Mantendo O Equilíbrio (Temp 1 + Temp 2)
40 Capítulo 11
Notas iniciais
Rum, até parece que coração deu pra obedecer, né?
Enjoy.
Que frio. Por que estou de pijama curto e robe na rua?
Na praça perto da minha casa, sendo mais precisa. Me sento num banquinho olhando umas casas comerciais fechadas que tinham ali em frente e ouço a batida de música...e é o One Republic, tenho certeza. Dou uma olhada geral, procurando pelo lugar onde deveria estar, de onde vem. Quando mal o Ryan começa a cantar, há uma pausa e torna a começar a batida do começo da música.
Onde ele se meteu? Seguro o robe cobrindo meu corpo do frio e, me virando para todos os lados, busco a origem dessa incessante canção. Uma loja em particular na minha diagonal parecia ser a única com luzes ligadas, fracas, mas ligadas. Meus passos ligeiros atravessam a praça para chegar em frente a tal loja, onde uma porção de pessoas apareceram do nada caminhando justamente para entrar lá. Não os reconhecia e senti vergonha por todos estarem tão bem vestidos e agasalhados. Um anseio cresceu de mim e aquela música não parava...
Ao chegar a vitrine, as pessoas continuavam entrando na loja quase em fila, sem propriamente me olhar, o que não parecia ser algo para se aliviar.
Trilha indicada/citada: One Republic – Good Life
http://www.youtube.com/watch?v=jZhQOvvV45w&ob=av2e
Quando muitos finalmente entraram e pude ver a vitrine mal iluminada, estavam ali umas 10 TVs arrumadas como pirâmide, ligadas no mesmo canal, mostrando ali o Ryan de chapéu, assobiando, sentindo o ritmo da melodia vir aos poucos... Ele cantava a entrada musical e então a TV chiava, ficava com listras pretas e brancas chuviscando pela tela e não demorava muito, recomeçava.
Chego mais próximo da vitrine, encostado minhas mãos e testa nela, perguntando, dentro de mim, pro Ryan quando ele iria chegar no “Good Life”, porque eu estava esperando por uma “boa vida” que estava a caminho e pausava, e eu não queria um “pause”, queria minha “boa vida”. Ali mesmo com a testa grudada no vidro, dava pra ver que eu estava de tênis... e nada me vinha na cabeça o porquê estar de robe e tênis.
Então um par de coturnos desgastados aparecem do lado dos meus pés, caminharam até chegar bem próximo aos meus tênis, lado a lado. Ao levantar a cabeça, com a TV chiando mais do que antes, Vini está ali do lado, mãos nos bolsos de sua calça estilo camuflagem de exército, não combinando com a camisa azul do meu irmão que aparentemente ele vestia.
Descrente com tudo ao redor, me afasto da vitrine e da calçada, andando pra trás. Vinícius traz um semblante tranquilo sem muita reação. Tira uma mão de seu bolso e estica na minha direção. O chiado parecia aumentar e a batida começava de novo, tudo muito confuso, ele me chama, alguém me chama...
Numa arfada de susto abro os olhos pra encontrar meu irmão com uma roupa qualquer de malhação me chacoalhando. Por que todo mundo está se vestido estranho? Espera, cadê todo mundo? Eu... estou na cama. Foi apenas um sonho.
Bizarro.
– Calma, sou só eu. Seu celular não para de tocar.
Totalmente desorientada puxo o ar para respirar e focalizar bem o mundo real. Checo minha aparência e estou com o pijama curto enlaçada no lençol. Por que dormir com esse pijama mesmo se eu sabia que estava frio? Ah, sim, não achei meu conjunto de pijama grande com o sono que me pegava ontem. Passei pelo meu corpo o primeiro que vi depois de me arrastar no banho.
– Quem é?
– Não sei, estou chegando agora. Como não consigo evitar de acordar cedo, saí para uma corrida, pra arejar um pouco. Desde que cheguei seu celular toca, ouvi lá da cozinha. Agora parou. Já vai dar 10h da manhã, então melhor levantar logo, né?
– Hum. Valeu por me acordar.
Murilo sai do meu quarto e o celular na escrivaninha a direita de minha cama começa a tocar novamente. Era dali que vinha o “Good Life”? Era. Sonhos podem ser infinitamente perturbadores quando tentam cruzar consciente e inconsciente. Estava tão grogue que mal conseguia me mexer. Tanto que o celular parou de tocar e só então consegui me mover para alcançá-lo, com os olhos semicerrados ante a iluminação do visor no quarto meio escuro. Devia estar bem nublado para não ter nada incidindo pelas frestas da janela ao meu lado esquerdo e... ONZE LIGAÇÕES DA MINHA MÃE!
MEU DEUS, ACONTECEU ALGO... foi minha avó? Ai não.
Quando ia retornar a ligação, mamãe torna em mais uma ligação e já quase chorando, atendo desesperada, a tensão me matando:
– MEU DEUS, MÃE, O QUE ACONTECEU?
– “O QUE ACONTECEU?” DIGO EU. ESTOU TENTANDO FALAR COM VOCÊ HÁ TEMPOS E NINGUÉM ME ATENDIA... Estava sufocando aqui.
– Mãe, está tudo bem?
– Estamos bem, eu quero é saber de vocês. Vocês estão bem?
– Estamos... Putz, mãe, que susto! Eu estava dormindo.
– E seu irmão que não me atende?
– Ele saiu sem celular. Acabou de chegar.
– Ué, ele não devia estar no trabalho?
Ops. Mamãe e papai não sabiam da suspensão do meu irmão, muito menos do que ele tinha aprontado. Não seria eu que iria dar essa notícia, então fico uns 5 segundos calada caçando uma resposta decente para não dar exatamente a resposta que me faria entregá-lo.
– Er... você sabe como esses horários dele são confusos. Tem dia que faz plantão, vai pro observatório meteorológico, faz umas folgas... a senhora sabe.
Ela suspira aliviada do outro lado. Não parecia nada bom pra mim. Sento na cama preparando-me logo para algo ruim que parecia vir.
– Mãe, o que foi? Sério, me diz logo antes que eu caia dura por antecipação...
– Nada, minha filha, desculpe se a assustei.
– Mas mãe, tem algo errado e eu quero saber o que é.
– Não tem nada errado, querida. Foi apenas um sonho que eu tive, acho que eu não deveria ter assistido aquele filme ontem, seu pai que me desafiou. Pode culpar ele se quiser.
– Hum?
– Você sabe como é, né, filha? A gente assiste se mostrando firme e forte e quando vamos para a cama, parece que o filme ainda não acabou e... enfim, cada coisa, um barulho sequer, nos deixa aflitas. Foi só um sonho ruim, nem lembro mais dele. Só fiquei angustiada mesmo. E com vocês não me atendendo, fiquei mais agoniada ainda.
– Ai, mãe, só a senhora para assustar todo mundo por estar assustada.
– E você, querida, o que faz na cama até essa hora?
– Cheguei tarde da faculdade ontem. Mais que merecia muitas horas de sono.
– Hummm. Então aproveite que sua mãe está folgada aqui na livraria e conte-me o que anda acontecendo por aí. Já estou sabendo das armações do seu irmão com seu avô... Pra armar com ele seu irmão liga, mas pra falar comigo, ele num faz...
– Mãe, a senhora quer dar confiança logo pra quem, né? Fica difícil...
– Milena!
– A gente ama as pessoas com seus defeitos, mãe. Meu irmão não ia ser exceção.
Minha mãe me repreende por fazer graça do meu mano, mas sei que ela lembra que eu já a repreendi muito quando falava assim. Ai que saudades da minha mamãe, da sua alegria pelas manhãs, da sua falação pelo almoço, do seu soninho da tarde, das suas besteiras que fala pelo resto do dia... Ficamos conversando por tempos, eu contando minhas conquistas na faculdade, dos meus amigos, da ajuda da dona Bia na casa, e ela fazendo seus comentários, suas ideias, falando das confusões que aconteciam lá na cidade e das novidades de casa. Saudades de casa, com cafuné da mamãe, conversas com o papai, conspirações com a vovó e madrugadas com o vovô.
– Mãe, eu tenho que ir. Se eu não levantar agora, não vai ser mais café da manhã e sim almoço. E eu tenho que ir pra casa da minha amiga Flávia, pra estudar pra uma prova de segunda-feira.
– Tudo bem, querida. Ainda bem que o semestre está acabando... logo vou poder abraçar e não largar essa minha menininha.
– Mãe! Eu sou uma mulher já, adulta.
– Ai, filha, você me diz isso desde seus 7 aninhos... Tá na hora de trocar esse disco arranhado, não?
– Só se a senhora trocar primeiro. Me avisa quando fizer isso. Beijo, te amo.
– Saudades, filhota de mamãe, te am...
– Mãe?
A ligação cai. Dou de ombros, eu sei que ela vai ligar de volta. Me espreguiço na cama, querendo ficar “forevermente” no quentinho da minha cama... O dever me chama. Levanto sem coragem e, esperando a ligação da minha mãe, dou uma olhada no meu armário. Quando começa a batida do One Republic, atendo sem verificar e digo logo o que minha mãe quer ouvir:
– Sim, meu amor por você é do tamanho do universo.
– Er... Milena?
– Oh.
Não era minha mãe, NÃO ERA MESMO. Reconheço de cara a voz masculina surpresa pela minha declaração e visualizo no visor do celular a identificação de “Vinícius” com um sobressalto do meu coração no peito. QUE FU-RO!
– Vini? Desculpa, pensei que era minha mãe.
– Ah, assim você me magoa, estava me achando o homem mais feliz do mundo.
– Engraçadinho... Então, qual a honra de sua ligação?
– Me deliciar com sua declaração por mim foi quase o bastante para esquecer o real propósito, mas vamo lá... Liguei pra avisar que estou saindo do trabalho e vou passar aí pra você almoçar comigo e Wellington lá em casa.
– Palhaço. Pois que siga seu caminho pra casa, eu tenho compromissos daqui a pouco, não posso ir. E diz “boa viagem” pro Wellington por mim.
– Quem é esse que está te alugando, hein, pra dispensar um almoço da dona Ana na minha excelentíssima companhia e de meu amigo convidado? Que desfeita, Milena.
– Chama-se Paulo, sendo mais precisa, prova de Economia na segunda, e Flávia, parceira de estudos que só pode estudar hoje, pois vai se dedicar a outro trabalho no fim de semana de outra disciplina, da qual eu fui dispensada por ter participado do evento acadêmico. O dever me chama...
– Hum. Eu deixo essa passar então. Posso te buscar depois da faculdade pra a gente sair ou algo assim ou vai ter aniversário de novo? Tenho boas novas.
Bom humor de palhaço, só porque da vez passada teve o aniversário de Flávia. Eu sei, ele estava me rondando pra ver eu não tinha compromisso, tendo dispensado seu convite de almoço então. Era um pouco... fofo da parte dele. E tendo boas novas me deixava curiosa. Só não ia deixar isso transparecer, claro.
– Não que eu saiba. Hoje estou dispensada, mas vou para acertar umas últimas coisas com o diretor. Devo sair na hora do intervalo... me liga quando aparecer na entrada que eu decido se vou ou não.
– Sei que você vai. E se num fosse, iria do mesmo jeito, ou esqueceu que tenho um poder de persuasão? Não é a toa que fiz dois gols recentemente.
– Okay, senhor jogador, vai pra casa e não fale ao telefone enquanto dirige nessa cidade maluca. Tenho que ir, tchau.
– Tchau.
Suspiros. Nada mais que suspiros... até ver que são 11h20 da manhã e meu café da manhã já era.
~;~
Murilo foi gentil dessa vez – ou é o pesar pegando no pé dele – e me deixou na casa de Flávia. Falei sobre a ligação da mamãe e ele disse que vai contar logo, como se eu fosse chantageá-lo com isso. Eu não ia, juraria se necessário, pois para esses casos eu iria acobertá-lo de boa, mesmo que ele não me acobertasse se eu aprontasse algo. Só ele não via como era boa irmã. Contudo, as coisas estavam começando a melhorar.
– Pode deixar que eu mesmo falo.
– Credo, Murilo, você fala como se fosse usar isso contra você ou algo parecido, coisa que eu não faria... eu me importo com você, caso você não saiba.
– Mas é interesseira que eu sei, só faz as coisas se for tirar algo em troca. A história do meu vídeo ainda tá entalada aqui.
Dramático como ele é, falava meio rude e até sinalizou para a garganta, como se tivesse algo engatado lá. Eu também fazia logo meu drama, de braços cruzados e toda desconfiada dele. Se ele queria virar o jogo, ele que muito tentasse, pois eu não iria desistir fácil.
– Eu faço as coisas por bondade, se vier lucro, que seja. Já me basta você triste pelo trabalho, não iria querer que nossos pais também lhe arrancassem mais um pedaço seu, maninho.
– Aham... você adora me ferrar. Seria o plano perfeito.
– Isso só mostra que você sempre pensa mal de mim... eu poderia salvar o país de uma guerra e você ainda iria achar que eu teria um plano maligno e interesseiro por trás.
– Eu não penso mal de você, você sabe. Só... gosto de me precaver.
– Yeah, depois você quer que nossa confiança não se abale. Fica difícil, né?
– Mana, você não entende...
– Não entendo mesmo, você nunca quer me explicar, sai logo fazendo besteira...
– Lena, uma coisa é a gente brincar, armar, coisa de irmão; outra coisa é quando as coisas são mais sérias, quando se tratam de nossos sentimentos, de perigos, de preocupações. Você tem esse costume de satirizar as coisas, de armar, de brincar com o que é sério, então eu tenho que te proteger, porque você não sabe onde parar.
– Eu sei, Murilo, eu sei, acredite. Mas como eu disse, você fecha tanto essa cerca de “proteção” que me obriga a fazer essas coisas, então não as faço por leviandade. Eu sei a dimensão das coisas. Vocês só me veem como a garotinha indefesa, não como uma mulher por igual, forte e decidida. Se todas as outras pessoas me tem por respeito assim, porque não vocês?
– Quem são esses “vocês”?
– Você, mamãe e papai. Mamãe acha que sou uma menininha de laço na cabeça que gosta de rodar com vestido, papai acha que sou a garotinha que ele ensinou a andar de bicicleta e não sabe muito mais que isso, e você... bem, tem uma imagem parecida. Me vê todos esses dias, sabe das minhas pretensões, conhece minhas manias, minhas brincadeiras, minhas piadas, mas não quer aceitar esse lado sério, de respeito, que tento trazer a todos vocês. Vocês não querem reconhecer que eu cresci, é isso. E ficar me limitando aqui e ali só vai me fazer eu procurar pessoas que me aceitem assim.
– Ai, quando você inventa que tem razão nas coisas...
– Como assim “quando EU invento”?
– Não foi isso que eu quis dizer... olha, estou péssimo com tudo isso, tá bom? Eu me sinto um idiota por ter-nos feito chegar a esse ponto. Desculpa, tá? Sinto que a perco a cada vez quando brigamos assim e eu não gosto disso. Por isso me altero, porque te proteger, pra mim, é algo assim... inerente a mim, eu não consigo evitar. Você é minha irmãzinha sim e te amo mesmo com esse teu gênio maluco. Não que o meu seja menos sem-noção. Gosto de cuidar de você, mesmo me cansando, me deixando maluco da cabeça... Eu não suportaria ficar sem você. Te perder tá fora de questão.
– Justamente. Se você não se comportasse assim, exagerado, você não me perderia, como tem me impelido assim, agindo como se fosse um bruto com quem quer que seja que esteja próximo a mim. Você não me perderia, na verdade, você só ganharia mais de mim, quem sabe. Vamos tentar fazer funcionar, então?
Suspiro forte querendo que ele ceda. Porque ELE tem que ceder. Eu já cedi e perdoei demais, quero minha vez.
– Não prometo nada, vou tentar me segurar, só te digo isso.
– Tudo bem. Ainda tenho seu vídeo mesmo, pra todo caso.
– Milena!
– O quê? O papo ainda é sério, mas nem tudo tem que ser sério demais, né? Alguém tem que quebrar o gelo. Só vou guardar seu vídeo, coisa.
Quando chegou na porta da casa de Flávia, ele desligou o motor e desceu do carro. Já ia perguntar se ele também ia querer estudar Economia ou algo assim... não, não era. Ele só queria demonstrar que as coisas estavam bem, ou ao menos chegando lá, dado ao abraço carinhoso que me deu ali quando eu desci do carro. Meu irmãozão sendo ele mesmo, carinho exagerado. Do vão do meu pescoço, eu podia sentir sua respiração mais calma. E sua voz de “bandeira branca”.
– Não quero ficar de mal. Não gosto.
– Também não.
– Own.
O “own” foi de Flávia ao chegar na porta e nos encontrar em reconciliação. Murilo deu seu sorrisinho sem-graça e logo deu no pé. Já não disse uma vez que ter uma boa relação com sua irmã é algo a se admirar nos caras? Ele não acredita em mim, acha que vão zoar ele. Homens!
Flávia nos afundou na matéria a tarde toda e ainda bem que eu estava liberada das aulas do dia, pois, por mais que eu gostasse da aula de Carvalho e nem tanto da de Silvana, eu queria um descanso. Ela, por outro lado, tinha um estudo de caso para entregar na outra semana e isso estava a consumindo, pois era uma matéria que ela tinha dificuldades. Prometi que iria ajudá-la no sábado à tarde, pois nessa disciplina eu tinha me safado e não iria deixá-la na pior.
Mais calma e relaxada depois dos estudos, ela prepara um lanche e aproveitamos pra ficarmos de papo sobre o aniversário dela e comentar as fotos, que estavam misturadas com as do encerramento de ontem no auditório. Antes mesmo de ver cada uma, salvei logo todos os arquivos no meu pen-drive pra ter uma cópia, senão teria que ficar caçando foto por foto. No sofá da sala dela, tal qual estive com Murilo e Djane no outro dia, ficamos as duas esparramadas. Quando chega “naquela” em particular, ela dá um sorrisinho bobo e eu que fico sem-jeito.
– Como vão os sentimentos?
Suspiro.
– Crescendo sem minha permissão.
– Ora, Milena, e você ainda resiste a isso crescendo dentro de você?
– Ás vezes. O momento é delicado para eu pensar em algo além do que temos.
– Nem precisa ir além, menina, está estampado na cara de vocês.
– E... meio que aconteceu. Foi um quase sem muito “quasado”.
– O que, menina? “Quasado”?
– Ele me beijou.
– AI-MEU-DEUS! COMO ASSIM? QUANDO? E O QUE VOC...?
– Ele achava que eu estava dormindo. Foi bem simples, mas... ai, fui nas nuvens e voltei, mortificada, sem poder me mexer.
– Eu que pensei que você era mais pra Cinderela, até que está dando uma boa Bela Adormecida.
– Foi tudo tão rápido... Sábado passado eu estava tão cansada que adormeci no sofá da casa dele, aí ele me carregou para o quarto de hóspedes e falou umas coisas sem pé nem cabeça, eu ali, com um pé aqui e outro batendo no inconsciente... aí ele me beijou.
Flávia me abraça toda animada que me derruba no próprio sofá. Sinto uma ansiedade vindo do meu estômago até a boca só de pensar que talvez haja esperanças para algo maior e mais concreto. Mordo o lábio numa antecipação por querer muito isso, cansada de sempre ser tomada pela razão e de me esquivar disso pelo que meu coração acelera.
– Fico tão feliz por vocês. Quero que fiquem logo juntos.
– Ai, Flávia, assim você me deixa doida também. Ainda tem algo pairando sobre nós, principalmente ele... não é o momento certo.
– Mi, não confia em momento certo. Não tem como avaliar isso.
– Quero poder acreditar nisso.
– Pois acredite.
~;~
– Vocês não se livram de mim tão cedo.
– Dani, não faz nem vinte e quatro horas que nos despedimos.
– Senti saudades, oras, num posso?
Era quase a hora do intervalo. Dani e eu nos encontramos no corredor depois que saí da última reunião com o diretor – de fim, a espionagem dele para com o reitor chato não deu em nada – e juntas fomos para a lanchonete. Gostava assim, por ter menos gente e barulheira me atazanando os ouvidos, ainda mais nervosa por encontrar Vini mais tarde. Um buraco tinha se alojado no meu estômago e preferi jantar logo na lanchonete antes que a fome me engolisse. Se isso era fome mesmo ou nervosismo eu não estava sabendo identificar.
Não estava muito para mastigar, então optei por um jantar de caldo e Dani serviu-se de sanduíche, sentada ao meu lado. Estava pela metade do meu jantar quando um Bruno todo troncho, emburrado e mancando um pouco chega na nossa mesa. Dani nem esperou terminar de mastigar para questionar:
– Putz, o que foi isso?
– Escorreguei no piso molhado.
– Você não viu a placa, não?
– Vi quando estava no chão.
Paro de comer para não poder engasgar. Ele tinha um bico emburrado muito fofo e hilário. Sem cerimônias, Bruno senta-se conosco, na cadeira a nossa frente, e resmunga pra mim:
– Tá rindo, né?
– Estou sendo uma boa amiga, retribuindo seu incidente. Afinal, amigo que é amigo faz o outro rir. Estou cumprindo meu papel também.
Ele bufa zangado e geme ao tocar nas costas. O tombo parecia ter sido feio. Dani também segurava o riso para ele não ficar mais chateado. Observando-o melhor avisto um arranhão avermelhado na sua mão esquerda, sangrando um pouco.
– Como você machucou a mão?
– Na hora que deslizei tentei me apoiar no vão da porta, e não conseguindo, saiu arranhando.
– Ui. Doeu.
– TÁ doendo.
– Só dar beijinho que passa.
Falo como se fosse a coisa mais simples do mundo, meio de bobeira. Olho discretamente para Dani que retesa na mesma hora com o sanduíche chegando à sua boca. Bruno continua indignado, me olhando zangado. Se eu não consegui juntar ela com meu irmão, iria conseguir juntar esses dois.
– Olha, eu não tenho remédio para ferimento, tenho só band-aid na bolsa, garoto reclamão.
Levanto as mãos como se estivesse me rendendo e apresentando sua melhor opção. Assim puxo uma caixinha da bolsa, tirando dela um band-aid para ele.
– Por que você anda com uma caixa de band-aid na bolsa?
– Acredita que a Flávia me deu de presente de amigo-da-onça semestre passado?
– Bizarro.
– Essa é a ideia. Imagine se você soubesse das minhas brilhantes ideias para presentes...
– Não, muito obrigado, só me passa esse band-aid. Com você, só jogo amigo-invisível mesmo... Mas, espera... e quando eu fui atacado por aquele cachorro, e a tia da Dani não tinha band-aid, apenas esparadrapo... Eu tive que ficar com aquela quase fita isolante na cara com gaze, chamando mais atenção, e você o tempo todo com uma caixa de band-aid na bolsa?
Nossa, ele foi longe. Ele realmente estava emburrado, o que dava maior graça ainda. Ficava difícil não rir com ele desse jeito.
– Não. Naquele dia estava em outra bolsa. Não era seu dia de sorte.
– Essa semana que não é minha semana de sorte. Pelo menos acho que fui bem na prova de hoje. Vou ter que dormir na casa do meu primo porque lá em casa estão dedetizando... sou alérgico a essas coisas, então tenho que ficar fora de casa. Tem coisa mais chata que isso? E pra completar o pacote, ainda tenho que levar o convidado Caio para o aeroporto amanhã... Tenho não, NÓS temos.
– Calma, garoto estressado. Você sabe que eu vou...
– Bom mesmo.
Chegando no intervalo, Flávia e Gui sentaram-se conosco e dali não saía nada que preste. Principalmente quando Flávia começou a mostrar as fotos do encerramento que vimos essa tarde. Gui ficou se lamuriando por ter perdido e ninguém ter o avisado.
– Mas como eu ia avisar se eu também não sabia?
– Ah, Lena, sei lá, desenvolvia um lado sensitivo...
Pior que meu lado sensitivo estava me cutucando, perguntando cadê o Vini que até agora não ligara, o intervalo no fim. Evitava olhar pro visor do celular a cada minuto para não chamar a atenção. Meu lado “sensitivo” só me avisou disso, nada para o Gui. Então tive uma ideia:
– Olha, Gui, só se matássemos aula um dia desses...
Nessa hora todo mundo riu menos o próprio, deslocado.
– O que, gente? Eu não entendi a piada.
– Porque não é piada.
Flávia que interviu para contar o que era. Eu não prestava mais atenção, minha perna batendo debaixo da mesa de ansiedade me alugava mais. Então meu celular, que estava no silencioso, começou a vibrar e eu a me despedir. O intervalo tinha acabado também, o que ajudou a disfarçar minha saída. Não sei porque eu fingia que saía de fininho...
– Alô?
– É assim, né?
Uma voz brava de Vinícius replica e paro no meio do pátio pensando que algo tinha acontecido. Caramba, o que será dessa vez?
– O-o quê?
– Antes era o amor de todo um universo, agora só sou saudado com um simples “alô”. Que decadência.
– Porra, Vinícius, tô pensando que é alguma coisa séria!
– Mas é sério, oras. Isso magoa as pessoas.
– Então liga de novo.
Ele... ele desliga mesmo. Putz. Na iminência de qualquer explosão, mil coisas poderiam passar na minha cabeça, menos essa gracinha dele. Eu falo de Djane, mas cá estou, fazendo a mesma coisa... calma, Milena, tudo tem seu tempo, as coisas vão se resolver... O celular vibra em minhas mãos e o atendo mais descontraída.
– Alô?
– Vai me fazer ligar de novo, é?
– E todas eu vou dizer “alô” de propósito.
– Hum. Se você deslizou uma vez, pode deslizar outras... eu espero, não tem problema. Tá aonde?
– Eu que pergunto, senhor palhaço. Estou caminhando para a entrada.
– Okay, estou te vendo.
Avisto seu carro estacionando na entrada e entro antes que alguém buzine para ele por parar no meio da rua. Ali era muito movimentado para parar assim sem mais nem menos... Ele estava com roupa casual, o que me dizia que não tinha ficado o dia todo no trabalho.
Perguntou-me logo que entrei:
– Já jantou?
– Já. Você não?
– Na verdade, sim. Dona Ana insistiu. Escolhe um lugar.
– Hum... tem uma sorveteria boa próxima a minha casa.
– Me indique, madame.
– Cadê o seu quepe? Que chofer antiprofissional.
– Estou na minha folga, madame exploradora.
– É o que você sempre diz.
A noite estava um pouco fria ainda, menos que como amanheceu, e eu estava com vontade de algo doce como sorvete. Sentamos um do lado do outro com nossas casquinhas numa mesa do lado de fora do estabelecimento, de frente para a avenida toda iluminada. Era uma barulheira agradável, típica de cidade grande com muito tráfego. Ele me imitava, olhava pra avenida como se estivesse pensando longe.
– Então, quais as boas novas?
– Fiz meu segundo gol ontem. Quando minha mãe chegou contando isso, dona Ana não entendeu nada. Seu irmão também ficou perdidinho.
– Meu irmão? Como ele soube?
– Eu enviei uma mensagem de “GOL” pra você e como você não respondeu, depois de um tempo te liguei e nada de você atender... aí o Murilo atendeu uma delas, dizendo que você tinha esquecido o celular em casa. Vocês ainda estão brigados?
– Não, fizemos as pazes hoje, apesar de ainda insistirmos com nossos argumentos. Somos persistentes quando queremos. E a Alexandra?
Um pouco mais ao longe na calçada que estávamos tinha uma lanchonete em movimento, e numa mesa meio afastada, mais chegada para a sorveteria, tinha um cara nos mirando. Desde que sentei observei isso. Ele me lembra alguém, não sei quem. Não era muito velho nem muito novo...
– Bem, recebeu alta ontem de tarde. Perguntou de você. Disse que vai mandar um convite do chá de bebê dela. Até eu fui convidado. Tempos modernos, homens em chá de bebê...
– Ué, chá de bebê não é antes da criança nascer?
– É, mas lembra que o cálculo de semanas dela estava errado? Pois é, ela já tinha marcado. Vai ser no sábado depois desse.
– Hum. Acho que dá pra eu dar uma passada lá... tenho outro convite para esse sábado em particular. Eu ia te convidar, é um aniversário, naquela casa onde eu fugi do cachorro... Eu sei, grande referência a minha, mas tudo bem, você fica lá com a Becca...
– Er... falando em Becca... não estamos mais juntos.
Arrisco uma olhada de rabo de olho pra ele, à minha esquerda, compenetrado na visão noturna da cidade, muito tranquilo e relaxado no fim de sua casquinha. Eu não tinha muito o que falar, tinha? Não queria me envolver quando o assunto era ele e Rebecca. Mas, já que ele tinha comentado comigo, eu não iria deixá-lo no vácuo.
– O que houve?
– Nada. Só... não deu certo. Estamos bem, de qualquer forma. Está com frio?
– Não muito. Devia ter vestido algo mais quentinho pra esse tempo.
– Vem cá.
Ele passa o braço por meus ombros e me puxa para si, encostando sua cabeça na minha e mal me mexo. Mas sim? Só porque ele acabou com a menina ele acha que pode sair assim me abraçando? Cadê o... hummm. Deixa pra lá, estava bom assim. De qualquer forma, amasso o guardanapo da minha casquinha depois de acabar e jogo na cara dele pra ele não ver que eu estava gostando.
– Assim não vale, você sabe que eu não iria jogar em você.
– Melhor ainda, saio vitoriosa.
– Posso me vingar depois...
– Hum.
O cara que ora e outra olhava para nós estava me incomodando ainda. Ele conversava com alguém a sua frente, outro cara. Não estava gostando disso e logo Vini nota que tinha algo estranho.
– O que foi?
– Não olha agora, mas, às três horas*, tem um cara olhando pra cá direto. Ele tá começando a me incomodar.
*código de localização/orientação baseado na orientação do relógio de ponteiros. Três horas significa que está ao leste, na mesma direção deles.
– Ih, é o diretor. Lá do hospital.
– Eu disse pra num olhar.
Não só olhou, como acenou também. Facepalm, né? E o cara levantou, pediu licença àquele com quem conversava e caminhou até nós. Não, essa foi demais. Vini me solta, levanta e dá a mão para cumprimentá-lo. Fico na minha em pé também e deixo que eles falem:
– E aí, doutor?
– Bem, estava ali e não sabia se era você mesmo. Pacientes como você não são fáceis de esquecer. Nem acompanhantes como essa mocinha aqui.
Percebendo o olhar de ambos pra cima de mim, falo qualquer besteira que me vem na cabeça. Não sei porque me sentia estranha, como se tivessem me pego num flagra que não existia. Tento equilibrar minha vergonha com uma piadinha fuleira.
– Tinha que perturbar alguém, doutor. Ficar dormindo por meses é sem-graça...
– Vou te chamar se aparecer outro paciente em coma. Vai que é milagrosa.
Eu? Milagrosa?
– Ah, não, não acredito que seja... nem a sorte gosta muito de mim.
Vinícius nega minha colocação. Ah, se ele soubesse das minhas histórias...
– Ela sempre diz isso, doutor, não adianta, é teimosa.
O diretor do hospital dá um sorrisinho de quem bota mais fé em Vinícius do que em mim quanto à sorte, mas acaba por mudar de assunto e isso me pega despreparada:
– E então, tem visto o Diogo?
Um Vini descontraído perde a descontração colocando as mãos nos bolsos e me olha esperando a resposta, tal como o diretor. Mas como assim? Era pra eu estar vendo o Diogo esse tempo? O que esse traste andou dizendo naquele hospital? Deve bem ter a ver com aquela história de créditos fajutos que o enfermeiro me disse da outra vez... Se o diretor tem conhecimento disso, não dá pra saber. Só sei que é bom eu resolver isso.
– Não... não o vejo desde... uma vez que o encontrei numa loja de conveniências perto do hospital. Por quê?
– Hum... ele vai entrar de férias logo. Comentou no outro dia na lanchonete que ia só resolver umas pendências com você. Ele disse seu nome. Milena, não?
HUM? COMO QUE É A HISTÓRIA AÍ?
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