Notas iniciais
Nota importante: qnd comecei a hst, não defini um espaço (cidade) e outras coisas (como bairros e faculdade), o que acabou sendo um erro, mas deixei que assim ficasse, para que quem lesse pudesse interpretar como qualquer lugar que conhecesse ou morasse. Eu vejo minha cidade (que num digo qual é hahaha), é litoral e isso já é pista suficiente, não? Bom, deixem a imaginação fluir :)

Antes de Murilo sair de casa na segunda-feira – a suspensão dele era de uma semana, então tudo estava de volta ao “normal” – perguntei se sabia se ia chover, porque o dia estava nublado e frio. Disse que não, as pancadas de chuva, como se costuma dizer nos telejornais sobre as previsões de tempo, não estavam previstas para essa semana, que o máximo era que chovesse na quarta-feira e seria uma bem leve.

Era preferível que eu não tivesse perguntado. Porque se assim fosse, eu ficaria com dúvida de levar ou não a sombrinha antes de sair de casa, acabaria deixando-a na bolsa para todo caso, mesmo que fosse portátil e fizesse certo peso diferencial, ainda assim a teria comigo agora para usar como arma. Porque diante das minhas opções de defesa, acho que tenho que usar o punho.

Nem mesmo estava de sandália ou sapato para ter um salto para bater. Uma vez vi na TV uma reportagem sobre uma mulher que conseguiu se safar de um ladrão porque bateu nele com o sapato. Lembro de ter rido muito, mas nunca pensei que poderia chegar ao ponto de considerar essa opção. Estando de sapatilha, minha única chance era ou bater com o caderno fino na cabeça daquele que iria me atacar ou acertá-lo com golpes que uma vez há anos treinei.

Hoje só fui pra faculdade pra fazer prova, então saí cedo e peguei meu ônibus normal. Eu poderia ter falado com alguém para pegar carona ou ligasse para meu irmão ou pedido ao Vini, mas não quis incomodar. Pensei em ficar na faculdade um pouco mais, Flávia e o resto da turma estavam aliviados por não ter aula de Djane, lhes dando mais tempo para estudar para a prova. Falei com a professora apenas por telefone, porque eu queria mesmo era ir pra casa. Ela não estava às mil maravilhas, mas estava melhorzinha. O que a preocupava agora era a volta de Filipe... ele havia ligado várias vezes para Vini e até apareceu no serviço dele – Vini me mandou uma mensagem de tarde dizendo que ele tinha ido lá, mas foi impedido pela segurança de entrar no prédio. Para evitar mais escândalo, Filipe foi embora.

Djane recebia notícias minhas e de seu Júlio, seu sogro, que estava do nosso lado. Ele se sentiu mal por sem querer ter falado achando que o neto não estava em casa, no entanto, achou que fez bem pois agora seria melhor de resolver a situação. Ele queria muito ter o neto na sua casa, porém, como Vini ainda não estava bem em ver os pais, agradecia muito pelo apoio que eu dava. Djane me falou que ele estava doido pra me conhecer, que ia me ligar para um almoço ou jantar quando a crise melhorasse, e que, com as boas notícias que tinha lhe dado sobre as melhoras do filho, ela marcaria a temida prova dela de Ética nas Organizações para quarta, pois nada melhor que voltar ao trabalho para ocupar a mente.

Quando saí do ônibus e fui caminhando pela rua – eram quatro quadras que eu tinha que andar para chegar à minha – notei que tinha um carro andando devagar um pouco atrás de mim. De primeira pensei que era alguém perdido, que pediria informação ou algo do tipo. Passei a segunda quadra e o carro entrou. Não foi exatamente um alívio, porque logo depois surgiu um cara do nada vindo dessa rua, então eu apressei o passo. Ouvia os dele no chão próximo a mim. As luzes dos postes que eu passava me davam mais ou menos a localização dele por sua sombra. O medo me deixava bem alerta.

Por ali só tinha de um lado as casas, do outro uma área verde com árvores e terra, perto da avenida principal. Eu poderia gritar “ladrão” naquele suspense todo, porém, não queria ser precipitada se fosse apenas um cara comum andando por ali. Assim comecei a considerar minhas opções de defesa, caso não chegasse em casa a tempo. Acima de tudo também rezava para não ser assaltada ou que fizessem algo de mal comigo, que se fosse realmente ladrão, que esquecesse aquela estúpida ideia de me ferir, e se eu estivesse errada de pensar isso, que o Senhor me perdoasse por pensar mal de uma criatura, afinal, num mundo desses se ganha mais desconfiando das pessoas. Horrível, mas é.

Segurando firme o caderno numa mão, preparava as forças para o caso de ter que bater no cara. Procurava ficar calma, isso era muito importante. Uns anos atrás eu havia treinado uns golpes com meu irmão depois de termos visto um programa de TV, que mostrava como as mulheres deveriam se proteger mais. Lembro que quase quebrei o nariz do meu irmão num golpe que saiu errado, depois dessa resolvi deixar pra lá e acabamos esquecendo.

Preocupada demais em reunir forças e calma, eis que o homem chega mais perto de mim e antes de eu virar na minha rua, ele diz “Ei, garota” e agarra meu braço. O caderno cai de minhas mãos e a plenos pulmões grito “LADRÃO, LADRÃO”. Ele me segura por trás, mantendo um braço meu preso enquanto tampa minha boca. No auge do desespero, tento tirá-la. Vendo que não estava dando certo, tentei o que eu sabia. Mordi a mão do cara, dei-lhe um pisão no pé e me virei pra o golpe final digno de Miss Simpatia – não o golpe de misericórdia nos órgãos sensíveis – acertando-o no nariz com a maçã da palma de minha mão direita. Com uns urros ele se afastou de mim. Foi então que eu vi quem era.

Filipe.

Ah, ninguém mandou ele mexer comigo.


~;~


Antes de eu gritar não tinha uma viva alma por ali. Bastou um grito e muita gente avançou para pegar Filipe, pensando que era realmente ladrão. Se eu fosse uma pessoa ruim, deixaria ele ser linchado por todas aquelas pessoas. Não sendo assim, eu o ajudei a se defender deles, dizendo que eu tinha me enganado, que não era ladrão, que o conhecia sim. Tinha sido apenas um mal-entendido.

Ao dispersarem, um Filipe segurando o sangramento de seu nariz me chamou para conversar em algum lugar. Que fosse público, se eu estivesse com medo que ele me atacasse novamente. Voltamos para seu carro e indiquei uma lanchonete lá próxima, a mesma onde tinha estado o doutor, diretor do hospital, dias atrás.

Quando meu pedido de vitamina chegou, ele voltou à mesa, pois tinha ido ao banheiro se recuperar dos meus golpes – queria tanto rir por isso. Quem diria! — se antes ele não gostava de mim e eu implicava com ele, bom, agora digamos que estou um pouco mais satisfeita.

– Ô garota, você tem uma mão pesada, hein.

Gentil como sempre. Uno as mãos e estralo os dedos para me gabar da situação.

– Ainda bem. Da próxima, já sabe.

– Insolente como sempre.

– E o senhor, a mesma adorável gentileza. O que estava fazendo me seguindo?

– Queria saber onde meu filho está. Djane não iria me dizer e meu pai disse que não sabia onde você morava. Tive que ficar de tocaia na porta da faculdade para te seguir.

Esperto. Era ignorante, mas esperto. Tomo um pouco de minha vitamina e imagino ele me vigiando, esperando que saísse da faculdade. Mas e se...

– E se eu não pegasse ônibus?

– Eu tinha outra pessoa vigiando o estacionamento de trás.

– Perverso.

– Na verdade, eu queria falar com você primeiro. Você, infelizmente, é a única que pode me levar ao meu filho. Tendo virado a cabeça dele também, é a única que pode falar com ele a meu favor.

– É agora que começa a ameaça, é?

– Não, eu quero que você veja o meu lado da história. Porque só eu saio de vilão.

– Foi um ótimo começo me atacando... Cheguei a quebrar sua auréola, tio?

Não resisti ao deboche, muito menos chamá-lo de “tio”, que eu sabia que era o ódio dele. A minha carinha de inocente pareceu o enervar um pouco... Ah, ele não tentaria nada, afinal, como ele bem acaba de dizer, sou a chave de acesso ao filho dele, então melhor que ele cuidasse do que falava ou fazia comigo.

Eu sabia ser má quando queria.

– Olha, só me escuta, tá? Só isso que peço.

– Tio, não é pra mim que o senhor deve umas explicações...

– Mas é você que tá do lado do meu filho, então se você falar com ele a meu favor, eu... eu dou o que você quiser, só pedir.

Era ele que precisava pegar no tranco. Se pudesse dar um tapa, hein. Se bem que... depois das porradas que dei nele, a cachola dele ainda não funcionava bem. Me dá impaciência lidar com esse tipo de pessoa que acha que pode comprar os outros.

– Ai, tio, às vezes o senhor é tão previsível, viu. Eu não tenho interesse em dinheiro ou bens materiais, não assim como o senhor oferece. Se quer me pedir para falar para o Vini sobre como o senhor se importa com ele, não precisa, pois eu já falei. Pode não acreditar, mas eu sei que você o ama, eu vi naquele dia... O senhor só tem um jeito muito estranho de demonstrar isso.

– Você nem me dá a chance de falar, só quer ficar do lado da outra, né?

– Previsível demais, tio. Mimimi-ela-quer-ficar-do-lado-da-outra, mimimi-ela-faz-minha-caveira, mimimi-eu-te-dou-dinheiro. Fala sério, né?

Ele se zanga. De semblante fechado, ele bufa e bate na mesa. Como se isso fosse me assustar. De visão periférica sinto algumas pessoas perto dali virarem para nos olhar. Devia não parecer algo bom, ainda mais com ele segurando o nariz pós-sangramento.

– Olha aqui, garota, você fala direito comigo.

– Olha aqui, você, tio. Não temos nada pra conversar. Quer dar explicações? Quer falar com seu filho? Pois espere, dê um tempo a ele que mal anda se recuperando do choque. Deixe-o em paz, deixe-o respirar. Insistir só vai afastá-lo mais. O senhor sabe que eu tenho razão.

– Eu... só queria que você soubesse a história. Se interviu por Djane, poderia intervir por mim.

– O senhor me contou o bastante, lembra? Porque eu não queria saber da história, e assim mesmo o senhor brigou com Djane e eu acabei ouvindo tudo. Quem devia saber há muito tempo era seu filho, não eu... Não foi nada agradável ter que contar a ele. Por isso não quero mais ouvir o que quer que seja. O senhor vai ter sua vez.

– Quando? Você pode me ajudar a armar um encontro?

– TIO, o senhora tá ouvindo o que eu estou dizendo? Porque não parece. Deixa a poeira baixar, caramba. Uma hora ele vai ligar para o senhor ou coisa do tipo. O melhor que o senhor pode fazer agora é se afastar. Sério.

– Eu não vou desistir.

– Eu não disse pra desistir. Até lá, limpe os ouvidos. O senhor vai precisar.

Pego minha vitamina e saio andando. Era cerca de quinze quadras até minha casa. Tinha sido atacada o suficiente. Por isso ligo para meu irmão para saber onde estava e se podia me buscar:

– Oi, maninha.

– Hey, você tá aonde?

– Tô chegando em casa, por quê? Você tá onde?

– Eu tô na esquina da padaria Pão-e-Leite. Pode vir me pegar?


~;~


– William, William, se eu pudesse ver novela, eu te assistiria todas as noites.

Suspiro pelo mocinho da novela ao terminar o capítulo. Vinícius revira os olhos pra mim e balança a cabeça em desdém do meu comportamento. Ou do comportamento de nós, mulheres, pois era desse cara em particular que Alexandra tinha falado enquanto a levava para o hospital. Eu não dei muito crédito pra novela ou sua história, mas agora, acho que me conquistaram, mesmo não sacando nadinha do capítulo.

Meu irmão está na cozinha preparando um pouco de chocolate quente para esquentar nossos estômagos, uma sobremesa – tiramos no palitinho quem iria fazer, e olha que surpresa, a sorte virou pra mim. Tenho tido umas sortes esses dias... me pergunto se é pelo fato de Vinicius estar por perto. Ou perto demais que sua sorte tem gostado de mim. Noite passada dormi no quarto de hóspedes de novo. Claro que esperei meu irmão dormir primeiro. No entanto, tenho mais uma testemunha ocular: dona Bia.

Ela me pegou saindo do quarto de hóspedes de manhã cedo. Tinha ido dormir lá só pro precaução mesmo, caso Vinícius precisasse de mim – consigo convencer alguém com esse argumento? Vai que cola. – Ele precisou, chorou pouco dessa vez. Quando acordei, estávamos bem separados na cama, o que facilitou muito na hora de escapulir de lá.

Dona Bia me perguntou se era algum namorado... fiquei tentada a dizer sim, mas como a história ainda não correu para esses lados, tive que ser sincera e responder que não. Da mesma forma que supliquei para que dona Ana que não dissesse nada sobre o que ela tinha visto, pedi a dona Bia. A diferença dessa vez é que, com dona Ana, eu queria fugir dos meus sentimentos por Vinícius, já com dona Bia, eu queria fugir dos possíveis sentimentos violentos do meu irmão caso soubesse do caso.

Ainda assim, dona Bia achou romântico. Não sei como. Que é bom, ah, isso é. Não dormimos exatamente agarradinhos... estando na mesma cama pra mim já estava bom. De preferência, de lado de frente um para o outro. Apesar de descobrir qual era o acordo e como era o relacionamento dele com a Becca no meio de uma loucura, eu estava feliz. Toda culpa que senti, ciúmes pelo que eles tinham, dissipou-se... de fim, muita coisa foi explicada.

Isso quer dizer que não apenas existe um “nós”, mas que esse “nós” está livre e desimpedido para ter uma chance. Só que ultimamente não tem é oportunidade... Essa última noite ele não estava tão dolorido quanto a noite da passada da crise, ainda que seus olhos continuassem baixos... ele estava era mais pensativo...

– No que tanto pensa?

– Meu pai.

– Saudades?

Fungou e passou a mão nos olhos um pouco molhados. Durante todo o domingo ele não havia chorado mais. Temi que se ele não chorasse mais, guardando para si, acumulasse uma angústia maior. Era preferível que chorasse tudo o que tinha pra chorar. Mas ele não chorou mais que isso.

– Muitas. Ele foi embora cedo demais. Logo depois que foi, Filipe voltou. Por muito tempo ele foi quase um segundo pai... eu sentia que estava próximo do meu por eles serem irmãos. Na época eu me meti em uns problemas, minha mã... quer dizer, Djane... Djane quase pirou.

– Foi nessa época que você se malucava pro telhado?

Ele ficou meio envergonhado por eu ter citado tal situação específica, demonstrou isso enterrando o rosto no travesseiro resmungando baixo. Imagine se eu tivesse perguntado o que ele fazia naquele telhado... contive minha curiosidade.

– Como você descobriu isso? Ela te disse?

– Não... Wellington me falou naquele dia na maternidade. Isso dentre... outras histórias mais.

Bocejei um pouco. Ele também. Fiquei na dúvida se ele estava mesmo com sono ou se era uma efeito de assimilação – já ouviu a história que se alguém bocejar perto de você, a probabilidade de você fazer o mesmo é de quase 90%? Talvez até mais.

– Ah, isso ele não me contou. Só disse que tinha gostado de conversar com você.

– Ele é um cara muito legal.

– E comprometido, mocinha.

– Eu... não tinha chegado a esses termos, tá. Apesar de a farda ter me chamado um pouco a atenção...

Provoquei um pouco, confesso. Ele entrecerrou um pouco os olhos e revirou um pouco os olhos. Queria ver o que ele ia resmungar.

– Hum. Mulheres.

– Homens.

Lembrei ao menos de nos cobrir. O friozinho estava bem confortável. E assim o sono nos pegou. Ele tinha que acordar cedo para trabalhar e eu mais ainda para voltar para meu quarto. Passei o dia revisando os tópicos da prova de Economia e só voltei a vê-lo quando cheguei em casa com Murilo. Depois do um banho jantamos todos juntos. Era uma maravilha estranha. Ainda mais porque meu irmão contava as novidades do seu trabalho e como tinha sido sua volta da suspensão... era justamente a dose de humor que precisávamos.

– Cara, como você conseguiu ser suspenso?

Olhei pra Murilo que ficou meio encolhido e consegui rir mais ainda.

– Essa é uma boa história.

Mas é meu mano quem resolve fazer o relato.

– Em resumo, fui me vingar de uns caras do meu departamento que tinham aprontado comigo... tinha o cenário perfeito. Só que a diretora apareceu bem nesse dia e viu tudo. Eu fui chamado para resolver umas coisas fora da sala antes de começar a apresentação que eu tinha alterado, então não vi como foram as coisas por lá. A diretora não gostou nadinha... e pôs sua assistente para investigar. Só que eu preferi logo me entregar...

– Porque ele tá apaixonado pela garota.

Intervi deixando-o acuado. Era bom ele se provar do mesmo veneno. Perturbar meu irmão era um dos meus grandes hobbys. Posso dizer o mesmo dele para comigo, infelizmente.

– E-eu não estou apaixonado por ela... eu só... go-gosto dela.

– Aham.

– Agora que o R.H. descobriu as “brincadeiras” que rolam por lá, nos inscreveram todos num programa de incentivo às boas relações com parceiros de trabalho. E adivinha quem está vai liderar e acompanhar tudo?

Me espantei:

– Você?

– Nam... a Aline.

– Huuuuuuuum. Vi tudo.

Meu irmão tentou desconversar quando troquei um olhar desconfiado com Vini sobre como seria esse programa de incentivo às boas relações. Alertei logo que era melhor meu irmão se ater às boas relações mesmo, que não tentasse nenhum flerte com a mulher dentro da empresa. Ele tinha sido suspenso uma vez, outra mais por assédio não ficaria nada bem pra ele.

Depois dessa nos jogamos na pia. Eu lavava, Vinícius enxugava e Murilo guardava. Agradecia muito meu irmão não estar mais nos vigiando... se ele soubesse de Becca – o que ele desconfia desde aquela vez que ouviu uma conversa estranha entre eles que só agora fez sentido pra mim – não nos deixaria em paz. Ou ele tinha esquecido ou... sei lá.

Sentamos os três no sofá para ver se tinha algo de bom na TV. Estava no final da novela... Murilo fez questão de ficar no nosso meio. Não me importei, afinal, não queria dar qualquer bandeira pra ele. Dado um tempo tentando entender a ação dos personagens, meu irmão pede pra eu fazer chocolate quente. Com a preguiça que eu estava, sugeri tirar no palitinho. Foi aí que ele perdeu. Resmungou, mas foi fazer.

Com os chocolates quentes prontos, ele leva as xícaras para nós. Quando finalmente vai se sentar e tomar seu chocolate, a campainha toca. Faço aquela cara de “aproveita que você está em pé e vai lá”. Aponto também para minhas meias, pois não queria ir lá fora no frio sujar minhas fofas meias mais do que eu já fazia andando sem chinelos dentro de casa.

Ele bufa e vai. Me deliciava com o chocolate quando ele volta colocando umas correspondências na mesinha da sala. De vez em quando elas param na casa da vizinha. Toda vez esquecemos de falar com o carteiro sobre isso.

– Sabe o que a vizinha me disse?

– Que realmente temos que ver o que anda acontecendo com o carteiro?

– Também. Hoje teve um assalto na rua.

Nessas horas que temos a prova que o “jogo do telefone sem fio” resume bem a ideia de que uma história nunca é realmente o que parece ou contam. Se ele dissesse que tinha havido um ataque a uma moradora, eu teria até concordado. Mas assalto? Isso não teve. Eu estava lá, fui eu a vítima. Eu não queria ter que falar sobre o assunto... só aproveito que ele fez o gancho. Falo baixo como se num fosse nada demais:

– Ah, eu sei. Fui eu.

– O QUÊ?

Os dois gritam ao mesmo tempo e eu me escondo atrás da minha xícara. Faço minha cara inocente de “opa” como se tivesse feito algo ruim. Só eu acho que não era algo ruim? Meu irmão, que estava quase sentando, levantou-se rápido demais. Por pouco o chocolate dele não chegou a sua camisa.

– Como assim? Eu te busquei lá na padaria.

– É que foi antes disso... E não foi assalto, apesar de eu ter achado que era no começo, por isso gritei “ladrão” quando o cara me pegou pelo braço.

– E VOCÊ SÓ DIZ ISSO AGORA?

– Tá, maninho, eu falo o resto amanhã...

– Milena!

Gritam de novo para me repreender. Eu sei, eles estavam preocupados comigo. Por isso mesmo não queria falar. Eles deixam suas xícaras na mesa a frente do sofá e esperam impacientes pela minha resposta.

– Não foi assalto, tá? O cara me prendeu, aí revidei, oras. Quando consegui me virar, vi que era... o Filipe.

Meu irmão começa a andar de um lado pra o outro no espaço entre o sofá e a mesa, raivoso, de braços cruzados. Na outra ponta do sofá, um Vinícius estarrecido questiona-se sobre o ocorrido.

– Ah, mas agora eu vou dar um surra mesmo nesse cara. Ninguém mexe com minha irmã e sai impune assim.

– Eu não entendi. Por que Filipe faria isso?

Suspiro antes de responder:

– Ele disse que estava me seguindo desde a faculdade. Ele queria descobrir onde você estava. Algumas pessoas chegaram para pegá-lo, achando que era ladrão mesmo. Aí esclareci que tinha sido um mal-entendido.

Era melhor que eu tivesse ficado calada quanto a isso. Meu irmão não estava com uma cara boa. Como tinha começado a falar, melhor que eu desse logo os detalhes pra ele.

– Como você revidou?

– Ele tinha prendido um braço meu e tentou me calar para eu não gritar. Aí o mordi, dei-lhe um pisão e acertei o nariz dele. Lembra daquele golpe que uma vez eu quase quebrei seu nariz? Pois é, foi um parecido... eu não consegui quebrar o dele também... só sangrou um pouco.

Meu irmão acha que falo por brincadeira.

– Milena, isso é sério!

– Eu sei. Vocês acham que estou de sacanagem? Pois não estou. Ele me falou na cara dura que estava me seguindo, que tinha deixado um vigia na minha cola caso eu saísse pelo estacionamento de trás. Aí ele disse que queria conversar. Fomos pra lanchonete do Celso.

– VOCÊ AINDA SAIU COM O CARA? ELE TINHA TE ATACADO!

– EU SEI, MURILO. De qualquer forma, eu tinha que ver o que ele queria comigo... depois o deixei falando sozinho. Foi aí que te liguei.

– Depois você fala que não precisa de proteção, né? OLHA AÍ O PORQUÊ!

– Você ouviu pelo menos a parte que eu disse que bati nele?

Acho que Filipe e meu irmão sofriam do mesmo problema. Eu falava uma coisa, eles ouviam outra. Eu estava bem, não estava?


~;~


Os dois “homens da casa” se uniram para me passar sermão. Um saco o fato de os dois serem muito protetores comigo... Eu sei me defender. Fiquei com medo sim na hora, mas soube lidar com o caso... Tive voz pra gritar, dente pra morder, pé pra pisar e mão pra bater. Eles ficaram me dizendo que eu não poderia sempre contar com isso.

Agora em diante eu não iria mais andar sozinha, teria uma escolta. Tenho que confessar de gostei um pouco disso, pois além de me livrar do sacolejo dos ônibus lotados, agora eu ficaria mais próximo de Vini, que me buscaria quando meu irmão não pudesse o fazer, o que poderia ser sempre, já que meu irmão quase não o fazia. Só tive que me segurar pra não parecer feliz com isso.

Depois de uns 20 minutos deles brigando comigo pela minha atitude imprudente, dei um basta na conversa. Nem pude apreciar meu chocolate quente como queria. Me preparei pra dormir e fiquei no meu quarto esperando meu irmão ir também. O bom é que ele não pode dormir tarde pois levanta cedo para ir trabalhar. O ruim é que Vinícius também. Assim fiquei meio incerta de ir no quarto dele de novo. Mas fui. Estava se tornando um mal hábito...

– Pensei que você não viesse hoje... ainda está chateada?

Acho que ele não queria dizer, sabia que me esperava. O meu lado da cama ele tinha deixado vago e estava deitado de lado observando a porta. Já que ele teve um momento estilo Murilo-você-precisa-de-proteção, me encosto na porta fechada para fazer um pouco de drama. Não foi nada legal ter que ficar ouvindo os dois decidindo meus passos.

– Claro. Não posso dar um passo fora sem ter alguém me guardando. Vocês são bem exagerados.

– É para seu bem. Se tivesse acontecido algo com você... Se ele tivesse te feito algum mal... Eu não sei bem o que seria capaz de fazer.

Ele fecha as mãos em punho, amassando a ponta do seu travesseiro, fecha os olhos como se tivesse imaginando algo do tipo. Tive que quebrar um pouco essa seriedade toda, não queria ficar chateada com ele.

– Será que ninguém ouviu a parte que eu falei que tinha batido nele? Eu poderia ter quebrado o nariz dele...

– Será que você também não percebeu a gravidade disso? Ele te vigiou, te seguiu, te atacou e... você não vê? Isso poderia ter acabado muito mal.

– Mas não acabou.

– Poderia ter acabado.

– Isso pode durar toda uma noite, sabia? Muito mal gasta.

– Desculpe se meu preocupo com você.

Ele usa um tom irônico que não gosto. Ajeita-se na cama de forma que fique cara a cara com o teto, com a cabeça apoiada nas mãos. Eu não quero brigar, ele que está pedindo. Não cede, Milena, não cede. Respiro fundo e sento na ponta da cama. Se as coisas estivesse bem mais resolvidas, eu o faria esquecer disso rapidinho. Eu mesma meio que esqueci só por vê-lo emburradinho de uma forma tão... Hum. Uma ansiedade me passa por pensar nisso, quase desconcertante, que me faz morder o lábio.

Melhor que eu desse o braço a torcer... ele tinha a razão que eu queria distorcer pra livrar minha cara.

– Eu sei. É que a teimosia é tão inerente a mim que... enfim, amanhã é bom você levar seu quepe. Não quero ter que te dar uma advertência por não cumprir bem o serviço de chofer.

– Você não tem jeito, mesmo.

– É o que tento dizer às pessoas, mas ninguém acredita.

Notas finais
Então, quem tem razão?