Notas iniciais
hoje tem One Republic, mas 'good life'... a Milena já acha que não

Sentada na mesa de sempre da lanchonete, na cadeira de sempre, bato o pé nervosa como algumas vezes me encontrei nessa “jornada”. Meio anestesiada, digito rapidamente uma mensagem avisando à Daniela e Flávia que não comparecerei na faculdade hoje, crendo na ideia de que me segurar em algo me relaxe talvez. E crendo na chance de pelo menos agora o sinal de telefonia funcione, porque esse do hospital é péssimo. O coração daquele jeito, badalando do cérebro, enquanto grito mentalmente pra ele parar com isso, por estar me deixando mais doida.

Mirando a tela do celular, deixo escapar um olhar espiando o senhor Filipe na bancada da lanchonete fazendo nossos pedidos. Às vezes nem o nervosismo aplaca sua fome... na verdade, a ansiedade parece que abre um buraco no seu estômago e vem uma fraqueza que pede pelo menos algo que forre esse espaço.

Antes de eu falar algo, com uma cara de besta quando ele se apresentou, Filipe se ofereceu para me comprar algo na lanchonete para conversarmos. Soltei um “tudo bem” pra disfarçar minha falta de fala e me senti quase empurrada pela ventilação, guiando o homem no caminho da lanchonete, que eu conhecia bem.

- Eles já vão trazer o pedido. Não tinha sanduíche de presunto, então pedi um natural mesmo, tem problema?

Eu sei, parece meio “Chaves”. Foi a primeira coisa que vi no menu e pedi a ele quando me sentava. Tava no automático, que coincidentemente (ou pelo menos?) sabia da minha fome.

- Não. Sendo sanduíche, tá bom.

- Então... Pelo jeito Djane já te falou de mim.

- O que quer dizer?

- Você. Tá na defensiva. Mas posso garantir, é algo como aquela história de “intriga da oposição” o que ela fala de mim. Ela tem essa... necessidade... de controlar as pessoas. Você pode ver pelo fato de todo esse tempo ela esconder isso da família. Agradeço a você por ter sido sensata em me avisar. Deus sabe que eu poderia nunca saber disso se dependesse dela...

- Hum. E-eu... não fiz nada demais.

Seu semblante era calmo e apreensivo ao mesmo tempo. As linhas da têmpora pareciam se controlar desde quando o vi na porta. Não saberia dizer o que poderia estar ocasionando. Desvio de seu olhar direto, focando no celular ainda em minhas mãos. Tento segurar a água que brota em meus olhos por me lembrar do dia anterior quando Djane fugiu de mim ao me dizer que eu tinha estragado tudo. Pra isso respiro devagar pra ele não notar, logo continuo a falar pra tirar a evidência de mim:

- Por que não me retornou? Pensei que retornaria... eu não sabia se estava na cidade e não tinha como creditar uma ligação caso fosse de fora. Por isso mandei a mensagem. Foi muito impessoal, eu s...

- Não tem problema. Cheguei ontem à tarde. Estava procurando por ele quando recebi sua mensagem. Pelo que eu sabia, ele devia estar fazendo uma viagem, mas a namorada dele disse que não conseguia falar com ele faz tempo... Achei até que estavam brigados. Eles têm uma relação muito estranha, sabe. Fiquei de verificar isso quando voltasse da minha viagem e quando recebi sua mensagem, parece que foi uma iluminação. Eu sabia que tinha algo errado, só não sabia o quê. Transtornado, liguei de imediato pra Djane, joguei um verde e ela caiu. Foi difícil descobrir qual era o hospital, consegui só agora. Tanto que ainda não vi o meu... o Vinícius. Mas me certifiquei de esculhambar aquela mulher por ter escondido isso de mim... Ei! Ei, você está bem?

Ouço tudo, apoiada de cotovelo na mesa, mãos nas têmporas. Nem um pio. Penso em como fazer uma defesa do que ele chama de “aquela mulher”, mesmo ressentida pela nossa briga e preocupada com o que ela me disse ontem. Isso é o tento me convencer para não pensar em outras coisas... Mas é “essa” coisa que me impede, acho. Não consigo achar as palavras, o argumento ficou raso muito antes. Ninguém tinha me atualizado sobre namorada alguma.

No momento que vou responder sua chamada de atenção, abro os olhos – que mal havia percebido que tinha os fechado –, e ouço Djane atrás de mim:

- Já devia imaginar.

Me viro rapidamente, sem poder controlar as mínimas gotas que marejavam meus olhos. Me engano mais uma vez por um segundo dizendo a mim mesma que estou sentimental demais pra lidar com isso, creditando assim a razão de lágrimas quererem sair aos poucos. Sabia que isso não me convenceria.

Djane se mostra na mesma postura de antes, quando dava aquele gelo nos alunos. Gelo pra mim? Depois de tudo que passamos? Inacreditável! Só pode ser brincadeira. O tempo todo EU tentando ajudar e só saio de errada? Que negócio é esse? Não, não vou deixar ficar assim. MAS NÃO DEIXO MESMO! Levanto revoltada, passo a mão no rosto rapidamente pra não dignar o que sai de meus olhos e fico cara a cara com ela. De voz controlada consigo dizer:

- Besteira eu sempre faço, mas a senhora consegue fazer pior.

Sem antes ouvir sua resposta, passo batido por ela. Batido mesmo, topando no seu ombro, pra dar aquele ar de coisa séria, como nos filmes eles fazem ao bater forte a porta. Mas já que não tinha porta né, minha zanga queria chamar a atenção, sem, claro, machucá-la. Só quando chego no vão da porta da lanchonete que dá pra o corredor que noto que esqueci minha bolsa e a camisa de Diogo na cadeira.

Retorno a duros passos sem dignar uma mínima olhadela em Djane, só percebo por visão periférica que ela permanece no mesmo lugar. O mesmo para Filipe, nem vi sua expressão. Pego as coisas e, quando vou me virar pra sair a passos ligeiros como ela fez comigo no dia anterior, o atendente da lanchonete surge com nossos pedidos. O suco com sanduíche natural pra mim e o café com biscoitos para Filipe. Aproveito e pego meu sanduíche da bandeja, enrolado num plástico e saio depressa, só vendo a cara surpresa do atendente.

Eu tava com fome, oras.

Quando viro no corredor, ouço Djane me chamar. Corro e corro, sem olhar pra trás. Sem saber pra onde ir, me direciono para o elevador. E, por sorte, acredito, encontro Diogo saindo de um dos quartos.

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De volta ao vestiário. Mas não o mesmo...

Sentada no banco comprido, do vestiário masculino, fito o vazio da parede encostada de lado em Diogo, a cabeça deitada no seu ombro. Ouço a chuva leve chegar ao chão lá de fora, mesmo do quarto andar. Batia nas janelas e umas delas, ainda aberta, deixava seu sopro entrar a vontade, numa brisa fria e ligeira. Dependendo de sua força e momento, ora levantava meus cabelos, ora fazia umas cócegas.

Ainda assim, não sinto muito frio... por causa do calor que vinha de Diogo. Com um braço ao meu redor, esperava eu me acalmar. O fluxo lacrimal já havia me dado uma trégua, uns poucos soluços que ainda se faziam presentes, e pelo menos estavam em longos intervalos e de leve aparição. Quando o vi no corredor, não liguei para o que estava fazendo – egoísta, eu sei – e fui em sua direção, sem correr.

Claro, não poderia simplesmente ter-me em seus braços para meu choro quando nossa amizade ainda era muito por superfície. Vendo meu estado, nem precisei falar – ainda bem, porque eu não conseguiria me explicar e não me expliquei mesmo – ele só me redirecionou pro elevador e me deixei ser levada antes que todos me encontrassem.

Até que por aqui é limpo, considerando que seja vestiário dos homens. Estranho.

- Não tem problema eu ficar aqui? Quer dizer, é o vestiário masculino.

- Nada. A mudança de turno é só mais tarde. Seria estranho se fôssemos pro vestiário feminino... as meninas vivem por lá. Seriam mais perguntas.

- E você, não estou te atrapalhando? Desculpa se eu esto...

- Também não precisa se preocupar. Me falaram a hora errada, eu devo entrar só daqui a pouco. Eu fiquei esse tempo todo só visitando umas pacientes... dona Margarida, por exemplo. Não valia a pena eu voltar pra casa, com essa chuva o trânsito tá horrível. Então posso ficar por aqui. Já tava indo lá na lanchonete, ver se me sobraram algumas gelatinas depois você ir lá e fazer a raspa.

- Ah. Nem comi, acredita? Pra você ver o nível de tensão.

- Então come logo esse sanduíche. Você vai se sentir melhor.

- Estou com fome, é verdade. Só não sei se consigo comer nesse estado.

- Ah, consegue sim. Aproveita e se anima um pouquinho, não gosto de ver essa carinha zangada. Nem triste ou chorosa. Anda, vai. Não gosto de ver ninguém chorando.

Me balança com o braço que me segura pra enfatizar seu pedido. Até solto um riso abafado, mas nada mais que um projeto de riso mesmo. Se isso pode ser chamado de projeto. Dou umas fungadas pra descongestionar o nariz e enxugo o que restou de molhado perto dos olhos.

- Você não devia estar acostumado? Quer dizer, meu choro é pouco diante dos gritos, espasmos e dores que você já deve ter presenciado em profissão...

- Eu ainda sou humano, não sou insensível a esse ponto. Posso ver isso todos os dias, não quer dizer que eu goste. Gosto de aliviar a dor dos outros, isso sim. Mas desse jeito você me obriga a dizer uma coisa, que era surpresa: eu consegui falar com um dos caras da segurança e tem como você pegar o vídeo. Só me dizer a data e a hora, porque eu não sei bem. E agora, não posso receber um sorriso em troca?

- Agora começamos a falar bem... É bom saber. Só não comente com ninguém.

Sento mais ereta e saio de seu quase-aperto. Melhor sair de modo “apática” que não combina muito com minha pessoa. Talvez passar na sala de segurança agora me distraia um pouco, com tanto que não veja ninguém. O que não resolve, já que os verei de qualquer forma... Onde fui me meter mesmo?

Passo as mãos nos braços, não em sinal de preocupação, era frio mesmo. Tinha umas duas janelas do fundo do vestiário abertas e a chuva nada de dar um tempo. Na realidade, começava a ficar mais forte.

- O mesmo para você. Ninguém pode saber que eu consegui esse vídeo. Só fiz porque é você. E você é minha amiga. Então me dá logo um abraço de agradecimento... também aceito umas gelatinas.

- Tudo bem, seu convencido. Mas só isso que você vai arrancar de mim agora, meu abraço. Não quero ter que voltar pra lanchonete tão cedo...

- Então o sanduíche tá fora de questão?

- E eu que tenho mania de perseguição, né?

- Tô brincando. Não vou roubar, não. Agora me conta o que aconteceu.

Deixo o sanduíche em cima da minha bolsa – porque é mais higiênico do que no banco onde estava sentada. Mesmo com ele enrolado num plástico, tenho que garantir, não? – Fico a sua frente e o puxo pelas mãos para que fique de pé também. Sem cerimônias já, abraço-o ternamente, achando nele um bom ombro amigo de última hora, não mais desconcertada pela situação. Aperto-o devagar e solto, não me distanciando tanto... minha testa fica na sua mandíbula, que evidencia nossas diferenças de altura. Eu, claro, mediana. Não me importo mesmo, nem quando tive que ficar na ponta dos pés pra alcançá-lo. Nem inconveniente de falar no pé do seu ouvido, ouvindo dele os múrmuros seus no meu, sentindo a proteção dos seus braços seguros em mim.

- Até o resumo da história é longo... então, acho melhor você nem saber. De suma da suma, Djane e eu brigamos, como te falei mais cedo... ela tava chateada comigo, mas agora sou eu que tô chateada com ela.

- Tem a ver com aquele cara que apareceu aí? Mais cedo eu o vi entrar no quarto do Vinícius.

- Só TUDO a ver com ele. É o tio dele.

- E você não vai visitar o seu amigo hoje?

- Eu queria, não sei se vai ser possível. Do jeito que as coisas estão, não sei como vai ficar isso.

- Quer que eu te cubra? Você entra no quarto e dou um jeito de ninguém te incomodar. Posso falar com um dos meus colegas da segurança.

Saio de seu abraço com uma expressão que, imagino eu, ser de assombrada com tal proposta. Algo como “vamos parar de assistir filme de espiões, né?”. Antes de eu poder responder, um zumbido começa e consigo distinguir uma batida leve que havia começado, seguida de um assobio vindo da minha bolsa. Foco nela sem propriamente me mexer e percebo que Diogo o faz também, talvez por assimilação.

Trilha citada: One Republic – Good Life

http://www.youtube.com/watch?v=q7QQLsC7QEw&feature=related

Ouço a voz do Ryan (do One Republic) meio longe até parar antes do refrão, que é até onde o toque do celular vai... De primeira nem penso em quem poderia estar ligando, só fica na minha cabeça “Oh this has gotta be the good life, this has gotta be the good life... This could really be a good life, good life”. Mas cadê, cadê Good Life, Ryan?

Saio do modo “viajante” logo que entra um cara no vestiário. Estava sem farda, apenas roupas normais, que não me davam a dica de quem ele poderia ser aqui no hospital. Ele para logo ao nos ver muito próximos, solta uma “opa” surpreso e depois um “opa” meio sacana, como se tivesse entendido a cena – que não era cena. Desconcertada em como proceder, já que não parecia nada favorável pra mim estar numa área masculina sozinha com um enfermeiro – lindo, por acaso – pego minhas coisas, digo um com licença rápido e corro de lá, deixando Diogo pra trás.

Entro no vestiário feminino logo à frente e vou direto para a pia. Deixo minhas coisas no banco longo que fica no meio e lavo o rosto. Dou uns tapinhas na testa pra ver se me caio em mim, dar uma relaxada. Tô precisando.

Olho ao redor e pelo espelho para encontrar ninguém me vigiando, um alívio pra melhorar meu ânimo. Mas nem dá pra descansar muito, a chuva parecia estar aumentando de novo e... esse povo não sabe fechar janela não? Ah tá, deve ser muito trabalho mesmo. Tem três delas abertas, molhando uma parte do vestiário. Sentindo a chuva começar a ficar violenta, me dirijo para elas e ao fechar a primeira consigo ver o flash forte que corta o céu. Não, não, não. Corro depressa e fecho as outras duas para poder me sentar antes do estrondo, não me importando de me molhar novamente.

Não adianta. O estrondo do temporal vem rasgando do céu até a terra. Parecia estar balançando as estruturas do prédio. Me esgueirei na parede como se tivesse segurando ela e não me segurando nela, abraçando-a cara a cara, espalmando-a como podia, só pensando em como eu odiava trovões. Evito soltar um grito rangendo meus dentes. O ar saindo depressa do meu pulmão dita meu nervosismo e o que entra areja minhas idéias. Correr pra onde? Pra quem?

Praticamente me jogo de vez no banco quando ouço o toque baixo do celular. As luzes do vestiário piscando também não ajudam. Me agarro à bolsa para tirar o aparelho que perdura a tocar. O Ryan me salvava pelo gongo com sua voz leve, calma e baixa.

Nem chego a olhar o visor, atendo de uma vez, aguento apenas o intervalo do próximo trovão após ver o flash iluminar todo o vestiário.