Mantendo O Equilíbrio - Tempo de Mudança (T6 + T7)
181 Capítulo 76
Notas iniciais
Encarando meu prato quase limpo, ao final da refeição, não lembro a última vez que almocei às 3h da tarde. Sei que houve situações nesse ano, porém, não consigo pensar em uma específica ou com clareza. Apesar de estar mais receptiva, e muito mais que bem para meus padrões, tem hora que não sinto minha cabeça no lugar. Tipo, o campo da memória tá um tanto defasado e minha atenção tá nesse rumo junto. Ao menos sei que não é para eu me exigir muito – ou exigir nada.
Deixo para lá e me concentro no que estou comendo. Me concentro em não olhar para o Vinícius mexendo todo livre no celular e mamãe não ter roubado seu aparelho. Me concentro também em não falar nada sobre ela estar de avental de novo, juntando alguns materiais de limpeza. Sequer ouso perguntar onde a criatura se meteu. Me concentro apenas nas últimas garfadas, no arroz, na cenoura, os pedacinhos de frango, a farofa e... o chuchu. Eventualmente, solto:
— Eu não entendo.
Vinícius levanta a cabeça do outro lado da mesa.
— O quê?
— Porque falam chuchu como algo carinhoso. Ele mal tem gosto e não é exatamente bonito.
Por trás de mim, enquanto anda pela cozinha, mamãe comenta:
— Acho que não é sobre o sabor ou a aparência. Pode ser sobre os benefícios ao corpo. Tá comendo tudo, né? Vinícius, ela comeu tudo? Pra ficar forte de novo.
O namorado sorri malandrinho e confirma com um gesto de “Ok”.
— Tudinho, dona Helena. Aposto que não vai ter um grão de arroz pra limpar antes de lavar.
Mamãe para atrás da minha cadeira para me segurar a cabeça e beijar meu couro cabeludo.
— Essa é minha menina!
Só por isso deixo passar esses dois agentes de vigilância – não sanitária – reparando em cada passo ou pensamento meu. Tá, não só por isso. Antes, sei que me sentiria vigiada e agoniada, e agora só posso agradecer mesmo. Pela leveza, pelo cuidado, pelo amor. Doses de amor têm sempre que vir primeiro.
E esses dois unidos é de uma beleza sem tamanho.
É, Brasil, as coisas mudaram.
— Ainda pensando sobre o chuchu, amor?
— Talvez.
Nessa hora, o Murilo surge da garagem com umas sacolas e entra no papo.
— Acho que é pela facilidade da palavra. Melhor do que falar cenoura. Ou alface. Só chu-chu, sabe?
Vinícius endossa, só que todo esperto ao apontar as sílabas ao ar e depois apontar pra mim. Algo que sou reativa na hora, independente da plateia.
— De fato, chu-chu, xuxu.
— Nem vem. Tô lerda, mas tô atenta. Acho. Isso são cookies da dona Bia? Onde tu comprou?
Murilo estava retirando uns pacotinhos da sacola e colocando no armário de cima.
— Na verdade, foi a Iara que trouxe. Ela não disse onde encontrou.
Falar da I é como falar do One Republic pra mim – me ilumina o coração.
Devo dizer isso pra ela? Devo.
— Falando nela, se ela quiser aparecer um pouquinho, ela pode, viu? E não digo isso por conta dos cookies.
Os três riem na cara dura. Porque, sim, soei bem interesseira. Mas a I me entende.
— Pode deixar que mando mensagem pra ela. Aliás, tem um monte de mensagens dela lá no grupo pra ti.
Vini novamente endossa o que meu mano comenta:
— É, ela fez um mega especial lá. Falou sobre o almoço de hoje, a entrega especial, a mesa de convidados, as brincadeiras de vovô, e ainda choramingou saudades.
Só digo uma coisa: foi ele quem começou, Brasil!
— Eu vi e vou contar.
Vinícius veste sua dramaticidade que tanto amo aporrinhar.
— Vai entregar teu namorado, é isso?
Não penso duas vezes.
— Sim.
Atrás dele, meu mano ri e o Vinícius se vira pra ele.
— Não olha pra mim, quem inventou de falar besteira foi tu.
Mamãe dessa vez se senta numa cadeira ao meu lado, risonha.
— Vocês são uma gracinha, sabiam?
Eu sei que ela quer é meu prato, pra juntar com as outras louças, e não sei se quero ceder, porque não quero que ela recaia nessa de fazer as atividades domésticas de novo. Também não posso atribuir isso ao Murilo se ele também tá mega cansado.
Me sobra um palhaço. Direciono e arrasto o prato pela mesa para ele.
— Sou tão uma gracinha, mãe, que...
Mamãe não me deixa concluir o que iria falar. Além de capturar o prato, ela solta informações. Muitas informações.
— Negativo, Milena, o Vinícius pouco descansou desde que chegou. O coitado ainda por cima dormiu aqui na porta, plantado dentro do carro. Fez o café da manhã de todo mundo e cuidou da...
Dona Helena só para porque os dois bonitos fazem sinal para ela não contar. Acho que na sua cabeça, mamãe só entrou na brincadeira e esqueceu com quem tava falando.
Com esse anúncio, fico quieta por um momento. Até então não havia pensado sobre como ele veio parar aqui, ou quando, se houve algum combinado com o Murilo, como foi o processo de comunicação, nada. Mas intuía, por histórias passadas, que tinha rolado algo do tipo.
— A-amor, não tem problema, tá? Não é como eu estivesse escondendo isso.
Alguém me disse isso recentemente. Quem foi mesmo?
Vasculho o que dá na memória e por consequência isso me deixa mais imóvel e distante dos três atrapalhados que se movem a minha frente. Vinícius tenta alcançar minha mão na mesa e há alguma dinâmica alvoroçada entre minha mãe e meu irmão. É então que lembro que foi ela quem disse isso, de “não estar escondendo nada”. Que estava era “postergando” de me contar sobre a crise alérgica e emergencial do Vini.
Coço um pouco a cabeça de ver a apreensão deles todos, sem entender bem o motivo disso. Quando acho que meu cérebro tá melhor, ele me deixa na mão assim. Inspiro, me sentindo sem alternativa sobre o que pensar sobre isso.
— Me ajuda a ir pro quarto?
É só o que digo e me preparo para levantar. Quando o Vini vem pro meu lado, ele dispensa a ajuda do Murilo. Enquanto dou os passos devagar para chegar à sala e atravessar o corredor, ouço o que mamãe diz para meu irmão.
— Foi sem querer, filho, eu juro. Quando eu vi... eu....
~;~
De volta ao meu espaço, iluminado de um inesperado sol, Vinícius segue quieto e receoso. Mais receoso do que quando o vi com a bandeja e meu café da manhã mais cedo.
Da mesa da cozinha até a beirada de minha cama, onde nos vemos de novo, acho que deu pra processar um pouco das informações, o porquê de elas terem me intrigado e por que deu esse efeito desastroso sobre os outros. Quer dizer, é claro que o Vinícius viria depois do que ocorreu. E é claro que ele não mediu esforços. Fez isso com boas intenções.
Fez isso porque era eu e eu em uma situação difícil.
Fez porque sou importante assim.
Agora, eu quero detalhes. E por ver que meu Vini tá apreensivo com isso, sobre eu descobrir dessa maneira, quero também amainar seus anseios. Assim, junto minha mão na sua, de modo que possamos cruzar os dedos e se firmar um no outro. Não quero que tenha medo disso. Nem de mim.
Ficamos lado a lado e prefiro não o encarar de primeira, para que não se sinta tão pressionado. Vou com toda a calma do mundo para que veja que isso que fez não é de todo um problema.
— Pode me falar mais sobre isso?
— Po-posso, claro... É só que... Não é como você tá pensando... e...
Sua perturbação se intensifica a ponto de ele mesmo se atropelar nas palavras e nos argumentos. Intervenho com carinho. Ainda ao lado dele, me aproximo de seu corpo, inspiro seu perfume e deito o queixo ao seu ombro.
— Vini.
— Oi.
— Respira. Eu não tô com a faca no teu pescoço. Eu tô contigo.
Firmo a mão livre nas nossas mãos juntas. Com o polegar em sua pele, faço um carinho ademais e leve nele.
— Tá. Ok.
Só assim que ele sopra o fôlego devagar. Quando se demora nisso, penso se talvez não esteja perdido em tentar articular as coisas pra mim.
— O que acha que estou pensando?
Ele engole a seco, mas responde.
— Que eu exagerei. Que eu passei do ponto.
— Não é isso que tô pensando.
— Não? Então... o q-quê?
— É por isso que pedi para contar a história. Para eu saber o que dizer a respeito. Mas... como você tá assim, agitado, vou te adiantar algumas coisas. Primeiro, você não tá encrencado. E em segundo... Obrigada. Não sei se eu mereço tanto, mas... obrigada.
Isso o alivia de imediato, que quase cai sobre as próprias pernas. Mas sua mão livre atinge em cheio os próprios cabelos, o que é um claro sinal de confusão.
— Lena... eu só...
— Não queria que tivesse dormido na minha porta, ou no carro. Nisso, realmente, é pra se pensar. Pra não acontecer de novo desse jeito.
— Entendo o que diz.
Dou um espaço – de tempo – para que organize melhor suas ideias, de como quer contar. Como ele nada fala, inclino a cabeça e deito em seu ombro novamente, abraçando-lhe de lado e lhe mostrando cada vez mais como estou calma e atenta para ele contar o que precisa contar.
Vez que nada vem outra vez, divago um pouco sobre a luz que incide sobre a parede logo a nossa frente.
— Sabe uma coisa que me choca mais ainda? É como esse sol abriu depois daquela tempestade toda. Não tava em nenhuma das previsões.
Mais comedido, Vini responde, de voz baixa:
— Acho que Deus ouviu nossas preces.
Levanto a cabeça de seu ombro.
— Como assim?
Cabisbaixo, ele junta sua outra mão às nossas mãos unidas, como fiz ainda pouco.
— Quando os trovões começaram, e começaram no modo mais pesado... acho que não teve alma viva nessa cidade que não tenha acordado, ou que não tenha se assustado. Porque tudo pareceu tremer. Eu levantei no pulo, sem pensar duas vezes, com uma força que nem sei de onde tirei. Calcei o tênis e já fui pegando a chave do carro. Só que eu esqueci o celular, então eu voltei pra pegar. Foi a hora que eu topei com minha mãe, no corredor.
Me desvencilho dele só o bastante para poder ouvir melhor o que conta.
— Ela não quis me deixar sair e... com razão. O mundo tava caindo lá fora. Teria sido complicado de dirigir, tanto pela minha condição, quanto pela situação nas ruas e nas avenidas. Mas ela não me falou sobre isso. Ela... Ela disse que tinha outro jeito de te ajudar. Disse que podíamos orar juntos, que i-isso... isso teria mais força.
Admirada fico, chocada demais por essa condução de Djane.
— Eu até resisti um pouco, porque sentia uma urgência, de que você tava precisando de mim. Mas daí minha mãe disse: “Ela vai precisar de você amanhã. De manhã você vai”. Assim fomos para o quarto dela, onde ela já estava rezando, desde cedo, e ela me ensinou também... a r-rezar. Até-é... os... trovões... passarem.
O embargo dele se torna o meu embargo, de modo que meus olhos se enchem de imediato. A real é que me desmonto toda com esse seu relato, comovida.
— Vini.
Ele funga um pouco, sem se importar de demonstrar e toma um ar pra continuar.
— Eu não sabia o que era rezar faz muito tempo. Acho que não conversava com Deus desde que eu era criança... Não, pera, na adolescência; quando meu pai teve que ficar um tempo no hospital. E depois que ele morreu, eu meio que deixei de acreditar nisso, não sei dizer. Mas ali com a minha mãe, a gente focado no que tava... p-pedindo, e também... agradecendo... as coisas b-boas... Foi um alento de verdade.
Vinícius sorri um sorriso que não bem chega aos seus olhos, mas sei que está se esforçando. Não para se provar ou manter uma compostura, sei que não. É para liberar com calma o que tem ao peito. Assim, ele funga novamente para seguir falante.
— Independente da crença, Lena, ali foi importante ter fé. Fé de que você iria atravessar a situação... e de que tinha pessoas importantes para te ajudar. Que eu tinha que dar esse espaço. Deixar as coisas nas mãos de vocês e confiar. Minha mãe também me ajudou nisso. Não sei quem dormiu primeiro, só sei que em algum momento... a gente dormiu. E quando o sol bateu de manhãzinha no meu rosto, eu sorri e peguei a chave do carro de novo. Era pouco mais de 7h da manhã.
Abraço-o seu rosto com tudo e movo-o para poder lhe abraçar por completo. Para eu me aninhar nele e ele em mim. Em resposta, Vinícius me aperta forte e eu o beijo ao alto de seu pescoço. Aos poucos, ele me dá uma folga, mas sem me largar. Eu tampouco, firmada em seus cabelos. Quando ele deita a cabeça nas minhas costas, também me faz um carinho por lá. Não muito tempo depois, retoma sua história.
— Quando eu cheguei aqui, eram umas 7h20, acho. Liguei pro Murilo, mas ele não atendeu. Liguei pra sua mãe e nada também. Liguei até pro seu celular. Ousei bater na porta, mesmo com medo de atrapalhar. Como não houve nenhuma resposta, voltei pro carro. E aí vi que eu tava sendo burro, porque esqueci de ligar a internet do celular. Foi quando que eu vi a mensagem do Murilo.
Lembro do texto que me mostrou mais cedo. Meu irmão dava a grande notícia e disse que ia ficar off. Afinal, precisava descansar também.
— Com essa, fiquei entre voltar e ficar. Minha mãe até me pegou nessa, já que saí sem ela perceber. Ela me pediu pra voltar, vez que todo mundo devia estar dormindo. Estava muito cedo mesmo. Daí ela disse algo que me lembrou você.
A curiosidade me pega com essa. Por isso me solto do Vini, apesar de não deixar de segurar ou acarinhar seu rosto. Dessa vez, ele abre um pequeno sorriso pra mim. Porque no meio da confusão, havia eu. E o meu jeitinho de ser.
— O que ela disse?
— “Vou ter que ir aí rebocar teu carro?”.
Parece algo que eu diria mesmo. O que a Milena diria.
O pequeno sorriso dele some ao retomar o restante da história. Sua expressão é tomada por outra coisa. Um não orgulho do feito e certo arrependimento. Um pesar.
— Mas entendi a insistência dela... E fiz um pequeno teatro com isso. Liguei o carro para que pudesse ouvir, que eu iria voltar, e depois de finalizar a ligação, eu não saí. Quis esperar mais um pouco, só que dormi no processo. Dentro do carro.
— Ai, Deus.
Depois de todo o incidente da alergia e tão pouca recuperação, ele ainda por cima ficou preso dentro de um carro no começo da manhã. No sol. Vulnerável a altas temperaturas e até mesmo a assaltos.
Ele sabe que fez errado. Tanto sabe que outra vez abaixa a cabeça, envergonhado. Mas está me contando.
— Só dei conta de mim quando um moço gritou o nome “Correios” pra um dos moradores aqui perto. Por um acaso de vida, foi a hora que a sua mãe abriu a porta, pra colocar o lixo na rua. Foi quando ela me viu. E me deixou entrar.
— Ain, Vini.
Ele até suspende mais a cabeça, embora não consiga me olhar diretamente. No entanto, continua, continua sua história. Quando fala em ser útil, um pouco mais de vida o faz jogar os ombros ao alto, como um ato compensatório. Compensatório até demais.
— Ela me ofereceu um café, mas vi o quanto ela tava cansada, então fiz com que voltasse para o quarto e fiquei lá na cozinha. Pensei em ser útil. Preparei suco, café, lavei umas frutas. Até pra usar o liquidificador, coloquei naquela tomada da garagem, pra não fazer barulho. O que sujei, lavei, guardei...
Eu faria isso, eu acho. Pensei em algo assim depois que a Iara saiu daqui. Que me imaginei indo para a casa de Djane, mesmo na minha situação, levando mais um problema pra ela e eu tentaria compensar. Ajudar. Ser útil. Ficar perto.
Até mesmo usar o liquidificador na tomada mais longínqua da casa para não atrapalhar seu precioso descanso.
— Depois o Murilo me viu andando aqui pela casa, mas logo voltou pro quarto. Fiquei vendo televisão até a sua mãe aparecer, lá pelas 10h e ficamos conversando, já mais leves. Ela me contou um pouco sobre como foi a madrugada. De como foi ver o Murilo em ação.
A última informação me tira de meus devaneios.
— Ela... viu?
Vinícius esclarece, agora mais centrado. Acho que por perceber minha tensão repentina, ele me segura as mãos, que basicamente ficam ao ar ao ouvir sobre mamãe ter presenciado tudo.
— Na verdade, ela mais ouviu do que viu. Manteve distância, como seu irmão pediu. Ela ficou um pouco desorientada na hora, mas cedeu.
Não sei exatamente como me sentir com essa informação. Na hora, não a vi. Só que também não vi muita coisa. Pra mim, minha mãe apareceu só no final. Achei que estivesse apreensiva daquele jeito por ter ficado distante, principalmente com a força daquele temporal medonho, e por intuir como eu estava. Achei que tivesse sido uma surpresa, tanto pra mim, quanto para ela, “participar” daquele final.
Ao mesmo tempo, às vezes tenho pouco flashes de memória quanto ao que aconteceu. Foi uma bagunça de sentimentos e ações e trovões bem pesados. Não havia muito como reagir a eles. Ainda assim, o Murilo não só cuidou, como deu conta de nós duas. Ele conseguiu essa proeza.
Ele enfim acertou o ponto da coisa toda.
— Depois ele apareceu na cozinha e disse que eu poderia entrar. Fiquei um tempo aqui com você. Algumas vezes você se mexeu e me viu e... dormiu de novo.
Caramba.
Me sentindo bem sem noção das coisas, exclamo:
— Nossa, não tenho a mínima lembrança disso!
E por ele estar nesse contexto, também pergunto:
— Você chegou a dormir?
— Um pouco, sim.
Seu tom leve demais, não muito confiante, me faz estreitar os olhos para ele.
— Vinícius Menezes Garra. Conta direito.
— É sério, eu dormi um pouco. Nem vi quando a I passou aqui. Só falei com ela mais cedo, quando a sua mãe tava tomando café.
Amaino depois de tanto inquirir e ele reforçar que também descansou.
— Nossa, aconteceu... tanta... coisa.
Expiro o ar como ele ainda pouco.
— Mas não são coisas ruins.
Bem o que a I me disse e provavelmente disse a ele também. Confirmo.
— Não são.
— Eu só quis me manter perto.
Sua confissão me faz acordar pro ponto inicial da conversa. De maneira pacífica, volto à sua questão para que se tranquilize.
— Eu sei, não precisa se justificar. Aliás, não precisa se preocupar. Eu só tô encadeando as coisas na minha cabeça. E tô me reafirmando que tá tudo bem.
Acho que tô tão avariada que ele quer se certificar do que tô dizendo.
— Tá bem mesmo?
— Acho que sim. Quer dizer, é um modo diferente de processar as coisas. Sei que, em outro momento, eu me sentiria culpada de alguma forma por você ter se colocado, ou ter de se colocar nessa situação. Só que agora acho que só consigo pensar no... no cuidado dedicado que você teve. Que vocês todos tiveram. No empenho de fazer tudo isso, sem hesitar. Agora mais nivelados em amor e não em extensa hiper proteção.
O alívio recai sobre ele novamente.
— É, nivelados em amor. Com um cuidado mais dedicado. Isso, isso mesmo.
Reforço essa postura, porque é o tem dado certo para a gente. Carinho e acolhimento também. Assumo isso ao correr os dedos por seus fios de cabelo, na lateral, fazendo com que se baguncem do jeito que eu gosto.
— Porque agora a gente conversa. Conta as coisas. Ajusta se preciso. Trocamos figurinhas.
Vinícius reafirma isso quase como um eco, agora mais sereno.
— Trocamos. Muitas figurinhas.
Acabo lembrando de meu irmão quando ele descobriu que eu sofri a queda na escada e apenas se preocupou. Ficou aliviado de ser apenas preocupação, não culpa.
Não estou sentindo culpa. Estou sentindo as doses de amor.
Que sempre devem vir primeiro.
— Acho que agora consigo reconhecer tudo isso como algo bom. Muito bom.
Firmando a mão à sua nuca, levo meu rosto ao seu e o beijo com suavidade, apenas com um toque leve aos lábios. Porém, por não os sentir se mexer em correspondência, espero para saber qual é a sua resistência. No entanto, me mantenho quieta, próxima dele, de olhos fechados, ouvindo.
— Ainda tenho uma coisa para contar. Não é exatamente ruim, mas não é algo que... É que prefiro conversar sobre isso depois. Porque... é um pouco delicado. E acho que temos que comemorar a sua vitória, nos concentrar nisso. Tudo bem? Podemos conversar sobre isso daqui uns dias. Pode ser?
Assinto, sem problemas.
— Tudo bem, posso esperar.
Só assim ele de fato parece respirar. Soltar um bom ar e volta a se regular. Acho que eu também. Ouso até brincar um pouco. Ou nem tanto. Abro os olhos para ele.
— Viu, você não precisa se pelar todo de medo de mim. Nem eu de você. E nem mesmo você de você mesmo. Aliás, acho que... Acho que tenho que te pedir desculpas.
— Pelo quê?
— Por ter forçado a barra com você. De novo.
Dou um sorrisinho sem graça, assumindo meu erro. O Vini, por outro lado, só pisca, perdido.
— Quando fez isso que eu não lembro?
— No sábado. Quando tu tava confuso. Enchi sua cabeça de coisas. Pressão. Sei lá.
Dessa vez, ele se aproxima de mim, virando-se mais para meu lado. Quando fala, parece bem sincero e determinado, o que me deixa meio bamba das ideias.
— Mas, Lena, você me ajudou pra caramba.
— Ajudei?!
— Sim. Muito. Clareou minha cabeça de um jeito... que nenhuma corrida poderia ser capaz. De verdade.
Eu, por outro lado, custo um pouquinho a acreditar. Quer dizer, não sei se foi bem... a abordagem... para o seu caso.
— Não sei, Vini... Eu mesma tive minhas ideias estapafúrdias. Tive meu momento insano. Também pensei ser ferrada da cabeça.
Uma vida estragada e ferrada, toda ferrada.
— E você conseguiu ver... que eram ideias estapafúrdias?
Repuxo a boca, com pouco ânimo.
— Só depois de muito tempo.
— Mas viu. Quer dizer, percebeu.
Abaixo os ombros pelo peso que sinto deles, assumindo, outra vez, o que me transtorna nessa vida de fobia.
— Ainda odeio essas partes em mim.
Dessa vez, é o Vinícius que vem com suas doses de cuidado e calor, afagando-me os cabelos e o rosto.
— E tudo bem odiar, porque não são agradáveis, né. Ainda odeio as minhas. Podemos odiar por mais um tempo. Com os sisos e tudo.
A quebra de clímax que mais amo.
Rio gostosamente como não achei ser possível, também outra vez, neste extraordinário dia. Ele bem me acompanha nessa. E explica, retomando esse lembrete.
— Não sei bem o que seu pai disse sobre isso, só sei que gostei da parte que você disse que sou perfeito pra você. E amo dizer que você é perfeita pra mim. Eu te amo do jeitinho que você é.
— Doida?
Virtuosamente nada gentil comigo mesma e às vezes – muitas vezes – autodepreciativa?
— Incrivelmente doida e sensacional. A melhor combinação pra fazer meu coração sorrir junto. Viu, eu lembro do que você falou. Guardei aqui comigo.
Ele leva minha mão ao seu peito, no lado onde seu coração bombeia isso.
A melhor combinação.
— Ajudei mesmo?
— Pra caramba. Acredite, é uma boa sensação saber que você me entende. E que está comigo.
Seu sorriso genuíno me afaga mais as ideias, principalmente essa leva de ideias descabidas que preciso desmanchar da cabeça.
— E por que ficou com tanto medo de eu brigar com você?
— Porque eu senti que exagerei. Eu sei que exagerei. Você mesma me pediu espaço. Só que a força daqueles trovões... Apenas quis fazer alguma coisa. Ainda por cima, enrolei a minha mãe. Sei que ela não tá uma fera comigo. Porém, foi mais um alerta. Só ainda não consegui maneirar. Mas vou trabalhar isso em mim.
— Vai correr de tênis azuis?
Sei que falei errado só para amenizar mais o clima de papo cabeça. Ele me corrige com graça.
— Meias azuis.
— Acho que posso pensar em fazer uma atividade, só pra ter essa sensação que vocês tanto falam. De clareza mental.
Vinícius se aproxima, o que penso ser um beijo e o bonito disfarça, apontando para baixo, para chamar minha atenção pra outro fato.
— Podemos fazer um experimento. Até mesmo pra você movimentar mais esse pé.
Faço um bico porque tô no meu direito, ansiando demais pelo meu beijo.
— Vou pensar no caso.
— Tenho um caso para você pensar. O mais rápido que puder.
Será que ele tá me enrolando, o sacana?
— Que caso?
— Acha que... eu poderia... ficar aqui... hoje?
Encaro sua expressão e não parece ser exatamente uma brincadeira.
— Hoje por quê?
— Pra virada, amor.
— É hoje... a virada??
Ele balança a cabeça em confirmação e em expectativa. Eu? Pisco, meio perdida. Perdida nos dias, na semana, nas referências de rotina.
— Caramba. Eu jurava que seria... amanhã.
Sim, de alguma maneira, achei que haveria mais um dia de espera. Mesmo que também não fizesse muito sentido, uma vez que também conversei sobre isso com a I ontem.
— Eu tô ótima, né. Primeiro esqueci o Natal, agora esqueci a...
Eu que não tô acertando o ponto agora.
— Não esqueceu nosso aniversário.
Sei que o Vini quer me injetar ânimo, porém, quando minha memória funciona, ela vem com uma informação nada agradável. Vini? Dá de ombros.
— Esqueci aquele outro, o de seis meses.
— Coisas estavam acontecendo.
Repito o que ele diz, enfatizando mais desse fato, porque é um fato relevante.
— Coisas sempre estão acontecendo.
Vinícius suaviza em resposta.
— E continuamos juntos.
Suspiro. É, continuamos juntos. Isso também é bem válido. Talvez mais do que minha memória duvidosa.
— Você passou por muita coisa nas últimas semanas, amor, é normal se confundir.
Quando sinto seu carinho abrindo caminho por minha franja, amoroso assim, me puxando de volta ao mundo assim, ele me faz parar de me acusar desse jeito, aquietando não só esses pensamentos ferrenhos, mas toda uma voz estapafúrdia. Realmente, tenho que pegar leve com minha cabeça.
— Então... O que acha?
A sensação de ter sido pega de surpresa, no entanto, permanece. Confusa também, o que não contribui com uma boa reação. Pelo menos não a que ele esperava.
Titubeio um pouco, sem saber bem o que lhe dizer.
— Não sei, Vini. Acho que deve passar com a sua família.
— No sábado a gente conversou sobre passar junto.
De fato. Eu tinha altos planos e tinha... altos problemas à vista.
— É, mas naquela hora, naquele dia... as coisas estavam incertas. Eu ainda pensava em ir no show e tava com dificuldade de largar isso de mão, porque na real eu tava zangada com minha própria fobia. Só que as coisas já mudaram de lá pra cá. Então, não sei, é melhor que fique com sua família. Tenha uma boa passagem e se divirta.
Tu realmente acha que essa vai colar, Milena?
Não. Minha cara deve tá tão imprecisa quanto minhas ideias.
Ao mesmo tempo, não tenho muito a oferecer. Na verdade, não tenho quase nada a oferecer, bem diferente do que foi a virada de ano anterior.
— Acha que consigo me divertir?
A Iara disse a mesma coisa. Amasso um lábio no outro, vez que não sei se consigo repetir essa ideia repentina. Nem eu sei o que quero. Não tava considerando nada para o dia de hoje ou o que preparar ou... sei lá. Não tão em cima da hora assim. Não sei nem o que será do meu jantar, que dirá uma ceia ou se vai haver trovões. Sei que eles estão sendo esperados por toda a nação, já que deu em todos os jornais que vai chover na nossa região. E vai ser chuva forte.
Como nada digo, Vini preenche minha quietude.
— Vou passar a noite inteira sem ver ou ouvir nada que me disserem. E pela cara que vou estar, pode apostar que eles vão me liberar. Me expulsam até.
É, é provável mesmo. E ainda assim, não sei se isso é uma boa ideia.
— É que... só acho que vai ser chato aqui. E não quero ter que tirar mais um daquela casa.
— Bom, meu pai, vovô e o Silveira vão pra pizzaria, pelas razões deles. Depois que o plano mudou, minha mãe disse que poderia passar com o Renato e a família dele. Então...
Me atenho com cuidado ao que fala, para que a cabeça funcione certo, pelo menos dessa vez. Leva um tempinho, mas pego no tranco acho.
— Então... Onde a I vai ficar? Ela tinha me dito que tinha planos de ficar em casa, mas se geral vai sair...
— Não sei também.
— Ainda acho que deveriam ir ao show. Pra dar apoio pra Dani, ficar com a família e depois me contarem tudo.
Mal eu termino de falar e uma voz ressurge: Não é curioso que você está pensando em todo mundo e todo mundo só está pensando em você? No seu bem-estar?
Foi o que minha mãe me disse quando sentamos eu, ela e o Murilo para discutir a questão dos trovões que viriam. Não vai ser nada triste, se é o que tá pensando, disse meu irmão.
Me sinto mais embaralhada e dividida. Quero ou não quero? Não quero por quê? Tô ficando doida de novo? Tô me exigindo de novo?
— A questão é que não quero ir, não sem você. E não vou exigir que vá. Quero estar onde você está.
Pelo seu tom de súplica, meu coração fica pequenininho com essa última. Fica tão mais complicado de dizer que minha preocupação mora na situação chata e trágica que estou, ou que é pelo incerto que também fico bagunçada em minhas expectativas. A verdade é que não quero comemorar nenhuma festividade. Não quero saber de fogos ou grandes eventos. Só quero esperar passar, quieta, aleatória, sem me dar conta de nada.
Como posso explicar isso sem parecer algo... penoso demais?
— Vou ficar aqui, Vini. Tranquila e cuidada. Você pode me ligar nos primeiros minutos do novo ano. Ou nos últimos minutos desse.
— É nessa hora que a telefonia não pega, tu sabe... Eu só... Quero muito estar com você, Lena. Te juro que isso não é nenhuma insegurança, até porque isso não é uma briga ou uma vontade de manter uma postura, ou sei lá. É só eu querendo te apoiar. E passar a virada com você. Mesmo que seja olhando para as paredes ou o teto. Posso apoiar a Dani ou a Iara em muitos momentos depois.
— Sei que não está inseguro agora.
Acho que sou eu quem está. É isso mesmo?
No que Vinícius insiste, ele declara mais de suas intenções, comprometendo-se sobre o que seria essa passagem de ano, também desejando a praticidade e a simplicidade.
— Olha, se você precisar... se acontecer novos trovões, posso dar espaço. Fico com a dona Helena. Fico em outro quarto. Também posso ser útil na cozinha.
Meu inevitável traço de fazer piada em hora indevida reaparece.
— Tu e o Murilo de novo numa cozinha?
Vinícius, por outro lado, mostra-se sério no que propõe.
— Prometo me comportar. Só quero estar aqui você, como estou agora. Não vai ter papo difícil e não vai ter mais ninguém de fora. Não precisa festa e não precisa... não precisa se preocupar com nada. Eu sei que tô insistindo e que já devia ter parado, talvez aceitado, mas... Só quero deixar claro o que pretendo com esse pedido, te dar todos os detalhes para que possa pensar. E se precisar de mais tempo, mesmo que não haja tantas horas assim daqui pra lá, eu vou respeitar. Dessa vez, eu vou. É só dizer, tá?
Novamente, estava ele preenchendo as lacunas confusas de minha cabeça.
Como mais cedo lhe disse, me sinto grata por esse seu cuidado aos detalhes e não sei mesmo se eu mereço tudo isso. Só que, agora, encarando-o em sua determinação, algo de bom cresce aqui dentro, uma ternura diferente, em que acho que mereço sim. Mereço, inclusive, essa sua insistência, retrabalhando as expectativas, minhas e dele.
Ele me faz feliz assim.
— Eu aceito.
— Mais tempo?
— Aceito que passe aqui comigo. Conosco.
Antes de ser banhado por sua vitória, no entanto, me atenho a outro fato. De outra coisa que eu já estava considerando enquanto almoçava.
— Mas tenho uma condição.
Vinícius segura o próprio sorriso, concentrado em mim.
— Pode dizer.
— Aceito que fique aqui... só se a I for pra pizzaria. Passar sozinha ela não pode. E se ela quiser, ela pode vir antes da festa para dar um Oi. Ou vir se arrumar aqui. Nada badalado, só mesmo pra... a gente se ver. Antes do ano acabar.
Agora sim ele abre o melhor dos seus sorrisos leves.
— Ela vai adorar a ideia.
~;~
Enquanto rememoro quais pijamas limpos tenho disponível para a virada, se fico com o rosa ou o roxinho, qual dos dois Dona Helena vai me pedir pra trocar vez que os shorts de par são mais curtinhos, mamãe bate à porta, entreaberta. Ela parece inquieta.
— Posso entrar, filha?
Minhas sobrancelhas se levantam de instantâneo.
— Desde quando a senhora pede pra entrar?
Mamãe morde uma unha.
— Sinto que falei algo que não devia.
Estreito os olhos e viro a cabeça de lado até me situar do que fala. Volto para minha posição mais reta e a puxo pelas mãos para que sente comigo. Ela ainda hesita, mas fica na beirada da cama, chateada.
— Não foi um problema não, mãe. Só... antecipou umas informações.
— Vocês brigaram?
— Não, só conversamos. Até mesmo pra ele não se colocar mais em situações assim, porque é perigoso. E sim, eu agradeci. Entendi a ânsia dele.
O semblante de Dona Helena se suaviza.
— Quando acho que ele não vai mais me surpreender, ele apronta uma dessas. Nem acreditei ao vê-lo aqui na porta. Ainda nem pude falar com Djane.
Branda, tento amenizar mais ainda seu lado.
— Não entrega ele, tá?
Posso soar brincalhona, mas isso ressoa diferente dentro de mim. Me acende um sinalzinho de que abrando mesmo com todo mundo e tão pouco demais comigo. Já no campo externo, mamãe assente, no mesmo tom, também a pegar leve com ele, admirada com tais atitudes.
— Acho que ele mesmo já se entregou, querida. Mas tudo bem. Quer dizer, ele te ama mesmo. O cuidado dele com você sempre me impressiona. O da fadinha também. E de Djane. A família inteira. É mais do que pedi esses anos todos aos céus.
— A senhora pedia mesmo?
Pergunto, por curiosidade, toda ingênua. Saber das orações de Djane foi como acessar uma nova informação e bem inesperada. Em complemento, recebo mais uma dose de surpresas com um carinho ao meu rosto.
— É claro, meu amor. É o que as mães fazem. Para um tudo, abrem uma prece. E para tudo que recebem, agradecem. Eu sou verdadeiramente grata por tudo isso.
— Fazia um tempo que não via a senhora fazendo isso... Se bem que a distância, né, atrapalha nessa parte. Ver, assistir, saber.
Espevitada, ela faz uma carinha de orgulho e o que revela, faz como um pequeno grande segredo que a anima.
— Eu gosto de fazer em secreto, só eu e Deus, Deus e eu, sem plateia. É mais fácil de entregar o coração assim.
— Que bonito, mãe.
Então entrega outra confissão, risonha, mas bem verdadeira.
— E de reclamar do seu pai. Às vezes.
Rio e fico tentada a alfinetar mais meu querido pai. Porém, pego outra via, agora pensando sobre o que ela ora ou pede (ou protesta).
— Reclama também que não ligo o bastante pra senhora?
Divertida, ela me belisca o furo da orelha.
— Não, essa eu puxo direto da tua orelha. E da do teu irmão. Mas num todo, todo? Sou só agradecimentos. Mesmo no meio do maior dos furacões, vocês têm se encontrado e segurado um a mão do outro. Isso é incrível, filha. E Deus os fez assim, perfeitinhos.
— O Murilo, perfeito?
Não tive como não perguntar, né?
Ela faz um pequeno bico enquanto pensa um tantinho, escolhendo as palavras.
— Imperfeitamente perfeitos, os dois. Parece algo que tu diria, não é?
— É, acho que eu diria sim.
— São assim, meus dois filhotes.
Mamãe me abraça, toda trabalhada no amorzinho, que deixo que me envolva. Quero isso e não sei como ou por que vivi tão talhada de afastar seu colinho de mim. Acho novamente que minha cabeça não tá ok. Apesar de termos tido uma vitória na madrugada, ainda é algo que me embaralha. E tudo bem, né, Milena? Não é para sempre.
Sendo algo diferente do que era o comum, o trágico comum, tá bem até demais.
Consoante a isso, outra vez as palavras do Murilo dançam aqui dentro. Esse barulho não vai definir teu dia, nem a tua vida, disse ele. Para isso, tenho que me permitir mais – deixar as coisas irem, não me exigir, não me recriminar e aceitar bem os agrados, mimos e todo o cuidado que têm comigo.
Aceitar e aproveitar. Deixar, na real, as coisas rolarem.
Como a virada de ano.
Deixar que venha, em companhia.
Logo que mamãe me solta, lanço uma questão que, para mim, está em aberto.
— Mãe, vocês fizeram algum plano de virada?
— Plano como?
— Jantar, ceia, essas coisas.
— Tem jantar no forno, sorvete no congelador e chá no armário. Tem os cookies da dona Bia e pipoca também. O que você quiser, querida.
— O que eu quiser fazer ou o que eu quiser de comida?
— Por aqui vai ser um dia como outro qualquer, desses de férias, só que nós três juntinhos.
Incerta, jogo a novidade no seu colo.
— Na verdade, nós quatro. O Vini pediu pra ficar.
Mamãe? Co-me-mo-ra! A ponto de bater as palminhas e tudo, animada.
— Maravilha, filhota! Vamos entrar no estilo!
— Doida por uma festa do pijama, né, dona Helena?
— Que pijama o quê, acho que ao menos nisso podemos ousar um pouco mais. Você tem tantos vestidos, Milena!
Não quero ser a pessoa a jogar água fria nela, porém, se é para me respeitar, se é para pegar leve, confesso um pouco de minha hesitação.
— Não sei se tô no clima pra isso, mãe.
— O que foi mesmo que seu irmão disse no outro dia, hein? Não vai ser nada triste.
Ela aperta meu nariz para transmitir mais de sua empolgação, porém, não me ganha nessa. Até porque é geralmente ela que quem quer fazer uma dessas.
— E desde quando festa do pijama é triste?
— Não é, e adoro uma, tu sabe. Mas hoje, Milena, não sei... Pensei em fazer algo mais simbólico, sabe? Nada exagerado, claro. Um tema mais simples. Um tema como... Dia de domingo! Isso, trajes para passeios de domingo à tarde. Algo bonito, informal, leve e... espontâneo.
— Não poderia ser pijama mesmo?
Minha mãe parece murchar um pouquinho, comprimindo a boca. Ela coloca a própria mecha solta de cabelo através da orelha e se detém em pensamentos, quieta. Não quieta de estar querendo matar a gente ou raivosa com algo, só... maquinando coisas mesmo. Por fim, ela suspira.
— Se você quiser realmente, amorzinho, pode sim. Não precisa entrar na minha... “onda”.
Ela faz as aspas e tudo, zelosa e cautelosa.
— Quero que esteja confortável, claro. Linda já é, nem precisa estar toda trabalhada. Só estou sugerindo mesmo, pro caso de não ter... ideias. Que poderíamos colocar uma corzinha mais viva no sofá, assim como alguns perfumes mais... Tá, talvez sem perfume marcante. Só mesmo para fazer desse momento uma boa e divertida lembrança. Porque não vai ser triste. Estaremos juntos na algazarra. E sim, algazarra. Mas também aceito o modesto – principalmente se vocês estão envolvidos. Pra mimar vocês, aceito qualquer trato.
Encaro minha mãe e outra vez as palavras do Murilo. Precisa dar um espaço. Não ficar observando demais, nem falando demais. E quando tiver a oportunidade de dizer algo, que seja a coisa mais aleatória possível. De coisas ao redor ou... sei lá. Com calma. Ou pausadamente. E falar coisas positivas.
Não sei se está cumprindo o treinamento ou, como a I, se está fazendo isso de coração aberto, mas o que faz, o que propõe, me parece bom. Como ainda pouco foi com o Vinícius também, preenchendo meus lapsos de consciência e lucidez.
Algo aqui dentro me diz para embarcar nessa.
— Também quero o modesto. O simples com pitadas de algazarra, se possível.
— É possível. Totalmente possível!
— Desculpa, mãe.
— Você não quer?
— Não é isso. É que tem hora... que... fico perdida, sei lá. Não sei bem o que escolher, o que pensar. Parece que não passa nada legal aqui dentro, nenhuma opção mesmo. E aí alguém me diz alguma coisa tão boa ou... e fico... Minha cabeça tá ruim mesmo.
— Talvez esteja assim agora, filhota, e tudo bem, porque foi algo difícil o que você teve que enfrentar. Gastou muita energia. Não precisa se cobrar mesmo. Deixa com a gente as ideias, o que fazer, o que preparar. Só surge linda e maravilhosa lá na sala, como um dia qualquer. Deixa, aliás, eu abrir teu guarda-roupa para escolher teu vestido. Posso?
Tem como negar isso a uma tão nobre alma? Tem não.
— Quer saber? Vai em frente.
— Jura?
Os olhos de mamãe brilham, mais cativados e contentes.
— Confio na senhora.
Isso, então, a faz soltar gritinhos e saltar da cama, muito mais do que empolgada. Está vibrante!
— Saindo um vestido gracioso e domingueiro em minutos!
Sim, eu quero isso. Domingos simples, papos leves, quem sabe roupas bonitas, bem informais, como ela disse. Quero também deixar a cargo dos meus agentes da paz toda a parte criativa e reflexiva que não tenho como dar conta agora. Essa não é minha parte no momento.
Minha parte é só agradecer e seguir o ritmo suave na nave deste impensável e extraordinário dia.
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