Mantendo O Equilíbrio - Tempo de Mudança (T6 + T7)
165 Capítulo 60
Notas iniciais
Parece que eu havia feito uma jogada de marketing sem saber, porque todo mundo – do nosso grupo de pessoas – resolveu comprar milho na lanchonete. O cheirinho estava bom assim. O movimento estava bom assim também. Era dia de trabalho para alguns, porém, optaram por estender um pouco o carinho por nós. Iara então, não largava de mim, nem pra dar vez pro seu irmãozinho. O que era ainda mais fofo e eu tava aceitando fofuras. E animosidade, contribuição de seu Júlio.
Sentados em um conjunto de bancos de pedra e cimento, tais quais os banquinhos de praça de bairro, nos envolvemos de volta ao mistério de Fred – o grande camaleão que aparentemente apenas Iara sabia que existia. E, bem, o jardineiro.
O tal Fred apareceu assim que eu e papai fomos nos juntar ao grupo conversador na área da piscina e quando finalmente atravessei o jardim, ouvi um barulho de folhas perto de mim e então um grito de mamãe e de Djane pelo vulto verde que passou diante delas. Foi um alvoroço danado, porque ninguém – além da bonita da Iara – sabia o que era, já que o bichão era de um verde incrível como a grama. Eu só conseguia pensar que se o bicho viesse pro meu lado, não daria nem pra eu correr. Talvez me jogar em cima de papai. Mas ele se jogaria em cima de quem?
A zona ficou tão grande que ninguém tava conseguindo ouvir ninguém, muito menos a Iara e suas explicações. E o vulto passou de novo, porém, próximo das espreguiçadeiras do outro lado, perto de onde a Aline tava com a Lisbela, apesar de estarem dentro da piscina. Com a muvuca de novo, Murilo até tirou a Lia da boia, a coitada sem compreender o que passava no mundo dos adultos.
Eu mesma fiquei paralisada só lembrando todas as vezes que fiquei tão tranquila no jardim e esse camaleão em algum canto desconhecido. Inclusive na noite de Natal, quando o Vinícius afundou nas águas.
— Eu jurava que vocês sabiam! Vovô mesmo já tinha me visto falar com ele algumas vezes.
Seu Júlio levanta a cabeça de repente:
— Eu vi?
— Sim, de manhã, quando eu saio pra trabalhar. Ou quando tô de tarde em casa. Sempre perto de onde estaciono.
— Pensei que estivesse falando com as plantas.
Vinícius, Filipe e Murilo riem, safados. Sim, incluí o sogrinho nessa.
— Eu ainda tô é assustada com o fato de nunca ter visto ele. E um animal daquele tamanho!
Uma cauda enorme!
Pelas expressões de mamãe e Djane, elas ainda estão tão horrorizadas pelo ocorrido que nem falam.
Mordiscando o final de sua espiga, Iara ajeita o cabelo para falar, já que corria um ventinho agradável e nos bagunçava os fios.
— Ele não gosta de aparecer quando tem muita gente. Não sei nem como ele deu as caras ontem.
Filipe se manifesta, já se limpando após devorar seu milho.
— Quem foi que deu o nome de Fred?
— Eu, ué. Tive que batizar, afinal, faz parte da casa.
— Desde quando ele tá lá?
Vinícius que dessa vez quis saber.
— Não sei bem, mas foi antes de a gente se mudar. Ele era pequeno até pouco tempo.
Com essa, Djane larga o guardanapo, que também limpava a boca, pra arrematar:
— TANTO TEMPO ASSIM?
— O Fred é inofensivo, gente. Juro. E muito quieto. Comportado até. Tanto é que ninguém percebeu até a grande aparição dele.
— Não é venenoso não?
Djane pergunta, incerta. Nem eu tinha me tocado desse detalhe.
— Não é não.
— Mas não deixa de ser perigoso. É um animal selvagem, né?
— Alguns diriam exótico e tem gente que cria como animal de estimação mesmo. Mas não tem nada para se preocupar, juro mesmo. Camaleão só ataca se ele se sentir muito ameaçado, do tipo encurralado. Como o Fred fica no canto dele, vocês não vão nem sentir a diferença.
Filipe agora parece interessado.
— E onde ele fica?
— Não sei bem, porque, como eu disse, ele fica escondido.
— E come o quê?
— De geral, insetos. Mas às vezes deixo umas frutas pra ele, para não estragar na geladeira. Deixo perto de onde fica minha moto, que é onde geralmente vejo ele.
Filipe meio que ri para si mesmo e Iara resmunga.
— Ai, pai, desse jeito parece que tô inventando. É sério.
— Não duvido não, filha. É só que não imaginei ganhar um netinho nesse Natal.
Os mais velhos riem com essa, mas fico quieta como a I e inevitavelmente encaro o Murilo, que estava na outra ponta, e ele me encara de volta. O que me leva de imediato a uma conversa nossa e uma pendente com o Vinícius. E com o sogrinho sobre esses comentários.
Para quebrar a tensão repentina e sorrisos amarelos meu e de Iara, Murilo se levanta para jogar seu guardanapo no lixo ao lado e declarar que já era hora de voltar. Com essa, fomos todos andando para o estacionamento, conversando, graças a Deus – e à criatura – sobre a próxima festividade, a virada de ano, se todos poderiam se reunir outra vez na grande casa, ou se poderia ser na casa de Djane, ou outra opção. Porque a virada na praia é muito lotada e barulhenta, além de que não muito adequada pra quem tá com os movimentos limitados. No caso, eu e seu Júlio.
Mas também não queríamos ficar restritos assim, principalmente para mamãe aproveitar mais da estada dela.
A sogrinha diz que seria muito bom receber todos em sua casa, que agora tava tão vazia, e enquanto nos separávamos para ir cada qual pro seu rumo e carro – menos seu filho, que me acompanhava o passo lento –, ela me solta a segunda bomba do dia:
— Mas não se preocupem, vou levar a Helena para turistar bastante com nossas crianças amanhã!
Eu poderia estar comemorando o fato de Djane estar fora da faculdade e de tanto trabalho, e poderia repreendê-la por nos chamar de crianças, mas a primeira coisa que penso é em bater no Murilo. Com tchaus à distância, Iara e o pai seguiriam para empresa e Djane iria levar seu Júlio pra casa. Assim que alcanço o carro e a criatura está abrindo sua porta do motorista com a chave, lanço com calma:
— Caramba, Murilo, o que eu te fiz, cara? Além de todo um amor e carinho incondicional?
— Incondicional onde?
A peste ainda tem a audácia de fazer piada pra minha gentileza. Porque em outros tempos, eu teria batido mesmo. Sem entender nada, assim como mamãe na porta do carona do outro lado, Vinícius abre a porta traseira pra mim com uma interrogação no semblante. Respondo então. Ou melhor, exponho a criatura:
— Essa COISA não tá me avisando de nada. Primeiro o Natal e agora o passeio de amanhã.
Murilo faz uma cara esquisita, com os dentes cerrados numa abertura da boca. Pego no pulo. Com todo o evento que foi a véspera de Natal e o próprio Natal, a reunião de famílias e tudo mais, acabei esquecendo do que ele tinha me aprontado, mas agora tudo vem de uma vez com a revelação de Djane. PORQUE EU NÃO TAVA SABENDO DE NADA MESMO.
Tá, mamãe poderia ter me dito sobre as duas ocasiões com antecedência, mas ele também sabia, e não me disse NADA.
Vinícius, perdido, fica na lateral do carro entre mim e a peste para ouvir melhor a história:
— Como assim “primeiro o Natal e agora o passeio”?
— Olha a cara dele, olha.
Murilo coça a barba que crescia e coça o rosto, o pescoço, a cabeça. Tava enfim encurralado. E graças, diferentemente de um camaleão, não poderia passar despercebido mais, tampouco atacar. Por fim, fala num fio de voz:
— Eu só me esqueci. Foi mal.
— Foi mal? EU PAGUEI DE DOIDA.
Mamãe tenta intervir, falando por cima do carro:
— Mas ninguém percebeu, filha.
— Ainda assim, mãe. A senhora também não me falou nada. E sobre amanhã junto. Sendo que eu avisei que marquei uma visita lá em casa com meus amigos. Custava um segundo pra vocês me falarem?
— Eu pensei que você tinha ouvido, querida. Porque foi naquela hora que eu tava com a Lia na sala e... Ain, nem me toquei que seria o mesmo dia do encontro com seus amigos. Mas se tem problema, eu desmarco com Djane.
— Não tem problema nenhum você ir, mãe. Aliás, vai sim e se divirta. Eu só tô chateada porque NINGUÉM me falou sobre coisas que me dizem respeito também. Não foi nada legal ficar perdida sobre a viagem que não teria mais ou sobre vovô e vovó vindo, e... Poxa, sabe?
Murilo enfim se pronuncia:
— Desculpa mesmo, mana, eu só... Na minha cabeça eu tinha te falado sobre o Natal. E sobre o passeio... É, esse eu sei que não falei. Me desculpa, tá?
Cruzo os braços.
— Vou pensar no teu caso.
Com essa, me distancio um pouco do carro para me despedir decentemente do namorado, que me segue para o espaço de trás, e mamãe e a criatura entram.
— Se te faz sentir melhor, eu também não sabia. Sobre o passeio. E sobre o Natal, eu não percebi mesmo que você não sabia do arranjo.
— Descobri na véspera da véspera, com mamãe e a Iara rindo de mim. Fiz elas prometerem não vazarem, senão eu não participaria. Claro que iria participar, e isso pode soar bem bobo, mas... me pegou mesmo.
Vinícius me envolve pela cintura, para nos manter mais próximos.
— Se te deixou chateada, não é bobo.
Só inspiro pra dissipar essa coisa toda e descruzo os braços para poder me encostar em seu peitoral. Ficamos uns segundinhos assim até que ele se manifesta de novo:
— E sobre ontem... sobre sua mensagem... Posso perguntar sobre isso?
— Não sei. O que quer saber?
— Como você está, se tá bem.
— Não tô exatamente bem, mas vou ficar. Só tô com sentimentos confusos.
— Confusos?
— É que... Não consigo sentir raiva da Flávia, mas quando se trata do...
Vinícius inspira e expira fundo.
— Entendo.
No pouco que me desvencilho dele, sinto como fica enrijecido com isso. Nunca chegamos a falar sobre a conversa que ele teve com o Aguinaldo depois de descobrir o que havia acontecido.
— Você chegou a...?
Não dá pra completar a pergunta porque o Murilo buzina.
— É melhor vocês irem, também tenho que passar no trabalho. Conversamos outra hora. Mas fico mais tranquilo que você tá... Bem, não tranquila, mas não está...
— Chorando? Só mesmo pelo meu pai e meus avós. Chorar por aqueles dois, acho que já não tenho sentimentos pra isso.
— Independente de como esteja, vamos atravessar isso. Tudo isso.
Murilo buzina de novo e esse dia não para com as despedidas.
— Obrigada por compreender.
— Obrigado por falar. Te vejo mais tarde.
Com o coração pesaroso, recebo seu carinho, seu beijo e sua ajuda para entrar no carro. Ainda conversaríamos sobre isso, outra hora, outras condições. Agora acho que só quero ficar quietinha e quem sabe, conseguir um bom colinho, como uma adulta merece.
~;~
Chegar no ninho vazio me faz eu me arrastar bem mais devagar pela casa. Ouço um pouco longe o Murilo falar que teria que comprar almoço porque recebeu um chamado para ir mais cedo pro serviço. No sofá, ligo a televisão sem muita vontade. Em pouco tempo, mamãe se senta ao meu lado, receosa.
— Ficou mesmo chateada pela notícia do passeio, filha?
— Não tô assim pelo passeio. Como eu disse, acho que seria muito bom a senhora ir. Só fiquei... Tenho esse direito de reclamar, não? Mas também não só por isso.
— E pelo quê, hein, meu bebê?
Seu carinho meigo aos meus cabelos me desmonta toda e mamãe acaba interpretando meu resmungo de modo errado.
— Ain, mãe.
— Sabe que é meu bebê.
— Não falo por isso. É só que... também tô chateada com outras pessoas.
— A menina Flávia, você diz?
Assinto, aborrecida. Me ajeito minimamente para tirar o raio da bota do pé, como quem não suporta mais a própria realidade.
— Sim. O Aguinaldo também. Sei que o Murilo comentou algo com a senhora sobre isso no outro dia. E ontem ele me levou para ver a Flávia, coisa rápida, um pouco depois de você e o papai se recolherem.
— E não se resolveram, pelo jeito.
Mamãe suspira, interpretando certo.
— Não por exato.
Já com o pé livre, apoio na mesinha frente a nós, inquieta. Não achei que sentiria algum impulso de falar sobre isso e logo com mamãe, então só esvazio um pouco.
— Resolvi ficar um tempo afastada.
— É algo sério assim?
Me recosto ao sofá sem a olhar diretamente, agora concentrada em um fio que se soltava da minha blusa.
— Mais do que eu gostaria. A Flávia... Ela fez coisas que não concordo e também não respeitou minhas decisões e... Sei lá, mãe. Eu sei que a Flávia não fez por má intenção, mas não quer dizer que posso deixar passar. Precisei traçar limites. E eu sei que a senhora não entendeu nada do que eu disse, mas é basicamente isso.
— Não poderia explicar um pouco mais?
Por um segundo, quero soltar tudo; por outro, sei que seria muito para liberar de uma vez só. Não queria lhe trazer tristeza agora, só... falar que existia algo me bagunçando. Era o máximo que minhas barreiras conseguiam abrir ao momento.
— Melhor não.
— Hmmmmm... Djane sabe?
Sei que ela está fazendo uma pergunta justa, porém, a repreendo como se fosse algum dos seus ciúmes e isso lhe dá toda a certeza. Ou melhor, resposta.
— Mãe.
— Então ela sabe.
Como dona Helena vira o rosto, dessa vez muito quieta, sem chantagem, recosto minha cabeça ao seu ombro.
— Ela sabe porque tem a ver com coisas da faculdade, o que de certa forma também a envolve. Mas olha, ainda vou contar isso pra senhora, em algum tempo. Só não estou num momento de... sabe? Tudo bem?
— Acho que é o que me sobra.
Mamãe não diz de má vontade, só também desgostosa por não saber com profundidade. O que, diferente deles, não a motivaria me arrancar informação enquanto durmo, penso. Sinto novamente um impulso de dividir algo mais e declaro, quase sem som:
— Não é só Murilo que tem barreiras, mãe.
Com essa, ela se volta para mim, me puxa para si, me beija a cabeça, me cuida como se estivesse me embalando e não nego, porque precisava da sua asa e amor assim.
E semelhante a uma de nossas conversas da semana, faço um novo pedido:
— Enquanto isso, pode me dar um colinho?
— Todo o colinho do mundo!
~;~
Sei que não foi de todo intencional, mas as perguntas de papai no Natal também me bugaram a cabeça. Ver um pouco da despedida dele com mamãe ou ainda como se retiraram cedo ontem para ficarem um pouquinho mais juntos me deixou pensativa sobre o relacionamento deles e de como eram um grande modelo para mim. Um modelo que dei alfinetadas quando pude, mais precisamente em papai, por algumas coisas geracionais.
Fico agora reflexiva sobre isso por conta de um novo sonho, ainda fresco na mente. Deitei um pouco pela manhã por ter levantado tão cedo e o cérebro lançou sua arte sobre mim outra vez. Sonhei que estava em alguma cerimônia, numa igreja que costumava ir quando criança, e assisti meus pais se casando. Só que eu já estava adulta no sonho, como sou agora, estava bem feliz e comemorando junto com outras pessoas, essas desconhecidas, jogando arroz ao casal que se beijava em frente ao padre.
Por alguma razão, me levantei e caminhei até eles para os parabenizar e ao chegar lá os encontrei conversando sobre o que fazer “agora”. Coisas como quantos filhos pensavam em ter, como e onde iriam criá-los – mesmo eles ali estando, como eu, mais velhos. Papai dizia que não importava quem viria primeiro, ou quantos seriam, só queria ter uma família com ela, que poderiam estudar onde eles estudaram – um lugar que nunca ouvi falar e de alguma maneira me perguntei na cabeça se não era onde ficava um antigo cinema – e que haveria muito amor na casa.
Isso sempre houve mesmo.
Mas eu nunca soube bem como tinha sido o relacionamento deles antes de casarem – de verdade. Claro que já haviam contado algumas histórias, só que, pensando bem agora, eram coisas soltas. Acho. Não sei dizer muito sobre as dúvidas que tiveram, como eram, o que ajudou nesse aspecto. Assim mergulho um pouco nessas lembranças enquanto almoço. Quando sinto mamãe me observar, e perguntar com os olhos porque estava tão quieta, começo:
— Mãe, como você soube que o papai era o homem certo?
A voz dela sobe e afina na mesma proporção. De susto, ela até solta os talheres ao prato, sujando a mesa de comida.
— MILENA LINS ALBUQUERQUE! Que conversa é essa agora?
Foi uma pergunta tão natural pra mim, pelo que havia em mente, que nem me toquei de que isso poderia soar estranho a ela. Diria que o que vai, volta, por conta do estopim que Djane soltou essa manhã sobre o passeio, mas não quero deixá-la mais doida. Termino por dar de ombros, porque não era nada complicado também.
— Só queria saber como foi para a senhora... saber que o papai era a pessoa certa.
Mas ao que parece, mamãe tinha outras coisas em mente. Surtar, por exemplo.
Ainda no efeito estátua de susto, ela me joga:
— Já tá pensando em casar, filha?!
— Não, mãe. Não mesmo.
Não digo nem que não quero casar. Ela, por outro lado, solta a língua, tagarela e agitada, tentando juntar as migalhas de arroz que deixou voar de seu prato.
— Tô muito nova pra ser avó. Não que eu não queira, mas acho que... Tá, o Murilo é passável, tá na idade. Mas você... Tá muito, muito nova. Tem muito pela frente e...
De repente ela para, me olha esquisito e não sei o que esperar.
E quando continua, vem com mais uma carga questionadora e surtada.
— Você não está grávida, está? Tava me escondendo isso, Milena?
— Meu Deus, foi uma pergunta inocente, só isso.
Mas mamãe tá agoniada e demonstra que quer algo mais concreto do que lhe entrego ao bater a mão aberta na mesa no espaço entre nós:
— Milena Lins! Tá ou não tá grávida? Diz logo!
— Não tô grávida, mãe. Caramba. Não tô grávida e não vou casar.
Para mais efeito de entregue, coloco as mãos ao alto dos ombros como se ela pudesse me revistar. Mas mesmo essa minha resposta a deixa alterada, vez que suspira pesadamente, raivosa, e cruza os braços, indo de encontro ao espaldar da cadeira com força.
— É que vocês não me contam mais as coisas e fico sabendo só de última hora. Até essa história de escada. Não sei nem como você caiu.
Tô tão atarantada com ela me questionando tudo isso que nem paro pra pensar.
— Tava eu e a Flávia segurando o retroprojetor quando alguém passou p... Mãe, tá me driblando?
De alguma maneira, parece que a ofendi, sendo que, novamente, fiz só uma pergunta na maior inocência. Não precisava ela se levantar num átimo, os braços presos ao corpo tenso, por eu devolver a questão.
— Eu? Eu que tô querendo saber de onde veio essa conversa toda.
Ela quer tanto saber que começa a andar pelo espaço da cozinha, revelando um pouco de seus pensamentos igualmente confusos. Então toma a minha direção e fica de frente pra mim.
— Você não é de perguntar nada ao avulso que eu sei. Tem sempre algo a mais, como seu pai. Agora, se não é gravidez ou casamento, é o quê? O Vinícius já fez algum pedido que eu não tô sabendo? É pra morar junto?
Pego ela pela mão e faço que se sente novamente. Teria de deixar as coisas as mais claras possíveis pra não ter mais isso de sombra de dúvidas.
— Mãe, me escuta. Ninguém fez nada. Nenhum pedido. Foi só uma curiosidade mesmo, porque a senhora tinha brigado com o papai e depois estavam no maior love aqui em casa, o que era super fofo ver vocês assim, e ao mesmo tempo estarem os dois aqui, e eu meio que sonhei com isso ainda pouco. Sonhei com vocês, vocês se casando e conversando sobre terem filhos. Só isso. Curiosidade ge-nu-í-na.
Isso a faz respirar de um alívio imenso, quase a se desmantelar sobre a mesa e uma mão ao peito quase teatral.
— Acho que depois daquela história do Fred ser o “neto” da vez, imaginei aqui que isso tivesse te motivado a me revelar logo...
Nesse ponto, realmente, sinto que precisava pontuar sobre esse tal netinho e o rolê com o sogrinho, a Iara e eu, só que aí mamãe diz algo que faz muito sentido. E não é um bom sentido.
— ... ainda mais que você andava sentindo tantas vontades de repente.
Caramba, com essa, EU que SURTO. Paraliso no tempo e espaço e pisco para o nada juntando um e um sobre os últimos dias, de como estava mais irrequieta, com algumas mudanças de humor, cansada e... Não pode ser.
No segundo que minha ficha cai, que olho mamãe, que ela me olha de volta e vê que tô esbugalhando os olhos, faço-lhe um pedido com a calma que consigo alcançar:
— Mãe, por favor, pode pegar minha agenda lá no quarto? A que tem uma capa azul. E a nécessaire também.
~;~
Sempre que eu via essa cena em filmes ou séries, achava exagerado. Agora nem xixi eu consigo fazer de tanta tensão que se acumulou por todo meu corpo. Não é como se eu pudesse simplesmente mudar de pensamento e relaxar, porque essa possibilidade não existe!
Mamãe bate na porta do banheiro e eu quase posso chorar de nervoso.
— Ainda não saiu nada!
— Você tomou água quando eu saí?
— Tomei. Dois copos.
Na verdade, foram três. Mesmo checando minha agenda e meu tablete de comprimidos anticoncepcionais, que pareciam normais, a coisa toda ficou num suspense que nem eu ou mamãe conseguimos terminar de almoçar. Ela logo levantou num rompante para tirar a dúvida: iria andando até a farmácia para comprar um teste. Me disse para tomar água e saiu ao sol quente de 13h da tarde.
Virei dois copos de ansiedade pura não acreditando na possibilidade. Não fazia muito tempo que a Keyla havia espalhado rumores de gravidez sobre mim por conta de um falso enjoo. Ao menos esse sintoma eu não tava sentindo.
Com esse climão todo, mamãe nem chegou a perguntar... detalhes. Não, nunca transei sem camisinha. Além de prevenir contra bebês, prevenia contra outros problemas. Mas todo mundo sabe, mesmo que quase inconsciente, daquele 1% de chance de não funcionar. Infelizmente, não há nenhum método protetivo em 100%.
E eu sou tão cuidadosa com tudo!
Se bem que nos últimos meses venho caindo pelo próprio ritmo da vida e de tantas confusões. Ainda assim, quando se trata desse tipo de proteção, ou pelo menos de tomar o remédio direitinho, eu não falho. Mas o remédio pode falhar.
Quase engoli uma nova pílula só de pensar nisso e foi assim que virei um terceiro copo de água. Que não quer sair de jeito nenhum!
Respira, Milena, só respira. Não pira!
Fecho os olhos e só respiro mesmo. Lembro dos exercícios de respiração que o Vinícius havia treinado comigo para minhas crises de pânico e, embora seja confuso ter ele em pensamento enquanto me vejo nessa situação esquisita, ajuda. Consigo amainar e enfim o xixi começa. Passo o teste por minhas pernas sem considerar minha posição, toda sem jeito e não sei se preciso só de umas gotas ou se tenho que deixar a bexiga esvaziar toda em cima do palitinho.
Nessas condições, não teria nem como tirar a dúvida, porque também não teria como conseguir ler as instruções que ficaram dentro da caixa. Apenas deixo o mar de xixi fluir o quanto dá e mal me contenho, esperando pelo fim da grande interrogação que me machuca o estômago e a cabeça. Imagina como ficaria o resto do corpo com uma gravidez. Quer dizer, não, não imagina, Milena!
Quando enfim sai a última gota, não me sinto preparada para a resposta. De olhos fechados, puxo o palitinho e abro apenas uma frestinha para acompanhar o próximo passo. E ao bater o olho lá, o alívio vem antes mesmo de o resultado sair. Quer dizer, saiu do modo mais convencional. Estava levemente vermelho, sujo de menstruação.
Quase posso chorar, dessa vez de felicidade.
— DESCEU, MÃE, DESCEU!
— Desceu o quê? O que isso significa?
— A MENSTRUAÇÃO DESCEU!
Fale com o autor