Notas iniciais
Vocês não vão acreditar, mas esse capítulo foi escrito ANTES DO LANÇAMENTO DO FILME DO DEAD POOL COM O WOLVERINE e do ressurgimento da música febre. Juro solenemente, pois o Vinícius vibrou demais com o retorno do N'sync nas paradas. Vocês vão entender jajá! (Aliás, o capítulo com as músicas de Linkin Park no player da Milena também foi escrito ANTES DO RETORNO DA BANDA e vocês não imaginam o júbilo que fiquei. Parece que tô lançando tendências no mundo agora. Se eu escrever que alguém da turma ganha na loteria, será que eu ganho tbm?) Enfim, hoje tem de tudo um pouco e de cada pouco, ALTAS EMOÇÕES! IM-PER-DÍ-VEL

Mal a I saiu com o Sávio e o Vini voltou para dentro, após realocar seu carro em frente à minha casa, aproveito que todos permanecem ao terraço pra ralhar com eles. Cruzo os braços olhando de um pro outro.

— Tá, o que significa isso?

Murilo é quem responde, tão confuso quanto os outros, que acham que não saquei o plano. Um tão descarado plano.

Isso o quê?

— Vocês combinaram e não me avisaram! De novo!

Mamãe também faz seu teatro, toda desentendida.

— Do que fala, filha?

Me afasto dela para mostrar a questão em toda a sua glória, afinal, a luz do terraço estava acesa, então dava pra ver todos os detalhes.

— Ora, a senhora com esse vestido floral e vermelho, parecido com o meu, e esses dois aí, combinados em preto, branco e azul. E também com desenho de folhas e... bermuda bege.

Claro que a estampa de todos era diferente, mas estavam muito similares, é isso que digo. E ao apontar isso, Murilo encara o Vini, assim como este o vislumbra de repente. Murilo segura a própria roupa, e então aponta pra camisa do Vinícius.

— Caramba! Essa é a camisa que a Lia me deu.

— E essa o Silveira me deu hoje.

— Mas eu tô de bermuda branca.

Ao ver que tô pra bater o pé no chão de chateada, porque nada disso esclarece o que tô reclamando, Vinícius se vira pra mim.

— Juro que eu não tinha ideia de nada. Ia vir com uma branca com preto, mas daí o...

Não dou trela, sigo para a porta da sala, ainda ralhando e ainda de braços cruzados.

— Isso porque o tema era casual de domingo. Estão para além do casual já.

Mamãe passa na minha frente pra me interceptar.

— Mas não combinamos nada, Milena. Eu não sugeri esse seu vestido baseado no meu. Pelo contrário, eu nem lembrava que havia esse na mala. Fazia tanto tempo que não o usava. Ia colocar outro, e um puxado pro laranja, inclusive. E tenho certeza de que os meninos não iriam combinar dessa maneira. Não é, meninos?

Às minhas costas, meu mano se manifesta, para apaziguar. Me volto para ele conforme vem para perto de mim.

— Mi, se for realmente importante pra ti, eu vou no quarto e troco agora. Não tem problema. Mesmo.

— Não é a camisa em si, Murilo. É o fato de terem me enrolado de novo.

Vinícius também se coloca mais próximo, intervindo.

— Só que ninguém tá te enrolando, amor.

Titubeio um pouco, mirando um e outro. Então é isso mesmo, entendi tudo errado. Descruzo os braços e os deixo cair, pesados como os tijolos que os sinto de repente. Mortificada fico.

— Ain, gente. Só não aguentaria ser enrolada mais uma vez. E aconteceu duas vezes seguidas.

— De boas, mana. Acontece. A gente se engana.

Murilo dá de ombros e minha mãe me envolve pelos ombros.

— É, foi apenas um engano. Mas você foi muito, muito perspicaz de ter visto o que a gente não viu. Até então não havia conferido os detalhes. Ou que de fato estão com as mesmas cores.

Mordo a bochecha interna, agora envergonhada de toda essa cena.

— Desculpa, eu só achei... que...

Mamãe mesma completa minhas reticências.

— Achou algo e não era, só isso, querida. Tudo esclarecido e sem problema. Agora vamos para a mesa, que ali sim, algo bom nos espera.

Dona Helena me dá um beijo estalado no meu cabelo e ela e o Murilo entram para seguirem para a cozinha. Fico no batente da porta com o meu Vini de semblante bem caridoso. Ele se aproxima mais de mim e solta o que demoro a processar ser uma bomba.

— Se quiser, amor, por você... fico sem camisa. Até porque agora os seus souvenirs já se foram mesmo. Já tá todo mundo autorizado me ver sem camisa.

Se era um plano ou não para me driblar, só abro a boca em choque. A qual ele cobre com selinho rápido, de repente muito centrado.

— Entenda, Lena: hoje é você quem manda.

Com essa, ele me pega pela mão e me puxa para seguirmos juntos para a mesa.

~;~

Não estava sendo chato, nem ruim. Era como uma confraternização meio aleatória e, afora os looks, era bem semelhante aos eventos casuais de domingo. Como o fato de ficarmos vendo algo na televisão depois de uma bela refeição.

O jantar foi bem simples, a mesma comida do almoço, só que com todos comendo juntos à mesa com papos variados. Como o fato de o Murilo ter adiantado parte do almoço de amanhã para não alugar mais a fadinha – nas palavras dele, para que não atrapalhe a ressaca dela. O Vini já se prontificou a ajudar e jura que dessa vez não vão precisar ser separados, nem ficar no cantinho do pensamento. Ele jurou pro avô também.

Falar de seu Júlio foi a porta de entrada para contar como foi a visita de última hora que fez, também para certificar a todos de que já estava bem após a emergência do dia anterior. Ora e outra eu até esquecia disso – acho que porque não cheguei a ver, só saber através dos outros, o processo tem sido estranho na memória.

— Meu pai disse que vai estrear a colônia hoje mesmo. Gostou a esse ponto.

— Mas você viu a composição? Pra saber mais ou menos qual é o ponto de alergia?

Essa foi mamãe, preocupada sobre qual elemento o afetou.

— Tirei foto da embalagem, pra poder comparar com meus outros perfumes. Só sei que que tem traços de limão, cravo e canela.

Já sobre o Silveira e a tal camisa, foi o motivo do atraso da resposta da fadinha sobre aparecer nesta noite. O Silveira cismou de comprar um presente pra um amigo da fazenda, porque não sabia bem quando voltaria, se daria para ir em alguma loja, e o Filipe e a Iara levaram ele num shopping mais distante, que não teria tanta fila ou desespero pelo último dia do ano. No final das contas, eles todos receberam um presente – até eu. O Silveira disse que quer me entregar em mãos, mas entende se não for possível. Enquanto isso, está com ele, guardado na grande casa. Vinícius disse logo que não sabe do que se trata e sim, o Silveira foi avisado sobre não exagerar no presente – cortesia da Iara.

Para as conversas, confesso, tem momentos que eu dou uma... desligada. Ou viajada. Não sei. Sei que o Vini comentou algo sobre Djane e o cabelo rosa dela – acho que o fato de ela não ter tido tempo ainda de consertar o que chamou de “tragédia capilar” e repensar sobre ir para a pizzaria, para evitar de encontrar conhecidos, principalmente se tratando de alunos seus. Depois de renovar o papo de individualidades com mamãe, dessa vez dona Helena não retrucou tanto sobre esse resultado rosa. Acho.

Porque, de alguma forma, às vezes eu ficava era ligada na música na minha cabeça. Sinto que quando algo musical toca, meu cérebro funciona melhor. Consigo seguir a sintonia e às vezes a letra. Algum vizinho nosso de tempos em tempos aumentava o som de repente e eu parava para prestar atenção, mesmo que isso significasse me desconectar do papo na mesa. Me permitia viver aquele minutinho sem expectativas ou mesmo sem exigências e os outros só seguiam também, às vezes só me apresentando um sorriso, um mimo ou me dando uns beijos estalados ao aleatório.

Isso também me levou a voltar ao Youtube na televisão, para eu mostrar os clipes dos Backstreet Boys pra mamãe. Nem sei direito mais de onde veio essa ideia e dessa vez não ligo mesmo. Começo com As Long As You Love Me e o Murilo me lembra de procurar uma versão com letra traduzida.

— “Contanto que você me ame”. Já gostei desse título. Me resumiu a vida.

— Do tamanho do universo, né, mãe?

Meu mano provoca porque quer e mamãe dá um tapinha de leve na perna dele, que ri ainda mais e se remexe pra caber no sofá junto com a gente. Ele foi o último a se sentar e quase não havia espaço mais, porém, mamãe arranja uma pontinha para ele. O Vini também se ajusta para assim cabermos os quatro, eles nas extremidades, eu e mamãe ao meio.

Fico quase a deitar aos ombros dela. Diferente das caretas feias que ela faz pro meu irmão quando a criatura se mexe, mamãe me envolve toda mimosa. Não sei que milagre é esse que o Murilo não reclamou. Ainda.

— Nossa, esses olhos azuis aí, são tudo de mentira, né? Nunca vi nada assim.

Talvez eu devesse explicar mais sobre quem eram os integrantes e qual era o do grupo, mas acabo é deixando que o clipe fale por si mesmo, que apresente a eles do jeito que se apresentaram ao mundo. No entanto, sem ir muito além, comento sobre isso dos olhos.

— Era bem o padrãozinho da época.

É o Murilo quem outra vez complementa.

— Teve uma vez que eu queria comprar lentes só pra ter olhos azuis assim. Acho que cheguei a pedir? Não sei.

— Se pediu, não foi pra mim.

Mamãe finge fazer um bico pra criatura, que a abraça e tasca um beijão à bochecha. Ela reclama? Não. Faz é ficar toda vaidosa.

— Ainda bem que não fui atrás disso, porque é muito agoniante pôr esse troço no olho. Nem consigo ver quando a Aline coloca.

Inclino a cabeça pra ele.

— Ué, a Aline usa? Não sabia.

— É recente e de grau baixo. É mais pra quando ela tem reuniões com o datash...

Mamãe, vidrada no movimento dos meninos do Backstreet Boys na tela, comenta como quem não quer nada e dessa vez eu apresento um nome a ela.

— Gostei desse da sobrancelha grossa. Ele parece mais sério.

— O Kevin.

— Ei, eu tava falando, viu.

Murilo se finge de chateado e eu apenas quero dizer que também sei fazer a aleatória. Por isso, coloco mais lenha na fogueira de sua falsa chateação.

— Do Kevin?

Mas mamãe está mesmo prestando atenção ao clipe.

— Olha, eles trocaram de posição com as produtoras!

— Por isso que não dá certo ficar olhando esse bando de macho.

Já não sei se é provocação, se é zoeira, se é implicância genuína. Importa? Não. Só ouso jogar de volta:

— Porque tu fica com essa cara de tacho?

— Eu escolho a próxima!

Murilo me rouba o controle da televisão num movimento rápido. Porque, claro, deixo. Deixo também que cubra esse momento já que não sei bem o que tô fazendo ou a razão de o fazer. Quanto será que falta pra meia-noite?

Tão logo miro o relógio na parede da sala, mamãe e Vinícius explodem em gargalhadas por algo que a criatura falou. O leve sorriso que abro é mais por saber que até então tá tudo bem e que não preciso acompanhar tudo.

Quando me volto para a televisão à frente, os integrantes do N’sync estão presos em um manicômio no clipe de Thinking Of You (I Drive Myself Crazy) e o Justin Timberlake tá cantando um trecho que fala sobre o relacionamento que ele deixou escapar por fazer merda. Canto uns versos baixinho sem me importar e tampouco me dou conta dos meus três acompanhantes. Mas quando o restante do grupo bate cabeça quase no final do videoclipe, em pura sofrência, mamãe não deixa de ser espirituosa para comentar e eu para enfim pegar o fio da meada de novo.

— Gente, mas que dramáticos!

— Só é o drama dos primeiros namoros, né.

— Mas se eles fizeram merda, é pra sofrer mesmo... Ih, eles trocaram de papéis de novo. Como no outro vídeo. Mas esse é outro grupo, não é?

Vini dessa vez se manifesta, principalmente por ser seu território.

— Esse é o N’sync, que veio logo depois dos Backstreet Boys. E, claro, o N’sync fez mais sucesso. Bem melhor do que os Backstreet.

Também não sei se essa é uma provocação, uma zoeira, ou se é implicância genuína, só sei que dessa vez importa. Importa tanto que falo eu e o Murilo uníssonos:

Naonde o N’sync era o melhor?

— Só trago verdades. Tanto é que o Justin Timberlake faz sucesso até hoje aí. Quem é Nick Carter perto dele?

Nisso meu Vini tem um ponto, porém, não é lá uma questão considerável de medição, porque estamos falando do grupo, não das carreiras solo. Já me preparava pra retrucar isso, mas daí o Murilo é categórico:

— Cara, agora tu foi longe demais. Sem sobremesa pra ti.

E o Vinícius dá de ombros e sorri em triunfo, como se tivesse ganhado a discussão.

— Não muda fatos.

Murilo cruza os braços e mexe a cabeça de um lado pro outro, teatralmente.

— Não acredito que aceitei um N’synquer na minha casa.

Mamãe olha de um para o outro e diz:

— Vocês entendem que eu não sei nada do que estão falando, né?

O Vinícius aproveita essa deixa para provocar ainda mais.

— Acho que tá é na hora de a gente apresentar o Justin Timberlake pra ela.

— Não tá não, porque nenhum N’synquer se cria na minha casa. Já sei quem a gente vai ver.

O Vini até tenta invocar a lembrança do Natal, quando os dois dançaram uma música do Justin Timberlake, porém, a criatura o ignora por completo e coloca o icônico clipe de Everybody, o que faz mamãe vibrar em palminhas por ter o Kevin na tela de novo. Ela chegou a gritar “o Senhor Sobrancelha!” para comemorar até. Quando aparece geral dançando num salão, bem no início do clipe, me deixo contagiar pela música e até me sento mais ereta, para a ponta do sofá, para poder me soltar mais.

Não demora muito e começo a dançar mesmo, induzida pelos passinhos do Nick Carter fantasiado de múmia. Quando dou conta, estão todos seguindo o ritmo junto, se remexendo envolvidos, e não mais implicando.

Como um golpe do universo, o Youtube joga o clipe de It’s Gonna Be Me do N’sync, para a vanglória do Vinícius, que não só levanta para vibrar, como começa a de fato dançar e seguir os versos e passos da tela. Juro, eu não consigo vidrar em mais nada se não nele dançando solto, feito os bonecos do clipe e empolgado desse jeito. Aliás, canto com ele, incentivando-o cada vez mais, que até pega mais espaço indo um pouco para trás. É claro que não tá uma cópia certinha e eu também não cobraria isso dele, mas que tá incrível, isso tá, para além de muito inesperado.

A competição é realmente algo que nos aciona por dentro e destrava coisas de maneiras inexplicáveis. Porque o Murilo também se levanta pra pegar os últimos refrões. Nesse ponto, eu já nem canto, eu só olho chocada pro que tá acontecendo bem na nossa sala. Mamãe parece também não conseguir processar bem essa disputa.

O Youtube segue com Bye Bye Bye e os dois se encaram, como rivais de filmes de dança, e o show deles simplesmente toma outra proporção – uma por a dança deles estar para além de toda errada, e uma por eu me escorar em mamãe para assistirmos os dois nesse embate bem improvável. Nem consigo mais cantar, de tão bestificada que tô.

É mais do que ouro, é mais do que diamante. É mais do que o aparelho celular do Murilo que mal pude pagar. Ao vivo. Sem câmera. Duas testemunhas.

Eles só meio que “pausam” na ponte final da música, quando a canção também dá uma pausa, e mamãe ia dizer algo, talvez achou que estava terminando, daí eu fiz SHHHH pra ela sem medo de perder os dentes. Logo o Justin Timberlake puxa o refrão, que é inclusive minha parte favorita do clipe, com a derrapagem do carro em fuga (ou perseguição?), e os dois “jogadores” na minha sala estão pulando e fazendo passos completamente malucos e ainda seguindo o ritmo clímax, no modo master empolgados, envolvidos e alucinados até o fim.

Terminam em poses de triunfo, sem ar, completamente extasiados e rivais. É claro que eu e mamãe os enchemos de palmas e surtos e pulos e “quem é o Senhor Sobrancelha perto desses dois?” – tá, essa fui eu. Mas o melhor é o comentário do Vinícius, puxando ar e mirando a criatura na outra ponta:

— Então um nsynquer aqui se criou!

~;~

Jack? E suspensórios?

— Filha!

Dou um salto no sofá quando mamãe me grita do lado, de pé.

— Quê? Que foi?

— Você não tava respondendo e tava encarando a televisão. Assim, bem ausente.

Ela soa preocupada e isso me confirma que tive mais um dos momentos de desconexão. Só que esse em específico, não sei dizer como propriamente, me parece diferente. Sinto diferente. Pra todo caso, explico porque estava quieta assim.

— É que essa foto do filme... não sei. Acho que sonhei com algo do Titanic.

Aponto para a tela do Youtube na televisão, que passa a letra traduzida da música The One, dos Backstreet Boys, só que com uma foto de fundo de tela, uma imagem de uma cena do filme Titanic, com o Jack dançando com a Rose.

Assim que falo sobre o filme, algo no ar pesa. Sinto um desconforto no que mamãe desvia o olhar de mim e se volta para o Vini, mais atrás. Que, quando viro para verificar, é outro que faz uma expressão de quem sabe alguma coisa e tá disfarçando. A sensação fica mais estranha quando o Murilo passa por mamãe trocando alguma mensagem com ela pela própria expressão. Tem algo nisso, sei que tem.

Mas se eles estão esquisitos assim, não sei ao certo se devo perguntar.

Só que não consigo evitar.

— O que tem o Titanic, gente?

Murilo, que veio pro meu lado, entrega minha taça de sorvete e dá de ombros.

— Nada tão relevante.

— Se fosse nada, não estariam com essa cara aí.

Principalmente mamãe, que parece estar se controlando em algo, toda tensa e estabanada. Ela vira de um lado pro outro como quem tá tentando lembrar o que é pra fazer e se barra no processo, porque provavelmente tá sentindo que tá errando. Conheço esse comportamento. Ela só parece acordar e saber que isso tá visível quando o Vinícius a toca no braço para entregar a taça dela e a faz parar. É quando então ela toma um fôlego.

Já o Vini, ele fica atrás do sofá e noto que troca mensagens de expressão com o Murilo. Com esse mistério no ar, estou para desligar de volta quando o Vini começa:

— Lembra que falei, Lena... que queria conversar uma coisa com você... depois? Daqui uns dias?

Dou o braço a torcer por sua disposição de dizer algo e correspondo-o, bem pacata.

— Lembro. Mas do que se trata?

Murilo vai pro lado do Vini e eles parecem discutir algo, mesmo que não digam nada exatamente.

— É sério assim? Vocês estão... me deixando preocupada.

Mesmo sem muita vontade de falar, meu mano fica atrás do sofá e se vira pra mim. Quando se manifesta, faz com uma feição um tanto apreensiva, embora mantenha certa placidez.

— Não é que é algo grande, é só... uma observação. De algo que aconteceu. Só isso.

— O que aconteceu?

Mamãe dessa vez abre a boca, finalmente sem rodeios. Mas também quando fala, sinto sua aflição e não entendo a razão disso.

— Filha, você falou dormindo.

— Falei? E foi sobre o Titanic?

— Hã... Não exatamente.

Ela vem para o meu lado, para se sentar ao sofá. Parece escolher as palavras. Quando explica, muitas vezes busca suporte nos meninos, assentindo com a cabeça conforme eles também vão confirmando o que ela descreve.

— Algumas vezes você até acordou e conversou com a gente. Depois, é como se tudo tivesse sido apagado. Não sabemos se era algum sonho pra você ou se... se estava com alguma consciência. E aí, numa dessas vezes você mencionou a escadaria do Titanic. Foi isso. E algo sobre suspensórios. Né, Vini?

— É, você me perguntou sobre suspensórios. Tipo esse do Jack.

Ele aponta para a tela, onde o Jack segue na televisão com a Rose, a música está ao final e eu olho de um para o outro tentando resgatar qualquer resquício mais de tais conversas que eles dizem que tive. Me dá certa impressão de lembrança, como se tivesse visto um filme do Titanic, só que, ao invés do Jack, era o Vinícius nas cenas da escada.

Mamãe tira a taça de mim e coloca junto da sua na mesinha central. Isso para poder pegar minhas mãos nas suas, toda aflita.

— Diz alguma coisa, Milena.

— Bom, a escadaria me veio em mente agora... como se o Vini tivesse estado lá, não sei. Mas não lembro de conversas. Eu falei sobre o quê? Além dos suspensórios.

Que o meu cérebro às vezes apaga umas coisas, eu sei, mas de repente isso parece tão mais sério que me bate uma coisa esquisita na barriga, uma angústia, sei lá, porque me lembra daquela sensação anterior, de pessoas ouvindo minhas conversas e papos no limiar do sono. Que eu vazei coisas. Vou aos poucos me dando conta que isso aconteceu de novo. Vazei coisas de novo.

Mamãe outra vez busca apoio nos meninos, explicando e confirmando com eles o que foi dito.

— Algumas coisas soltas. Às vezes só nos chamava. Sempre voltava a dormir logo depois.

Demonstrando que sabe para onde minha cabeça está indo, meu Vini também vem para o meu lado, de modo que fico entre ele e minha mãe, ele a me certificar do que eram essas conversas e o que eles fizeram a respeito no momento que aconteceram.

— É isso, não tinha muito nexo. Só ficamos perto e concordávamos, pra você se tranquilizar.

Mesmo assim, minha mente fica entre o que me falam e aquela sensação quente ruim conhecida.

— Então... aconteceu de novo.

Constato, baixinho, porém, para todos.

Murilo novamente tenta me puxar de volta do poço que beiro cair.

— Isso acontece quando você tá sob muito estresse, não é? Não é algo exatamente novo, mana. E não é algo para se preocupar. Só talvez... observar um pouco.

O modo com que fala, infelizmente, me leva àqueles dias em que fui invadida. Algo no meu peito enche e pesa e de repente uma gota quente desce ao meu rosto quando pisco. Vinícius é quem captura essa lágrima com o indicador e eu termino de fechar os olhos para pender em meu assento.

Escuto ao longe mamãe discutir algo com o Murilo por ela não estar entendendo o que se passa e meu mano de alguma forma tenta tirá-la dali, sem muita explicação. Não sei como ele faz, só sei que ele consegue, e no minuto que volto à superfície, que vejo o Vinícius sendo cuidadoso de ficar e de me apoiar, permito que me envolva. Um soluço ainda me toma, mesmo que eu não queira chorar. Deixo, no entanto, meu corpo se expressar como pode, como ele sente.

Inevitavelmente, penso em como existe essa parte de mim que não só não controlo, como também me deixa à deriva. Às vezes, também à mercê de minhas companhias e, em consequência, de seu caráter. Me coloca numa posição em que não tenho como me proteger. E isso imerge assim, em tempos e situações específicas. Não posso nem ter minha própria queda ou mesmo baixar a guarda que isso acontece.

É... incapacitante. Torturante.

Aperto a palma de uma de minhas mãos ao meio dos olhos como se pudesse suprimir essa parte do meu cérebro que não funciona. Ou, pelo menos, colocá-lo pra trabalhar nem que seja à base da força do braço. Luto, grunhindo, contra mim mesma até que o Vinícius intercede. Ele me puxa pelo pulso para que eu não atente contra minha própria cabeça.

— Se eu não bato mais na cabeça, você não bate, tá?

— Eu s-só...

— Entende por que eu quis conversar sobre isso em outro momento?

Meus olhos tremelicam numa mistura de derrota, desolação e agonia e já não sei se gostaria de repassar essas tais conversas em outro momento. Ainda assim, Vinícius me beija o rosto amoroso e me segura a face, fitando-me de tal maneira que é difícil não olhar de volta. É aquela expressão sua de quem, claro, quer poder tirar toda essa dor de mim, assim como um dia já quis tirar tantas coisas pesadas dele.

Só que só de pensar em tirar esse peso, me lembro das palavras de Murilo no outro dia. De que isso seria eliminar o problema e isso sim não é possível. O que é possível é aprender a lidar com o raio desse problema idiota e desgracento. Não tenho nem como aceitar esse problema, imagina aprender a lidar com ele. Isso sim me parece bem irreal. Distante. Não compatível.

Quero crer que existe uma maneira de não me afetar, como o Murilo disse, mas não sei se há como não me afetar. Não sei sequer como consigo acessar algumas memórias e outras não, nem qual é o critério e quase posso me recriminar por isso.

Mas não quero me exigir nisso, não agora.

Por fim, abaixo a cabeça outra vez e me escondo no Vinícius. Abraço-o pelo pescoço e me encolho nele.

— Ei, tá tudo bem, viu?

Minha voz sai abafada e tremelicada.

— C-como... Como pode estar bem?

Ele me aperta contra si e me beija os cabelos. Mantém-se nessa posição.

— Você estava em um lugar seguro e com pessoas de confiança. É como o Murilo falou, não é algo absurdo, é algo só para observar.

Fico quieta por um momento, apenas maquinando essa confusão.

Quando ele me solta um tantinho, vejo seu esforço de emparelhar seu rosto ao meu e me fitar intensamente. A pergunta que me faz me coloca em novo fuso.

— Está tendo... pensamentos... estapafúrdios?

De alguma maneira, a questão me norteia. Como um estalo repentino, em que quase posso saltar para trás para ver o que está na minha frente. Ou, melhor, na minha cabeça, me envolvendo em espirais absurdas. Me faz ver melhor o caminho de minhas ideias e onde estou. Como estou e com quem estou. Com pessoas que foram sinceras comigo de não só se manterem observadoras, como de serem respeitosos diante das circunstâncias e ainda me relatar sobre o que se passou. Isso tem valor, não tem?

Tem. Tem muito valor. Tomo um bom fôlego ao perceber isso.

— Acho... que sim.

E acho incrível como essa palavrinha – estapafúrdio – ganhou forma e poder em tão pouco tempo de uso nosso, dando na lata um nome e significado para nos colocar de volta à realidade, instigando a percepção. Tipo, pah, intruso identificado. Alerta, alerta, temos um caminho enganoso e conflituoso à frente. NÃO SIGA POR ELE!

— O que esses pensamento estavam dizendo?

— Que não posso baixar a guarda... e ao mesmo tempo não tenho controle sobre isso. Que meu cérebro funciona de um jeito completamente fora do... Eu não sei qual é o critério. Como tem coisas que lembro e coisas que não lembro. E que eu fico à deriva... fico à mercê das pessoas... e do caráter delas.

— Não posso dizer que não vai acontecer de novo, mas tenho certeza de que você vai estar bem rodeada de pessoas... de pessoas que não vão quebrar a tua confiança nelas. E com o tempo, você vai se sentir segura com isso. Vai poder baixar a guarda, até mesmo sem perceber. E sobre os critérios... isso é algo que a gente vai averiguar. Com o tratamento certo.

Comprimo os lábios querendo essa esperança pra mim. Querendo esse equilíbrio.

Meu Vini ajeita minha franja e coloca uma mecha para trás de meu ombro. Assisto seus movimentos em mim sob seu olhar afetuoso e confiante.

— Vamos apenas deixar o ano novo chegar primeiro, tá? E aí você senti-lo. Aí sim a gente vai fazer coisas a respeito disso. Mas agora, agora não. Você já teve uns episódios de confusão mental e não quero que isso te atrapalhe agora, tá bom?

Confusão mental – então é esse o termo.

— Só quero proteger tua felicidade hoje, amor.

Me distancio um pouco dele ao ouvir a palavrinha “mágica”. Proteger. É a primeira vez que ouço e não tenho o ímpeto de partir para cima, nem de enfiar um garfo no olho de alguém. Não viro a casaca. Pelo contrário, suspiro, pois, sei que quer meu bem. Assim, apenas concordo com seu plano de proteção. Concordo e me deito ao seu corpo no sofá, sendo outra vez envolvida por ele, seus carinhos e apertos. Me deixo, inclusive, ser devolvida à aleatoriedade.

Backstreet Boys – I’ll Never Break Your Heart

Pisco lentamente para a televisão e outra música do Backstreet Boys preenche a sala. Não tem mais a foto de fundo do Titanic, é de outro casal, de outro filme que não conheço. O tom da música é mais calmo, quase como uma canção de ninar e nela me permito mergulhar. Pra abafar todos meus pensamentos estapafúrdios e danosos.

Mamãe irrompe esse momento de repente, de olho na televisão.

— Eu conheço essa música. Acho que tá naquele CD que o pai de vocês ganhou. Aquele da rifa da associação de moradores.

Murilo surge logo depois para se manifestar.

— Então os Backstreet Boys ganharam.

Meu Vini sorri de leve e insiste no seu argumento.

— Isso não muda fatos, cara.

De fato. Não muda o fato de que estou com pessoas de confiança, que respeitam meus momentos e querem demais o meu bem. Constatar isso me tira um peso e uma levidade fica. Meus músculos então, parecem se soltar de cordas enrijecidas.

Talvez seja, realmente, sobre aceitar o problema e aprender a lidar com ele.

~;~

— Oi, minha estrela linda.

Essa entrada de chamada me coloca atenta e incerta de repente.

— Estrela?

— Já gastei bastante a palavra “princesa”. E você, Milena, precisa de um novo título. É uma estrela guia.

Lisonjeada fico, pega assim desprevenida. Mas esse é papai, sempre com umas ideias diferentes. E eu, né, sempre negando certos papéis.

— Não sinto que estou guiando, pai.

Vislumbro o Vinícius no sofá mexendo no celular e sei que não devia estar dizendo essas coisas. Mas, ok, às vezes sai. Simplesmente sai.

— Não foi esse o nosso acordo, senhorita. Agora sorria e agradeça o elogio.

Sorrio por essa bronca justa. Estou aos poucos entendendo o recado – o que penso em dizer, porém, faço o que me pede.

— Obrigada, pai.

— Quem tá aí do lado pra atestar que você tá sorrindo mesmo? Preciso de testemunhas. Cadê teu irmão?

Olho para o corredor, como se dali o Murilo pudesse despontar por um acaso. Também estava em uma ligação. Agora que falta poucos minutos para a meia-noite, nossos celulares apitaram e fez cada um ficar pra um lado. Como vim pegar o carregador, fiquei pela mesa da sala ao ver a ligação de papai.

— Tá pendurado no telefone também. Acho que com a Aline.

— E tua mãe?

Sorrio com mais sinceridade ao vê-la levar pacotinhos de cookies para o sofá e dividir com o Vinícius.

— Tá mimando o Vini.

Do outro lado da linha, papai inspira um bom ar.

— Ela me falou o que o garoto fez hoje. Não desejaria menos do que isso para você, meu amor.

— Pai.

— Tô elogiando esse teu namorado. É um bom rapaz.

Isso é algo digno, de fato. Principalmente por ser meu pai a apontar.

Só não comento isso de imediato porque uma coisinha diferente me chama a atenção, que estranho e pergunto:

— O senhor ainda tá jantando? Tô ouvindo uns barulhos de prato.

— Tô limpando uns antes de lavar, só isso. Pra adiantar uma parte e não deixar uma baita pilha pra amanhã. Cadê meu elogio? Pra eu sorrir e agradecer.

Mamãe já tinha me falado sobre isso e disse inclusive que foi influência minha, mas agora me parece que foi influência do Vinícius, pois ela também disse que a referência de papai foi do meu namorado. Que se o Vini faz, ele também pode fazer. Algo como uma pequena competição? De qualquer maneira, fico tão boquiaberta que demoro uns segundos pra devolver o modo brincalhão.

— Não desejaria menos do que isso para apoiar a mamãe.

Ouço seu suspiro de quem foi pego e um estalar de língua por uma falsa frustração de seus planos.

— Garota sa-bi-da.

— Não era eu estrela?

Aprendi logo com ele a provocar.

— O estrelato às vezes sobe a cabeça. Mas tenho muito orgulho de ti, viu. Muito orgulho do seu irmão.

Ele também sabe como pegar meras brincadeiras e torná-las poderosas lições, dessas que mexem dentro da gente e enchem os olhos. Não quero disfarçar esse sentimento, mas deixo que saia, do melhor modo que posso fazer, afinal, agora sinto-o de modo mais consciente.

— Também tenho muito orgulho do senhor. Fez coisas incríveis esse ano.

— Nada em comparação a vocês.

Rio, de olhos e nariz cheios, porque ele tá sendo outra vez esse brincalhão reflexivo de pontuar grandes verdades. Só esqueceu de um detalhe: o que vai, volta.

— O senhor tá se menosprezando uma hora dessas? Na minha cara? Não deixo não.

Do outro lado, ele ri, também dispersando desse papo sério.

— E que bom, minha Milena. Fico mais tranquilo que teu discernimento não se abala. É minha guia para meu próprio discernimento. E se ousar se menosprezar depois dessa, eu vou falar pra sua mãe!

Fungo, discretamente, porque papai também sabe jogar sujo. Dessa vez, no entanto, abro meu coração pra ele. Falo do que sinto.

— Rendida estou, pai. Na verdade, agradecida. E com muitas saudades da sua asa.

— Eu também, amor meu. Preciso ir agora. Esse galo vai acordar cedinho para levar seus avós num evento do jornal. Diz pro seu irmão que ligo pra ele um pouco antes de ir me deitar.

Não tem como não perguntar depois dessa:

— Galo?

— Tem asa, mas não voa.

— Ai, pai!

Ele também é dono de me fazer rir das coisas mais bestas possíveis.

— Ligue para seus avós, viu. Eles estavam vendo teu show.

Isso quase me faz virar estátua.

— Eles o quê?

— Tô brincando! Na verdade, te testando. Mas deixo isso pra amanhã. Não deixa de ligar, viu?

Ainda tô me recuperando do atentado dele quando papai se lembra de outra coisa.

— Ah, como estão tuas pisadas, filha? Sua mãe me falou que trocou o suporte.

— É, troquei. Ainda está bem esquisito, mas tô avançando aos pouquinhos. Recriando minha força e confiança no meu próprio pé. O material de agora é para estabilizar e dar mais segurança antes de me soltar no mundo de novo.

— Maravilha! Logo, logo, estará livre, correndo pela casa. Minha garotinha está evoluindo.

A energia que papai me injeta é quase sem igual. É mimoso e animoso numa tacada só. Até sorrir boba me faz, só de cogitar voltar a correr, tal como a garotinha que ele muitas vezes correu atrás. Sou generosa também.

— Bom descanso, pai.

— Tem certeza que está bem?

Olho para além da mesa de estudos e para mamãe na sala com o Vinícius, eles sorrindo de algo que não tenho ideia do que seja. Mas lembro das palavras do namorado. Tenho certeza de que você vai estar bem rodeada de pessoas.

— Vou ficar. Estou com as pessoas certas, sabe?

— Fico aliviado. Bom descanso pra você também. Aliás, mil beijos pra você. Feliz ano novo e feliz boa passagem!

Falar em passagem é fazer meus olhos se encherem ainda mais e eu querer comprimir todas as sensações que envolvem esse momento. Assim, tento me concentrar em me manter falante e falar o principal.

— Feliz ano novo, pai. Te amo.

— Te amor, minha estrela! Tchau.

Assim que desligo, sento na cadeira da mesa de estudos e deixo que as lágrimas que me dominaram no último minuto saiam. Abaixo a cabeça, ainda segurando o celular e o carregador, só liberando essa coisa toda que tá pedindo pra sair.

Num segundo que fungo, o Vinícius se senta na cadeira ao lado.

— Alguém precisa de seu agente especial?

Isso, por alguma razão, me faz me derramar toda. Talvez por estar sendo bem cuidada e amada assim.

— Ô, amor, o que foi?

— O galo.

Não acredito eu que eu falei isso.

— Que galo?

Se num minuto me derramei em choro, agora transbordo em risos chorosos.

— Meu pai. Ele soltou uma história do galo que... Uma piada boba. É só saudades dele, dos papos dele. Da asa dele. O galo tem asa, mas não voa.

Sei que pro Vinícius eu não tô falando coisa com coisa, mas ele também não se importa. Só cata minhas lagriminhas no rosto e me sorri bonito. Brando até. Pra dispersar mais, pergunto de Filipe.

— E você, falou com seu pai?

— A ligação caiu e já congestionou a telefonia. Vou tentar mais pra frente. Quer cookies da dona Bia?

— Se puder pegar pra mim, quero sim.

Ele deposita um beijo na minha bochecha e já sai quase num pulo para pegar um pacotinho pra mim no armário da cozinha. Observo seu amor e empolgação de estar aqui e lembro também de suas palavras mais cedo. Hoje sou eu quem manda.

Estou realmente feliz de ele estar aqui comigo dividindo essa noite tão sensível. Ele, mamãe e o Murilo. Que eles estão me permitindo sentir aos poucos, assim como eu estou me permitindo mais sobre essas coisas e deixando que eles se envolvam e contribuam nesta noite. Estou feliz que estejam sendo esses amores e que o ano está finalmente acabando para recomeçarmos nossa história.

~;~

— No que está pensando?

Atravessada ao Vinícius, no sofá, e sem nenhuma presença mais à vista, só assistia os clipes antigos passando na televisão. Já havia parado de encarar o relógio que parecia não andar e finalizar as horas finais. Ironicamente, o Youtube outra vez brinca com a situação e nos envia a música Until The Time Is Through (“até que o tempo acabe”) do 5ive, que, aliás, é uma canção lentinha e sugere que as pessoas estão numa festa.

Mas não falo sobre esse tempo que não passa. Não é algo que eu queira remoer, nem dar trela. Que o tempo passe enquanto eu fale de coisas boas.

— Você dançou N’sync na minha casa. E se declarou um nsynquer. Eu tô chocada até agora, processando o que foi aquele surto com o Murilo.

Isso abre um sorriso maravilhoso no Vinícius. Não encabulado, nem acanhado. Orgulhoso talvez? Sem presunção, só de nobre alma mesmo.

— Te fez feliz?

Assinto, porque foi um lance completamente inesperado e surpreendente.

— Muito.

— Então tá justificado.

Ele me beija o rosto, animado. Eu me enrosco mais nele, envolvendo seu pescoço. Ia retribuir seu gesto quando de repente o Youtube nos entrega outra música apaixonante. Até dou um gritinho ao reconhecer de imediato qual é – e de quem é. Não lembrava nada do clipe e me surpreendo pelas imagens iniciais. Logo mais aparece na tela o título de This I Promise You, N’sync. Não lembrava direito da letra também e ela me pega de jeito já nos primeiros versos, pois é como se o Vinícius estivesse me dizendo essas coisas. Estando o vídeo traduzido então, fica mais fácil de acompanhar.

When the visions around you

Bring tears to your eyes

And all that surrounds you

Are secrets and lies

Quando visões ao seu redor

Levar lágrimas aos seus olhos

E tudo isso que te cerca

For segredos e mentiras

Ouso cantar um trechinho de que me lembro.

I'll be your strength, I'll give you hope... keeping your faith when it's gone... (Eu vou ser sua força, eu vou te dar esperança, mantendo a fé quando ela se for).

E o Vini de fato diz para mim, entoando a entrada do Justin Timberlake:

The one you should call, standing here all along (Aquele para quem você deve ligar, esteve aqui o tempo todo).

And I will take

You in my arms

And hold you right where you belong

Till the day my life is through

This I promise you

This I promise you

E eu vou

Te pegar nos braços

E segurar bem aqui onde você pertence

Até o fim da minha vida

Isso eu te prometo

Isso eu te prometo

Da tela, o Vinícius olha pra mim e me abraça mais apertado a si.

— Eu te prometo, Lena.

— Promete o quê?

— Vamos ter um bom ano.

Sei que é um gesto e tanto, e também uma expectativa e tanto. Mas sorrio de leve, agradecida pela tentativa dele.

— Não tá no teu alcance isso.

— Te fazer feliz tá. E vou ter sempre um N’sync na manga para emergências.

Isso me faz rir com mais gosto. Até me parece uma proposta interessante.

Eu te dou minha palavra... Te dou meu coração. Essa é uma batalha que já ganhamos... E com esse juramento, o futuro já começou.

Ele diz, sincronizado à música, em português mesmo e eu me derreto toda por essa delicadeza, da canção, do ritmo, dos versos e das palavras que meu Vini diz. E, por coincidência de vida, fogos de artifício no bairro explodem sobre a vizinhança, anunciando que esse futuro começou de fato.

Ao som dos estouros, misturados com o clímax da música, beijo o Vinícius selando esses votos de novo ano. Não poderia desejar melhor passagem do que essa.

Impulsionada por toda essa emoção, não deixo de cantar os versos finais, sussurrados a milímetros dos lábios do Vini, que deixa seu sorriso aberto para mim.

Just close your eyes, each loving day... each loving day... I know this feeling won’t go away, no (apenas feche seus olhos, a cada dia de amor, a cada dia de amor, eu sei que esse sentimento não vai embora não).

Tudo o que eu digo é verdade... Isso eu prometo a você.

Every word I say it’s true, this I promise you, oh, I promise yoooou (tudo o que eu digo é verdade... Isso eu prometo a você).

Vinícius me puxa novamente para um beijo, desses digno de cinema. Que infelizmente ganha plateia. Somos interrompidos pelo gênio do meu irmão, que dessa vez pigarreia até que a gente se solte aos risos.

— Minha vez de felicitar minha irmã, não é? Feliz ano novo, mana.

Murilo abre os braços pra mim no pé do sofá e eu me levanto para ser comprimida pela minha criaturinha.

— Feliz novo ano, maninho.

Logo mais ouvimos mamãe chegar à sala toda em fungados. Ao ver seus olhos vermelhos e o rosto tomado de emoções, só incluímos ela no abraço e eu puxo o Vini junto. Rimos e fungamos juntos aos estouros que seguem acima da casa junto de Keep On Movin’ do 5ive que segue na televisão.

É, ao que parece, entramos sim no estilo.

Notas finais
Então, vocês são BSB ou N'sync? Não sei minha resposta, pois AINDA tô processando a competição. E olha que passei ssssemanassss ouvindo e assistindo os clipes todos. Mas que foi perfeição entrar com N'sync, isso foi ♡ Amo demais This I Promise You ♥ E "Se eu não bato mais na cabeça, você não bate, tá?", e a história do galo hahaha E FINALMENTE TEVE ESSA VIRADA DE ANO, meu Deus! TrechinhoS do próximo? É o capítulo GIGANTE da vez, então não tá todo revisado. O que tenho até então (e que posso revelar) é: "Essa menina precisa desse cuidado, penso. Essa menina tá sendo menina-mulher por muito tempo e quer ser criança de novo. Ser leve de novo. Quem sabe por isso eu tenha chamado o Murilo de (SÓ NO PRÓXIMO) no dia anterior, tal como [...]. Não é exatamente uma vergonha e acho que nem meu irmão encarou assim. Pelo contrário, ele me deu suporte. Eles estão me dando suporte. Estão sendo pessoas de ouro de reagir de uma melhor forma pra mim." e "- O quê, tem tomate nos meus dentes? Como eu a segundos atrás, ela inspira e solta o ar devagar. — É muito bom ver você falando, sabe? E falando mais aberta." e "Acho que agora que abri a torneira, vem tudo." VEM AÍ!