Mantendo O Equilíbrio - Tempo de Mudança (T6 + T7)
203 CENAS EXTRAS 4 - Tentativas e revelações
Notas iniciais
(reveja o capítulo 36 *temp 7* para se situar)
No sábado pela manhã, Vini conversa com a mãe, conta o que Murilo já descobriu, confirmando as suspeitas que tinham. Também menciona sobre o espaço que a Milena pediu diretamente a ele e que o Murilo reforçou, coisa que Djane logo nota ter afetado o filho. Ela termina por concordar com o Murilo. A Milena era prioridade, principalmente no quesito do bem-estar dela. Eles, como namorados, conversariam depois.
Em dada hora, ele não resiste e liga pro Murilo, que dá mais notícias de como a Milena está. Mostra-se apática, aérea, sensível e frágil. Pouco sai do quarto e até as refeições faz lá. Só fica deitada, dorme ora e outra, e às vezes parece assustada. Não está nem vendo o celular. Murilo pede, inclusive, pra que ele releve essa reação dela. Vini se sente retraído de novo, mas entende que ali não pode interferir. Pouco o próprio irmão dela está colhendo algo.
Para se distrair disso tudo, tenta estudar um pouco. Mexe nuns programas, arruma umas escalas, fica encarando o autocad mais do que gostaria. Os números e as coordenadas até fazem sentido, mas, volta e meia, Vinícius pensa no que pode ter sido essa coisa horrível que o Gui e a Flávia fizeram, o que poderia ser tão terrível assim. Era melhor do que pensar bobagem quanto ao Sávio. Se a Milena não falou nada pro Murilo quanto ao cara passar do ponto com ela, é porque não deve ter rolado. Certo? Porque agora ela fala as coisas pro Murilo. Só gostaria que falasse para ele também.
No domingo, ele vai para o almoço na casa do vô e lá dá a desculpa de que a Milena tá estudando para as provas finais. Também diz que o Murilo foi ver a afilhada. Ele disfarça falando da faculdade, mas tanto a Iara quanto o Filipe notam que tem algo a mais ali. Antes que perguntem, Vini sai logo após o almoço, também prometendo estudar e Djane meio que cobre ele.
Devia ir para casa, mas algo o faz ir bater na porta dos Lins. Murilo que atende, sem jeito.
- Ei.
- Preciso vê-la.
- Tudo bem, entra aí.
- Como ela tá?
Vinícius já perguntou isso tantas vezes que espera que o cunhado não lhe dê um soco por isso. Murilo, por outro lado, parece apreciar essa atenção.
- Tá meio fora do ar. Mas conversa às vezes. O melhor é falar coisas aleatórias e não esticar muito o assunto. Às vezes, é só estar presente.
Vinícius assente, absorvendo os conselhos, apesar de isso ser meio estranho. Tipo, ter que receber orientações sobre como manter o relacionamento com a Milena no momento. Mas ele se lembra de que quando ela fugiu do Murilo no passado, o Murilo também teve que ouvir dessas. Era melhor do que nada. Era melhor do que ser afastado.
Ao passarem o terraço e o Murilo atravessar a porta lateral da cozinha, aquela que dá na garagem, de repente Vinícius vacila.
- Será que ela vai querer me ver?
- Não pensa assim, cara. Ela tá no banho agora, então tenta relaxar um pouco.
Vini o ajuda com as louças na cozinha. Estavam conversando sobre o novo prédio e a mudança de trabalho de Murilo, algo que Vini também já havia passado algumas vezes. Seu nervosismo já estava melhorando quando de repente a Milena surge no mesmo cômodo. Ela entra de pijama, um pouco surpresa e muito abatida. Mais do que no outro dia em que se encontraram.
- Vini.
- Oi.
Bate uma vontade enorme de tomá-la nos braços, estreitar todas as distâncias, beijá-la e não mais soltar, não importando se dividiria ou não o transtorno da vez. Só queria ficar perto e não dizer mais nada, mas Vini precisa se refrear.
Em seu favor, Murilo solta a coisa mais inesperada para cumprir aquela sua ideia. “O melhor é falar coisas aleatórias e não esticar muito o assunto.”
- Acho que o Velozes e Furiosos que vai passar daqui a pouco é o filme 3.
Isso faz o Vini se lembrar do outro dia, que tinha ele tentado preencher o silêncio com a história do One Republic. Por que não funcionou ali? No que ele tinha errado?
Nem dá para pensar muito sobre isso, porque a frieza e a letargia da Milena o pega a ponto de ele dar um passo para trás. Sente que está incomodando. Do jeito que ocorreu no dia que a trouxe para casa.
- Posso ir embora se você quiser que eu vá.
Se ela disser que não me quer aqui, eu vou, é isso. Se ela precisa, é isso.
Só que a Milena não responde de imediato. De olhos baixos, vira-se para o irmão. No que fala, diz sem muita vontade.
- Mu, não achei meu carregador.
- Ah, eu peguei emprestado. Tá lá no quarto. Eu... Volto já.
Ficar sozinho com ela novamente o deixa atrapalhado. Porque aquele sentimento do outro dia bate de novo, ainda mais porque estão exatamente ali, na cozinha, onde aconteceu. Onde ela se inclinou para ver o relógio da sala e ele entendeu que era para ele ir embora. E aí o Vinícius sente que não deveria estar ali. Ao mesmo tempo, não conseguia não estar ali. Estava sem ação.
Pensa rápido, caramba! Coisas aleatórias. Comida. Mas já almoçaram. Não trouxe gelatina. Não trouxe nada. Televisão. Deve ter algo na televisão agora. Um filme. O Murilo falou de um filme. Aquele dos carros.
- Então, Velozes e Furiosos. Acha que posso ver com vocês? Faço a pipoca.
Nem ele crê muito nessa, mas tenta.
- Eu sei que você quer respostas, Vini.
Ele se aproxima, ficando quase colado a ela, segurando uma de suas mãos consigo. Sentia falta do seu toque, do seu sorriso, da sua presença por todo. Talvez demoraria a sorrir de novo, mas queria ficar para ser aleatório com ela. Falar de qualquer bobagem, menos as que povoavam a sua cabeça. Só queria... estar.
- Quero estar com você.
- Eu também sei ler seus olhos.
Ele os fecha e aperta, temeroso. Parecia que ela lhe escapava sem poder alcançá-la de volta. Sem ele ter uma chance. Sem sequer confiar nele. Um mínimo voto de confiança.
- Estou tentando.... É tão difícil me dizer?
“Por que não eu? Por que os outros sim e eu não?” é o que ele segura consigo, e ainda bem que segura. Porque a Milena se sai dele e dá um passo para trás, de olhar baixo, ressentida.
- É, é difícil assim. É difícil pronunciar as palavras. É difícil sentir. E é difícil vivenciar mais uma vez. Eu não quero.
Num ato de exaspero, Vini tenta puxá-la de volta.
- Lena, por favor.
- Vini, por favor você.
A barreira dela o alarma de vez, que gela, sabendo que fez besteira. A besteira que ele ficou se dizendo o tempo todo para não fazer. Não porque poderia levar outro vaso na cabeça, mas porque ela estava traçando mais do que espaço entre eles. E isso estava além da capacidade dele de aguentar. Por isso ele pira e dá mais curto-circuito dentro de si, pois mal sabe como tentar se consertar.
- Me desculpa. Eu... Eu sei que tô fazendo besteira aqui. Dizendo coisas que não são pra dizer. É só... É só minha vontade de estar com você. E de fazer alguma coisa por você. Alguma coisa útil. Pode... Pode me perdoar?
Vinícius arrisca um carinho, receoso da resposta que ela possa dar. Receoso também de ter que apelar um pouco mais, suplicar até, para que não o tenha por mal. Para que não o deixe de fora mais uma vez. Que ele pode ficar quieto. Que ele pode calar seus pensamentos idiotas. Que não vai haver mais perguntas. Que ele pode se sentar no outro sofá, no chão até. Não importaria se fosse ser difícil, porque era melhor do que ter que ir embora. Só não quer ir embora. Só não quer... Não quer perdê-la para o desconhecido. Por favor, não faz isso comigo.
- O que você precisar. O que você precisa nesse minuto, agora?
Murilo reaparece nesse momento na sala, quebrando a bolha dos dois, e logo vê que havia outro climão pesado entre o casal. Desconcertado por atrapalhar, ele deixa o carregador na mesa de estudos e vai pro lado do sofá. Mantendo-se de costas para eles, inventa de ajeitar o estofado e as almofadas, já pensando em sair de cena de novo.
Entre o casal, a Milena leva em conta essa pausa para uma nova decisão. Vez que é bem perceptível a tortura no Vinícius, e que ela lembra de como aquilo mexeu com os monstros do Murilo, considera que havia os monstros do Vinícius também. Só não tinha energia alguma em si para entregar a história. Ela olha do irmão para o namorado e se afasta.
Essa imagem é outra facada para o Vinícius, que fica petrificado, de olhos cheios, assistindo a Milena sair da cozinha sem dizer nada. E mesmo quando ela estaciona por um instante na sala, para falar algo com o irmão, ele imagina que é para pedir para que o retire dali. Para que não permita mais a sua entrada. Isso o desgraça de vez, que se segura no alto de uma cadeira para não desabar.
Ao passo que a Milena segue para o quarto com o carregador, ele tenta respirar. Tenta se manter de pé para sair com alguma dignidade. Para ter forças de agradecer ao Murilo por deixá-lo entrar. Para disfarçar que estava destroçado. Porque ali o Murilo ia considerar o bem-estar da irmã acima de tudo. Ele não era importante no momento.
Quando um Murilo um tanto penoso e atônito entra no seu campo de visão, Vinícius passa a mão no rosto, virando-se de lado, como se fosse ir para a porta, a porta lateral, mas se detendo para algumas evasivas que o cobririam. Pensa também no pedido do amigo, para ir com calma, que ele não atendeu. Agora já não consegue o encarar.
- Desculpa, cara. N-não... Não precisa falar nada.
- Tudo bem, eu entendo o que tu quis fazer...
Não, não de todo, Murilo. Você não entenderia. Ou até poderia entender, mas isso é vergonhoso demais para dividir contigo. Melhor eu me recolher mesmo.
- Não faz dois dias que eu tava assim. Também não conseguia ficar parado.
Voltando-se para a saída, Vini torna a preencher a conversa pra não piorar a cena dele sendo retirado. Cabisbaixo, tenta se justificar e pedir desculpa de novo.
- Eu sou um imbecil, só isso. Ela me pediu espaço e eu apareci aqui. É claro que ela me daria um passa fora. Eu só quis acreditar que não.
Mas aí Murilo o segura firme no ombro, para que não saia.
- Cara, tu entendeu errado. Ela autorizou.
Vinícius paralisa ali mesmo e se vira para o amigo, atordoado.
- Quê?
- Foi isso que ela me disse agora. A Milena pediu pra te contar.
Uma lágrima escorre no rosto do Vini, mas nenhum dos dois comenta ou se atenta para isso, não diretamente. Murilo até fica sem jeito de ver o estrago no cunhado e tenta colocar as coisas em outra perspectiva.
- Ela quer que você saiba. Só não quer ter que reviver a história mais uma vez. Tipo, não é que ela não queira te dizer, é que ela não tá de fato em condições pra te dizer isso. Mas me autorizou a falar pra ti.
Entre a perturbação e a emoção, Vinícius não consegue achar palavras para essa reviravolta, mas fica bem claro como isso o deixa esperançoso, mesmo desacreditado. Até Murilo toma um fôlego para fazê-lo ir para um lugar mais confortável. Porque o papo não seria nada fácil.
- Vem, vamos pra sala.
Na poltrona, Vinícius se esforça em se recuperar para ouvir tudo. Murilo se senta próximo dele, no canto do sofá, vendo como começar, onde a história começa, onde a dor começa. Só de pensar, e as imagens se formando em sua cabeça, sente seu estômago apertar e seus olhos a ponto de encher.
Não era à toa a Milena tinha dificuldade em falar.
- Então... naquele dia, ela saiu mais cedo da aula, o Sávio a deixou na casa do Gui. Parece que Djane tinha separado um material de pesquisa para eles e a Milena foi lá levar e ver como o Gui tava. Mas quando chegou, ela ouviu uma discussão. Uma discussão que tava tendo no quarto dele.
Mais em si e demonstrando total atenção, Vinícius estranha isso.
- Discussão?
- Era o Aguinaldo e a Flávia brigando. E era uma briga bem feia. A ponto do cara expulsar a própria namorada do quarto. E a Milena tava ali, no corredor, ouvindo tudo.
- Mas... o que diziam?
- Ao que parece, o assalto do Gui não foi um assalto. Foi um recado para o pai dele.
- O q...?
Vinícius quase se engasga no seco com essa. Porque o Aguinaldo também é seu amigo e pelo jeito foi escorraçado intencionalmente. O cara tava em perigo e pode ainda estar em perigo. E a Milena e a Flávia também. Será que é isso? Eles discutiram porque a Milena queria fazer alguma loucura por conta disso?
- Essa parte eu não sei muito bem. O fato é que a Flávia sabia disso. E mentiu pro Gui. Por isso ele tava fulo com ela.
Vinícius tenta juntar as peças e elas ainda não fazem sentido.
- E a Milena?
- Ela continuou ouvindo lá.
Não era essa a pergunta, porém o Vini não interrompe.
- Só que aí teve uma hora... que o Gui disse com todas as letras que tinha que falar com o Max.
- Max? Ele s-sabia? Como?
- Foi bem por aí que a Milena entrou no quarto, exigindo respostas. Daí o Gui confessou que eles, os dois, os dois sabiam da operação. E que precisava repassar a informação sobre a surra que levou. No caso, pro Max.
Puxando os cabelos ao alto, a surpresa e o abalo se misturam no Vini.
- Cara! Mas como eles descobriram? Eles viram algo na faculdade?
Se tava fácil assim de ver pelos corredores, então os suspeitos também poderiam ver? Poderiam sacar que a Milena tá sabendo demais? A Milena tava em perigo? A Milena... TÁ EM PERIGO?
- É aqui que o negócio pesa, cara.
Murilo enterra o rosto nas mãos e toma um novo fôlego. Vini fica em suspenso, apreensivo, ainda mais por essa pausa, logo essa maldita pausa.
- Murilo, fala.
Seu amigo levanta o rosto sem muita vontade e só continua porque recebeu essa missão. Era melhor ele falar do que a Lena se desgastar.
- Eles revelaram como conseguiram essa informação. Eles... Eles enganaram a Milena.
- Como assim?
Meneando a cabeça, Murilo se permite uma divagação bem vaga e morosa.
- Quanto mais eu penso sobre isso, mais agoniado eu também fico. Porque eles extrapolaram limites.
- Explica direito, Murilo.
Dessa vez a cabeça do seu amigo-irmão pende, encarando o chão.
- Tu sabe que às vezes a Milena... Quando ela não dorme bem, ela às vezes fala... Fala com as pessoas, fala coisas soltas, e depois não lembra.
- Ela falou pra eles? Assim, simplesmente?
Um novo suspiro pesado sai de seu mensageiro.
- Não... Foi diferente. Parece que quando ela chega em um ponto do sono, muito cansada, ela fala dormindo. E ela passou uma temporada na casa da Flavia... enquanto e-eu estive fora.
Vini pisca, processando devagar.
- Ela... falou dormindo? Ela contou? Da operação? Max?
Bem pesaroso, Murilo assente em confirmação. Segura também a emoção.
- E não só isso. A Flávia... Ela meio que manipulava as conversas. Fazia parecer como se a Milena estivesse falando comigo. E como a Lena tava vulnerável com a minha ausência, ela tava mais aberta a falar. Quer dizer, a responder coisas. A Flávia ia perguntando e se fingia passar por mim. Falando coisas que eu falo... Do jeito que eu falo.
Apesar de toda uma consternação estampada na cara do Murilo, Vini custa acreditar no que ouve dele.
- Ela... Não. Não, né? Não.
Murilo só continua, desolado e desgostoso, para que enfim chegue ao final.
- Pra Milena, eram como sonhos.
Vinícius se lembra disso, assustado.
- Os sonhos vívidos que ela dizia estar tendo!
- Sim. E foram algumas vezes isso. A Flávia até chamou o Gui pra acompanhar uma conversa. E foi nessa que ele...
NÃO PAUSA, MURILO, NÃO PAUSA. Não me diz que houve coisa pior!
- Ele...?
Perturbado, Murilo se levanta para andar um pouco, para liberar a tensão que lhe acomete sem ter que rasgar uma pessoa ao meio. Tenta manter a calma e se concentrar em só passar por essa parte. Só pisar e respirar, sem buscar vingança.
Perto da janela da sala, Murilo finca e aperta o rosto. E termina o que tem pra dizer.
- Ele também se passou por mim. Não na conversa. A Flávia foi falando, conduzindo a coisa toda e ele... Ele chegou a deitar perto. E parece que a Milena queria me abraçar e abraçou ele.
Vinícius se levanta de imediato, inflamado de ódio.
- EU VOU MATAR ELE!
E o Murilo o contém, também aos berros, segurando-o pelos ombros, para que fique, para que permaneça sentado.
- NÃO, NÃO VAI. Se eu não mato, tu não mata.
Transtornado, Vini bate de frente, questionando sem propriamente dizer, como poderia ele, o próprio irmão, não fazer nada.
- CARA!
Mas ver o estado enfurecido do Murilo bufando e se refreando é resposta o suficiente. Agitado, Vinícius não sabe se faria a mesma escolha.
- Eu sei, isso foi... Eu não tenho nem palavras. Mas como eu te disse, a Milena é prioridade agora. O bem-estar dela é prioridade. Também tá me matando, mas reagir com violência... Isso não iria beneficiar ninguém.
Vini suspira com força, anuindo, embora bem desagradado. Até bate no estofado da poltrona num ato de raiva. Já não consegue se sentar, assim fica de pé, alterado. Murilo que dessa vez volta a se sentar, bem no braço do sofá, quase que a segurar as pernas para não agir. Ou para se apoiar nelas, pois as emoções o acometem e ele funga se entregando ao sentimento.
- Com essa revelação, ela só fugiu. E foi aquilo tudo que tu já sabe. Ela quebrada, ela precisando da gente. Precisando da gente reforçando todo um amor pra colar os pedaços de volta.
Em profunda fúria e angústia, Vinícius desvia do caminho que perambulava por detrás do sofá, indo para o corredor.
- Eu... Preciso vê-la. Preciso abraçá-la.
Murilo o intercepta a tempo, colocando-se à frente dele e empurrando-o para trás. É preciso fazer força para impedi-lo.
- Calma, cara. Você vai. Mas eu vou primeiro. Preciso certificar que ela tá ok pra te ver. Tudo bem?
É com certo custo que Vini concorda. Assim, Murilo espreita o quarto da irmã.
- Ele quer te ver.
- Se ele não se importar, eu não quero... Não agora. Não quero chorar de novo.
- Tudo bem, ele entende. E agradece a permissão. Vou ficar um tempo com ele lá na sala e o dispenso, que tal? Daí você pode ficar mais sossegada.
- Tudo bem.
De volta à sala, Murilo fica sem jeito de novo. Vini entende logo de cara, entristecido. Ainda de pé, e dessa vez atrás do sofá, ele aperta o estofado do alto do encosto, indignado.
- Ela não quer me ver, né.
- Ela não tá muito em condições de remexer no assunto. É melhor deixá-la descansar. Até porque ainda vou tocar no assunto sobre o Max. Prometi a ela que esvaziaríamos a cabeça nesse fim de semana e então veria o que fazer, como fazer.
- Faz certo, acho. Eu que nem deveria estar aqui.
Nervoso, Vini se afasta do móvel, embora não pareça saber o que está fazendo. Murilo vai até ele para dar uma força.
- Ei, não pense que ela não quer... que ela não te quer aqui. É só que isso... É muito no momento.
De olhos cheios, ele entende. E tem raiva. Perambula de novo pelo espaço da sala dos Lins, enérgico, pronto para dar um soco em qualquer coisa.
- É realmente muito... E é uma droga... UMA DROGA tudo isso!
Vini até topa no pé da mesinha, a que fica perto da porta para o terraço, mas ele não liga. A fúria é tanta que ele não sente nada, nada além de ódio.
- E ele também é... ERA meu amigo.
Fica fulo consigo mesmo porque estava se preocupando só com o Sávio no meio! E o Gui que foi o desgraçado!
- E a Flávia... Porra, eu nunca poderia pensar...!
Agoniado por essa agitação, Murilo tenta segurá-lo e acalmar as coisas.
- Cara, tu sabe. Pessoas fazem coisas... inimagináveis... se postas em certas circunstâncias.
Vinícius não deixa de bufar com essa, cruzando os braços, ultra indignado.
- Deve tá te matando mesmo.
- Só tá e tu não imagina o quanto. Mas preciso escolher fazer diferente do que eu faria antes. Porque quando eu olho pra ela...
Murilo passa a mão nos olhos de qualquer jeito, angustiado, também com umas lágrimas encontrando saída.
- Eu me d-desarmo... inteiro. E se ela precisa d-de mim... só pra falar qualquer coisa ou p-pra ficar perto... é isssso que eu farei.
Essa vacilada embargada do Murilo também desarma o outro, que pausa um pouco no seu acesso. Ele não tava ajudando ninguém ficando alterado desse jeito. E se tava ali, era para ajudar. Assim, força-se a inspirar e expirar para se recuperar, força-se a se ater ao mais importante no momento. Considera então a parte que cabe à Milena, que provavelmente vai ter que falar com aquele investigador de novo.
- E como fica com o Max? A Milena vai ter que ir mesmo falar com ele?
Murilo se recompõe um pouco.
- Vou marcar uma reunião para amanhã, se possível. E acompanhar cada passo. Vou te atualizando de tempos em tempos, pode ter certeza. Ela não vai ficar sozinha.
Mesmo sabendo que a Milena é prioridade, Vinícius quer fazer algo. Não tem como ficar manso logo agora. Não ficou assim com o Anderson meses atrás e não ficaria assim com o Gui, independente do que o Gui já significou para ele. O Murilo pode até tá se segurando, tendo suas razões para fazer isso, mas ele não precisa fazer o mesmo. Principalmente se nem vai poder voltar aqui tão cedo. Porque a Milena não o quer no momento. Sua namorada tá sobrecarregada e nem pode dividir o peso com ele. Tudo por conta de um maldito que se deitou com ela e que se aproveitou dela no seu momento mais indefensável. Ele vai ver só o que eu vou fazer com ele!
Murilo captura um olhar diferente no amigo, algo para além da indignação, da raiva e da impotência. Parecia estar maquinando alguma coisa e que não era nada boa. Outra vez firma a mão no ombro dele, que segue tenso, de braços bem firmes e cruzados.
- Vini.
- Hm.
- É preciso ter calma.
- Eu tô calmo!
- Não, não tá. Eu te entendo, tu sabe disso. Mas não é pra agir mais no impulso. Entende o que eu quero dizer?
Mal pronunciando as palavras, Vini resmunga.
- Eu não vou aparecer aqui de novo, pode deixar.
- Não tô falando disso, tô falando dessa tua cara assassina aí. Falo porque eu já estive nesse lugar. E nunca deu boa coisa. Tu sabe bem como a Milena é. E só agora que a gente tem uma noção do que aconteceu e o que dá e não dá pra fazer. E isso aí, que tá na tua cabeça, não é pra fazer.
Vinícius só vira o rosto, de olhar enviesado, e Murilo o segue, para encará-lo.
- Me promete que não vai fazer isso, Vini.
- Fazer o quê? Eu nem sei do que tu tá falando.
- Sabe sim. Me promete que tu não vai atrás do Gui. Ou da Flávia.
Ele se calar faz o Murilo ser mais enfático.
- É sério, Vini.
- Entendi que não é pra bater, tá? E nem daria mesmo, porque o cara já tá quebrado. Não dá pra chutar cachorro morto.
Murilo o adverte bem mais circunspecto, quase intimidador.
- É sério, Vinícius.
- Eu vou pensar no caso. Pode ser assim?
*
Vinícius entendeu que o Murilo estava fazendo sala pra ele e, entoando ser pelo bem da Milena, decidiu se retirar. Na real, estava impaciente e enervado demais para ficar ali parado e o tempo todo ser barrado. Disse que ia direto para casa, mas ele vai para a casa do Gui. A mãe dele que o atende, bem gentil, e ele precisa disfarçar seu ódio, sua indignação e seu abatimento.
Ao adentrar a casa, Vini espia sem dona Alba perceber e também faz perguntas comuns, pra verificar se tinha algum sinal da Flávia por ali. Era bem capaz de ela estar, porém, se estiver mesmo, teria que pedir para que se retirasse, porque o papo da vez era com o Aguinaldo. Dona Alba confirma que o filho está sozinho e está acordado, e só o direciona para o quarto, já que o Vini já sabe o caminho.
Ele caminha apressado pelo corredor e hesita antes de entrar no cômodo. O pedido reforçado do Murilo dança em sua mente e ele abstrai. Convence-se de que só quer respostas. Havia conseguido algumas da Milena e agora buscava o outro lado da história. Certo? Afinal, não era para fazer diferente? Porque da vez passada, com o Anderson, Vinícius já chegou no soco, sem dar nem espaço de fala. Não houve perguntas, não houve conversa, só ele gritando, xingando o Anderson e se engalfinhando os dois.
Não teria como fazer isso com o Gui, não diante de sua situação. Ainda mais com a mãe dele por perto. E o cara nem poderia sair para se encontrar com ele. Então é isso, teria que ser na sua casa. Vini tenta se convencer de que tá se propondo a ouvir as merdas que o Gui tem pra falar. E já que não pode jogar esse cidadão na parede ou quebrá-lo por completo, tá bem disposto de jogar uns xingamentos e ameaçá-lo, pra ele nunca mais chegar perto da Milena. Pra ele esquecer de vez a Milena.
Com isso em mente, Vinícius entra no quarto e ouve o chuveiro da suíte. Sua apreensão abafada o enerva mais, porém, ele se dá um tempo, esse tempo, para descarregar antes de jogar umas granadas no peito do ex-amigo. Para ajudar com essa espera, senta-se numa cadeira, bem no canto do quarto, batendo o pé no chão, ansioso, o peito subindo e descendo rápido, a adrenalina agitando-o de novo.
Aparece, maldito! Aparece e me enfrenta!
Mas só sobra o chiado do chuveiro, o que o faz bufar de nervoso e agonia. Por todo o caminho, só foi queimando seus pensamentos, sem se programar em nada do que falar. Pensar na Milena naquela casa, vulnerável, e esse filho da mãe se aproximando e se deitando, a Milena sonhando com o Murilo, a Flávia se passando pelo Murilo, e aí o cara abraçar a sua namorada. Abraçar e ficar ali, junto. E colher informações dela. Fazer ela falar dormindo, no auge do cansaço. Não era pra menos a descrição do Murilo, de ter a impressão de que tiraram algo dela. Tiraram sua firmeza, sua força, sua confiança. Seu encanto. Seu brilho nos olhos. E tiraram qualquer ato de ação, de reação e de proteção. Foram perversos assim. Malditos.
Pensar também na Milena que se apresentou para ele nesta tarde o quebra e o enfurece. Tão fria, tão avessa. Tão distante. E que colocou mais tijolos, um muro inteiro entre eles. Deixou apenas uma frestinha, onde o Murilo pôde contar as coisas. E pedir e repetir para ele não fazer nenhuma sandice a mais. Justo essa justiça que ele veio buscar. Que tem ele que refrear. Pela Milena. Para a Milena não se torturar mais e nem fugir mais. Só mesmo ela para impedi-lo de algo.
Isso o faz soltar o ar devagar, o corpo quase ficando mole após a alta tensão. Mas a inquietude fica, querendo averiguar, saber, ter mais informações. Precisava ouvir da fonte. E precisava não se entregar à violência. Pela Milena.
O chuveiro é desligado vagarosamente e Vinícius fecha os olhos para se concentrar em não atacar o outro. É importante que ele não avance. É importante também que preserve o maldito que tá com a mãe em casa. Que poderia muito bem atacá-lo se houvesse uma briga. É preciso ter respeito a ela, à casa dela, ao sentimento dela.
Por que esse patife não teve a mesma consideração com a Milena?
Sabendo que a Milena já lida com tanto?
Estava com a cabeça fervendo outra vez, quando o Gui surge ao quarto, vestido, de toalha na mão. Ao notar a presença do Vini, fica cauteloso e para no caminho para a cama. Também nota como o Vini parece se debater sem sair do lugar e como tá todo trancado, quieto demais. Logo Vinícius levanta a cabeça por acaso e eles se encaram sem falar nada, porém tudo transparece. Gui suspira, resignado à sua condição. Senta-se à beira da cama, com a toalha ao pescoço.
- Como ela tá?
- Não vamos falar sobre ela.
Vini ia dizer algo mais, porém dona Alba bate na porta aberta, e ele vira o rosto. Mas é interessante saber ela vai dar uma saída, que já estava no ponto. Assim o Vini aponta para que o outro faça silêncio enquanto espera a mãe dele sair. Ao ouvir a porta bater, Gui toma partido, prostrado.
- Eu sinto muito, cara. De verdade.
Vinícius se põe de pé e se permite levantar a voz, socando o ar enquanto aponta para onde o Gui está.
- Eu confiei EM TI! E ELA... confiou em ti. NOS DOIS!
- Eu sei, tá? Eu sei!
- Sabe PORCARIA nenhuma! Porque se soubesse...
Puto da vida, Vini perambula naquele espaço com energia demais, energia de violência que acumulou e tava doida pra ser liberada, então resta a ele só gastá-la indo de um lado para o outro.
- Porque se soubesse, NÃO TERIA FEITO ESSA MERDA!
Fazendo certa pressão na cabeça, Aguinaldo a abaixa, em lamúria.
- O que eu fiz... Nem eu acredito. Sei que não mereço perdão. Tô me resignando com isso, tá bom?
Nervoso, Vinícius passa por ele batendo ombro a ombro, topando de propósito e se afastando em seguida. Porque estaria muito perto de cometer uma loucura e ele já tem arrependimentos demais dentro de si para carregar mais essa.
- Não se faz de idiota pra mim.
Gui não faz nada contra essa trombada, nada além de tocar na própria escápula em sinal de dor e aceitar de quem veio.
- Eu... Eu não tô me fazendo de nada, Vini. Eu tô dizendo qu...
Vini o interrompe, com certo desdém.
- Tu achou que ia sair impune, né?
Levantando-se, Aguinaldo tenta se firmar mais perante ele.
- Eu não acho nada, Vinícius. Mas se tu quer gritar, eu te deixo gritar.
Num impulso, Vini o empurra, porém se afasta.
- Tu não me deixa nada, seu canalha, porque eu não tô pedindo permissão!
Ele tenta focar na ideia de não mais chegar perto ou tocá-lo em alguma instância. Pra não acometer nenhuma atrocidade mais.
- Se não vou pra cima de ti, é por ela. Unicamente por ela. Porque TU não teve UMA CONSIDERAÇÃO por ela.
Gui se aproxima, colocando as mãos rendidas ao ar, embora numa altura do torso deles, como que para tentar se explicar.
- Não foi bem assim, cara.
Enfurecido, Vini se distancia, indo contra sua vontade de bater.
- Não me chama desse jeito, “cara”, que tu não é mais meu amigo. Porque TU não teve respeito por ela.
Mas o Gui insiste, caminha a passos lentos, testando território, vê até onde pode conseguir chegar. E chega de fato bem perto do outro, quase encurralando-o no espaço da parede perto da cama, pedindo sua chance.
- Me escuta, Vini. Não foi bem assim.
Altivo, segurando o próprio punho para não vacilar nessa, Vinícius demanda por respostas.
- E como foi então? Diz como foi isso!
Aguinaldo, infelizmente, fica incerto nessa. Pesaroso mesmo. Fala devagar também, para que não haja nenhum embate entre os dois. Porque ele não teria muitas forças para lidar com mais golpes, mesmo merecendo todos.
- Eu também queria saber, tá? A gente queria entender, só isso. Mas as coisas foram acontecendo e... quando vi, eu já tinha feito o que fiz.
Vinícius aproveita que Aguinaldo está próximo e quase cola nele, chegando bem perto de seu rosto, a ira lhe queimando pela imagem que se construiu na cabeça. Ele, Aguinaldo, se aproveitando da Milena.
- Dormir com a minha namorada, tu diz?
Gui dá uma passo pra trás, chateado com essa impressão ilógica e absurda. Mas não se altera, só firma o que foi sua posição naquela situação esdrúxula.
- Tu sabe que não foi desse jeito.
- Sei?
Aguinaldo encara o Vini, abismado com o quanto essa sugestão é descabida. Ele sabe que fez uma besteira enorme e que tem culpa nesse cartório, mas essa acusação é demais. Porque ele... Não foi desse jeito. Mas será que a Milena entendeu desse jeito? Ela se sentiu violada nesse ponto? Ou é o Vinícius que tá achando que foi dessa maneira? Que tá levando pra outros lados?
Alguém entendeu completamente diferente e Aguinaldo teme perguntar e a coisa toda complicar mais. Resta então ser claro sobre o que houve naquela noite longínqua. Para que não haja dúvidas.
- A gente não dormiu junto, e não, eu não toquei nela dessa maneira. Eu passei sim dos limites, mas não foi nada parecido com isso. E sim, eu sei que ela tava fragilizada. A Flávia que inventou essa de fazer umas perguntas e a Milena acabou me segurando, me abraçando, e só. Enfim, foi uma péssima ideia e também uma péssima condução da coisa toda. Eu não quis estar ali.
Aguinaldo se senta à beira da cama, cansado e contrito com as lembranças daquele dia, que ele não pode voltar atrás, nem mesmo consertar a merda toda.
De braços cruzados, Vini paira sobre ele.
- Mas esteve.
Nesse ponto, Gui se altera um pouco, sentindo esse peso da acusação de novo. Atrapalhado e agoniado, tenta outra vez explicar como aconteceu ou o que levou àquela tenebrosidade.
- Porque a Flávia ficava dizendo... A gente tava preocupado, tá? A gente já tinha passado por uma coisa assim, que a Milena guardava as coisas. E com toda a situação do Sávio, as coisas foram ficando estranhas e difíceis. Eu SEI que devia ter esperado mais. Eu sei que... Ela pediu confiança. Mas e se a Milena estivesse precisando de ajuda? Como ela precisou antes? E se tivesse na mão de alguém? E se ela tivesse metida com o Sávio numa coisa muito pior? O que ela tava, mas...
Gui basicamente abre o coração, suas preocupações, os anseios que lhe pegaram tanto naquele período, tantas brigas, tantas maneiras pra não acontecer aquela patifaria de novo, como quando o André avançou nela, ou quando o Sávio a beijou, ou mesmo quando ela sumiu, fugiu de todo mundo, fundiu-se com medo de encarar os próprios segredos. Ele já havia falhado e mais de uma vez. E naquele período a Milena tava agindo mais estranha do que de costume. Havia tanta coisa no ar. E o Vinícius ignora tudo isso.
- E arrancar dela enquanto dormia foi a melhor opção?
Gui se levanta, aborrecido. Tenta peitar o Vini, mas ele mesmo se freia pelo que lembra e de como as coisas começam a girar na sua cabeça. Aquela sensação ruim de novo.
- Claro que não. Eu não concordei com isso. Mas as coisas estavam bem confusas, eu não sabia bem o que pensar. E de repente... As respostas estavam ali. E não dava mais pra voltar atrás.
De semblante fechado, e braços firmes ao corpo, Vini encara o Gui e seu aspecto derrotista e como ele praticamente se prosta, mas não isso não é nada como a Milena ficou. Não é nada parecido com como eles a deixaram. E por um segundo, Vini deseja que estivesse, que ficasse muito pior. Mas não poderia fazer isso acontecer, não poderia remexer nisso e afetar a Milena novamente.
Só não deixa de se queixar, quase rosnar, com rispidez.
- Vocês não têm ideia do que...
Dessa vez, no entanto, Gui o interrompe muito do sóbrio. Abatido, porém focado. Taciturno e consciente.
- Eu tenho ideia sim, Vini. Não precisa vir me dizer que foi errado, porque eu sei que foi. Eu sei o quanto foi errado. Eu assumo o que fiz e assumo as consequências. E eu sei que é irreparável. Pode não parecer, mas isso tá me consumindo há muito tempo. Te garanto que eu passei noites sem dormir. Te garanto, aliás, que se pudesse voltar no tempo, eu faria diferente. Faria outra escolha. Porque sei o que perdi, QUEM eu perdi. Te diria minha cara pra tu quebrar, mas ainda tô me recuperando do último que me escorraçou.
Por uns segundos, Vinícius fica sem resposta, só mexendo a mandíbula trincada, olhando o outro de maneira enviesada e se trancando todo para não reagir. Termina passando batido pelo Gui para a porta.
- É melhor eu ir.
Aguinaldo se apressa em seguir seus passos, para alcançá-lo ainda na sala.
- Olha, apesar de tudo, eu agradeço que você veio e me ouviu. Eu não merecia, mas agradeço. De verdade.
Vinícius não responde, evita qualquer contato e abre a porta que leva ao terraço. Mas uma coisa o detém quando o Gui se manifesta de novo.
- Se não se importar, ela deixou umas pastas.
Gui faz um esforço de levá-las até a porta, já que tinha certo peso considerável, e Vini pega o material só desejando vazar dali o mais rápido possível.
No caminho de volta, ele mal sabe o que pensar. Quando entra outra vez no bairro da Milena, já sabe o que vai ouvir e também quer evitar maiores confusões. Assim, liga pro Murilo, para que apareça na porta.
Vinícius estaciona logo que o amigo vai para a calçada, estranhando o movimento e o pedido repentino. Sem descer do carro e antes que o Murilo perguntasse diretamente do que se tratava, Vini só abaixa o vidro e entrega as pastas. Não encara, não diz nada, continua sério. Murilo recebe chateado, entendendo o que ele fez.
- Eu te disse pra...!
- Eu tinha que ir lá, só isso. E eu não quebrei ele, tá? Ele tá vivo e vivo até demais.
Com essa, ele sobe o vidro de novo e finalmente vai pra casa.
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