, tenho medo de perguntar.
– Eu conheci uma pizzaria não muito longe daqui que, pra diminuir o preço da conta, os clientes podem se apresentar no microfone aberto. Se a pessoa conseguir conquistar o público, os outros clientes fazem doações e no final, descontinho. Lena, acho que já tenho tudo em mente... a gente faz uma surpresa! Isso, fala com a turma de vocês, quanto mais gente ir melhor, pra animar bem por lá!
Sabe quando você tá tentando pensar numa boa ideia para o aniversário de sua amiga e a outra começa a viajar no meio do pátio – ainda bem que estava meio vazio, o povo estava em aula e a gente “trabalhando” na monitoria, preparando os materiais do evento, que já prontos, só faltava serem organizados, pois cada participante do evento ia ganhar um conjunto – e você sente vontade de dar com um copo de água na cara dela pra ver se ela acorda pra vida que ninguém iria pagar esse mico? A sorte dela é que eu estava longe da água e estávamos presas na mesa arrumando os conjuntos de materiais dos alunos.
Me sentia no próprio filme do Chaplin: eu colava o logotipo do evento nas pastas, Bruno ao meu lado separava os conjuntos bloco-caneta-panfleto e Dani na nossa frente da mesa unia nossos feitos, para o bem da produção. Ou era isso ou virávamos barata-tonta de professor correndo de um lado pro outro pra resolver outras coisas. Pena do grupo de monitores do diretor Fabiano.
Desconverso sobre cantorias antes que ela desse a ideia.
– Tá, agora me diz quem vai cantar, porque eu não vou.
– Oras, vai sim, tem que dar apoio moral. Além do mais, pelo que você me contou, temos fãs por aí na cidade. A gente já cantou várias vezes no ônibus, para tantas pessoas diferentes... o que seria de diferente agora?
– Dani, uma coisa é cantar pra sua tia no karaokê, uma coisa é cantar no ônibus sem conhecer ninguém e sem propósito algum. Outra coisa é cantar numa pizzaria pra um monte de conhecido!
– Ai, Milena, vai ser tão legal! E olha, vai cobrir a tal falta que você disse que tava com ela... muito melhor que pagode, né? E muito melhor que churrasquinho de gato. Não precisa cantar, eu chamo outras pessoas pra subir no palco. Mas daqui pra lá eu sei que te convenço de pegar o microfone. O que me diz agora?
– Hã... Bruno, sua opinião, por favor?
– Eu acho uma boa. Os argumentos dela convencem.
– Hum... deixa eu pensar. Ok, Dan...
– UHU! GALERA, PIZZARIA AMANHÃ!
– Desse jeito, você acaba com a surpresa.
– Ah, Lena, daqui que a Flávia for me ouvir.
Notas finais
E Parabéns pra Flávia, né? Próximo post tem seu aniversário e...
Spoiler?
"Com um passinho pra cá, outro pra lá, todos pegaram o ritmo, uns do lado dos outros. Isso me relaxou um pouco mais.
Logo, para a graça de todos, Gui puxa aniversariante para uma dança e a moda pega. O ritmo leve parece ter contagiado todos, dava pra ver as pessoas se dispersando pelo salão, a banda também começava a dançar no ritmo. Não tardou e fui levada por alguém que me puxava para um contato maior. Pronta pro mundo acabar."
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