Mantendo O Equilíbrio (Temp 1 + Temp 2)
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Paralisei.
Devo ter ficado assim por um minuto.
O outro estava parado também. Só via seu peitoral subindo e descendo. Estava dormindo. Olhei de volta para a porta me sentido A intrusa sem saber pra onde ir ou pra quem me socorrer. Agora que eu não entendia mais nada mesmo.
Me aproximei da pessoa que estava deitado na cama, com fios conectados ao seu corpo, tubo passando pelo nariz e uma faixa passando por sua cabeça. Ainda podia ver pontas de seu cabelo espetado, castanho escuro como o meu, que parecia estar lutando pra sair do aperto da faixa. Arranhões pequenos estavam desenhados no seu rosto sereno, cicatrizados perto do queixo. Coberto por uma manta até a cintura, ele vestia uma camisola de hospital listrada em branco e azul. Dormia profundamente, pois nem se mexera ante minha entrada ou minha presença. Não que eu tivesse feito zoada pra ele me perceber. Sono bom esse dele, o meu ainda vai demorar.
Descansei meus braços na grade de proteção que tinha ao lado do corpo dele. Ele parecia com alguém que eu queria lembrar. Era bonito, mais bonito que o enfermeiro, apesar de estar um pouco pálido. Fiquei olhando-o por uns minutos como se ele fosse acordar e dizer alguma coisa. Nada. Só podia ouvir um suave bip das aparelhagens ao lado. Quem será ele?
Não tinha nenhuma identificação dele no quarto. Na mesinha ao lado de sua cama, do lado oposto ao que eu estava, tinha uma jarra de água acompanhada de copo descartável em uma bandeja e do lado, um vaso de flores simplório com umas notas ao lado. Eu que não ia ler. Me senti mais intrusa ainda por estar tão perto dele, não devia estar aqui.
Me afasto e sento numa poltrona próxima a cama dele. Já devia ser um pouco tarde... Busco meu celular dentro da bagunça que era minha bolsa para checar que horas eram. 23h15. Isso não é hora de visitas de um hospital... Aff, não tô a fim de encontrar com os seguranças. Mas se me encontrarem eu coloco a culpa naquele enfermeiro bonito!
Começo a rir sozinha de imaginar eu descrevendo o culpado pra um segurança do prédio. Aproveito e tiro o celular do silencioso. Pra não ficar sem fazer nada, fuço uns aplicativos procurando algum joguinho que pudesse me entreter nesse meio tempo de espera. Não demora muito e o jogo na minha bolsa, não tinha muitas opções boas. Descanso o rosto no meu punho, apoiado no braço da poltrona, voltando a olhá-lo. O celular começou a tocar na bolsa. Pelo toque, o refrão de The Lazy Song (Bruno Mars), só podia ser meu querido irmão preguiça. Bem sutil o toque dele...
– Oi?
– Ei, Milena, você tá onde?
Não é uma boa ideia falar que estou num hospital. Murilo pode ser um poço de preguiça, mas quando se trata de responsabilidade e, principalmente quando se trata de ser o irmão mais velho, ele prontamente se apresenta. Se eu disser que estou num hospital, ele é capaz de me buscar aqui e ainda fazer maior cena como se eu fosse a doente. Muito mico.
– Hã? Como?
– Onde você tá?
– Po, Murilo, fala mais alto!
Tava enrolando pensando na desculpa que eu ia dar pra ele. Não queria preocupá-lo por besteira. Fala sério, às vezes ele é muito protetor. Fiquei andando de um pro outro no espaço do quarto, como se isso fosse me ajudar a pensar rápido.
– ONDE VOCÊ TÁ, CARAMBA!
– Também não precisa gritar. Eu tô... na casa da minha professora. Por quê?
– Hum. Porque eu queria que você comprasse umas coisas... se você tivesse perto de casa. Mas o mercadinho fecha meia-noite e... E O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO EM CASA DE PROFESSOR ESSA HORA? QUAL O NOME DO SUJEITO? ELE TE PRENDEU AÍ, FOI?
– Murilo. Respira. Na verdade...
– QUE NEGÓCIO DE RESPIRA O QUÊ, ME DIZ O ENDEREÇO QUE EU VÔ AÍ AGORA!
– Murilo, me ouve!
– JÁ PEGUEI A CANETA, DIZ.
– Murilo, é PROFESSORA! É MULHER, NÃO ESTOU NA CASA DE professor, não!
Eu estava lutando pra não gritar, mas como dizer pra ele que eu não estava na casa de professor? Tive que gritar... E logo diminuir minha voz, porque né, estava num hospital, num quarto de um cara desconhecido que estava dormindo. Imagina se ele acorda e me encontra aqui? Quê que eu vou dizer?
– Olha, Milena, me diz que é trabalho... Porque isso não tá pegando bem.
– CLARO que é trabalho, Murilo. Tá pensando muita besteira!
– Hum, e sobre o que é esse trabalho? Volta que horas?
– Viemos pegar uns documentos pro evento que vai ter do departamento. Daqui a pouco tô chegando. Ela vai me deixar em casa, não precisa vir aqui.
– Hum. Então vou deitar. Quando chegar, não me acorda. Tchau.
– Ok, tchau.
Desligo e olho o horário, 23h38. Ela tá demorando muito.
Cansada, me jogo na poltrona. Fecho os olhos como se fosse dormir ali mesmo. Ouço uns bips fortes e acelerados. Ouço uma arfada forte de respiração.
Abri os olhos. Ele também.
~;~
Avemaria. O cara teve uma crise de tosse.
Levantei que nem uma doida pra chegar perto dele e ajudá-lo de alguma maneira. Eu devia ter assistido mais a aqueles vídeos de primeiros-socorros que passavam na escola. Talvez eles mostrassem algo do tipo... Me detive na grade e ele se arqueou pra cima como se fosse levantar. O segurei para que se mantivesse deitado, mas ele ficava tentando tirar minha mão.
– Calma, calma. Não levanta! NÂO!
Tentou puxar o tubo do seu nariz – bem, isso parece ser muito incômodo mesmo, só que não pode ser tirado assim do nada – e tornei a segurá-lo, pelo braço. Como que eu chamo uma enfermeira pra cuidar desse teimoso?
– PARA COM ISSO!
Ele parou e ficou me olhando com os olhos entreabertos, meio que piscando. Olhos receosos que não sabiam falar. Pigarreou um pouco, tossindo, e me observou o segurando. Soltei de imediato, porém, não me distanciei. Ele finalmente percebeu o soro no braço e temi que fosse puxar, então ele finalmente falou:
– Onde estou? O que-e aconteceu?
Sua voz saiu meio travada, rouca de quem não fala há muito tempo. E baixa... ouvi mais os bips da aparelhagem, que estava um pouco acelerados, do que a sua voz, mas consegui entender.
– No hospital. Você está se sentindo bem?
– Minha cabeça dói.
Tentou levar a mão à cabeça e foi impedido pela fiação do soro. Parecia tão perdido. Ajudei a baixar o braço e ajeitar o fio para que não se enrolasse. Sem saber o que fazer então, fiz a primeira coisa que me passou pela cabeça para ver se ele estava bem. Avancei um pouco da grade da cama para que pudesse me ver melhor:
– Quantos dedos você vê aqui?
– Três?
Confuso ele respondeu. Éramos dois, porque nem eu sabia que loucura foi essa que inventei de perguntar pra ele. Grande ideia a minha, não?
– E agora?
– Cinco.
– E agora?
– Três... de novo.
Apelei mesmo. Ele tava meio resistente com meu teste, apesar de não reclamar. Acho que vi um traço de sorriso no seu rosto, não tenho certeza. Ainda assim, me sinto idiota de fazer isso.
– Qual a capital do Canadá?
– Er... Toronto?
– E do Japão?
– Tóquio.
– E... do... do Chile?!
– Santiago.
– Santiago?! Tem certeza?
– Tenho.
– Hum... nem eu lembrava dessa.
– Minha garganta tá seca.
– Ah, tem água aqui do lado. Vou pegar.
Rodeei a cama para chegar na mesinha onde tinha água, coloquei num copo e voltei para onde estava. Ele quis levantar de novo e o impedi, fiz com que só levantasse a cabeça para poder beber um pouco.
– Melhor?
– Um pouco.
Pigarreou para destravar a garganta. Levei água a seus lábios novamente até tomar tudo. Deixei o copo na mesa onde estava a aparelhagem. Respirando melhor, ele voltou a se deitar.
– Qual o seu nome?
– Vini.
– Vini de Vinícius ou Vini de... Valdisney?!
– Vini de Vinícius.
Agora sim vi o traço de sorriso nele. Não pude deixar de trazer um traço meu também. Só que logo ele tornou a ficar preocupado.
– O que aconteceu comigo?
– E eu sei?.
– As enfermeiras não deviam saber?
Questionou com um franzir das sobrancelhas. Elas devem saber mesmo, o problema é que ainda não tive a oportunidade de topar com alguma delas... Penso isso enquanto olho pra porta e, quando volto o olhar para o dele, ele está me encarando... fitando meu vestido branco... como... como se estivesse falando de mim. Só que eu não sou enfermeira. E nem teria como meu vestido parecer de enfermeira. Teria?
– Eu não sou enfermeira.
– Não?
– Olha, isso foi um engano. Eu não devia estar aqui.
Começo a me afastar pra pegar minha bolsa e poder sair do quarto, mas ele tentou falar algo. A voz dele ainda falhou um pouco, então peguei minha bolsa e voltei para perto dele.
– O quê?
– Qual o seu nome?
– Er... Milena.
– Eu te conheço.
– Acho que não.
– Tenho a impressão que sim. Como veio parar aqui?
– Hã... longa história que eu também mal sei. Não precisa se preocupar, eu já estou saindo. Não vou te incomod...
– Espere.
Já estava a caminho da porta quando ele conseguiu controlar melhor a voz. Virei de onde estava só para encontrar seus olhos em mim. Desconcertada, não sei como me aproximei dele de novo. Cheguei junto da grade mais uma vez, apoiando uma mão nela.
– Precisa de alguma coisa?
O que parecia ser um dia agitado no seu fim, o fim não quis terminar tão cedo. Nessa hora, alguém abriu a porta e me virei assustada para quem entrava. O médico que vi quando cheguei, o tal diretor, parou logo que passou da porta quando me viu. E de trás dele, surgiu a professora Djane. O olhar que ela me deu quando me viu perto da cama me fez gelar.
Acho que vou ligar pro Murilo vir me buscar, porque depois dessa, acho que a professora vai me chutar daqui.
– O que... voCÊ ESTÁ FAZENDO PERTO DO MEU FILHO?
FILHO?
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