Mantendo O Equilíbrio - Tempo de Mudança (T6 + T7)
200 CENAS EXTRAS 1 - A bomba da traição
Notas iniciais
(releia os cap. 33 e 34 *temp 7* para se situar)
É fim de ano e o colegiado pedagógico está se programando para o próximo semestre. O diretor pediu uma posição do oficial sobre a investigação, para saber em que pé está, vez que a instituição é de respeito e não pode mais dar conta de cobrir um professor falso em sala de aula, principalmente se envolve tantas turmas. Não é justo com os alunos e nem mesmo com Djane, que mais uma vez se encontra sobrecarregada. É preciso chamar outro professor para lecionar e Fabiano se sente de mãos atadas, pois enquanto não resolver isso, não tem como tomar nenhuma atitude. E de Max, logo de Max, ele não pode depender.
Max, por sua vez, no auge do seu estresse com a operação, não curte nada desse papo de prazo. Ele até deixa vazar que já conseguiu bastante coisa, mas faltam algumas peças-chave para concluir a missão. Fala também que está de olho em quatro alunos suspeitos, embora não os especifique de fato; só diz que está perto, prestando atenção nos esquemas. Só que seu modo de se comunicar é bem grosseiro, de modo que responde mal a Fabiano, ofendendo. É a hora que o diretor também se altera, eles saem na porrada e sobra para Djane separar.
O investigador leva uns socos pesados de Fabiano, que é quase o dobro dele. Fabiano também apanha. E Djane consegue, aos trancos e barrancos e na surdina, retirar Max da diretoria para o departamento. Lá chama Glorinha para dar conta de Fabiano. A secretária não entende nada, mas segue para ajudar.
É nesse meio tempo que a Milena chega atrasada para a aula e encontra Max todo quebrado. Outro bate-boca se dá e Milena também revida a ignorância. A situação fica tão absurda, que ela não consegue falar com Djane, quem também se ausenta durante essas bagunças todas. Milena fica sentida com isso, porém, depois vê que é melhor não ir atrás de mais confusão para a sua vida.
O fato é que, para se distanciar disso, ela precisa fechar os olhos para o que captava ao redor e até mesmo para o seu contato direto com Djane. Mas diante do que ela se depara na casa do Aguinaldo, quando ouve a conversa dele com a Flávia, e então foge, Milena se vê sem opções de com quem contar. Para quem ligar e se apoiar. Murilo não atende e ela não quer envolver seus amigos, nem o Vinícius. Não queria atrapalhar e nem assustar ninguém, mas também estava assustada com o que ouvira naquele quarto. Com a cabeça a mil, ignora as brigas anteriores e liga para Djane, que logo percebe seu estado. A professora vai atrás dela na lanchonete. Lá, Djane se depara com uma Milena fragilizada, que não fala nada com nada, só pede para ir para casa. Preocupada, Djane atende seu pedido, mesmo sem entender a situação e sem obter qualquer resposta.
Na casa dos Lins, Milena vai despencando até se estirar no sofá e se desligar do mundo. Mais assustada com isso, Djane logo vai atrás de Murilo, que está na cozinha, lavando umas louças. Ele mal se virou quando ouviu a porta da sala abrir e pouco vislumbrou o estado da irmã, vez que ela logo se deitou ao móvel. Mas estranhou o silêncio e ainda mais quando notou a presença de Djane hesitando na sua cozinha.
- O que houve?
- Eu não sei dizer, eu já a encontrei assim.
Alarmado, Murilo solta a vasilha e a esponja e se apressa em tirar o sabão das mãos, entrevendo a Djane. Ela se mantinha de olho no sofá, apesar não conseguir ver nada da Milena dali.
- Como assim “a encontrou”?
- Ela me ligou, nervosa, me pedindo ajuda. Já não tava na faculdade, estava numa lanchonete, perto da casa do Aguinaldo.
Com um pano nas mãos, Murilo enxuga num modo efusivo e automático, já na divisa da cozinha e da sala, observando o móvel a sua frente como Djane. A primeira coisa que passa em sua cabeça é aquela situação com Gui que vinha se estendendo faz um tempo, apesar de eles terem feito as pazes.
Murilo arrisca um palpite.
- Será que brigaram?
Djane, ainda com as chaves do carro na mão, cruza os braços.
- Mas pra ela estar desse jeito? Não sei dizer.
Ele também fica na dúvida, sem saber o que pensar. Vez que a impaciência logo o ganha, Murilo dá a volta no sofá e se agacha perto de onde a cabeça da Milena está deitada. Parecia bem pior do que ele imaginava, o que dava sentido à hesitação de Djane.
Penoso, ele faz um carinho leve aos cabelos da irmã, que nem parece notar. Na verdade, a Milena não demonstrava estar nesse mundo.
- O que houve, minha pequena? Hein? Me conta.
Sem respostas, a imagem dela deitada, quase apagando, aumenta sua agonia, mas ele procura se controlar. Só desperta quando ouve um toque de celular, alguém ligava para Djane. Ela checa a tela rapidamente e já se põe a andar para a porta. Não sem antes se aproximar do sofá e, por detrás mesmo, suspirar ao ver sua menina daquele jeito. Quando recebeu aquela ligação, deixou a professora Silvana amontoada de documentos e ainda teria que passar na casa dela novamente. Não queria ir, não desse jeito, porém, o dever a chamava.
- Tenho que voltar, Murilo, mas, por favor, me liga, me explica, me atualiza. Por favor.
- Claro, ligo sim.
Com um impulso, ele se levanta para a acompanhar até a porta, tentando tranquilizar ela e a si mesmo. Ao retornar, percebe que a irmã dormiu. Parecia para além de exausta. Pensa em levá-la para a cama, mas a posição da Milena não favorece muito. Além disso, Murilo não quer mexer nela e piorar a situação. Era melhor deixar que descansasse um pouco.
Assim, ele termina por juntar as coisas dela no pé da porta, deixa na mesa do quarto. De lá, pega um lençol e a cobre parcialmente, mais por conforto do que por algum frio da temporada. O dia até estava um pouco abafado. Quente fica é o seu cérebro enquanto queima seus neurônios pra juntar umas possíveis peças sobre o que ocorreu. Não sabe nem a quem perguntar. Considera o Gui, porém, se houve mesmo uma briga entre eles, é preferível ouvir a versão de sua irmã.
Numa volta ao seu quarto, checa o celular na tomada. Havia descarregado antes mesmo de sair do engarrafamento do dia. Mesmo assim, quando o aparelho apresenta a tela principal, cai notificações diversas, algumas ligações perdidas, sendo duas da Milena. Precisava comprar logo um carregador portátil ou um desses que conecta no carro, pois não pode viver assim, desconectado das pessoas, se a bateria não tem durado. Principalmente se uma pessoa importante precisa dele.
Não poderia acontecer de novo.
A pergunta “o que ela teria me dito?” acaba rondando sua cabeça por um tempo e para não ficar parado nessa espera, Murilo termina de lavar e guardar louças, para depois organizar os sacos de lixo. Estava checando a dispensa quando Djane liga, afoita.
- Alguma novidade? Ela disse algo?
- Não, ela acabou dormindo. Também não sei muito que esperar.
Murilo ouve quando Djane destrava o carro e entra no veículo.
- Estou indo pra casa já. Não sei nem como explicar isso pro Vini.
Murilo ronda a irmã por garantia, que nem mesmo se mexeu desde a hora que cochilou, e volta à cozinha para poder conversar melhor.
- Não é bom falar só amanhã? Pra poder deixar ela descansar.
Cansada do dia, Djane sabe que isso não daria certo. Nem certo era.
- Eu não conseguiria manter isso dele tanto tempo. Fora que o Vinícius ficaria muito chateado comigo.
Murilo havia focado tanto os seus pensamentos na Milena que nem tinha se ligado de como o Vinícius receberia a notícia. Provavelmente o amigo ficaria do mesmo jeito que ele se sente agora, agoniado e agitado. Ele se importava assim.
- É, ele ficaria... Posso ligar eu mesmo se for o caso.
Os dois são muito parceiros e o Vinícius ajuda muito nessas situações.
- Não, cuida dela. Eu... Eu falo com o meu filho. Ele vai te ligar logo depois, posso apostar.
- Tudo bem. Tô aqui de plantão, pra todo caso.
*
Djane dirige para casa, mas não deixa um minuto de pensar na Milena. Pensa na operação e pensa se há alguma ligação. É fim de ano e tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, que o cansaço bate forte ao corpo. Ainda assim, ela se pergunta se a Milena está segura, o que teria acontecido e isso é uma das coisas que precisaria relatar ao Max. Isso devia entrar no seu relatório da semana, sim ou não? É preferível manter a privacidade da Milena, claro, mas e se isso for algum daqueles pontos chave de que o Max tava falando?
Com a cabeça cheia, a professora desaba no grande sofá. Não como a Milena, mas algo próximo disso. Não a toa sua menina estivesse tão abalada.
Sem demora, logo Djane ouve o carro do filho entrando na garagem e, com as forças que lhe resta, já começa a se preparar pra falar. Não teria por que enrolá-lo, nem se demorar na notícia. O quanto antes, melhor para ambos.
Vinícius entra em casa distraído e cheio de bagulho. Pendurado ao braço, estava um daqueles tubos que guardam plantas de construções; nas costas, a mochila; na mão, uns cartazes, e na outra, o telefone na orelha. Ele atravessa a sala sem dar conta da mãe e deposita parte de suas coisas na mesa de jantar. Costumava fazer isso porque era caminho para o quarto. Djane só assiste o filho, que vai finalizando a ligação. Ele parecia empolgado com algo.
- É, esse desenho mesmo... Sim, ficou comigo... Levo pra ti na próxima aula... Tá bom então. Boa noite.
Na hora que Vinícius desliga e se vira pra pegar um dos cartazes que escapou de sua mão, que ele vê a mãe estirada e divagando no sofá, bem abatida.
- Também cansada do dia?
Djane se endireita ao assento e sua expressão continua não muito boa.
- Filho, senta aqui.
- Oh-oh... alguém aprontou. Não fui eu.
Vinícius para de brincar quando o rosto de Djane não se mexe um milímetro com a graça, algo que grita que o papo é muito sério, pois a mãe é dessas que ri de qualquer piadinha besta. Bom, de suas piadas bestas. Por isso, se senta logo e senta-se apreensivo.
Fica mais agoniado quando a mãe junta as mãos nas suas.
Antes que ele pergunte, Djane entrega sem rodeios.
- Aconteceu algo com a Milena, Vini.
- Como assim? O que aconteceu?
Djane suspira, extenuada, mas procura palavras.
- Eu não sei dizer bem... Ela me ligou, não estava na faculdade, me pediu ajuda. Ajuda para ir para casa. Daí fui ao encontro dela e ela...
A pausa de sua mãe não parecia boa coisa.
- Ela...?
- Ela desmoronou, filho. Assim, simplesmente, na minha frente. Não sei mesmo o que houve, só a levei pra casa. O Murilo ficou com ela, pra ver se ela diz algo.
Vinícius encara Djane, mas não consegue articular nada. Em complemento, sua mãe afaga suas mãos entre o consolo e o sentimento que carregava desde a casa da Milena.
- Até ainda pouco ela dormiu. Mas realmente, não sei o que dizer sobre isso. Também fiquei assustada.
Vinícius permanece quieto digerindo as informações. Ou a falta delas. “Teria ela me ligado, ou mandado mensagem, e eu não vi?”, ele se pergunta. Puxa o celular do bolso e Djane aponta para o aparelho:
- Murilo tá esperando sua ligação.
Ele nem checa os registros do celular, liga direto pro Murilo, que atende de pronto. Vini também não faz rodeios, pergunta na lata:
- Como ela está?
- Ainda dormindo... Não parece muito em paz. Não sei o que fazer senão esperar.
Perante mais essa falta de resposta, Vinícius se levanta, preocupado. Arrisca perguntar além para ter ao menos um parâmetro do que esperar.
- O que será que houve?
- Não tenho ideia. Mesmo.
Vini se detém de falar alguma merda, considerando que Djane está ali, também na escuta e na espera de algo.
- Que... droga.
- Se tu visse como ela chegou, cara... Sei lá, parece que “tiraram” algo dela. Acho que vou ficar é maluco com isso. Porque eu não sei o quanto eu consigo esperar.
- Calma, Murilo. A gente vai descobrir. Não sei como, mas vamos.
- Acha que dá pra ligar pro Gui e sondar um pouco?
- O Gui? Ele tá envolvido?
- Não sei dizer, ela tava perto da casa dele quando a Djane a encontrou.
Essa parte sua mãe não falou, mas vez que ele se concentrou só no estado da Milena, não perguntou sobre os detalhes.
- Tá, vou ligar pra ele. Qualquer coisa, me avisa.
Vinícius nem volta pro sofá, só procura o número do Gui na lista e liga direto. Só que só chama; chama e chama, até cair. Ao ligar para a Flávia, sequer chama, cai logo na caixa postal. Num ato de agonia e impaciência, ele liga pro Bruno.
- Falaí, cara.
- Ei, tu foi ver o Gui hoje... com a Milena?
- Não, não deu pra mim, saí cedo e vim terminar um trabalho. A Milena até me ligou, pra saber se eu ainda tava na facul, mas eu já tava em casa. Aconteceu alguma coisa?
- Hã... Não por exato. Eu tô tentando falar com o Gui. Mas falo com ele amanhã.
- Ah, beleza. Então boa noite aí. Tchau.
- Tchau.
Derrotado, ele se senta de novo no sofá, encarando o celular. Djane logo vê que não deu em nada, porém, tenta se manter ativa. Por ela e pelo filho. Assim, faz um carinho nos cabelos dele para chamar sua atenção.
- Vou tomar um banho. Vá você também. Se não chegou nenhuma informação nova até agora, acho que só amanhã.
- Vou daqui a pouco.
Ele nem olha para a mãe, mas a ouve bem. Só continua a verificar se tinha algum registro de contato da Milena. Ou de outra pessoa. Qualquer indício, qualquer coisa que dissesse algo.
Djane, por outro lado, hesita ali no móvel.
- Já jantou?
Vini dessa vez faz contato visual, para tranquilizá-la.
- Já sim. Vou só fazer um lanche logo mais.
- Então preparo algo pra nós dois.
Com essa, Djane se levanta e dá um beijo ao alto da cabeça do filho. Vinícius bem recebe isso, abraçando-a brevemente, e agradece.
- Valeu, mãe.
Assim que ela sai, torna a ligar pro Aguinaldo.
*
Na casa dos Villaça, as coisas também estavam silenciosas. Após a fuga da Milena, Gui pediu para a Flávia ir embora. Ela até insistiu em explicar sobre o pai dele, mas, naquela altura do campeonato, o desgaste foi tamanho que por fim Aguinaldo pediu ajuda da mãe, para ela levar a Flávia para casa. Nem mesmo se despediu da namorada, já sem saber se era ou não a pessoa que mais confiava.
Enquanto a mãe não voltava, Gui anda sem rumo, sozinho, mesmo com certas dores ao corpo. Fazia um tempo que não saía do quarto e isso aumentou seu sentimento de prisioneiro. Ao se sentar no sofá que percebe que havia umas pastas diferentes por ali. Abre para conferir o conteúdo e logo se depara com a letra da Milena. Verifica mais dos papéis e, pelas anotações, dá-se conta que são materiais de pesquisa. Até encontra uns rabiscos com o nome dele. Era uma lista de temas para ajudá-lo na monografia.
Que droga ele fez! Como as coisas saíram tanto do controle? Já estavam se acertando quando... selou sua merda no cartório. Da mesma maneira que seu pai fez. Tal pai, tal filho. Só não era um criminoso como ele. Mas talvez a Milena o considere assim agora. Aquele seu olhar machucado e enfurecido, e com razão, ficaria impregnado na sua mente. E demoraria séculos para sair, ele tem certeza. Tanto dela quanto dele.
Aguinaldo deixa cair a cabeça sobre as pastas, como se pudesse concentrar seu pedido de perdão ali. Mesmo dolorido da violência que sofreu, com o músculo pulsando que esse era um movimento do qual o corpo procurava se preservar, ele se mantém nessa posição, agora dolorido por como as coisas se sucederam, como se embaralharam mais.
Sua mente navega outra vez pelo momento crítico da noite, rebobinando aquela parte sensível em que teve que explicar o que fez. Que teve que abaixar os olhos e descrever como foi a sua participação naquela intervenção de merda. Que a Milena exigia respostas.
- Como assim?
- É que você pedia para o Murilo deitar perto... e parecia tão dolorida com ele distante. Então eu deitei.
- Você O QUÊ?
E teve que encarar a Milena mesmo assim, com as coisas atropeladas.
- Era uma situação muito doida, tá legal? E você... Você tava precisando relaxar. Sabe que eu faria tudo pr...
- Pra se DEITAR COMIGO?
- Não foi bem assim, foi... A gente só queria te ajudar!
- EXTRAPOLANDO L-LIMITES? Invadindo o m-meu... o meu espaço?
- Só... aconteceu.
Nem ele acredita no que disse, como disse, como jorrou a história para ela. Em sua ira, por como descobriu as coisas que a Flávia guardou dele, atrapalhou-se todo na hora de falar da bagunça que fizeram. E se ele tava com uma raiva monstra do pai dele, não poderia nem dimensionar o sentimento que a Milena deve tá nutrindo por ele nesse momento. Só que, ao contrário do pai, não havia nenhum interesse cruel ou distorcido envolvido. Foi uma tentativa idiota e desrespeitosa e uma bosta de ideia. Ele disse isso desde o começo, mas a Flávia insistiu. Por que ele entrou nessa? Sabia que ia dar ruim.
E agora, como ele vai olhar na cara dela? Ou, pior, ela ainda vai olhar na cara dele?
Quando a dor se torna mais aguda, Aguinaldo se ajeita e se levanta. Com algum esforço, pega as pastas e leva tudo para o seu quarto. Mas a visão de sua cama e do que rolou ali cria um grande asco de si mesmo. Se não conseguia suportar isso, imagina a Milena. Talvez não merecesse um perdão. Talvez não haveria perdão. E talvez... talvez tenha perdido sua melhor amiga de vez.
Aguinaldo caminha pela casa a esmo e só para no terraço, onde se senta numa cadeira de balanço. O movimento leve não o tira do redemoinho de pensamentos, porém, ajuda a acolher esse turbilhão de coisas misturadas.
Distante do campo real, ele não ouve o celular, que só fica tocando e tocando. Ficaria assim pelo restante da noite.
Diferente dele, a Flávia desliga seu aparelho assim que chega em casa. Aquilo que de pior dançava em seus pensamentos por semanas havia, afinal, acontecido, e foi tudo de uma só vez, sem ter como recorrer. Para não demonstrar seu abalo para a família, ela se fecha do mundo. Não se atreve a mostrar o rosto e nem mandar mensagem alguma a ninguém. Chora no banho, chora para dormir.
*
Enquanto toma um banho rápido, Vinícius pensa no que escrever e enviar para a Milena. Conhecendo a namorada, já imaginava que, se não houve sinal dela para ele, é porque ou não queria preocupá-lo, ainda mais que estava em aula, ou apenas não aguentaria a espera para ir para casa. A Milena não dispensaria um ônibus assim, mesmo àquela hora. Ela não é disso.
Mas se precisava de uma carona do tipo rápida, é porque algo havia a detonado mesmo. O que significa que poderia estar em fuga de alguma coisa. E pelo que sua mãe falou, não parecia ter a ver com a investigação na faculdade. Bom, não se sabia ao certo. Só se sabe que ela estava perto da casa do Gui, na mesma esquina. E ele não atendeu o telefone de jeito nenhum. Culpa no cartório? Possivelmente.
Mas sobre o quê teriam brigado? O que a afetaria desse jeito?
Para a mensagem que ele quer escrever, não importa. Vinícius só precisa se mostrar presente. Ciente. Se manter perto e aberto. Isso. Cuidadoso.
Antes de ir pra cozinha, ele escreve:
-----
O que houve, amor?
Me chama, me liga.
Espero que durma bem. Amanhã é um novo dia.
Te amo. Tô aqui.
-----
Vinícius encara a mensagem enviada e, por saber que ela demoraria a responder, fica apreensivo de novo. A mãe bate na sua porta para avisar que havia batido uma vitamina de frutas e que o copo dele estava na geladeira, ao que ele responde no automático que “já vai”. Mas não vai, porque, impaciente, ele liga pro Murilo mais uma vez.
- E aí?
- Ela acordou, comeu um pouco, disse coisa com coisa, eu não entendi nada e já foi se deitar.
Um sentimento de alívio agoniado bem conflitante o deixa de respiração curta, ansioso para entender isso. Ainda mais porque o Murilo fala baixo. Talvez estivesse perto demais da Milena.
- Mas o que é que ela dizia?
- Não sei muito bem, porque ela tava nervosa e arisca. E confusa. Falou em algo como invadir os pensamentos dela, o cérebro dela, só que sem explicar direito. Mas acho que rolou briga mesmo. Ela com o Gui. Ou ela com a Flávia, não sei ao certo. Porque ela puxou um assunto sobre amizade e confiança e o segredo lá da investigação no meio da história. Ao menos não é uma situação de perigo, eu acho.
Vinícius se senta na beira da cama para suspirar com essa. Também porque a voz do Murilo moderou no volume.
- Menos mal.
- E tu, conseguiu algo do outro lado?
- Nada. O celular do Gui só chama e o da Flávia só dá na caixa postal. Mandei mensagem, mas, até então, nenhuma resposta dos dois. E agora que tu falou desse papo de amizade e confiança e o tal segredo, me pergunto se eles descobriram algo. Mas eles descobrindo seria tão terrível assim? Por que a Lena estaria tão mal com isso?
Vinícius quase arranca os próprios cabelos só de tentar adivinhar as razões. Na real, era pela espera e a falta de respostas dos envolvidos.
- Vamos descobrir, cara. Temos que ser pacientes agora.
Dessa vez é o Murilo que tenta manter os dois centrados. Só que ao tentar soar confiante, soa muito cansado. Isso faz o Vinícius ver o relógio na parede do quarto e ver que horas eram. Tava ficando tarde.
- Tudo bem. Qualquer coisa, manda mensagem. Boa noite, cara.
*
De manhã, Murilo sai cedo para trabalhar. Antes, ele checou a Milena umas três ou quatro vezes e em todas a irmã continuava dormindo. Tampouco se mexeu durante a noite. Parecia uma pedra que só respirava sem muita vida.
Milena se levanta já no meio da manhã, toma um achocolatado batido de qualquer jeito e se arrasta para ver algumas coisas da faculdade. Tinha um artigo pra terminar de revisar, mas não tinha cabeça. E teria que ir pro serviço. No melhor do modo automático, tomou banho e se aprontou. Enquanto passava a maquiagem do dia, foi inevitável ver como o seu rosto havia ficado inchado de chorar. Mas não reage muito a isso, até porque não havia lá tanta força em si para tal coisa.
Quando o Murilo chega cedo com o almoço, ela ainda se encontra além-mundo. Só havia colocado as coisas na mesa. Era o dia dela de lavar. À noite. Não iria para a aula e iria fazer o mínimo possível no trabalho. Foi nessa hora que ela viu a ligação do Vini e atendeu. Não muito tempo depois foi a vez de Djane. Todo mundo fazendo perguntas, mas ela não sabia mais o que dizer. Estava no seu modo monossilábica.
No caminho pro trabalho, Murilo teve que atender uma ligação do coordenador do departamento e não houve muito contato no carro. O que agoniou ao Murilo, porque ele queria poder conversar e o raio desse homem foi ligar na pior hora e não queria desligar nem se ele dissesse que estava recebendo multa por dirigir falando ao celular. Pareceu a ligação mais longa da sua vida e nem mesmo andar meio lento resolveu.
Só dá tempo de prometer que ele iria buscá-la no fim do expediente, porque não achava adequado ela vagar de ônibus naquele estado. Mas aí ele avisa pro Vini, e o Vini diz que vai no lugar dele. Vinícius também tenta conversar, dispersar, ficar perto, mas nada é efetivo. A Milena até afasta ele, sem querer, em casa.
Vinícius seguiu para a faculdade, mas isso não lhe saía da cabeça. Continuava estarrecido com a maneira com que ela “insistiu” para tirá-lo de cena. Milena mal tava interagindo com ele até que de repente quis que ele fosse embora. Como se tivesse a ofendido de alguma forma. Como se tivesse... sei lá. Não fazia sentido. E isso piorou a perspectiva dele, que passou a insistir mais, tentando achar o ponto da questão, tentando acertar em algo. E acabou que a Milena pediu espaço. Dele. Dele insistindo.
Vinícius a via, porém, não sentia que aquela era a Milena de verdade. Mesmo assim, aquela atitude dela machucou. Os desvios, as esquivas, o distanciamento, e principalmente o entendimento de que não queria ele por perto. Mas aquela não era hora para discutir a relação deles, nem mesmo de falar desse afastamento com o Murilo. Não era mesmo hora de mexer com os seus medos pessoais.
Logo depois da aula, antes mesmo de chegar no carro, ele liga de novo pro Murilo. Não queria se passar de maluco nessa e nem pressionar demais o amigo, mas o Murilo era a sua única fonte de informações no momento. Apenas torce para que ele não dê um passa fora nele também.
- Alguma novidade?
- Ainda não... Pior que quanto mais o tempo passa, mais agoniado eu fico e não deixo de pensar que...
Murilo hesita e deixa o Vinícius apreensivo novamente. Até sente um impulso de correr pelo estacionamento da faculdade, pegar o carro e logo bater na porta dos Lins, mas se detém ante à lembrança da Milena afastando-se.
- Que...?
- Que ela não me conta porque tem seus receios de eu reagir mal. De eu passar do ponto de novo...
É, aquilo também tava afetando o Murilo e os medos pessoais dele.
Como poderia acalmar o amigo se também estava começando a ter suas dúvidas? Vinícius fica quieto nessa e não mais interrompe. Era bom deixá-lo falar e desabafar também.
- ... e eu tô tentando, cara, eu tô tentando o tempo todo mostrar que não. Só que tem hora... Ai, cara, isso me deixa com a cabeça muito zoada.
Já destravando o carro, Vini descarrega seu material no banco traseiro, porém, atento ao cunhado em sofrimento.
- Acho que não é por aí, Murilo.
- Então por que ela não contaria? Era assim antes.
- Mas não é assim agora. Não por isso. Deve ter algo que a gente não tá vendo.
- Não sei mais o que pensar. Não sei se aguento esperar.
Fica um silêncio entre os dois por uns segundos, que é quebrado com a porta do carro do Vinícius batendo.
- Tu tentou de novo com o Gui? Conseguiu algo?
- Não, ele não me atende. Nem a Flávia. Fico com receios de ir visitá-los sem ter qualquer referência. Mas ao que tudo indica, algo se quebrou entre eles. Porque eles também não se comunicaram comigo pra saber dela.
Vinícius notou isso durante o dia e estranhou, mas só agora que pôde concluir de verdade. Porque até o Bruno mandou mensagem. Era sobre outra coisa e deu pra ver que ele tava total por fora da situação.
- Algo não bate aí também. Tô aqui pensando em eu ir lá falar com o Gui.
Ele considera em ir primeiro e novamente o que lhe segura é a imagem da Milena se distanciando dele. Isso o deixa desnorteado por um momento e Vini não quer se precipitar de novo. Nem pode deixar o Murilo fazer isso também, se não a coisa fica ruim pro lado da sua única fonte. Quer dizer, do seu cunhado e amigo.
- Acho melhor a gente esperar, cara. Por mais difícil que seja. E eu sei que tá sendo bem complicado pra ti.
- E eu sei que tá complicado pro teu lado também. Vi o climão naquela hora que cheguei em casa.
Vini descansa a cabeça no volante, outra vez derrotado pelo sentimento que carregava desde aquela hora.
- É, eu nem sei dizer bem o que rolou. Ela só... me afastou. Achei melhor sair de campo, se não tava dando um bom resultado. Só não achei que chegaríamos nesse ponto.
- Tenho certeza que ela não fez por mal. É só que a cabeça dela... Não sei, algo tá perturbando ela. Eu só quero poder fazer algo.
Vini levanta a cabeça novamente, coloca a chave na ignição e dá partida no carro. Precisava se deixar de lado e pensar no que a Milena tava precisando no momento. Apesar de ter o mesmo sentimento do Murilo, era preciso de manter confiante e um apoiar ao outro. Porque uma hora ela vai falar e eles precisam estar bem para ouvir.
- A gente vai, Murilo. Só precisamos de mais paciência.
- Pode crer. Valeu, cara. Vou te deixar descansar. Até amanhã.
- Até.
Ela pediu espaço, tempo para digerir. Era isso que teria que dar. Era preciso também fazer as coisas com calma, sem se precipitar, sem deixar a agonia lhe levar. Com esse pouco domínio e norte, Vinícius vai para casa e tenta descansar. Também avisa a mãe sobre as poucas coisas que soube durante o dia. Durante o banho e o jantar, tenta se distrair com qualquer coisa. Vê o que teria que entregar na aula, mexer em alguns programas e ocupar a cabeça.
Mas na hora de ir dormir, ele não se contém e envia uma mensagem para a Milena. É simples e verdadeiro.
-----
Te amo.
-----
Vinícius já havia reduzido e muito seus exasperos em encher a namorada de mensagens, um comportamento que foi reeducando aos poucos ao longo da relação dele. Quer muito uma resposta, qualquer resposta, e tenta respirar e aceitar que não vai vir. Não de imediato. Ele ainda permanece no celular por uns bons minutos, mas os olhos vão pendendo até se entregar de fato ao sono, com o aparelho perto do rosto.
Milena não responde mesmo. Até porque nem vê.
Fale com o autor