Mantendo O Equilíbrio (Temp 1 + Temp 2)
47 Capítulo 18
Notas iniciais
Caramba, eu não lembro da mulher! Ela, claramente, lembra-se de mim, pois me chama por Leninha. Acho que ninguém me chama assim desde o ensino médio. Forço minha memória olhando bem para ela. Que ela é familiar, isso é, mas quem? De onde? Vestia um vestido um tanto chamativo em tom dourado bem marcado nos seios e solto em baixo, como normalmente dançarinas de salão costumam usar, com saltos bem altos, trazendo a atenção de muitos por ela nos ter abordado. Mas que Eric? Eu conheci tanto Eric nessa vida que poderia contar nas duas mãos. Ela percebe meu desconforto de tentar parecer que lembro dela.
– Bem que o Eric costumava dizer que você lembrava pouco das coisas. Ele está por aí perambulando, acabou gostando da dança. Já o viu?
– Desculpa, mas... eu realmente não lembro da senhora. E vai parecer talvez pior, mas eu tenho que perguntar também: Que Eric?
– Ai, Leninha, esqueceu do meu Eric, foi? Vocês namoraram no começo do ensino médio.
Ah tá, esse Eric. Imagens do meu ensino médio, da minha escola, das pessoas que me rodeavam na época... Putz! Perdi tanto contato. Nossa, quanto tempo! Depois que terminei a escola, eu e meu irmão passamos um semestre no interior cuidando da minha avó, só então voltamos para a capital e nos reestabelecemos.
Apenas o Gui foi o que consegui manter por nos encontrarmos na faculdade. Não éramos próximos na escola, principalmente por sermos de diferentes séries, eu me formei um ano depois dele. Lembro mesmo que o Eric dizia que sua mãe queria ser professora de dança de salão e tentava achar um bom estabelecimento pra fazer crescer. Nunca que eu ia fazer essa ligação se ela não tivesse me abordado.
– Oh, desculpe mesmo. Faz tanto tempo, perdi tantos contatos nessa cidade, fico meio perdida quando as pessoas me reconhecem sem que eu lembre bem delas. Pelo jeito a senhora conseguiu seu sonho, o lugar é maravilhoso.
– Sim, sim. Você devia ver o resto do prédio, é simplesmente encantador. Dou aulas por aqui às terças e quintas. Aos sábados enche bem mais. Hoje estou colocando meus alunos para fazer aulas mais práticas que o normal, pois sendo uma festa para conseguir mais inscritos no concurso de sábado, quero ver se eles se soltam mais, se ambientam. E vocês, meus jovens, estão interessados?
Olho pra Flávia ao meu lado em sua expressão de “hã” bem divertida. Não, amiga, não te preocupa, eu não vou te arrastar para um concurso. Busco o outro, Bruno, e ele não está mais lá. Fujão. A mulher mal mencionou uma dança e ele já saiu fora. Avisto-o do outro lado chegando à mesa junto com Vini e os outros dois senhores-coquetéis levando nossos pedidos.
– Na verdade, não. Hoje deixamos o acaso tomar conta de nossos caminhos e cá estamos. Estávamos aqui arriscando alguma coisa, mas nada demais. Como vai o Eric?
– Bem. De tanto me ajudar no meu trabalho, acabei trazendo-o para a dança. Ele concilia com seu curso de teatro. Oh, se eu pudesse achá-lo agora...
Ela olha por cima de nós procurando pela cabeça do filho entre as pessoas no salão. Preciso confessar que estava com medo de ela me colocar pra dançar no meio dessa gente toda. Morreria de vergonha. Assim entrelaço meu braço com o de Flávia para finalizar a conversa antes que ela sugira algo do tipo que nos deixe sem-jeito.
– Ah, sem problema. Temos que voltar pra mesa, nossos amigos nos esperam. Foi bom encontrá-la.
Deixamos a mulher pra trás. Quando chegamos pelo meio do caminho, mais afastadas da mulher – nem perguntei o nome dela para não ficar feio, me bastava o fato desconcertante de eu não ter lembrado dela – caímos na gargalhada seguidos de um “ufa”. Flávia também ficou vacilante para o caso de ser chamada pra dançar de verdade.
No caminho, ela encontrou o banheiro e eu decidi voltar para a mesa. Mãos me cobriram os olhos. Descartei logo a opção de ser qualquer um dos meus amigos por causa do perfume, era um bem diferente e forte. Só podia ser uma pessoa. Eric.
– Adivinha.
– Eric?
– Como você sabia?
Viro-me para ele. Estava bem a caráter do ambiente, calça e camisa pretas com colete chamativo no tom dourado que era o vestido de sua mãe. Poderiam ser parceiros de dança se vestiam roupas combinando. Estava lindo, como sempre. Aquele sorriso que me conquistou no primeiro ano ainda se fazia presente em sua face (era um dos sorrisos que mais puxava suspiros naquela escola), tinha crescido um pouco mais do que me lembro (meninos, sempre se desenvolvendo bem mais depois das meninas) e trazia um corte de cabelo escuro bem baixo, estilo exército, um pouco crescido... digno de “uau”. Me lembro que o tanto gostava naquela época era seu cabelo liso e solto... Adorava bagunçar aquela cabeleira.
– Golpe de sorte. Mentira... Encontrei sua mãe ainda pouco.
– Deixa eu te abraçar, Leninha. Você deu uma sumida, hein.
Ele me abraça apertado me balançando um pouco para enfatizar suas saudades. Impossível não ser contagiada por essa animação toda, ainda mais naquele clima tão “dançante”. Ao me soltar, ele segura minhas mantendo-as em movimento oscilante leve, como ele fazia no tempo da escola, brincalhão. Ao longe vejo sua mãe serpenteando pelas pessoas olhando por cima ainda. Ainda bem que não na nossa direção.
– Foi. Tive que ficar fora por um tempo, mas voltei logo. Sua mãe me deu umas atualizações. Virando ator, é? Lembro disso não.
Uma expressão vacilante toma sua face ante meu comentário surpreso. Lembro que ele era bem indeciso, uma hora era levado pela química, outra pela matemática, e por vezes até pelas artes plásticas. Acabou se definindo nas artes cênicas. Bem que uma vez ele se meteu na produção de uma peça na escola, mas lembro que ele foi meio que empurrado por precisar de créditos extras. Sabe como é, algumas vezes a gente acha que tá fazendo algo ruim porque somos obrigados, aí acabamos gostando.
Não dá pra saber a sorte que temos até que esse gosto cresça dentro de nós... aconteceu comigo depois que me a monitoria me apresentou uma Djane diferente. E o outro lado seu que quase ninguém tem acesso, como sua família.
– Ator e dançarino. Por essa ninguém esperava mesmo, nem eu. Mas eu curto muito. Você ainda vai me ver na TV, horário nobre, e vai suspirar muito por mim.
Ele mexe as sobrancelhas como se fosse me encantar. Ah, bobinho, isso ficou para trás. Pelo menos com você, pois no atual momento... tenho outra pessoa em mente. Os tempos são outros.
– Já suspirei uma vez. Agora não assisto mais novelas. É bem na hora da faculdade.
– E o que minha quase fã faz agora? Deixa eu adivinhar... Administração?
– Sim. Sua memória está melhor que a minha. Eu quase não lembrei de sua mãe. Quando ela falou mais de você que fui lembrar quem ela era e do sonho dela de ter uma danceteria. Eu não sou muito ligada nesses assuntos, mas tenho que confessar. Que lugar maravilhoso esse casarão.
Dou uma boa checada no ambiente novamente. Era daqueles casarões antigos retocados por uma restauração que maravilhava qualquer um. O jogo de iluminação trabalhava bem o charme do local, deixando uns locais amenos e outros bem claros. O salão, por exemplo, tinha uma luz mais baixa que a não tão iluminada área do bar.
– Isso porque você nem viu lá em cima, onde acontecessem as aulas. Vamos lá, eu te mostro. Aí você me atualiza.
Ele me puxa levemente pela mão, a dolorida de ontem, andando de costas para a entrada. Lá tinha as escadas onde levava aos pavimentos seguintes. Me deixei levar pelo lugar, que me deixou uma curiosidade desde que bati o olho lá fora, apenas troquei de mão para que ele não percebesse meu desconforto. Meus amigos compreenderiam, não? Eles não iam querer ver os outros andares se bem tive que quase arrastá-los para ficar naquela danceteria.
– Só se for rapidinho, tenho uns amigos me esperando.
~;~
– U-A-U!
Eric nos levou para o terceiro andar. Estava tudo desligado por ali, onde nós passávamos ele ia ligando umas luzes para mostrar bem o local, indicando uma coisa ali, outra acolá, enquanto eu falava do que tinha feito após sair da escola. A música que rolava pelo salão chegava abafada e bem baixa, deixando uma paz cobrir os espaços de dança. As salas eram como eu havia visto num filme, com aqueles espelhos enormes, chão de madeira firme e marrom claro que fazia um barulhinho típico quando andávamos por eles. Ele desligou as luzes que tinha ligado e me levou consigo para uma sala em particular, que ele disse ser a preferida dele.
– Quando acaba a aula, eu geralmente venho pra cá. Tem umas sacadas que dão pra avenida principal. A vista simplesmente é maravilhosa, principalmente à noite. Vem ver.
Ao adentrar a sala, cuja lâmpada piscou um pouco antes de estabelecer uma contínua iluminação, ele tentou me rodopiar. Vendo que eu era muito desajeitada para tal, ele tenta me guiar melhor, fazendo uns passos de dança, riscando por aquele chão em barulhinhos abafados como se estivesse deslizando nele. Não tinha jeito, eu não era boa para aquilo, entreguei-me logo às risadas, para ele ver que era melhor ele não tentar mais que aquilo.
– O último que tentou ainda conseguiu alguma coisa, mas hoje pelo jeito não tu vai conseguir mais que isso.
– Ah, valeu a tentativa.
Ele vira de vez para o espelho a nossa frente finalizando seus passos com algo próximo do sapateado que pude identificar. Que me perguntasse algo sobre números eu saberia responder, agora dança, eu não saberia nem por onde começar. Arrancando mais risos de mim, ele segue para uma das portas duplas que tinha, a do meio, abrindo-a para dentro forçando um pouco o material que parecia antigo, apesar de restaurado e bem pintado de bege. Estava ali a sacada que ele havia mencionado, um espaço pequeno que mal caberia cinco ou seis pessoas grudadas, cercado por um apoio de metal com várias barras presas ao chão.
Um vento forte quente bateu em nós fazendo meus cabelos esvoaçarem um pouco. Por instinto mesmo, segurei foi o vestido. O clima hoje estava bem agradável, amanhecera frio e aos poucos foi esquentando mais, com um céu ainda um pouco nublado. Já para a noite as nuvens dispersaram mais, dando espaço para as estrelas darem um pouco de seu charme junto à lua crescente que brilhava em um canto onde as nuvens passavam devagar.
Vagarosamente eu cheguei ao apoio de metal, que dava mais menos no meu peitoral, evitando olhar para baixo, concentrando-me em observar a cidade ao longe, as milhares de luzes num horizonte mal visto pela escuridão da noite, cobrindo aquele trecho da cidade com luminosidades coloridas. Era magnífico. Eric curvou-se ao meu lado para fazer o mesmo em plena admiração da cidade. Poderia ver meu prédio da faculdade, minha sala era apenas um ponto de luz dali, lembrando-me que ainda tinha gente lá e que alguns amigos meus estavam matando aula hoje.
– Não é ótimo de se contemplar à noite?
– Só é. Quase posso ver meu professor dando aula ali.
Aponto para o prédio identificando a minha faculdade para ele. Ele se estica um pouco para ver melhor, pois um prédio dali perto meio que bloqueava uma parte da faculdade. Ao voltar a sua antiga posição, ele questiona com um sorrisinho maroto que consegui captar de visão periférica o que eu quis dizer com aquilo:
– Tá se entregando por matar aula?
– Não, estou entregando meus amigos. Fui dispensada dessa aula por fazer um trabalho de monitoria num evento semana passada. Alguns dos que estão aqui pediram por uma noite off. Pensei, “por que não?”
– Que bom que eles propuseram essa, senão, sabe-se lá quando íamos nos ver novamente? Essa cidade ao mesmo tempo que parece pequena, é bem grande. Algum de nós estava se escondendo.
– Ou foi a cidade que nos engoliu mesmo.
– E o tempo. Ele trabalha de uma forma que nos mantêm bem ocupados.
– Isso é verdade. Costumo dizer que tempo é o que estudante menos tem. Mas a gente sempre acaba dando um jeitinho, né? Uma brecha aqui, empurra acolá, faz dar certo.
– A gente tenta, nem sempre consegue.
– Estão te puxando muito?
– Cansa um pouco. No final do dia o melhor é deitar na cama, relaxar os músculos e limpar a mente para que as preocupações do dia seguinte não nos pegue.
– Aham. Nada melhor que uma cama pra cair.
Uns minutos de silêncio seguem-se, ouvindo apenas a música lá do salão misturada com a dos barzinhos da redondeza que acredito ser algo como música ao vivo estilo MPB e bossa nova. Não era muito familiar a esses ritmos, apesar de meu avô ter tentado incutir um pouco deles na minha infância. Ele percebeu que não era muito meu rumo, mas não havia mais nada que eu gostasse que ele deixar a vitrola dele – sim, ele ainda tem essa vitrola, a mantém sempre em atividade para não ficar em desuso – ligada pelas manhãs enquanto ele preparava um café-da-manhã dançando ao ritmo. Era um som típico de domingo para mim, muito nostálgico.
Um quase déjà-vu me abraça. Uns dias atrás eu estava numa posição parecida com Vinícius ao meu lado, enquanto eu lembrava do meu avô. Foi na noite que ele declarou que precisava de mim, que ele ainda estava tentando fazer as coisa certas, voltando a sua vida depois do trágico acidente. Diferente desta noite, aquela foi fria e chuvosa, que me rendeu um colapso nervoso de fobia e uma noite memorável ao lado dele.
O dia de hoje amanheceu num caso parecido, com nós dois na cama, ele me acordando por perder a hora. Foi algo muito bom e ruim ao mesmo tempo. Digo ruim não apenas por ter quase ser pega por meu irmão, é que parece que nunca temos um tempo só para nós... agora que existe um “nós”, ou quase “nós”. O ataque de Filipe era a grande prova da minha frustração, pois enquanto ele não estivesse bem com tudo o que aconteceu, eu também não aquietaria. Esses últimos dias tem sido difíceis, as coisas deram uma baixa, andam muitas incertas, a poeira baixando ainda da explosão de sábado.
A ampla visão da avenida preenchida pelos pontos luminosos dos carros, ônibus, postes, prédios, me trouxe um momento de calmaria, onde eu poderia baixar minha guarda e apenas respirar. Meu olhar se perde de qualquer foco, olhando, olhando, olhando, mas não vendo exatamente o que todo aquele lugar tinha a dizer. Só se ele dissesse para eu me perder ali, então eu estaria obedecendo-o bem. Sinto um empurrãozinho do Eric atingir meu ombro por uma atenção:
– Acho difícil você dizer... bem me lembro da sua mania de enrolar e fazer suspense com as coisas, ora falando ora não sobre o que se é perguntado, então valeria a pena eu perguntar o motivo desse olhar vago acompanhado de um traço de sorriso que captei?
– Você só saberia se perguntasse.
Soo bem enigmática. Adorava fazer isso com ele. Quando ele estava zangado, fazia só pra provocar. Quem tem curiosidade tem grandes chances de sofrer disso comigo.
– É, você não perdeu essa mania de dar respostas vagas também. Então... tem nome?
– Tem.
– Aaaaaah. Sei.
O que era um “traço de um sorriso” que ele comentou agora havia virado mais que um sorriso de orelha a orelha. Olho para meu amigo, vendo nele o mesmo sorriso, sendo o dele mais sacana. Horas e dias atrás ficava desconcertada por alguém, como meus amigos fizeram, comentar algo a respeito disso. Mas por que negar, né? Neguei por tanto tempo, me enganei, me segurei... sem razão. Quer dizer, tinha razões até então quando as coisas se esclareceram nesse quesito.
De fato, eu me frustrei por nada. Com essa bagunça toda nem tive tempo para parar e pensar sobre o assunto, porque eu poderia ter me sentido traída ou algo assim... até agora nada. Acho que o alívio me coube e por agora bastava.
Acho que a cidade me engoliu. Porque esqueci que tinha sumido. Que tinha amigos me esperando, que saí sem avisar qualquer um. Pensei ser algo rápido, passaram-se tantos minutos que quase dou um pulo quando ouço gritarem meu nome.
– Milena? Você está aí? Milena?
Vini? É ele sim, reconheceria de longe sua voz. Ela nos chama bem a atenção, meio exasperada, fazendo eu e Eric nos virarmos ainda apoiados na sacada. Levanto-me sem um “com licença” seguindo apenas a voz que subia pelas escadas. Eric fica atrás de mim esperando pela imagem de alguém aparecer também.
Ao chegar ao topo, Vinícius se vira para a sala onde eu estava, a única iluminada. Aparentava uma respiração acelerada, como se tivesse subido correndo, algo parecia errado pelo seu aspecto de preocupação. Meu coração entra em maior atividade ao vê-lo assim, esperando pela próxima bomba que eu pisaria no campo minado.
– O que foi? Aconteceu algo?
– Eu... eu não... não te encontrava. Pensei que... algo ruim pudesse ter... você sumiu. O que... o que estavam fazendo?
Suspiro de alívio. Isso só me provava que andava muito abalada para meu gosto. Acho que Eric sente a atmosfera mudar, inventa que tem que voltar e ajudar as coisas da inscrição, pede licença e sai de fininho. Se ele notou algo mais, eu não ia perguntar para que ele concluísse mais ainda. Vinícius assiste sua saída e há algo nos seus olhos que... não sei, eu não consigo decifrar para ter uma reação específica.
– O que estavam fazendo? Quem era ele?
Trilha indicada: Lonestar – You’re The Reason Why
http://www.youtube.com/watch?v=Lu0LHh0yleI
Walking through life without clouds above me
Never thought I'd find someone to love me
Lost in the crowd, never felt so lonely
And I really living and barely holding
Onto a dream of what could be
Andando pela vida sem nuvens acima de mim
Nunca pensei que encontraria alguém para me amar
Perdido na multidão, nunca me senti tão sozinho
Eu realmente vivia e mal me segurava
Em um sonho do que poderia ser
It only took one taste of your kiss
Now I know everything that I've missed
My heart is beating for the first time
Anticipating your every touch
Intoxicating me with your love
And I'm so high
And you're the reason why
Me custou apenas uma prova de seu beijo
Agora eu sei tudo que perdi
Meu coração está batendo pela primeira vez
Esperando por cada toque seu
Intoxicando-me com seu amor
E estou tão alto
E você é a razão pela qual
– Era o Eric, amigo do tempo da escola. Ele estava me mostrando um pouco mais do prédio. Tem uma ótima visão dali da sacad...
Eu ando de costas para a sala novamente para indicá-lo a sacada, mas ele bufa, passa a mão em seus cabelos meio impaciente que minha fala morre por ali. Hã... eu perdi alguma coisa? Por quanto tempo eu fiquei aqui em cima? Ele me desorienta com esse comportamento.
– Há! E você acredita?
Debocha como se soubesse de algo mais. Mas que algo mais?
– Sim. Eu o conheço para saber que sim. Tem algo errado nisso?
– Queria saber se... se vocês...
Ele adentra a sala devagar, inquieto. Começa a andar para um lado e para outro, respiração irregular que me faz querer pará-lo para que respirasse melhor. O que tinha dado nele?
– Pra que você quer saber?
Em cólera ele me responde em tom mais centrado e firme. Tão firme que pareceu que tivesse gritado naquele silêncio do terceiro andar. Talvez ele de fato tenha gritado para mim, porque aos meus ouvidos isso pareceu.
– Porque tudo relacionado a você me interessa.
Por um segundo acho que eu que não respirei. A surpresa de suas palavras, ditas e como ditas me pegou de um jeito que penso ter desejado tanto que comecei a imaginar coisas. Ele continua, andando pela sala, me rodeando.
– Porque eles têm sua atenção quando eu também a quero, que caio em exagero para saber ou fazer algo pra ter isso. Todos têm um pouco de você e eu quero mais. Quero ver como você canta e encanta as pessoas ao redor, quero sei lá... uma foto sua como aquele cara lá na loja ganhou, quero saber dos segredos que guarda. Queria ser o Diogo por ter isso com você, o Bruno por arrancar sua espontaneidade... até o Murilo por te ter tão perto cuidando dele, e cada cara que te rouba um pouquinho de mim. Você não vê isso em mim? Essa frustração?
Walking on clouds and finally laughing
I never believed that this could happen
You found a place I never knew existed
Two souls embrace with no resistance
Just in time, you've saved my life
Andando nas nuvens e finalmente sorrindo
Eu nunca acreditei que isso poderia acontecer
Você encontrou um lugar que nem sabia que existia
Duas almas se abraçam sem resistência
Bem a tempo, você salvou minha vida
It only took one taste of your kiss
Now I know everything that I've missed
My heart is beating for the first time
Anticipating your every touch
Intoxicating me with your love
And I'm so high
And you're the reason why
Me custou apenas uma prova de seu beijo
Agora eu sei tudo que perdi
Meu coração está batendo pela primeira vez
Esperando por cada toque seu
Intoxicando-me com seu amor
E estou tão alto
E você é a razão pela qual
As batidas do meu coração nem valem mais a descrição. O ar de repente parece pouco, meus olhos se enchem pela emoção, um frio me bate nos braços, um calor vem dele. Ele... ele estava com ciúmes. Enervado. Eu não acredito bem. Fecho os olhos, rindo um pouco para assimilar bem e buscar a resposta que ele quer. E ele, não vê que...
– E você não vê que tem tudo isso?
– Como assim?
– Você tem a minha atenção, mais do que eu consigo pensar. Você a roubou desde que acordou naquele hospital. Você já me viu cantar, quando eu achei que não conseguiria, para um público tão conhecido. Dessa mesma noite você tem uma foto nossa juntos que eu vi. E sem você mesmo saber, nós compartilhamos um segredo sim. Naquela tarde que eu “adormeci” de cansaço e “alguém” me carregou para o quarto de hóspedes, eu ainda estava consciente. E lá, naquela confissão, eu não podia falar ou retribuir. Esperei por muito tempo, questionei, briguei, odiei... para então aqui finalmente descobrir que posso sim retribuir.
Seu exaspero abranda. Agora era ele que não parece acreditar que ouvia isso de mim. Também o peguei pela surpresa. Só que ele as assimilou mais rápido que eu, pois num instante ele estava a passos de mim, no outro eu senti quando nos juntou.
Mal pisco e seu rosto está bem rente ao meu, ambas respirações descontroladas, ansiosas pelo que viria a seguir. Só o fato de fechar os olhos foi minha confirmação ante ao seu toque, ambas mãos me segurando pelo rosto. Era hora de retribuir finalmente, em única e plena atenção. E melhor, mais consciente impossível.
O que se iniciou em hesitação, suavidade, talvez por medo e muita ansiedade de nosso contato, tornou-se logo intenso, pedindo mais e mais e mais. Quanto mais nossos interiores pediam pelo outro. Parar estava fora de cogitação. Parar... por que parar? Não, agora que havia mais que consciência de ambas partes, o desejo se encarregava do resto.
Seu beijo me exalava uma eletricidade magnífica. Não ligava mais pra nada, eu só o tinha, para mim e nada mais. Meu coração batia como o dele, eu podia sentir em minhas mãos, numa sensação quase indescritível em pura animação. Cheguei a sentir a maçaneta da porta tocar minhas costas sem saber que ele me movia. Foi o que me trouxe de volta, dando um pause de... o quê? Dois segundos para me afastar da maçaneta e encontrar a porta? É, ela fez um “nhec” de coisa antiga, dobras que também sentiam a pressão que era nossos corpos juntos.
Oh, you're the reason why
You're the reason why, yeah
Ah, você é a razão pela qual
Você é a razão pela qual, sim
Não sei se estava rindo ou tudo acontecia ao mesmo tempo, só sei que ele me mostrava uma necessidade de nos mantermos presos num beijo infindável, vivaz... e eu, eu não estava discordando. Só acho que felicidade, bom, essa praticamente já não me cabia mais, transbordava naquele espaço.
Foi então que ouvimos urros, felicitações e assobios, uns “yeah!”, “eitcha”, “uhu”, “own” “finalmente, hein”, “nem deu tempo de fazer bolão”... era o povo sendo nossa plateia, meus amigos. Por que eles estavam ali ou como chegaram ali, nem me dei o trabalho de perguntar, mas era bom tê-los nos apoiando. Eles meio que nos desconcentraram com esses comentários, não sei como, tampouco nos viramos para eles. Agarrada à Vini, abri os olhos e, por sobre o ombro deste, olhei as carinhas divertidas dos traquinas que se divertiam conosco. Eles que fossem traquinas o quanto quisessem, nada ia tirar aquele sentimento de mim, não agora.
A sensação fez foi melhorar, porque ao pé do meu ouvido eu ouço seu riso baixo. A felicidade também não cabia nele, podia sentir a cada pequeno movimento seu. Não precisávamos mais de palavras, tínhamos dito o bastante, eu não queria ouvir, eu queria só... sentir de novo.
Ou ele me ouviu pensar ou ele também tinha a mesma necessidade, pois mais uma vez nos encontramos, mais forte, mais intenso, mais e mais... ai, acho que perdi minha linha de pensamento. Quem disse que me importo? Quero é mais dele. Finalmente meu.
~;~
Meus amigos não prestam.
Minto, deveria agradecer pela proposta de Gui de dar uma fugidinha da vida nessa noite – e como fugi – mas não agradeço quando somos saudados com brindes ao voltar à mesa, porque eles fazem de tudo para me deixar sem-graça. Atenção demais tende a me deixar desconcertada.
Foi difícil me soltar de Vini lá no terceiro andar. Pra que urgência, né, se podíamos aproveitar cada segundo? Cheguei ao ponto de colocar a mão sobre a boca dele para impedi-lo um pouco, tomar controle do que fazíamos, pois descobrir um ao outro era algo que eu ainda não havia processado bem – não que eu ia processar lá, mas me entenda, eu queria olhar bem para ele para saber que era real, pois senti-lo não era o bastante para mim.
Ele tentou desviar de minha mão, voltando a me puxar para si, buscando-me outra vez e eu tive que ser a sensata, querendo não ser... mas uma hora a gente tinha que “respirar”. Se bem que um pouco de frustração dessas só aumenta o anseio por mais – nem preciso dizer que por vezes adorava ser má.
A energia dele não acabava. A sua respiração dissipava-se junto à minha num ofego pelo exagero. Não podíamos ficar muito tempo, afinal, estava tarde e ainda tínhamos que voltar andando para o estacionamento, onde estavam os carros. Toda aventura tem sua dose de perigo, né? Temos que ser cuidadosos. Mas quem disse que Vinícius queria entender isso? Mal conseguia falar entre os beijos.
– Vini...
– Você não vai tentar fugir, vai?
Ele usava aquele tom adorável de possessão, deixando claro que nossa bolha havia passado por uma transformação, de película sensível para barras de aço de uma prisão. Já estava amolecida, tentando usar um pouco de razão antes que a emoção me engolisse de vez, ele usar esse tom era injusto.
– Temos que ir...
– Porque você sabe que eu não deixo, né?
– É sério, temos que voltar...
– Mas já? Agora que pudemos...
O bico dele era lindo. Poderia beijá-lo só por ser lindo. Entretanto, se o fizesse, não sairíamos de lá tão cedo. E eu não queria deixar o encargo aos meus amigos de nos buscar, seria mais embaraçoso. Calei-o novamente colocando minha mão sobre sua boca, fazendo um pouco de força para expressar que não poderíamos nos deixar levar – não ainda. Ele apertou os olhos por um segundo acompanhado de um gemido de dor baixo.
– O que foi?
– Nada.
– Sei.
– É só que... ainda está meio doído do soco do seu irmão. Acho que ele deu com vontade... Mas para te ter, eu não ligo para dor, contanto que possa te beijar e sentir você.
Morri, morri, morri. Olhei para seu lábio inferior um pouco inchado e machucado daquela loucura, ainda lhe doendo, mas que ele não se importava pela dor. Não sei como que depois dessa eu ainda consegui falar alguma coisa coerente ou mesmo ter coerência para pensar e responder, não apenas pelo que falara, mas como dissera, naquela inflexão de voz de despreocupada para séria que bateu nos meus ouvidos e foi se encontrar lá nas minhas pupilas que tinham aquela imagem de sinceridade dele. Foi... sei lá o que foi!
Minha outra mão ainda apoiada no seu peitoral sentia seu coração como o meu, batidas aceleradas como se tivessem injetado adrenalina. Por senti-lo eu me sentia mais perdida ainda.
Sim, depois dessa eu deixei que roubasse mais uns beijos. Não dava para resistir, né? Minha mente só dizia, “só mais esse”, “e esse”, “esse e nós vamos”, “humm... esse e pronto”... Quando senti meu vestido levantar do vento que vinha da sacada que pude me sair um pouco. Depois dessa era hora de ir, né? Né? Ele não era fácil de se convencer.
– Vini, ainda temos que andar de volta, tá tarde.
– Só mais um...
– Desse um e um não vamos sair daqui.
– Eu não queria mesmo.
– Vini! Isso não é uma despedida, tá? Considere um... “segura esse pensamento”.
– Tá, eu vou... tentar me controlar mais.
Tive que puxá-lo de lá porque ele resistia a sair. Desligamos a luz da sala de dança, descemos os lances de escada, e ele me pegou de novo para um beijo ao chegar no primeiro pavimento. Ele aproveitou a luz baixa do ambiente do salão para nos camuflar um pouco.
– Desculpa, mas é que... te olhei e não me segurei. É difícil.
É, tive que engolir em seco depois dessa. Ele me abraçou de lado não querendo sair de perto de mim. Caminhamos pelo lado para não ter que atravessar o salão que parecia só esquentar mais cheio de casais em suas danças, para chegar a nossa mesa e ver como andava as coisas com meus amigos. Próximos do bar eis que Eric aparece, com aquela cara de “entendi tudo”. Melhor foi o jeito que ele nos cumprimentou, Vini não entendeu:
– E então, qual o nome mesmo?
– Vinícius. Esse é o Vinícius e esse é o Eric.
Não identifiquei um ao outro mais que isso, não queria ter que nomear ainda o que tinha com Vini, era cedo para qualquer denominação, apesar do implícito. Eric sabia do que eu falava, então por hora bastava. Eles se cumprimentaram num aperto de mãos, Vini numa postura meio que de defesa. Às vezes o ciúmes pode ser tão... fofo. Quando não é com você, claro.
– Já estão indo?
– Sim. Os carros ficaram longe e está ficando tarde.
– Espero que tenham aproveitado da “festa”. Se quiserem aparecer mais, estamos aí. Sábado tem concurso.
– Quem sabe? Já sei onde você se esconde.
– Eu também.
Senti Vini me apertar um pouco como se eu fosse sair de perto dele, o que me lembrou instantaneamente do outro dia que ele adormecido não queria me soltar e foi uma luta para escapulir de volta para meu quarto. Uma graça total. Despedi-me de Eric com um aceno e continuamos nosso caminho.
Claro que Vinícius não aguentou, teve que questionar:
– O que foi isso?
– Hum... outras histórias.
– Que são...?
– Que são outras histórias, para outros dias.
– Não vai dizer?
– Não, gosto de deixar os curiosos curiosos.
Depois dessa chegamos à mesa, em meio a aplausos, que de primeira pensei ser para os casais que se apresentavam no salão. Até olhei para trás, e ao perceber que eles não tinham parado, da mesma forma que a banda também não, me toquei que era para mim. Um reboliço me veio na barriga por isso... sorrisinho sem-graça.
– Festa boa, hein?
Dani não parecia alterada por bebida, ela estava feliz por mim. Todo mundo tinha a expressão de Eric, sacanas, menos Bruno. Era minha chance de tirar os holofotes de mim? Era. Antes de eu perguntar o que ele tinha, Flávia levantou seu coquetel, seguida por Dani e Gui, e fez uma anunciação:
– Casal, vocês demoraram tanto que pedimos outros pra vocês. Estão aqui, geladinhos.
Onde eu poderia enfiar a cara mesmo? Eu não sei se ria, se fazia facepalm, se me divertia, ou se dava um tapa na cabeça de cada um. Menos do Bruno, perdido. Ao ouvir a declaração de Flávia, ele se manifestou:
– Casal? Que casal?
Então ele não tinha ido ao terceiro andar? Por que não? Quer dizer... ele não estava com os outros? Tinha algo para investigar... Peguei minha taça e não falei nada, Vini também não, sentando-se junto comigo. Nossas expressões felizes eram mais que cartão de entregues. Porém, foi Dani que respondeu a Bruno:
– Esses pombinhos aí. Estavam se entendendo láaaaaaa no terceiro andar. Você quis ficar aí parado, emburrado, não viu o maior flagra.
Wow. Eu não sabia se essa era pra mim ou para o Bruno, mas que pegou em nós dois, pegou. A diferença é que eu gargalhei numa risada nervosa e ele só se tocou depois de uns segundos.
– Humm. Parabéns, “pombinhos”.
Impressão minha ou ele estava inquieto? Ele não estava resmungando... o que era bem estranho. Tinha algo bem diferente nele, não sabia dizer o que era. Mas que eu descobriria, ah isso eu ia, tinha minhas desconfianças. Consegui captar uma olhada dele para Gui e Dani batendo taças. Acho que isso meio que disse tudo.
– Então, vamos? Tá tarde e temos que voltar andando.
– Aiin, por que mesmo deixamos os carros lá no estacionamento? Agora que estava ficando bom.
Gui tenta se desculpar:
– Sorry, Dani, foi culpa minha. Eu que pedi por essa saída.
– Quer saber, Gui? Eu te perdoo, cara.
Tensão. O clima estava cheio do não-dito. Com essa que eu pude entender bem ou pelo menos metade do que tinha acontecido quando dei um tempo lá em cima. Era justamente o que eu queria testar, se Bruno teria alguma reação se Dani se malucasse pro lado de Gui. Nem precisei fazer uma experiência própria, a situação a levou por si, me dando só os resultados. Isso é bom.
Eles foram para o bar acertar a conta, como se diziam cavalheiros, nem deixando brechas para nos pronunciarmos. Fiquei sozinha com a meninas, que me abraçavam e soltavam gritinhos baixos pelo acontecimento. E que acontecimento!
– Pasmei, hein, Lena. Pena que eu não trouxe uma câmara, porque olha, foi digno. Eu que empurrei os outros pra te procurar, vai que Vinícius fosse pegar aquele outro cara? Alguém teria que segurá-los.
– Como assim? Eu não entendi, Dani.
Dani olha pra Flávia com um meio sorrisinho e a outra o mesmo. O que foi? Flávia que começa a explicar melhor, mas foi Dani que deu a resposta final.
– Lena, você sumiu depois que eu fui ao banheiro. Eu ainda te procurei no salão antes de voltar pra mesa. Quando eu vi a cara de Vinícius, desconfortável, ansioso, batendo a perna debaixo da mesa, eu já fiquei meio assim, apreensiva.
– Isso porque tu num viu a tensão na mesa. Depois que Bruno chegou dizendo que vocês ficaram para trás, a gente procurou por vocês olhando da mesa pro salão. Aí Gui soltou um “ih, olha é o Eric”. Quem era Eric, não sabíamos, então ele foi se explicar. De longe dava pra ver que vocês estavam de mãos dadas, conversando. Gui disse que era da antiga escola de vocês, mas o que matou mesmo foi quando ele disse que o cara era seu ex. Aí vocês não estavam mais lá. Acho que nem sei descrever bem o que foi a cara do Vinícius nessa hora.
– Quando eu voltei do banheiro, ele estava saindo da mesa. Aí que Dani me explicou mais ou menos e ficou dizendo para segui-lo, mas ele estava fora de vista também. Bruno quis ficar, dizendo ele para segurar a mesa. Tivemos que sair perguntando por aí, um cara lá da portaria que nos falou que viu vocês subirem. Aí pronto, Dani insistiu e insistiu, e fomos os três até lá em cima. Esperávamos uma briga ou algo assim, e que nada... vocês estavam no maior momento lá.
– Ai meninas, sei nem como desci, viu. Foi tudo tão... sei lá. Máximo, ótimo, maravilhoso... cada vez mais real. Ele estava bem enervado de ciúmes, confessou logo que Eric nos deixou a sós, depois disso ele viu que comigo era o mesmo, que eu sentia o mesmo. Tão...
– Own, ela tá suspirando.
– É, Flávia, se eu suspirava antes, agora ele me deixou sem fôlego.
– Wow. É, depois do que nós vimos, hein... a gente entende.
Com essa de Dani, gargalhamos. Nossos acompanhantes logo voltaram querendo saber o motivo de riso, quer dizer, o Gui né, porque Vini sabia e Bruno continuava sem resmungar. Mas o Gui fazia por sacanagem mesmo. Meus amigos não prestam. Amo-os assim mesmo.
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