Mantendo O Equilíbrio - Tempo de Mudança (T6 + T7)
187 Capítulo 82
Notas iniciais
O clima frio no quarto da Iara não é só do dia chuvoso ou de seu ventilador silencioso rodando e mantendo o ar em movimento. Tal qual no instante anterior, em que larguei o celular do Vinícius de qualquer jeito na cama, solto-o novamente após ler as mensagens que o Aguinaldo lhe enviou. Como mencionei à Flávia, ele é um tópico à parte e, mesmo que estivesse (ou tenha estado) sob a mira de certas pessoas, inclusive sob ameaça de morte, eu não vou lhe dignar o pensamento neste dia. É o primeiro dia do ano, o meu primeiro dia, com muitas batalhas, e ele não vai ser uma.
Mas preciso perguntar sobre essas mensagens, para depois não gastar tempo imaginando ou me gastar criando essas teorias. De repente séria, assim como de repente isso apareceu em minhas mãos, questiono o Vinícius.
— O que isso significa?
Ele se encaminha para a porta, para fechar. No segundo em que sua irmã faz menção de nos deixar sozinhos, Vini a segura para que permaneça e a puxa para que fique perto de nós, perto de mim. Isso não colabora com a sensação estranha que me pega. Balançando a cabeça para seu silêncio, me vejo perguntando outra vez.
— O que isso significa, Vini?
— Significa que o universo realmente te mostra as coisas.
Em outro momento, ou em outras circunstâncias, eu teria brincado com isso. Teria dito que vivo falando isso e que ninguém acredita. Que eu nunca tô procurando as coisas, ou não pelo menos de forma direta assim. Elas somente aparecem e me abrem os olhos sobre alguma coisa. Mas o que seria essa coisa dessa vez? E por que envolve Djane?
— Eu não queria que ficasse preocupada, só isso, mas não esconderia de você, Lena. Sabe que não. Eu só tive... Eu precisei agradecer o cara, só isso. Não vou responder mais nada.
Iara dá um pigarreio para chamar a atenção do irmão, que, de pé em frente à cama, tenta se explicar e não diz nada de concreto. Ela o alerta sobre isso.
— O contexto, Vini, tem que contar o contexto.
— Eu mencionei isso, Lena, não foi? O caso com a minha mãe. Sobre o carro.
— E ele o quê? Trocou o pneu pro Renato, foi isso?
Vinícius, no entanto, faz novas rondas sobre esse assunto.
— Eu só pedi um pouco de tempo, lembra? Porque foi... porque é... meio...
Sentando-se na ponta da cama, Iara interrompe, vez que também não aguenta as reticências e enrolações. Não só explica, como faz de maneira direta e centrada.
— O que aconteceu é que ele salvou a Djane e o Renato de uma situação de perigo. Foi de madrugada, numa avenida perto da tua casa. Estão todos bem e Djane não se machucou. Nem o Renato. Foram só uns arranhões, né, Vini?
Iara busca amparo no irmão, mas ele se mantém imóvel e distante. Ela, no entanto, faz um cochicho repreendendo a ele, que enfim responde, sem muita vontade.
— Isso. Ele salvou... ele salvou minha mãe... de um desastre maior.
Não deixo essa passar.
— Que você vai contar.
— Vou.
— Agora.
Vinícius assente, mesmo retraído. No dia anterior, em que foi revelado à mesa que ele havia dormido no carro e, depois, que também me ouviu falar durante o sono, eu estava mais avoada e vulnerável. Agora, descansada e estável, não é que eu esteja com a faca no seu pescoço, como mencionei antes, eu só quero me assegurar do que foi essa participação do Aguinaldo. Também para não ser reativa demais sem saber o que rolou.
Colocando as mãos nos bolsos da bermuda, bem desgostoso, Vinícius começa e com certas divagações... explicativas. Não sei se por estar falando ou por eu ter feito ele falar quase que na marra. Ele encara a parede e tudo ao redor, menos eu e a I.
— Sabe ali... perto do posto da sorveteria... que tem um igarapé? Que às vezes transborda e inunda a avenida quando chove demais? O Renato achou que dava pra passar com o carro. Mas tinha um buraco camuflado.
Iara o completa.
— É, e aí eles ficaram presos, ilhados lá. Só que havia muita água e tava entrando no carro. A inundação tava aumentando conforme a chuva. E eles tiveram que chamar os bombeiros. Pro resgate.
— Resgate?
Me sobressalto. A Iara se aproxima mais para poder me segurar a mão e me certificar de que está tudo bem.
— É, resgate. Só que... eles também estavam recebendo muitos chamados. Os bombeiros. Então Djane ligou pro meu pai. Papai só puxou o Sávio da festa e foram pra lá.
Mas se era perto da minha casa...
— Por que ela não...?
Embora se mantenha consternado com isso, sem nos olhar, Vinícius arremata essa pra mim.
— Me ligou? É, eu também perguntei essa. Mas foi uma situação de desespero e ela... Ela não tava exatamente pensando no que tava fazendo. Só ligou para o primeiro que tava no aplicativo de ligações. Meu pai. Eles tinham se falado depois da meia-noite.
Monto mais ou menos a cena na minha cabeça, encadeando o que me dizem. Renato e Djane na avenida, a inundação, o carro preso no buraco, água os cercando... e chuva. Bem no horário da chuva. Na madrugada. Filipe e Sávio a caminho.
— E onde o Aguinaldo entra?
Iara olha para o irmão e explica.
— Ele tava de passagem, na pista do lado, quando reconheceu o carro. Porque tem aquele adesivo, né, na traseira.
O famoso adesivo de uma árvore de carvalho, que remete ao sobrenome de Renato. Ele ganhou de brincadeira de um de seus familiares e seu carro ficou marcado desde então. Diz o professor que vai arranjar mais um adesivo, dessa vez do ator Renato Aragão para completar o nome. Renato Carvalho.
De fato, uma marca inconfundível.
— Tava ele e a tia Alba. Daí o Gui desceu, no temporal mesmo, e como as portas não tavam abrindo, o jeito era tirar eles pela janela. Daí teve que quebrar e...
Meu Deus. Ainda tiveram que quebrar a vidraçaria!
— Djane foi a primeira a ser removida. Foi removida pelo Gui. Na hora de puxar o Renato que papai chegou. Pelo que o Sávio me contou, foi um alvoroço imenso debaixo de chuva. Porque até que outras pessoas pararam pra ajudar, mas outras também bloquearam um pouco... só assistindo, acho.
Fico outra vez nervosa pela situação e Iara novamente me certifica sobre isso, da maneira mais calma possível.
— E Djane... como ela...?
Na real, ela puxa minha atenção do Vini, que se mantém afastado.
— Ela tá bem, Lena. Inteira. Um pouco dolorida. E assustada, claro. Mas tá bem. Papai foi com eles pra emergência, só pra checar. Só receitaram remédio de dor e muito, muito descanso.
— Preciso vê-la.
Sentindo o impulso de novo neste dia – ou melhor, o agravante da situação, justo aquele que me move –, quase posso saltar da cama. Iara mais uma vez me faz ficar onde estou.
— Acho que ela tá jantando agora... Mas pode deixar que vou trazê-la assim que terminar. Tá bom?
Olho para o Vinícius, que permanece quieto e esquivo, de olhar vago.
— Vini.
Ele desvia o rosto para o ventilador ao lado. Chamo novamente.
— Vini.
— Eu só... tô processando tudo isso.
De fato, é muito para processar, ainda mais por envolver as barreiras dele. Sinto que realmente ele não queria esconder isso de mim, porém, o universo não quis que assim ficasse. Assim, amenizo pro lado dele.
— Então vem, fica aqui. Vamo processar junto.
— Acho que essa é minha deixa então. Tenho que... errr... Vou deixar vocês a sós.
Assim que Iara se levanta e pega enfim a câmera, ela se dirige para o Vinícius e fala algo que não ouço. O namorado assente, novamente desgostoso, mas confirma alguma coisa. Com um beijo no rosto dele, minha amiga dá um último aceno para mim.
— Vini.
Mantendo-se com as mãos aos bolsos, meu Vini deixa a cabeça pender, revelando e evidenciando sua perturbação. Por conta da minha reação.
— Eu não vou responder ele, Lena. Só tive que agradecer, porque ele... ele salvou minha mãe.
— Eu sei. Agora eu sei. E não estou chateada. Só... surpresa? Um pouco chocada talvez. Processando as informações. Como você.
Seu olhar enfim dá de encontro com o meu. Bato no espaço ao meu lado para que venha. Ele hesita por um instante e depois dá a volta na cama, para se sentar onde ofereci. Assim que seu rosto fica na altura do meu, seguro-o, delicada, e o beijo.
— Mereço isso?
Merece um travesseiro na cara, mas ele não entenderia o sentido.
— Isso e mais um pouco.
Menos armada e mais afetuosa, beijo-o pelo rosto e o tomo num abraço, que ele demora a devolver.
— Não quero saber das mensagens, Vini. Quero saber como está. Como Djane está. E o Renato. Aceito notícias até do carro.
— Quando eu passei na avenida de manhã, pra voltar em casa, já tinham removido da pista. O Renato... Acho que ele se arranhou menos porque eram três pessoas segurando e apoiando ele na hora de puxar. E a minha mãe... o Gui puxou sozinho. Do jeito que deu.
Foi mesmo algo grande o que ele fez, penso. Ato heroico. Fico impressionada com isso, também pelo susto, porém, nada mais do que isso. Mas por sentir essa conturbação no Vini, entendo seu conflito.
— Você não fez errado, se é o que tá pensando. E não foi o que eu pensei... sobre a mensagem. Só fiquei confusa. Não entendi o conteúdo. Por estar fora de contexto. Afinal, só li uma parte dela, né.
Se antes era eu quem abraçava o Vinícius, agora é ele quem me toma aos braços, para me colocar ao seu peito e me guardar para si.
— Quis te preservar, porque bastava eu confuso. E você ainda passou pelos trovões dentro do carro.
Levanto a cabeça para ele, atenciosa.
— Sua confusão é minha confusão, e minha confusão é sua confusão. Não sabe?
Ele mexe a boca simulando um sorriso fraco.
— Sei.
— Então?
— Ainda assim, quis te preservar... Mas não esconder.
Nessa ele soa bem sincero. Em correspondência, suspiro por como a descoberta se deu. Deixo que me acolha em si.
— Eu sei. O universo que às vezes quer me antecipar demais as coisas.
Me antecipar demais e me antecipar coisas demais.
Mais certo do que está fazendo e do que está dizendo, Vinícius abaixa um pouco a cabeça para dar de encontro com a minha, mais emparelhados.
— Eu acredito, agora eu acredito. E eu sei que isso... isso mexe com você. Não o universo, mas as mensagens que ele mostrou. Sei o quanto mexe com você.
Afago seu rosto, tão próximo do meu.
— E eu, sei o quanto mexe com você. Sei que mexe também.
Aquele simulacro de sorriso enfraquecido retorna.
— Acho que, como ontem, também com a minha história do carro ou aquela dos suspensórios, eu não estava com medo de contar para você, tava era com receios de como essas coisas iriam te afetar, na tua percepção, porque em geral... você fica bem avariada, sabe? E já tinha acontecido todas essas coisas ontem e aconteceu tantas outras hoje... Quis apenas que tivesse um dia feliz.
Lembro da promessa dele minutos antes da virada de ano, sobre termos um bom ano, sobre ele me fazer feliz do modo que desse. Eu te dou minha palavra... Te dou meu coração. E com esse juramento, o futuro já começou.
— Como eu disse, nem toda vez isso vai estar no teu alcance. Mas agradeço por tentar. E só pra você saber, esse é um dia feliz. Porque você tá nele e... porque a Iara me fez rir a danar. E porque fui sincera com a minha mãe. E porque tive outro... mega papo... com meu irmão. Tive também um desses com a Flávia.
Os olhos dele saltam de repente, surpresos, para então um vinco se formar em seu semblante. Eu continuo a sentir sua pele, segurando-o pela mandíbula.
— A Flávia?
— Uhum. Porque... Sabe o e-mail dela? Eu li.
Utilizando-se do mesmo tom do meu irmão, quando soube sobre essa leitura, meu Vini também demonstra achar inapropriado ou inadequado para o momento.
— Lena...
Só que, pra mim, foi algo completamente diferente. Até me ajudou muito. Pois me deu uma clareza inesperada e bem oportuna à situação. Mas preciso pontuar outra coisa antes disso.
— Foi a forma que ela encontrou pra me falar umas verdades, grandes verdades. E foi intenso, como era de se imaginar.
— O que havia no e-mail?
Encaro sua preocupação e deslizo os dedos pela lateral de seu rosto e cabelo. Também adoto aquele simulacro de sorriso parco.
— Acho que agora entendo sua sensação. Porque quero te preservar dessa.
Com essa, meu Vini insiste e seus olhos ficam mais apreensivos.
— O que havia no e-mail?
Para poder explicar melhor, me solto dele. Até porque tenho que resgatar meu celular ali perto.
— Acontece, Vini, que antes disso, eu tive umas conversas com a minha mãe. Eu e ela acompanhadas de um rolo de papel higiênico, como tu viu mais cedo. Estava contando umas coisas pra ela... Coisas que estavam entaladas há muito, muito tempo. Coisas como a minha briga com a Flávia e como isso ficou interligado ao meu problema de falar durante o sono. Porque eu tava... Tava temendo ter falado coisa com coisa nessa noite também e... Falei como tudo começou bem lá atrás e até como envolveu a Denise. Não pude dar muitos detalhes, claro, mas eu falei o principal. E no embalo, de terminar de fazer essa limpeza, li o e-mail da Flávia. Esse.
Assim como apresentei meu celular ao Murilo nesta manhã, faço o mesmo com o Vinícius. Entrego mostrando o parágrafo-chave, sobre as declarações da tia Alba lá na emergência, assim como o pedido dela pra Flávia, o que o namorado absorve de pronto e também fica sem palavras.
— Fui na casa dela. Pra isso, fiz um acordo com o Murilo e estou cumprindo todos os termos dele. E foi mais ou menos assim que vim parar aqui. E cá estou com você. Tem sido um dia inesperado e longo e complicado, mas com você... com você perto de mim, esse dia se torna bom. Se torna melhor.
Ele suspira, meio balançado.
— Acho que posso dizer que sinto o mesmo depois de saber o que houve com minha mãe. E mesmo comigo insistindo de passar o dia com ela, no final das contas, dona Djane me despachou pra vir ficar com você. Acredita?
Dessa vez eu sorrio de verdade, um sorriso mais suave e brincalhão, porque Djane tem uns ímpetos bem semelhantes aos meus.
— Pior que acredito.
Vini me acompanha nesse sorriso genioso por mais uns segundos, já fazendo drama, gesticulando sobre certas ordens e pensamentos.
— E só veio hoje porque soube que você tava aqui. Ela furou o descanso, e descanso esse ordenado pelo médico, porque você faz o dia ficar melhor.
Me vanglorio com essa, vaidosa.
— Ainda bem que tu sabe.
A sua suavidade, no entanto, dá espaço para certa preocupação. Isso faz com que ele fique sério de repente.
— Sobre a Flávia... você a perdoou?
— Não. Fui lá pra dizer que ela é importante e que me merece. Que aceito as desculpas dela e que ela também foi engolida pela situação. Enquanto eu e os outros fomos engolidos na faculdade, ela e o... eles estiveram sob uma real ameaça. Então fui para dar algum sossego a ela. Alívio, sabe? Isso do nosso desentendimento, isso a gente resolve depois. Precisei ir lá e dar uma abraço nela, desejar um feliz ano novo e reforçar que ela não é uma inimiga. Na verdade, é bem como o Sávio disse. Nada dessa confusão se trata de nós, mas essa coisa toda testou nós todos. E o medo, infelizmente, se sobressaiu. E o que podemos fazer a respeito disso, é nos unir.
— Até mesmo com o...?
Vinícius acena com a expressão, dando a entender o outro.
— Acho que sim. Mas eu não preciso ter um relacionamento com ele pra isso. Os outros podem fazer essa escolha também. Eu realmente sinto muito pelo que a família do Aguinaldo passou, ou tá passando, mas... não quero me meter. Não quero me envolver. Então, sim, vou me preservar disso. Vou me dar um tempo. Mas tudo bem você ter mandado mensagem pra ele, viu?
O rosto do Vinícius parece suavizar mais depois dessa. Continuo, pra todo caso, porque sinto que algo ainda lhe pesa. E acho que sei do que se trata – como mexeu comigo e o quanto mexeu, como mencionou há poucos minutos.
— Quer dizer, era sobre Djane em perigo, né? Você de fato teria feito algo se fosse a mãe dele. Só que isso, ele ter salvado Djane... Isso não muda as coisas pra mim.
— Quando você viu as mensagens no meu celular e soltou de repente... Achei que tivesse mudado pra mim.
É, ele também tem momentos de achar que as coisas vão dar muito errado pro lado dele quando acontecem assim, de surpresa. De achar que vou me afastar porque ele estava falando com o Aguinaldo “pelas minhas costas”. Dá pra entender esse caminho de pensamento.
— Foi repentino, só isso. Um pequeno choque... ou susto... porque ele ainda não me suscita bons sentimentos. Massss... a vida continua, né? E não é só eu que tá enfrentando batalhas imensas nessa entrada de ano. Batalhas, perigos, conflitos... Ao menos seguimos todos inteiros, sem hospital, sem alergias e sem tragédias maiores.
Então uma voz se faz presente, vindo da fissura lateral da porta.
— Casal, eu vou ter que entrar rapidinho pra deixar a câmera. Vou entrar e vocês não vão estar fazendo nada, né? Vou contar até dez. Um... dois... três... nove e dez.
Iara abre a porta devagar, com o rosto coberto com a mão. Mal deposita a câmera numa prateleira, ela anuncia:
— Beleza, tô saindo!
Já ia perguntar de Djane quando ouço uma segunda voz topar com ela no corredor. Silveira. Que foi pego – ou melhor, deixado de escanteio – pelas grandes movimentações do dia.
— Iarinha, entrega meu presente pra ela? Acho melhor assim.
Antes que Iara diga algo, eu mesma respondo:
— I, ele pode entrar.
Ao meu lado, Vinícius quer saber se tô bem o suficiente e eu lanço outra questão pra ele pensar:
— Tem certeza?
— Não quer me ver feliz?
Levanto-me, aprumando o vestido, para receber esse senhorzinho todo maroto e paciente que traz um pacotinho prata nas mãos. Ele me saúda em contentamento.
— Milena.
— Marcos.
Ele abaixa o pacotinho de repente.
— Acho estranho quem me chama pelo nome.
— Tá bom. Silveira.
Antes de me entregar, ele me dá um abraço rápido e apresenta o mimo em questão.
— Olha, é só uma lembrancinha para o seu dia a dia. Um passarinho me contou que você não gosta de coisas muito brilhosas, então escolhi o mais discreto.
— Um presente é um presente, Silveira. Pode deixar que quando alguém passa do ponto, eu aviso. Dona Djane e certas pessoinhas que o digam, né?
Cerro os olhos me direcionando para trás, onde o Vini se encontra, risonho, quase encabulado. Quase. Me volto para o Silveira e abro o embrulho com cuidado porque foi feito de maneira bem delicadinha. O material também se revela ser simples e discreto. É um estojo colorido em rosa e lilás, fofo e nada espalhafatoso para esse tipo de cor. Só que quando viro ele, para conferir a ponta de um desenho, vejo que certa figura inesperada se encontra nesse artigo de papelaria. Pisco para a imagem, pega de surpresa.
— O que foi? Errei no desenho? É muito infantil?
— Não... é perfeito, acho.
Digo, na maior sinceridade. Mas curiosamente logo sinto o Vinícius às minhas costas, conferindo do que se trata. É a figura da Hello Kitty, de quem nutri uma ojeriza injustiçada por anos a fio.
Fitando mais do estojo, decido ser mais aberta e honesta.
— Até um tempo atrás, eu não exatamente curtia essa bonequinha. Mas hoje já fizemos as pazes.
Até soo surpresa e me surpreendo mesmo. No passado, num agora longínquo passado, fiz cena e briguei com o Aguinaldo por conta de um chaveiro que eu não queria nem pintado de ouro. E agora vou ter um estojo da Hello Kitty. É mais do que uma prova de que as coisas mudaram.
Mas o Silveira não sabe esse contexto todo e acha que falo isso só para agradar.
— Diz isso só porque fui eu que comprei? Porque eu posso dar a notinha pra você trocar. Eu guardei.
Viro o estojo para que fique colado em mim, protegendo-o, para que ninguém tire.
— De jeito nenhum, Silveira. É adorável e é... é perfeito. É perfeito pro momento.
É, de fato, o que sinto. Sinto que aquele peso se foi. A última carga dele, ao que parece, deixei aos pés de minha mãe hoje. Sei que nunca se tratou da Hello Kitty em si, porém, a imagem dela acabou sendo pega no fogo cruzado. Esse fogo agora tá apagado.
— Tem certeza?
— Eu disse que avisaria, não disse?
Silveira me olha com certa dúvida, mas opta por dar uma chance.
— Vou confiar, hein, garota. E tenho que ir, que não é hoje que o capataz da fazenda me deixa em paz. Fique bem, Milena.
Ele me firma nos ombros e eu assinto em concordância.
— Fico. O senhor também, viu?
— Feliz ano novo.
Nesse ponto, fico até um pouquinho sem graça, pois fiz ele esperar tanto. Masss... é sobre sorrir, agradecer e acenar, certo? Aceitar a gentileza do outro e ser gentil, também comigo mesma, tudo numa jogada só.
— Muito obrigada por entender meu espaço.
O olho dele brilha com isso, sorridente todo e logo mandão todo, apontando o dedo quase na cara de nós todos (eu, Vini e Iara).
— Pode contar comigo. Aliás, quero ver vocês pra breve no meu rancho. Ai de vocês se não aparecerem. Levem também o menino Murilo. E o Júlio. Levem todo mundo, que lá tem bastante espaço. Tá, tenho mesmo que ir.
Silveira me dá um novo abraço e um beijo ao rosto, não apenas radiante com o pouco de tempo que lhe dei, como agradecido por isso. Assistir ele ir e ter meu estojo de Hello Kitty em mãos me faz sentir de verdade que agora os tempos mudaram e pra melhor.
Só que, não muito tempo depois que ele sai, com o telefone no ouvido, percebemos uma movimentação estranha pela casa e um vulto passa pelo corredor às pressas. Outro vulto, que dessa vez consigo identificar como minha mãe, passa correndo em seguida. Como a Iara ficou bem na soleira, ela vê de camarote. Porém, vez que atônita fica, pergunto:
— O que foi isso?
Ela olha para o final do corredor, tentando entender, e então o Murilo aparece.
— É que teve uma matéria na televisão sobre os acidentes da madrugada. Alguém filmou o resgate de Djane e ela... ela apareceu na reportagem.
Vinícius passa por nós para então ir atrás da mãe.
Logo um celular vibra e eu sei que é o meu, pois quando me levantei para receber o Silveira, deixei o aparelho na cômoda de madeira perto da cama, assim faz um barulhinho diferente à cabeceira. Ao alcançar, vejo o nome de Daniela.
— Alô?
— Mi, acabei de ver Djane na televisão! Caramba, ela tá bem?
Encaro os outros a minha frente e nem consigo balbuciar alguma coisa.
— Mi, tá aí? O grupo de alunos tá um alvoroço só. Tu tá vendo isso?
— O g-grupo... de alunos?
— Abre tuas notificações aí!
Mal pisco e mal sei o que eu tô fazendo quando puxo a aba das notificações do celular. Quase não vi nada desde cedo. Até a internet havia deixado desligada. Ativo a função e demora uns segundos para as coisas começarem a aparecer. Pra todo caso, deixo a ligação no modo viva-voz para poder acompanhar de maneira mais visual e atenta.
— Ela passou no jornal do almoço e agora no do jantar, pelo jeito. Mas só vi agora. A maior parte da galera só viu agora.
As notificações caem tão alucinadamente que logo preenchem toda a minha tela. Pelo que consigo capturar de uma das mensagens, alguém me marcou em uma das postagens. Ou mais de uma postagem, não sei.
Nisso, Vinícius retorna, apesar de se manter no corredor.
— Ela se trancou no escritório. Não quer ver ninguém.
Olho dele para o celular, que vai acumulando mensagens.
— A tia Helena ficou lá na porta, tentando mesmo assim.
— Dani, te ligo depois, pode ser?
Antes de ouvir qualquer coisa mais, encerro a ligação para me juntar a eles, na soleira. Tenho aquele ímpeto de me mexer, mas exatamente nessa hora Murilo adentra o quarto e, com a montanha toda que ele é, fica logo bem na minha frente. Muito do convicto, ele diz:
— O jantar, Lena. Você precisa comer.
Estaco nessa. Ao encará-lo, meu irmão faz um movimento simples com a cabeça determinando que esse é mais um termo. É como se dissesse: “você não vai resolver nada agora” e “esse é meu comando para você se alimentar”. Vejo que seu Júlio e Silveira se colocam à porta, meio perdidos na história, e vejo que a Iara também fica sem entender a dinâmica da vez. Coloco o estojo de volta ao embrulho, vez que mal havia notado que ainda o segurava, e deixo junto de minha bolsa. Logo puxo o fone pequeno da cama, para mostrar ao Murilo que estaria levando no bolso. E entrego a ele meu aparelho celular.
Assim, simplesmente, sem pestanejar, sem questionar e sem me exaltar sobre isso, atravesso o quarto até a saída e me coloco frente aos senhores no corredor. Filipe estava logo mais atrás, praticamente encurralado pelos dois idosos, que faziam certo burburinho pedindo mais explicações sobre o ocorrido. Até penso em dizer algo, porém, novamente o Murilo se coloca à minha frente e os faz dispersar.
— Vamos dar um tempo pra Djane, né? Ela precisa ficar um pouco fora das vistas.
A Iara também se mete na frente, mas para poder fazer o vô Júlio se mexer, pois ele segue indignado e encarando o filho.
— Eu tive que saber pelo jornal, Filipe. Pelo jornal da televisão!
— Ela quis assim, pai, apenas isso. Precisei respeitar o pedido dela.
Seu Júlio ainda resmunga algo, porém, o Vini se coloca entre ele e o próprio pai, para também ajudar a dispersar a cena. Iara se une a ele e falam algo baixinho que parece convencer o avô, que saem para a sala.
Acaba ficando eu, o Murilo e o Silveira para trás. Esse senhorzinho, que também assiste a confusão indo embora, por fim declara:
— Aqui é agitado, né?
Mordo os lábios, acanhada – embora não devesse – com essa muvuca. Mas solto a pérola:
— O senhor não faz ideia do quanto.
Ao passo que ele segue para a sala, Murilo apoia as mãos em meus ombros para me direcionar para frente também. Isso porque ouso tentar espiar um pouco da situação, só que como o escritório fica depois da curva do corredor, não dá pra ver, nem ouvir nada.
Mesmo assim, caminho muito da calma, com Murilo logo atrás. Quando atravesso a sala de estar, para seguir para a cozinha, Vinícius se adianta para pegar alguns pratos e talheres. O cheirinho da lasanha logo me pega e me conquista rápido.
Na mesa, com meus agentes especiais, me sirvo e percebo que Iara permanece encarando essa conjuntura repentina à mesa sem entender nada do que está rolando. Só que antes que eu pudesse explicar qualquer coisa, meu irmão esclarece do jeitinho dele quando parte seu pedaço da lasanha.
— Ainda não acredito que tu me deu quinhentos passes livres.
Pauso o garfo a meio caminho da boca.
— Eu dei?
Ele me entreolha, de sorrisinho confiante.
— Deu. De cara vermelha e tudo.
Fito a comida no garfo e repenso como vim parar aqui, agora prestes a comer a lasanha do Filipe, e não a comida que o Murilo mesmo preparou desde cedo, o que calhou de ser assim após nosso novo acordo.
Me limita se preciso. Pode me trancar, pode me vigiar, pode tacar comida goela abaixo. Eu não vou deixar de comer ou de existir e eu tô te prometendo isso. Tô te entregando isso. Pode fazer tudo isso comigo.
Nenhuma dessas condições é discutível.
Tenho total ciência do que tô propondo e do que tô falando.
Mais segura e resoluta, devolvo o sorrisinho otimista. Porque isso foi bom, foi muito bom para mim e para outras pessoas.
— É, parece que eu dei mesmo.
~;~
Eu cumpri minha parte do acordo – me alimentei bem, devagar, não chiei nem nada, e até participei um pouco da conversa na mesa. Mas assim que levanto após comer e peço meu celular de volta, o Murilo me encara não querendo entregar. Depois de tudo, não vou implorar pelo meu aparelho, nem me gastar em argumentar mais uma vez, só saio andando, como já não importasse, para poder ir até ao escritório, onde Djane segue presa. Mamãe algumas vezes apareceu pela copa, rondando apenas, para depois tornar a ficar na porta de lá. Vendo que nada mais me pararia, meu irmão me chama e me devolve o celular.
O Vinícius acaba me acompanhando pelo corredor e antes de chegar ao escritório, eu paro um minutinho para conferir algumas das mil e umas notificações no meu celular. Mais estável em termos de mensagens, consigo adentrar o grupo de alunos e ver em quais posts me marcaram. Me demoro um pouco averiguando os comentários e para entender o que é de fato o alvoroço que Daniela mencionou.
Porque, pelo que vejo, todos estão é preocupados com Djane. Linkaram várias vezes a reportagem e muitos deixaram mensagens com perguntas. As principais do momento são para saber se a mulher que apareceu na matéria era Djane mesmo e se alguém teria notícias. Por isso as pessoas estavam marcando meu perfil.
— O que estão falando sobre a minha mãe?
— Eles querem saber como ela está. Alguns acham que não se trata dela, por conta, né, do cabelo rosa, mas muitos estão pedindo notícias. Esclarecimentos mesmo. Me marcaram em alguns posts pra saber. E o fato de eu não ter respondido ainda deixou eles mais agitados. Olha esse tanto de comentários aqui.
Mostro a ele um post que estão adicionando comentários ao vivaço, com mais de 700 mensagens. Basicamente, todos inquietos. Algo que Djane nem sonha e acho que nem seria capaz de sonhar sobre seus alunos.
Vou para os comentários finais, os mais recentes, e neles encontro algo que me surpreende. Acho que faço uma expressão diferente, pois...
— O que foi? Por que tu tá com essa cara?
Vini quase mete a face na minha tela para verificar do que se trata. Então explico.
— Mesmo sem ter certeza se é ou não Djane, alguns alunos estão falando que gostaram do novo visual dela. Que, se for mesmo ela, já querem vê-la. Mas antes querem notícias. E tão me marcando de novo, pedindo atualizações.
Vinícius pega o aparelho das minhas mãos para conferir o que digo. Vê-lo tão receoso e surpreso com isso mexe comigo de maneira a querer logo ver Djane. Porque ela precisa não só saber disso, como também ver isso. Ver com os próprios olhos.
E eu, pelo jeito, serei a mensageira.
Retomo o aparelho e, sem dizer nada mais, sigo para virar o corredor. Encontramos minha mãe de costas coladas à parede bem ao lado da porta. Pelo seu semblante de “eu tentei”, Djane continua trancada. A professora realmente não queria ninguém próximo.
Também sei bem como é essa sensação.
Mas precisava colocar uma grande informação nas mãos de Djane antes de sumir de suas vistas, se assim desejasse permanecer.
— Pode nos dar um tempinho, Vini?
Meu Vini hesita, porém, pelo que intui de minha mãe, ele termina nos deixando a sós no corredor. Assim que sai, colo o ouvido na porta, para tentar ouvir alguma coisa. Não parece que há algum choro, pelo menos não de modo exaltado. Mas não é garantia de que ela esteja mais calma.
O plano que se forma mais ou menos em minha cabeça é apenas de entrar, falar o pequeno grande detalhe e sair, deixando que processe da maneira que queira. Mas o primeiro de tudo, e crucial, é poder entrar.
— Pode fazer mais uma tentativa, mãe?
Dona Helena dá uma batidinha na porta.
— Djane? Sou eu, Helena. De novo. A Milena também tá aqui. Posso entrar?
Nada, nenhuma resposta. Então eu bato na porta.
— Djane, sou eu, a Milena... Quer ir pra casa?
Outra vez, nenhuma resposta. Mamãe então investe de maneira diferente.
— Djane, e se somente eu entrar? Posso ficar só fazendo companhia pra você.
Diante do silêncio impotente, suspiro, achando que não será dessa vez. Mas então uma sombra recai sobre a soleira da porta e uma voz surge, bem enfraquecida:
— Só você, Helena. Tá?
O trinco é destrancado e mamãe mal pode encarar a porta por saber que vai entrar. Eu, no entanto, entro primeiro, bem rápida e descarada. Descaradona! Como Iara mais cedo, entro quase tapando o rosto, para que Djane não se sentisse vista ou exposta, e enquanto encaro a mesa de madeira do recinto, digo:
— Só tenho uma coisa pra te mostrar, Djane. Depois disso, pode me expulsar daqui.
A voz embargada e vulnerável da professora me faz localizá-la ao sofá do escritório, quase às minhas costas.
— Não faria isso com você, Milena.
Me viro meio que por instinto e mamãe logo se senta ao lado dela. Quando posso vê-la melhor, meu coração vai no chão por toda a sua face estar vermelha e tão inchada do choro, fungando. Minha mãe a abraça de lado e, ao tirar do bolso alguns pedaços de papéis enrolados, passa eles ao rosto de Djane, que fica de olhar baixo.
Caminho para perto dela e me coloco aos seus pés, quase sentada. Evito encará-la para não infringir seus limites. Me lembro de ser rápida, para que tenha algo em mente para considerar sobre a reportagem que fizeram. Com muita cautela, começo o que tenho a lhe dizer, colocando meu celular à altura de seus joelhos.
— Olha, Djane, eu super entendo... que a senhora não se sente confortável ou agradada do saldo que teve no salão. E tá super no seu direito de não gostar e querer apagar logo isso. Não tem problema mesmo. Também não tem problema... não ter gostado de sair no jornal da cidade, principalmente pela exposição desse fato capilar e sem a tua autorização. E o que tenho aqui para te mostrar... isso não é para interferir nessa sua decisão. É só algo que acho que a senhora gostaria... deveria saber.
Um tanto nervosa, porém firme, Djane coloca a mão sobre meu aparelho, entendendo que isso é como uma entrega.
— O que tem nesse celular, Milena?
Fitando seus pés num sapato informal, resgato um detalhe.
— Lembra que às vezes a senhora ficava um pouco chateada... por como as pessoas... quer dizer, os alunos... por como os alunos se referiam à senhora? Por como encaravam o seu ensino?
Djane remove a mão do celular, pois junta à outra sobre o rosto.
— Ai, meu Deus, todo mundo viu, todo mundo me reconheceu desse jeito.
Não tenho como mentir para ela.
— É, alguns alunos viram.
Mas não quantifico isso, não de cara. Mantendo meu rosto baixo, continuo:
— E eles estão comentando sobre a reportagem no grupo da faculdade.
Essa informação faz com que suas mãos caiam ao colo, de assombro.
— Eles o quê?
Dessa vez, levanto a cabeça para ela e abro a torneira de informações.
— Eles estão preocupados com você, Djane! Tipo, aflitos mesmo. Estão desejando melhoras, querem notícias... mesmo sem saber se é mesmo a senhora ou não. Querem saber como está, se passa bem, se... se machucou. Me marcaram em tudo que é post pra saber disso. Seus alunos e seus orientandos.
Enfatizo bem ao final e assisto as emoções da professora irem de um lado para o outro ao receber essa notícia, toda confusa e perplexa. Sua boca fica aberta por uns segundos, como que em busca de palavras, e ela pisca os olhos, demonstrando que está avaliando isso. Por fim, Djane se volta para mim em busca do celular, que acabou deslizando pra o lado no sofá.
— Onde, cadê?
Pego o aparelho e o retenho comigo.
— Antes de eu mostrar, Djane...
Vacilo, não sabendo nem como articular isso, só sei que tem que sair de alguma maneira. Você consegue, Milena. Porque, antes de tudo, ela precisa saber.
— Diz, Milena, diz.
Você é a mensageira e só precisa deixar a mensagem.
— Eles adoraram seu cabelo rosa.
— O q...?
Ligo a tela do celular pra procurar os comentários que vi ainda pouco.
— É, tão aqui dizendo que a senhora tá incrível – e tá mesmo, porque pra mim tá sim, mas eu sei que o que importa é a sua opinião, e os outros... Bom, eles adoraram o penteado também. E, me perdoe pela expressão, que tá fodona demais com esse cabelo!
Coloco novamente meu celular aos joelhos dela, já aberto na conversa de que falo, e me conservo do que pode ser sua reação sobre isso. Porque desde que ocorreu seu incidente no salão, ela ora se exalta, ora se fecha, e desde então tem usado um lenço na cabeça para cobrir qualquer indício. Neste momento, inclusive, está com um lenço em volta do cabelo. Na reportagem, no entanto, não deu para cobrir porque pela confusão, não houve espaço para isso.
Mas entendi por que quis se esconder quando se viu na televisão. Porque aí todo mundo da cidade viu. E quem a conhece, reconheceu. E agora os alunos estão falando dela. Mesmo que falando bem ou mesmo preocupados, estão comentando sobre seu cabelo e isso é outro ponto de perturbação sua. Djane sempre se manteve reservada quanto a sua imagem, tanto pessoal quanto profissional, então juntar tudo isso num desastre só, é quase como ver uma bomba-relógio pronta pra explodir.
Torço realmente para que não se feche dessa vez.
Uma vez que me encontro ansiosa sobre sua resposta, ouso levantar um pouco os olhos e espiar como se encontra. Suspiro de alívio, embora entrecortada, por ela ter puxado o lenço e estar tocando o próprio cabelo, encarando uma mecha que puxou.
Pelo que vejo, ela está... balançada. O que é sim um mega alívio.
— Estão... dizendo isso mesmo?
Toco no seu joelho para chamar atenção ao meu celular com a resposta. Mamãe ao seu lado a incentiva.
— Leia, Djane. Veja por si mesma.
A professora segura o celular e o ergue às vistas, meio paralisada, meio desacreditada. Solto a respiração devagar ante a esse suspense todo, mas verdadeiramente esperançosa ao observar como os seus olhos são rápidos descendo pelos comentários.
— O que é isso... “Fun... House”?
Elevo as sobrancelhas, sem entender essa. Djane coloca o aparelho em minhas mãos e aponta. Mal pisco olhando dela para mamãe, que também me incentiva a checar.
Me volto para onde ela bate o dedo e tento compreender o que dizem. Quando o termo faz sentido, até seguro o ar. De emoção.
— Djane.
Djane Funhouse, mais precisamente.
— O que significa?
Balbucio, de tão chocada que me encontro.
— Significa... Significa que a senhora... virou tipo uma lenda. Uma referência.
— Como assim?
— “Funhouse” é o nome de uma música. Da artista Pink. Pink, rosa, fun, divertida. Estão dizendo que essa é a sua versão divertida.
— Estão? Estão mesmo?!
— Sim. E que eles gostariam de... de ver mais desse seu lado.
Um esboço de sorriso ganha seu rosto, embora ela siga desacreditada e confusa.
Volto ao meu ponto original, para que possa ter o panorama diante de si.
— Mas tudo bem, essa é a opinião dos alunos e não precisa ser a sua. Amanhã o salão já vai estar aberto e a senhora vai poder ver o que pode fazer a respeito da cor.
Só que agora é como se Djane não estivesse me ouvindo, de tão além-mundo que se encontra, outra vez lendo os comentários, conferindo como está a conversa entre os alunos e o que seguem dizendo. Para minha surpresa, ela está mais plácida, e, embora o inchaço tome sua face, já não possui uma expressão carregada ou tão chateada. Está mais leve. Encantada mesmo.
— Charmosa, eles estão falando que eu tô charmosa, Milena.
Ela aponta para mim e para minha mãe, na tela. Libero meu alívio master me prostrando outra vez aos seus joelhos e mamãe também suaviza.
— Mas deu pra ver tudo isso? Na matéria?
Dessa vez, Djane fala mais para si mesma do que para mim ou para minha mãe, e segue passando os comentários, admirada de como há tantos e de como falam bem dela. Mamãe, por outro lado, dá batidinhas em minha mão, para me chamar atenção.
Baixinho, ela diz:
— Você simplesmente faz.
É, pelo jeito eu faço. Diante de agravantes, eu faço mudanças acontecerem. Eu ajudo. Eu vou lá dar uma paz pra pessoa. Simplesmente faço. E agora vou aprender a fazer isso por mim mesma.
Preciso aprender a fazer isso por mim mesma.
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