Notas iniciais
"Nobody ever cared as much for me Nobody's touched my heart and healed my pain You've picked up the pieces and put me back together agaaaaaain" Um sonho esse capítulo. Ou vários sonhos ♡

Murilo. Murilo tá roncando. Roncando um ronco meio grotesco, que me acorda. Mal entreabro os olhos e dou de cara com a criatura comprimida ao meu lado na cama, deitado de barriga pra cima, meio jogado, de boca aberta e a cabeça mal ajustada ao travesseiro. Como que ele veio parar aqui? Não era no colchão que deveria ficar?

Como conseguiu espaço?

A claridade do dia me faz cerrar ainda mais os olhos, sem conseguir ver muita coisa ao redor, apesar de toda a luminosidade na minha cara. Quero cutucá-lo, mas então encaro-o novamente. Apesar do ronco alto, seu semblante está sereno.

É diferente porque isso costumava acontecer quando ele passava do ponto com alguma bebida. Senão, quando estava no extremo do extremo do cansaço. Só que Murilo não está com a expressão pesada, apesar de esses últimos dias terem sido bem extenuantes. Assim, não me importo com o som que seu corpo faz. Não me importo com nada além de tapar os olhos da claridade.

Então tá passável, tá perdoável.

No que me mexo para puxar mais do lençol ao meu rosto, percebo um corpo colado ao meu, preso ao meu. Mamãe. Não me importo também, não questiono mais nada, faço é me aconchegar mais. Não sei no que deu esses dois hoje e nesse momento não quero saber.

Tô ajustando a ponta do lençol para formar uma espécie de máscara para o sono quando meu mano dá uma breve pausa de seu sonido. Só assim que me atento para o mp4 tocando baixinho e até bem próximo de meu rosto, abaixo do travesseiro, com um piano intenso a uma batida de rock. Pela suavidade, acho que é do Coldplay. Acho que Clocks. Uma trilha sonora interessante e agradável. Que pesa ainda mais meus olhos e meu corpo.

Sigo como minhas duas pessoas favoritas do mundo, deixo-me levar pelo sono dos justos.

~;~

Alguém tá se mexendo na minha cama. Alguém com um perfume que... não sei identificar. Alguém que está bem atrás de mim. Alguém que não sei se deveria estar aqui.

Será que mamãe deixou a porta aberta?

Como quem se espreguiça, movo-me para detrás, disfarçando para verificar e ver quem se tratava essa pessoa. O brilho do sol não me deixa ver bem, no entanto. Não de primeira. Insisto, de olhos pequenos.

— Vini?

É, é o seu perfume. Sinto-o melhor quando desliza a mão no meu rosto e me beija de leve nas têmporas.

— Tô aqui. Pode voltar a dormir.

Resmungo, meio lenta.

— Que dia é hoje?

— Dia de descansar.

Se ele diz, eu acredito.

— Tudo bem.

Mexo-me só o suficiente para me aninhar mais nele e sentir um pouco mais desse seu cheiro característico. No que ele me aperta para si, seu coração parece acelerado, bem agitado. Como se tivesse corrido ou algo assim.

Será que saiu mesmo para dar uma corrida? Logo num domingo de descanso?

Mas é domingo ou é sábado?

— Quer que eu deixe a música tocando?

Quero perguntar “que música?”, porém, me sinto sem forças. Ainda mais estando no seu abrigo quentinho, confortável e que tapa todo o sol de minha cara.

~;~

Sabe quando você nem abriu os olhos ainda e já sentiu todos os seus músculos pesados demais? Acho que sinto até os músculos dos dedinhos do pé e da mão. Da orelha. A orelha tem músculo? Não sei, sei que o corpo fica tal uma pedra, sobrecarregado em densidade e todo estirado, completamente imóvel.

A areia ao menos parece me amparar, toda macia. Mas se vim parar na área costeira, é porque algo aconteceu, não? Abro os olhos com dificuldade, desejando não ter sofrido um novo acidente. Vasculho a mente por um instante só pra me certificar. Não, nenhuma queda, nenhum sequestro, nenhum assalto, nenhuma... violência.

— Bom dia, amor.

Viro-me pro lado, para seguir a voz amorosa que me cumprimenta de tão perto.

— Vini?

— Oi. Sua carinha tá engraçada.

— Tá?

Bocejo abrindo um bocão e, num esforço hercúleo, tapo com a mão.

— Quando foi... que a gente saiu do barco?

Assim que pergunto, uma memória ressurge. O mar estava movimentado e as ondas batiam com força no... convés? É assim que chama? E a proa, onde fica?

— É proa... ou é convés?

— Hã... não sei dizer. Onde me viu pela última vez?

Apertando os olhos, vasculho um pouco mais para lembrar.

— Na escadaria. Tipo aquela do Titanic. Que eu te perguntei por que os homens usavam suspensórios. Não lembra também?

Ele tá rindo de mim?

— Eu tava bonito?

Sou graciosa porque sim.

— E quando você não tá?

Porém, outra memória me domina e me é um tanto angustiante. O armário.

— O que foi?

— O armário. De mogno. Foi você que abriu?

— Acho que sim.

— Que bom. Não sei nem como fiquei presa lá.

— E agora tá aqui, segura comigo.

— Não é melhor chamar ajuda? Não sei se engoli água.

— Já chamei ajuda. Enquanto isso, vou ficar aqui e não vou sair daqui. Pode descansar, sem se preocupar.

Enrosco-me à areia e acho que durmo.

~;~

Sol. Tem muito sol no meu quarto.

Ergo-me em dificuldade para encarar os fortes feixes que adentram pelas brechas. Encarar sua fineza e graciosidade após tantos agitos me é quase um presente divino. Firmo-me com os cotovelos no colchão para poder admirar mais, mesmo que permaneça apertando os olhos diante de tamanha claridade tão inesperada.

É simplesmente incrível. E o Murilo fez ser incrível. Ele fez algo incrível.

Ele fez ser possível o impossível.

Cerro os olhos de vez para tomar desse sol o máximo de completude que ele dá, como quem quer aproveitar toda sua energia. Porque acho que nunca acordei tão esgotada e tão radiante em toda a minha vida. Rindo, feliz, satisfeita. Tão sem palavras até.

Olha, olha como teus pés estão firmes.

Mas é só uma sensação, não é a tua realidade. E vai passar.

Vai passar, como sempre passa. E você vence.

As palavras do Murilo ainda dançam na minha cabeça. Não é meu choro, nem meus gritos, nem eu relutando em acreditar ou eu pedindo para tudo parar. Ele não parou. Ele me preencheu. Ele sentou comigo e me guiou com todo o alvoroço que se sucedia ao nosso redor. A casa tremendo, eu tremendo, e ele... ditando os passos. Os passos certos.

O entendimento certo.

Acredita em mim. Eu acredito em você, sei que consegue.

É tenebroso agora. Mas não é nada perto do que você pode fazer.

Você, Milena, é gigante. E esse barulho não vai definir teu dia.

Solto o corpo de volta ao colchão e abraço um travesseiro qualquer. Mesmo que todos os meus nervos e músculos se mostrem desgastados, sinto que ainda existe força em mim. Força de vitória. Porque eu consegui.

Acho que posso saltar por aí de tornozeleira mesmo. Abrir a porta de casa e só sair saltitando, de pijama, aos risos leves, abraçando o vento e o mundo, deixando meu cabelo esvoaçar e meu espírito se encantar por essa manhã tão bonita. Maravilhada assim.

Olha como você tá vencendo. E tô aqui contigo, não vou te deixar.

Confia em mim. Confia.

Eu confiei. Não sei como, só confiei e segui. Não havia espaço pra pensar, só agir.

Ele tinha razão.

Você conseguiu. Contempla isso.

Contemplo e contemplo, embasbacada, apreciando esse momento, quase revendo tudo em câmera lenta. A exaustão antes de me deitar, a preocupação constante, o sono intranquilo, a explosão inesperada durante o descanso, que abriu as alas do tremor, choro e desespero, o fato de não conseguir tapar os ouvidos, não conseguir falar e sufocar como se o teto fosse cair sobre mim, e então ser puxada. Localizada em meu próprio tornado, firmada em meu próprio corpo.

Só sei que me vi agindo em espelhamento, sem pensar. Sentir e não pensar. Ouvir e me dilacerar. Gritar e recuar. Ser puxada de volta e realocada no centro da ação. Então, o sufocamento diminuir, a agonia se esvair, os batimentos reduzirem e a persistência ousar. Com a minha força, o meu fôlego, o meu pulso.

E eu poder me impressionar de me ver inteira e sã e salva e bem, quando acabou. Saber que acabou. E poder me reenergizar com as músicas mais alentadoras possíveis à situação. Me ater a mim, descansando, sem me importar com mais nada, até que PUDE dormir novamente. Na melhor companhia. Na minha casa. Segura.

Ao meu lado, o mp4 continua a tocar baixinho em conformidade. Notei que para as músicas mais suaves, o Luke gravou as canções quase completas, senão completas, e não apenas trechos como nos áudios de músicas agitadas.

Pego o pequeno aparelhinho para aumentar um pouco mais do volume e deixá-lo em cima de mim, ainda fascinada com tudo. Uma nova canção se inicia, um pop mais leve e totalmente desconhecido pra mim. Me concentro um minutinho para compreender o que essa diz.

Alexz Johnson – Pick Up The Pieces

[...]

You came and rescued me

When I was far from home

Rush of love around my heart

Just as I fell apart

Você veio e me resgatou, quando eu estava longe de casa. Um ímpeto de amor por volta de meu coração, logo quando eu me quebrei. É isso, é bem isso!

Nobody ever cared as much for me

Nobody's touched my heart and healed my pain

You've picked up the pieces and put me back together again

Ninguém nunca se importou tanto assim comigo. Ninguém tocou meu coração e curou minha dor. Você pegou os pedaços e colou tudo de volta em mim. Sim!

Imagino que seja uma música de relacionamento amoroso, mas levo isso um pouco além, porque é bem como me sinto. Tudo foi possível devido ao fato de que fui acolhida, compreendida e respeitada, bem nos meus detalhes, bem nos meus pedaços. Um cuidado sem questionamentos ou julgamentos que abriu, simples assim, possibilidades. Das boas. Uma jornada digna de filme e de Oscar, na categoria de melhor direção. E de melhor atuação. E melhor trilha sonora.

Um filme referência para a vida!

Antes impensável, agora completamente concebível e admissível. O que é chocante e magnífico ao mesmo tempo. Porque me foi comprovado que eu posso vencer os trovões. Posso vencer o trovão mais horrendo e violento, assim como posso permanecer firme para dar passos no meio do maior temporal mais desgracento da vida. Eu posso ser maior do que meu pior pesadelo. Caramba!

Eu sou mais forte do que achava que era, de verdade.

Admiro em mim essa percepção tão “atrasada”. Melhor, uma conquista depois de insanas odisseias infindáveis. Antes tarde do que nunca, né, Milena?

É, isso é para se orgulhar.

— Bom dia, dorminhoca.

Sorrio antes mesmo de ver minha criatura preferida. Como sigo extasiada, sento-me devagar ao centro da cama. Termino por exclamar um tiro ao peito de meu irmão:

— Eu nem sei o que faço contigo, Murilo!

— C-como assim?

Vê-lo gaguejar e recuar um passo me dá a dica de que meu tom acabou saindo de maneira errada. Com um sorriso bondoso, me entrego.

— Se te abraço, se pulo em cima de ti... Se pago um outdoor falando da criatura extraordinária que tu é! Não sei o que fazer. Real.

— Caramba, por um segundo...!

Ao pé de minha cama, ele solta o fôlego em alívio, soltando também o corpo tenso, que logo fica molenga, dobrando-se todo pra se apoiar na beirada de meu colchão. Em novos segundinhos, ele se ergue de novo, mais calmo e bem-humorado.

— Acho que aceito o outdoor.

— É pra já!

Ao me ver procurando o celular, ele muda de ideia.

— Não, o abraço. O abraço é mil vezes melhor.

Não espero que venha até mim, salto animada para me jogar nele. Abraço seu dorso e ele me cobre pelo pescoço. Ainda me deposita um beijo ao alto da cabeça. Sinto assim suas emoções se reverberando em mim e ficamos um tempinho sem dizer nada.

Só que eu quero dizer. Não sei com que palavras, só sei que começo.

— Obrigada, Mu. De verdade! Eu tô tão sem palavras... que realmente não sei dizer... outra coisa... senão isso. Obrigada!

A criatura me aperta um pouquinho mais em resposta.

— Você bem já é muito pra mim. Mesmo. Não precisa elaborar nada mais.

Só que sigo abismada.

— Cara, você conseguiu. Tipo, sabe?

Murilo me solta só para poder me encarar e afirmar:

— E você conseguiu.

Ajusto meu português para então emendar a profusão de perplexidade que segue me tomando neste instante. Meus olhos então, nem digo o quanto estão cheios, porque ele tá vendo tudo isso. A gente viveu tudo isso.

Nem me importo de gaguejar também.

A-a gente conseguiu... Eu sei que... fui contra, eu não acreditei... não achei ser... possível. Desculpa, Mu, se...

Ele me segura pelos ombros e me interrompe, encarando-me:

— Ei, sem lamentos. Só resiliência. Lembra?

— Mais ou menos. Resiliência também é felicidade?

Murilo ajeita sua postura, agora de semblante mais leve e caloroso.

— Em certa medida, é sim. É saber que tá tudo bem ter começado errado, ou de um jeito diferente, mas saber também que se colocou no desafio e tirou o melhor dele. Tá tudo bem aceitar que não foi o melhor começo e que isso pode mudar. É um contentamento interessante de se ter.

— Acho que tô gostando dessa palavra.

— Então vamos comemorar. Melhor, vamos colocar algo aí nesse estômago pra repor tuas energias. Tem suco de abacaxi e... acho que ainda tem de goiaba. Mamãe detonou o de goiaba só porque foi o Vini que preparou.

Não sei se ele apenas divaga ou apenas provoca, pois sorri meio malandro, e a última informação me pega um pouquinho. Nada ruim, só surpresa mesmo.

— O Vini tá aqui?

— É, ele tá. Mas você não precisa vê-lo se não quiser. Ele, tipo, entende. Mesmo.

Pisco, processando todas essas surpresas.

— Que horas são?

— Quase uma da tarde.

— Caramba! Eu dormi...

Conto nos dedos mais ou menos o tempo de descanso. Umas sete... ou oito horas.

... isso tudo?

— Merecidamente, né? Agora escolhe o suco, que eu pego pra você.

— Pode ser metade, metade?

— Pode.

Murilo se vira para se encaminhar pra cozinha e eu considero mais um ponto.

— E pode ser... o Vini... a pessoa para trazer?

A criatura não acha ruim. Pelo contrário, mostra-se mais espirituoso.

— Pode, pode sim. Ele vai gostar de saber.

~;~

Meu garçom chega receoso à porta de meu quarto, apesar de um tanto galanteador. Primeiro me apresenta a bandeja com os sucos, um rosadinho e um esbranquiçado, e a metade de um sanduíche, do tipo misto quente, num pratinho. Com um braço para trás, enquanto a outra mão firma a bandeja, ele quase faz uma mesura para que eu me sirva.

— Bom dia, milady.

— Bom dia.

— Se você quiser a outra metade, posso ir buscar. Goiaba ou abacaxi primeiro?

Pego o sanduíche com o guardanapo e o copo com suco de goiaba. Já no primeiro pedaço, sinto a fome mais presente. Não está quentinho, nem morno, porém, está gostoso. Me concentro no sabor e nas texturas. Queijo, presunto... Tomate. Cenoura?

Termino-o em poucas mordidas.

— Pego o outro?

— Por favor?

Proativo, Vinicius me deixa com o copo de goiaba e retorna à cozinha com a bandeja. Quando volta, meu primeiro copo já está vazio. Assim detono sem cerimônias a outra parte do sanduíche.

— Você mudou o suporte. Como estão as pisadas?

Ele anda pelo quarto pra deixar a bandeja na minha mesinha e logo volta para perto de mim, agachando-se a minha frente para ver o material, principalmente a faixa compressiva. Para lhe responder, coloco a mão sobre a boca cheia.

— Bem... esquositas.

Levantando a cabeça para mim, ele lembra:

— No começo, a bota também era, não era?

Comento no que dá enquanto mastigo o sanduíche.

— Uhum... Agora fico... entre voltar pra bota... ou seguir... com esse outro.

Vini faz uma carinha engraçada de quem tá maquinando coisas. Assim ele propõe:

— Te dou o box de Friends se tu seguir com esse.

Rio dessa sua ideia, mas... pensando bem, entro no jogo pra ver sua reação, toda inocente sem inocência.

— Proposta tentadora. Posso pensar em outro box?

— Totalmente. Mas mantém, tá?

O que significa que, sim, o namorado quer muito me incentivar e, sim, ele seria capaz de comprar um box pra compensar meu incômodo. Preciso eu entregar meu jogo.

— Não preciso de outro box, Vini.

O namorado enfim se senta na beirada da cama comigo. Em reflexo, ele segura meu copo e tenta articular suas ideias.

— Sabe que... posso... E que...

Aproveito o momento para antecipar um pouco de minha opinião quanto ao tema dinheiro e mimos, uma conversa que prometemos ter em algum tempo.

— Às vezes, Vini, eu não quero o melhor do mundo. Só o melhor de você, sabe?

Ele assente, entendendo o que quero dizer, porém, sinto que de fato queria me dar esse presente. Ou um presente. Puxo, assim, o papo sobre o seu último, o de Natal, de coisas que acabaram por ficarem não ditas.

— Sabia que já tô na segunda temporada? De Dawson’s Creek. Mamãe até tava vendo uns episódios junto. Duvido tu adivinhar o time que ela escolheu. Dica: eu não tive nada a ver com isso, eu juro.

Até cruzo os dedos da mão livre ao ar. Mais solto, Vinícius sorri.

— O time do malandro então.

— Agora adivinha quem ela me acusou de ser parecida.

Faço uma expressão de falsa chateada.

— Aquela principal, que tem o cabelo preto e liso?

— Antes fosse a Joey, antes fosse. Ela me acusou foi de ser parecida com o bobão do Dawson! Acredita nesse ultraje?

— Logo a dona Helena? Quem diria.

Termino o suco e emendo mais umas impressões que vou resgatando da memória.

— Ela também me chamou de questionadora.

— Mas isso...

Vinícius deixa umas reticências com graça. Me defendo, já que ele quer trair o movimento.

— Epa, a Joey também é.

— Porque o Dawson é. Pelo menos daqueles episódios que vi com você.

— Precisa ver uns mais. Um bocado mais.

— Só colocar pra rodar.

Por mais risonho que se mostre, sinto que o receio permanece sobre o namorado quando ele segura meu copo novamente, agora de suco finalizado, e eu só quero leveza para esse dia. Esse extraordinário e doido dia.

Chamo-o para que olhe para mim, mesmo que de rabo de olho.

— Vini.

— Hum?

— Obrigada. Obrigada por esse presente maravilhoso. É o que eu queria ter te falado faz uns dias. Quer dizer, escrito por mensagem na última sexta-feira. Escrever minhas impressões e as de mamãe e agradecer. E ouvir tua voz. O que também me moveu de ir na tua casa no sábado. Coisas que queria te dizer.

Termino com um dar de ombros, meio acanhada. Ele, por outro lado, abre seu sorriso discreto.

— Sempre arrumando jeitos de me quebrar e me consertar, tudo numa medida só, né?

Abaixo a cabeça apenas para rir e logo a ergo novamente, dessa vez para dar de ombros de maneira graciosa e grata demais.

— Diria que os dois homens da minha vida fazem o mesmo, então... acho que só tô retribuindo.

Me aproximo um tantinho para poder segurá-lo no rosto e ele fecha os olhos por um instante ao meu toque. Mais aliviado, talvez. Só que vê-lo tão de perto me faz lembrar de uma coisa. Examino-o com cuidado.

— Você... tá... branco.

— Eu?

Meu Vini se afasta de repente, espantado, enquanto avalio-o outra vez, movendo minha cabeça de lado, observando seu pescoço, mandíbula e até mesmo seus braços.

— Sem alergias. Nada vermelho. Ou empolado.

Parece que tirei o dia para assustar os dois homens da minha vida. Se bem que devo ter assustado muito mais gente. Mas não quero pensar nisso, não agora. Até porque meu Vini suspira e reencontra seu eixo diante do que foi essa emergência repentina.

— Ah. É, sem mais alergias daquela colônia doida. Ganhei no amigo oculto da minha turma e pensei em experimentar ontem. Não foi bem o resultado que eu esperava.

Lembro que a I mencionou injeções – no plural. Arrisco perguntar:

— Onde te furaram?

Um pouco embaraçado, Vinícius abaixa um pouco a cabeça e a voz em consequência, enquanto desliza a mão pelo próprio braço direito.

— Aqui no braço... e lá... onde fica minha carteira. No bolso de trás da calça.

Me espanto pelo local que descreve. Uma injeção na... bunda.

É isso mesmo, Brasil?

— Levou na...? Doeu?!

Ele permanece meio tímido, apesar de agora se mostrar incrédulo.

— Por incrível que pareça, não. Terminou antes de eu processar que ia levar uma injeção ali.

Sinto que preciso de mais detalhes, embora não saiba exatamente como deixar explícita minha própria questão.

— Mas como... como foi... que...? Você teve que ficar sentado ou...?

— Fui deitado na maca mesmo, de bruços.

Encaro-o tão incrédula quanto ele acho. Vinícius então se complementa, entre algumas divagações e pigarros:

— Uma enfermeira... errr... uma cuidou do meu braço e... a outra... só puxou um pouco do... err... do elástico da minha bermuda. Assim.

Encabulado, ele demonstra rapidamente, puxando sua roupa para baixo apenas o suficiente, junto com parte da cueca. Antes que eu inquira algo mais, ele mesmo lança mais respostas.

— E, não, não cheguei a ficar nu lá. E nenhuma enfermeira passou do ponto comigo.

— Não era essa minha pergunta, mas é interessante saber.

Seu cansaço e perplexidade logo prevalecem quando expira pesadamente.

— Na verdade, foi tudo tão rápido que foi bem confuso. No final, saí literalmente carregado pelos meus pais, mal com um olho aberto.

Faço um carinho na lateral de seu rosto, o que ele aprecia e até faz uma carinha melhor. Já não tão acanhado ou retraído.

— Mas... sabe um coisa boa – louca, mas muito boa nisso?

— Eu nem consigo imaginar.

Meu Vini inspira um ar com calmaria, surpreendido.

— Foi a primeira vez que vi meus pais agindo juntos. Tipo, unidos e um confiando no outro. Algo que, tá, eles já vinham demonstrando na relação deles, pelos eventos de família e tudo mais, mas... nessa situação... foi diferente. Bem diferente da última vez que saí de um hospital.

Realmente. Eu sequer pensei nisso. Também não pensei em muita coisa e tudo bem, porque nem tantas informações tive de antemão.

— Caramba, sim. Foram de um extremo ao outro. E que bom.

Compartilhamos um riso bom, ele mais admirado do que eu, mas algo bom.

— Acho que eu gostaria de ter visto isso.

Nesse ponto, ele balança a cabeça em negativa, porém, brincalhão. Inclusive, levanta o dedo indicador para mim com um grande pedido.

— Não, não vamos repetir doses de hospital tão cedo. Assim espero.

Aceito, porque posso me contentar bem com os eventos de família.

— É uma boa meta, ficar longe de hospital por um booom tempo. E como ficou a tal colônia? Jogou fora?

— Não, meu pai ficou com ela. Até gostou bastante. Só vou ficar um tantinho longe dele quando sentir o cheiro.

Me aproximo mais dele, me ajustando ao espaço da cama.

— Pode sempre ficar perto de mim.

— Posso?! Posso mesmo?

A brincadeira sai de cena assim que sua inquietação retorna à superfície e ele mesmo coloca isso no espaço entre nós, nas mãos que segura meu copo, o olhar baixo, o rosto meio truncado, assumindo o que sente.

— Tive receios de vir hoje. Ao mesmo tempo, não consegui não vir. Ontem teria vindo se não fosse essa alergia doida.

Fico tão acanhada quanto ele, acho. Apesar de ter tido uma experiência completamente distinta nessa madrugada, em termos de crise e fobia, a situação como todo ainda é um território delicado. Não sei se gostaria que tivesse me visto ontem, tão transtornada e alvoraçada. Tão derrotista e detonada.

De qualquer maneira, sigo seu movimento de assumir essa complicação toda da cabeça. Ou seja, também coloco isso para fora.

— Eu até bambeei nas minhas ideias... sobre te esperar ou não, se queria ou não. Eu... Não sabia bem o que esperar, ou como lidar, também porque foi uma situação que exigiu muito de mim. Eu não tava bem mesmo, nem para pensar. A I que... Ela acabou se infiltrando aqui. Algo que também não sei como foi possível.

— Ela me contou que aproveitou uma brecha, mas que ficou incerta se devia ou não. Mas veio, apesar disso.

— É, ela me disse que entrou porque mamãe a deixou passar, porque o Murilo ficou recluso. Acho que foram... muitas surpresas... muitas nos pegando e... não exatamente das boas.

Olho para minhas mãos juntas ao colo, assim como as dele, que permanecem no espaço entre nós, e resolvo reuni-las. O copo sujo termina sendo mantido de pé apenas por nossas pernas que dão o suporte uma de cada lado.

— Mas não vou dizer para você não vir mais. Talvez em situações específicas, como te pedi da última vez. Ou não, não sei... Porque hoje tivemos essa coisa extraordinária que o Murilo fez, e que achei ser impraticável, ou mais uma loucura da cabeça do meu irmão, uma proposta bem impossível e...

Paro um momento porque me perco do que eu mesma tô falando. Tomo um fôlego para recobrar o norte de mim e do que tô fazendo.

— O que tô dizendo é algo mudou. Tipo, contrariando todas as minhas perspectivas, de todos esses anos, parece mesmo existir uma maneira mais... razoável... de enfrentar... esse tipo de tempestade. E isso ainda é... experimental. Eu não sei como vai ser o daqui pra frente; o que sei é que eu quero isso. Quero essa coisa diferente. E acho que a gente pode tentar isso. Junto. Juntos.

Meu Vini expira um tamanho sopro de alívio, desses que abaixa a cabeça para descarregar a tensão e de verdade se tranquilizar quanto à sua dúvida.

— Que bom, Lena, que bom. Eu não sei nem como... Eu quis estar aqui e... eu...

— E você tava sob efeitos de drogas pesadas. Em recuperação, de cama.

— É, às vezes eu abria o olho e não dava dois segundos, mergulhava num sono profundo de novo. Não sei nem se eu sonhei. Mas acho que ouvi uns trovões, ali, próximo da noite. Ou pensei ter ouvido. E quis me levantar. Só que meu corpo não me obedecia.

Um vinco se forma em seu semblante e vou lá com meu polegar para desfazer.

— Não havia como, Vini. Você precisava descansar.

Com essa, ele parece pensar melhor.

— Acho que sim. A gente pode descansar junto. E pode admirar junto essa coisa louca que o Murilo fez.

— Bem louca e experimental e... que eu duvidei.

— Algo compreensível, Lena.

Agora ele quem leva o polegar ao vinco ao meu rosto, desfazendo meu bico.

— Quando ele me falou do plano, essa proposta, eu também não sabia bem o que esperar. Mas o cara tava tão empenhado nisso, e tão agoniado com isso, que eu só botei fé. Não poderia ser pior do que era. Era preciso tentar.

— Quando vocês se falaram?

— No final da noite, depois que a Iara foi pra casa. E depois... depois da crise da madrugada, ele me mandou uma mensagem. Dizendo que você estava bem, muito bem, que tinha dado certo.

Ele me mostra a mensagem rapidamente.

Deu certo! Não são nem 6h e ela já tá dormindo. Vencemos!

Vou desligar o celular e descansar agora.

Te ligo depois.

— Mas mesmo com tudo o que ele me falou, e da sua mãe me confirmando tudo, eu precisava vir, te ver e conferir eu mesmo. Que você tá bem mesmo. E tá falante. Tá mega falante!

A animação dele me contagia e me faz encarar esse resultado surpreendente outra vez. Eu tô vendo e vivendo isso e ainda não tô acreditando. É surreal assim. Até mesmo por esse fator que menciona, de eu estar mega falante. Algo que, na verdade, já estava em processo de transformação.

— A I também disse isso ontem. Que eu tava falante, mesmo depois de uma crise pesada. Então... acho que algumas coisas já estavam em mudança. E acho que isso se deve ao fato de eu estar recebendo um apoio diferenciado. De vocês.

Ele vê que meus olhos se enchem de instantâneo.

— Só pra deixar claro, a gente não precisa falar sobre isso, se você não quiser, tá?

Assinto, mais uma vez me sentindo bem cuidada. Bem respeitada.

— Na verdade, eu só tô meio que deixando rolar... enquanto essa adrenalina do “impossível agora possível” ainda me agita. Mas vou fazer as coisas com calma. Acordei aqui como se pudesse... dançar... e rodopiar... de pijama e tudo pela rua... e, não muito depois de abraçar a criatura e agradecer o feito dele, minhas pernas falharam. Por isso coloquei logo a tornozeleira. Pra não dar problema.

Com um afago aos meus cabelos, meu Vini parece mais certo do que está fazendo e mais crente do que está testemunhando. Algo que vale muito a pena comemorar.

— Vamos cuidar para que você se alimente bem. Agora... Já posso te beijar?

Contudo, para essa nova proposta, nada louca e até bem razoável, balanço a cabeça em negativa e me tapo a boca com as mãos.

— Só depois que eu escovar os dentes.

— Eu posso pensar em outros lugares que...

Ainda bem que ele diz isso de modo sussurrado, pois uma pessoinha se apresenta à porta de meu quarto com uma batida à madeira e deixa o namorado encabulado.

— Amores meus, não quero interromper vocês. É coisa rápida!

— Sem problema, dona Helena.

— Vim só para pegar a louça mesmo. Já podem retomar o namorico.

No que ela entra e sai, Vinícius abaixa a cabeça, meio palhaço e derrotado.

Meu namorado dramático estava de volta. Belisco seu nariz.

— Um dia vou entender o que tanto te deixa tímido perto dela. Um dia.

Notas finais
É ISSO MESMO, BRASIL: hoje tem combo rolando! Pra matar as saudades desse povo lindo ♡ Trechinhos do próximo? "Falar da I é como falar do One Republic pra mim – me ilumina o coração. Devo dizer isso pra ela? Devo." e "— Vai entregar teu namorado, é isso? Não penso duas vezes. — Sim." e "— Respira. Eu não tô com a faca no teu pescoço. Eu tô contigo." e "Porque no meio da confusão, havia eu. E o meu jeitinho de ser." e "— Tu e o Murilo de novo numa cozinha?" e "— Quando acho que ele não vai mais me surpreender, ele apronta uma dessas." JURO QUE TÁ UMA LINDEZA SÓ! (e gigante também, do jeitinho que a gente gosta)