Notas iniciais
Não disse que viria mais emoção? Pois pronto, Murilo veio emocionar vocês. E a Milena pra sacanear o bichinho hahaha Momentos em família, é o que quero dizer ♥

Enjoy.

Tradição se trata de costume.

É aquilo que você tem a garantia de que vai acontecer de tempos em tempos, é o que se espera por muito tempo quando você gosta. Mas tem uma coisa sobre os costumes que se deve lembrar: só porque eles se repetem, só porque surgem oportunidades para as ocasiões, não quer dizer que acontecem do mesmo jeito sempre. E acho que essa é a graça das tradições, de colecionar histórias e histórias, de lucros e prejuízos que se acumulam em festividades. A minha família tinha suas próprias. Isso mesmo, no plural.

Quando saí finalmente do quarto após a ligação, eu me apresentei mais calma à sala e aos convidados. Estes estavam indo embora, era 1h20 da manhã já. Isso quer dizer que eu fiquei no telefone por mais de meia hora. Foram os minutos mais... mais... MAIS, na realidade, com direito a sorriso bobo que tratei logo de disfarçar. Imagine se de fato eu tivesse encontrado com Vinícius versão carne e osso... eu teria saído do quarto flutuante. Ou nem teria saído.

Não falamos nada a respeito do que era o suposto problema, não falamos nada que pudesse nos chatear, muito menos nos agredimos verbalmente. Foi a nossa vez de refazer um pouco de nossa bolha e sermos nós mesmos sem angústias. Por maioria, só comentamos sobre o nosso dia e principalmente sobre a véspera de Natal.

Rimos juntos quando ele mencionou a vizinha que foi bater lá na casa do Wellington para chamar este a um serviço: resgatar um bichano seu que havia ficado preso numa árvore com enfeites de Natal da rua. Ao que parece, Wellington foi reconhecido como “bombeiro”, não “militar”. Isso sem falar da vizinha e sua neta que não sabiam se passavam a mão no gato ou no gato do Wellington. Palavras legitimamente delas, Vinícius me jurou. Sei bem o que elas queriam dizer... Wellington era um show de militar, para delírio de muitas mulheres devo acrescentar.

Claro que eu senti uma pontadinha de ciúmes. Vinícius não mencionou nada sobre ser cantado por essas mulheres, mas quem disse que a mente não sabe trabalhar com a mínima informação? Ele pode não ter dado trela pra elas, porém, eram elas que estavam lá perto dele quando EU devia estar. De qualquer forma, foi só uma pontadinha, muito bem disfarçada enquanto ria com ele sobre a situação. Ria mais também para ouvir esse som do qual eu sentia muita, muita falta. A voz dele nunca me pareceu tão... longínqua. Foi difícil desligar.

Quando alcancei a sala, Lucas estava de saída com sua mãe e irmã, Leila. Fui até eles para me despedir, o que não era só por educação. Acho que sempre me sentiria em dívida com essa família, que beijo nenhum poderia cobrir. Leila é uma das enfermeiras que acompanhou o caso da minha avó e vez e outra participa do tratamento dela. Agora Lucas tem feito sua parte também, cuidando dela. Como eu poderia deixar de agradecer?

Depois deles, eu passei na cozinha para tomar um pouco de água e quando voltei, todos já haviam ido embora. Era uma das horas que eu mais gostava, ficava eu e minha família falando nada com nada por um tempo, sozinhos. Mamãe estava sentada num canto do sofá, cansada da trabalheira de todo o dia, porém feliz pelo sucesso de mais um Natal. Degustava um pouco de vinho tinto ainda.

Me sentei ao seu lado e logo fui puxada para seu colo, onde deitei a cabeça, estiquei as pernas pelo restante do sofá e recebi um cafuné gostoso na cabeça, ouvindo Flávia e meu avô discutirem estratégias de contagem de balanço da loja no outro sofá, à nossa transversal. Fico tão relaxada que a cena chegava a ser engraçada. Vovô queria entender como funcionava o programa que minha amiga comentava, que foi um que ela encontrou fazendo um trabalho de Economia. Mamãe olha para os dois e depois para mim, deixa sua taça na mesinha ao lado e declara:

– Vocês vão mesmo discutir isso agora? Seu Luiz, dá um tempo para a menina.

Flávia, sempre gentil, responde primeiro:

– Nada, dona Helena, eu gosto dessa parte.

– Gostou do Natal conosco?

– Claro. Adorei. Se não estivesse com sono, ficaria até mais tarde aqui com vocês. Peço licença para me retirar.

– Pedir licença? Menina, não esquentamos com isso não. Pode ir dormir, porque se depender dessa sua amiga aqui, ela não deixa. Sabe que hoje ela madruga... Mas não quer ficar mais um pouquinho? Ainda não demos as graças.

– Ô se bem sei que essa aí madruga. Obrigada pelo convite, mas realmente tenho sono. Sou acostumada a dormir cedo e acordar cedo, não adianta se é Natal. Boa noite a todos. Obrigada por tudo. A ceia estava maravilhosa... Depois converso mais com o senhor, seu Luiz.

Flávia deixa a sala e vovó aparece. Senta ao lado de vovô e fez aquela cara de “tô sabendo”. Acho que ela descobriu que ele havia atacado primeiro. De todos esses anos, parece que ele aprendeu pouco sobre como disfarçar. Ou é muito esperto para deixar tudo bem às claras para minha avó. Coisa que Murilo ainda não tem um gênio desenvolvido para tal planejamento.

Mamãe fala algo, eu que não me abstenho de realmente ouvir. Ainda me sinto desligada por ter falado com Vini uns minutos atrás. Está sendo uma boa trégua e, com minha própria permissão, o pensamento flui livre em torno dele facilmente. Só que isso chama a atenção. Até demais.

– Isso foi um suspiro, Milena?

– Oi, mãe? Suspiro? Nada. Tô... respirando. Só isso.

Vovó entra no papo:

– Se isso não foi um, então certamente aquele de ontem no supermercado... não sei, não. Me pareceu um também, querida.

E mamãe assente:

– Concordo com sua avó, filha.

– Que horas foi isso que eu não lembro?

– Ah, filha, foi tão bonitinho. Eu estava falando com sua avó sobre o macarrão que o seu irmão gosta e quando virei pra te perguntar, lá estava você, debruçada sobre o carrinho de compras, bem no meio da seção, com o olhar perdido e cheio de saudade. Minhas não poderiam ser, claro, só dele, né? Porque você já está em casa com a família. Eu quis tanto, mas tanto, te abraçar ali mesmo... sua avó que não deixou.

Mamãe fala com aquele tom de fofura que não me alcança. E mesmo ainda fazendo carinho em mim, do qual eu sentia muita falta também, ela gesticulava com a outra mão como ela tinha gostado da cena. Já eu... uma onda de vergonha me domina, por saber muito bem do que ela falava.

Em tal hora, eu tinha acabado de responder uma das mensagens de Vinícius, e, por um momento, me senti tão bem por falar coisas banais com ele, mesmo que por mensagens de celular. Era frustrante também, obviamente. Assim, imaginei que ele havia entrado no supermercado e quando olhei para adiante da seção de alimentos, uma saudade imensa me abriu no peito, o bastante para ficar um pouco emocional e... suspirar. No fim das contas, ele não estava lá. Foi doloroso. Por isso me fiz de ignorante e deixei para trás toda a imagem que eu criei. A ideia era não pensar em coisas que pudessem me colocar pra baixo.

Pego a almofada que estava ali do meu lado e a coloco no rosto para que ninguém visse minha expressão de embaraço. Será que é possível eu me matar segurando a almofada a meu rosto? Eu abraço mais quando ouço uns passos chegando onde estamos e ouço papai falar:

– O que foi, hein?

Ele puxa delicadamente minhas pernas – por causa do meu vestido – do sofá para que ele pudesse sentar e as coloca sobre as suas próprias, de forma que ele e minha mãe permanecessem sentados ao sofá e eu deitada sobre eles. Não larguei a almofada quando mamãe falou.

– Nossa menininha está encabulada porque a vimos suspirar pelo namorado.

– MÃE! Não foi nada disso.

– Lena, faz de novo, faz. Para seu pai olhar, acho que ele ainda não viu. Amor, você tem que ver!

– MÃE!

Quanta força eu tenho que fazer pra parar minha respiração com a almofada?

Papai parece me dar força. Só parece mesmo.

– Helena, querida, não é assim que conseguimos falar sobre o assunto.

– Valeu, pai.

Ele fazia carinho na minha perna segurando sobre as suas. Soou bem calmo. Eu já ia tirar a almofada pensando que estava sendo defendida, mas não, ele dá o golpe de misericórdia logo em seguida. Ele definitivamente tem assistido muito “Eu, a patroa e as crianças”:

– Para isso existe o Murilo. Com ele temos o dossiê completo.

– PAI!

– Quê que tem eu aí?

Murilo. Passos chegam. Ele está bem perto.

– Ah, poxa, porque só ela fica com o chamego? Não é justo.

É, ele mesmo. Ciumento e bicudo. Aposto que tem um bico na cara!

– Senta aqui, filho. Temos chamego para os dois.

E levantam meus pés, enquanto sinto meu pai se aproximar das minhas coxas e sinto que meus pés ficam em cima de outro ser que arranjou espaço no sofá. Não sei se estava apertado para eles, já que eu estava em cima dos três.

– Filho, esclareça uma coisa para seus pais... abra o dossiê desse garoto, o tal de Vinícius.

– Pai, eu não sou criança!

Eu ainda mantenho a almofada ao rosto, o que dá um tom meio abafado de sair. Sinto que tenho todos os olhos da sala em mim.

– Até eu te levar ao altar, você é minha menina sim.

Papai dá batidinhas na minha perna. Ai, não. Tenho que dar um jeito rápido de deixar de ser tópico. Pensa, pensa! O que poderia distrai-los para outro assunto? E que outro assunto poderia ser esse?

Papai questiona mais uma vez:

– E então, vai ou não vai falar, filho? Vocês contam tudo pela metade no telefone.

Nessa hora abaixo a almofada e vejo que meu irmão está lá no canto do sofá, muito bem confortável e de sorrisinho para todos. Eu tenho que tirar esse sorriso da cara dele!

– O que vocês querem saber?

De repente algo me passa em mente e... não poderia mais que agradecer à dona arte da inversão! Então retomo a vez antes que alguém possa avançar no assunto e prolongar mais o meu desconforto:

– Deixa que eu conto.

Tomo a atenção e a expectativa de todos. Me levanto minimamente, apoiando-me no sofá, rindo internamente por usar o plano da inversão – o velho plano que sempre funciona. Respiro fundo e... quando todo mundo acha que eu dali começaria uma confissão:

– Mãe... Pai... o Murilo tá apaixonado!

– O QUÊ?

Todos na sala falam juntos, surpresos, quase combinados, o que é mais hilário. Espero que não tenha acordado minha amiga. Mas do jeito que ela é quando está sonolenta, nem que se a casa caísse, ela sentiria.

Golpe de mestre o meu. Arranquei o sorriso de meu irmão e tomei pra mim.

Sorrio triunfante. Que lindo a cara dele, com direito a sobrancelha para o alto, olhos bem abertos e nenhuma reação além dessa por uns segundos. Acho que não muito o ajudou o fato de ter apontado para ele quando entreguei seus pontos. Agora sim, ele é o centro das atenções e não sabe para onde olha. Olho para cima e vejo mamãe de boca aberta. Ela zanga e ralha:

– Mais que filhos eu arrumei! Ninguém me conta nada! Eu sei guardar segredo, tá! Vocês não me amam... é isso.

– Epa, olhem pra ele, não pra mim. Ficam falando de mim, mas ainda não viram esse aí suspirar.

– LENA!

Murilo resmunga ainda no seu estado encabulado, num grunhir meia boca que quase num sai. Ele queria me matar, certeza. Ah, é bom, né? Quando as pessoas te entregam, assim, de mão beijada, hein? Nunca foi tão bom fugir do assunto e deixar meu irmão sem graça. Estava até fofo.

E papai também se mostra ressentido, batendo no ombro de Murilo com seu próprio. Meu irmão começa a esboçar uma reação finalmente:

– Poxa, filho, nem pra mim você contou. Que consideração. Mas me diz, como ela é, hein? De onde você a conhece?

– Eu não tô apaixonado, pai.

Vendo-o provar de seu próprio veneno, cruzo meus pés ainda no seu colo, volto a deitar minha cabeça sobre o colo de mamãe e espero que tenham misericórdia dele.

– Qual o nome dela?

Papai ainda o empurra com o ombro, pra tirar uma resposta. Eu levanto a mão e abro um sorrisão de “eu sei, eu sei“. Murilo me fulmina de expressão trincada. O quê? Ele nunca disse que era segredo. Vinícius também sabe da história. Até Flávia torce por ele! Num me aguentei mesmo foi quando mamãe falou:

– Filho, você está corando?

Podia ser de raiva.

Mas quem ia dizer? Eu que não.

Eu estava feliz por meus pais estarem bem curiosos e não desviarem o foco dele, só que vovó inventou de intervir, para minha decepção:

– Acho que é uma boa hora para começar as nossas graças, não acham?

Só não foi tão decepcionante porque soou ambíguo. Era realmente uma graça.


~;~


Ainda bem que me estabeleci uma trégua. Porque não teria como lidar bem o que se seguiu no Natal. São tradições demais para se ignorar e é um momento de paz e perdão. Ressentimento não caberia.

Flávia havia me dito dias atrás que o plano de deixar a poeira baixar estava muito imperfeito. Não que eu me confiasse 100% em tal plano, mas até que ele começava a dar certo. Dos dias que se seguiram a nossa chegada, eu estava bem melhor. Indignada, claro, ainda, porém, bem mais calma. E só porque dei uma trégua aos “dois homens de minha vida” (ou “ex-dois”), não quer dizer que eu tinha os perdoado. Foi só um contratempo para que não suspeitassem da gente, afinal, eu não queria que ninguém da família soubesse do caso... já me bastavam esses dois e os problemas que logo viriam quando eu voltasse à cidade. Nada para me preocupar agora.

O acordo que fiz comigo mesma era de ser “livre” por um dia, que foi o Natal, começando com aquela ligação para Vini. Mas não foi ela que realmente mexeu comigo, que tocou meu coração e quase me fez chorar. E me fez até entornar uma golada grande de vinho tinto que peguei de mamãe. Não sou de beber, a não ser em ocasiões especiais e quando os brindes são merecidos, então sim, foi significativo. O que foi lá no fundo e encheu meus olhos de lágrimas foi uma “não-confissão” de Murilo. Antes fosse uma TPM pra me deixar sensível desse jeito.

Digo “não-confissão” porque foi no momento de contar os saldos do ano que havia passado, em que todos da “roda” – todos largados aos sofás – relatam um acontecimento muito bom do qual se orgulhou e um do qual se envergonhou. Para o saldo negativo, ninguém poderia nos julgar ou recriminar, mas sim perdoar. Por isso chamamos esse momento de “graças em família”, pois, sendo saldo positivo, compartilhamos uma conquista, e sendo saldo negativo, somos agraciados com o perdão. Logo, se tratam de confissões. E o que meu irmão falou, foi só para mim. Bem no meio tempo em que a troca de presentes se realizava.

Começamos pelas conquistas e presentes. Vovó orgulhosamente ostentou seu prêmio e homenagem, e vovô se apresentou como “codiretor de marketing” da Livraria Lins (papai tinha o promovido, por isso tanto interesse ele tinha naquela conversinha com Flávia). Papai também tinha seus resultados no trabalho, pois, com muita luta, conseguiu fechar acordos com novos distribuidores que bem sei que faz tempo ele batalhava, assim como mamãe que estava em júbilo por ter seu projeto aprovado pelo conselho comercial e pedagógico de fazer encontros mensais com escolas e inteirar crianças da leitura. Seus olhos brilhavam só de pensar que ela poderia exercer sua graduação pedagógica novamente. E brilharam mais quando lhe entreguei o colar que eu comprei. Ela só não gritou porque sabia que tinha gente dormindo pela vizinhança.

Papai já não era tão escandaloso, mas ficou muito feliz quando soube que eu e Murilo tínhamos comprado um presente em conjunto para ele. Ele não quis muito saber o que era até ver, porque ele estava orgulhoso de nos ver juntos. Tanto que nos abraçou e deu um jeito de unir eu e Murilo. Papai acenou e piscou para mim quando nos soltou, sinal de que lembrava de nossa conversa no dia anterior. Vai ver ele achou que estávamos nos resolvendo. Claro que eu me senti estranha e altamente saudosa de ficar de boa com o estúpido do meu irmão. Meu mantra era não poder matá-lo, nem pensar mal dele enquanto fosse Natal. Mas não foi bem essa hora que me deixou mexida, foi um pouco depois.

Óbvio que Murilo não exibiu seu status idiota-mor com o caso que nos destruiu. Ele podia lá se orgulhar de ter feito o que fez, de ser o protetor que era, no entanto, apesar de às vezes achar que isso fora um vitória, ele entendeu que não era bem assim já que ainda estávamos mal. E que a coisa pioraria se ele mencionasse ali para nossos familiares. Mas ele também não falou de Aline. Falou de um projeto que ele estava montando para seu departamento e que até então a ideia parecia boa. De verdade eu esperava que fosse uma boa ideia, porque as últimas dele para comigo e até seu departamento não foram das melhores.

Na minha vez de falar, eu podia falar qualquer realização que tive na faculdade, já que todos falavam de algum aspecto profissional e eu ainda não trabalhava, então preferi começar por aí. Disse que lograra em um evento acadêmico, de onde consegui muito bons contatos e amigos, desde o diretor aos meus colegas que gostava de perturbar nas reuniões. E no meio disso tudo, o melhor, claro, conhecer de verdade uma mulher que então representa muito na minha vida, de quem sou presunçosa em dizer que é uma aliada forte como amiga e como profissional.

– Hey, para sua mãe você não fala essas coisas!

Acho que eu já havia avisado que no momento que mamãe soubesse como era meu relacionamento com Djane, ela morreria de ciúme. Dito e feito.

– Ah, mãe, é porque você sabe dessas coisas.

– Ora, eu gosto de ser lembrada.

– Mãe, ela quem devia sentir ciúme da senhora e não o contrário!

– Hum.

Não me bastando o ciúme de mamãe, tive que lidar com papai e vovô. Acho que eu também já havia comentado que quem ia se divertir com essa cena era vovó. Só foi eu dizer que por essa grande mulher que conheci, eu encontrei outras pessoas dignas, e que eu amava, que papai logo me interrompeu:

– Pronto, agora ela só vai falar desse tal namorado. Não gostei dele.

Vovô entrou na dele:

– Nem eu. Gostei da sogra, não gostei do cara. Sou sincero, minha neta.

Mas minha avó, ah, minha avó...

– Vocês tomem jeito, seus ciumentos. Olha como nossa Milena está feliz de falar deles. Até o Murilo está feliz, então isso deve ser uma boa coisa. Por mim, está aprovado, mesmo que isso não tenha tido um pedido formal.

Vovó deu merecidas travisseiradas nos dois e sorriu para meu irmão.

Foi a primeira vez pela noite que eu também meio que sorri para ele, e sei que ele viu como algo muito bom. Ele havia me dado um presente antes da festa, que consistia num colar de ouro com um pingente em forma de M muito bonito, que tinha outro M dentro. Murilo e Milena, ele tinha dito. Ele me pegou desprevenida quando estava saindo para ajudar meu avô naquele nosso plano de surrupiar biscoitos, de que eu devia estar atenta aos passos de mamãe para saber atacar. Murilo pediu meio acanhado que eu usasse essa noite. Era uma correntinha muito delicada e linda, mas meio que me senti sendo comprada.

Uma jóia não apagaria o que ele fez, tampouco amainaria a mágoa que tinha dele. No entanto, evitei declarar isso em voz alta para não puxar assunto de novo sobre o rolo todo, então disse a ele que eu iria usar um colar que vovó havia me oferecido para a noite. Ele me deixou plantada na porta do meu quarto, onde me abordava, e saiu meio penoso. Meu coração não se abrandou, apesar de nos últimos tempos eu ter perdido parte de minhas barreiras ante uns olhinhos pidões. Me processem se sou má, mas a razão me ganhou.

O caso é que eu não havia entregado o meu. Então me retirei por um momento da sala, sentindo ser acompanhada por seu olhar perdido do que eu faria, e fui buscar o embrulho que deixei no quarto. Encontrei mesmo no escuro, estava num lugar fácil de pegar. Quando voltei, a família falava de alguma coisa que me não me importei em perguntar, só chamei pelo meu irmão, que logo me cedeu atenção:

– Murilo?

– Oi?

– Seu presente.

Ele realmente achou que eu não lhe daria um presente de Natal? Nem se eu tivesse comprado às vésperas das festas, como foi dos outros, eu não deixaria de lhe entregar. Havia comprado o dele faz uns meses depois de um incidente que tivemos no carnaval. Ele pensou ter perdido os óculos escuros dele numa festa que fomos, mas a verdade foi que eu deixei cair e ele fora pisoteado. Perdeu-se de qualquer forma.

Então eu surrei parte do dinheiro que eu recebia dos nossos pais e das economias que eu tinha para compensá-lo, porque eu sabia que ele curtia muito aqueles óculos. Engraçado é que ele não havia comprado um logo após o episódio, o que imaginei ser bom e que iria lhe surpreender.

Bom, surpreendeu antes mesmo de ele vir o que detinha o embrulho. Ele me abraçou forte, muito forte. Praticamente se jogou em mim e se comprimiu como se eu fosse uma bolinha embrulhada por ele, todo grande. A genética não fora muito generosa comigo se pensar por esse lado, que, mesmo não sendo baixinha e sim mediana, meu irmão tirou o gene das alturas. Só o alcancei por estar de salto alto. Mas nesse abraço ele impunha toda uma carência e saudade que se desmanchava pela forma que ele me segurava. O presente ficara quase amassado entre nossos corpos, segurado por uma mão, enquanto que o outro braço passou por meu dorso de forma que me deixou presa, e descansou a cabeça quase nas minhas costas, de tanto que ele atravessou meu ombro. Era firme e necessitado.

Murilo respirou forte no meu pescoço e logo vi que ele estava meio emocionado. Eu passei minhas mãos às suas costas e dei-lhe um beijo no rosto, que ele não virou para devolver. Na verdade, ele beijou-me no ombro, de uma forma meio dolorida. Eu deixei meu lado racional e estava sendo levada pela trégua que me prometi. Deitei de lado minha cabeça na sua, ainda atravessada ao meu pescoço, e fiz carinho nele. Foi quando todo um sentimento foi se abrindo, que começou como uma semente de feijão no meu estômago, pequeno, e desabrochou, tornando toda a coisa bem difícil pra mim.

Pra fechar o pacote, comigo engolindo a seco e piscando forte para que as lágrimas que se reuniram na saída lacrimal dos olhos não de vez descessem, ao mesmo tempo em que agradecia por estar usando rímel incolor, Murilo falou as poucas palavras que ele teve chance e quase me derrubou ali com a profundidade que elas implicavam, de como elas representavam dor para ambos e como se tornou difícil respirar depois delas:

– Eu te amo, maninha, amo mesmo. Te respeito sim, te admiro. Nunca senti tanto a sua falta como agora e não quero mais sentir isso... Porque corrói e machuca. E isso eu não desejo a ninguém.

Inevitavelmente o abracei forte também. Como eu sentia falta do meu peste particular! De perturbar, de cutucar, de brincar, de falar besteira, de... tudo. Era golpe baixo, contudo, verdadeiro. Eu não só sabia, sentia. O modo como ele falou, lentamente, prezando por cada palavra, pelo significado delas, conhecendo-as em seu maior impacto, e ainda mais por um sussurro, para ninguém mais ouvir, foi determinante para que ele conseguisse que eu tremesse na base.

Pelo jeito, nós tínhamos uma bolha, numa coisa só de irmãos. Fora tão significativo que chamou a atenção de todos na sala. Mamãe foi a primeira a questionar, seguida de meu avô, preocupados:

– Tem alguma coisa acontecendo que eu não saiba?

– É, o que foi isso?

Murilo me soltou de seu aperto e deu um sorrisão para mim antes de começar a abrir o pacote, meio atrapalhado, o que foi engraçado. Mamãe chegou perto para nos avaliar e vi papai, no sofá, inflando o peito gratificado pela cena que para ele tinha muitos significados também, só não perto do que realmente era. Tomei a taça das mãos de mamãe e tomei uma golada antes de lhe responder:

– Nada demais, mãe, só que ele sabe o que eu comprei.

– O que você comprou?

– Uma coisa que ele achou ter perdido. Quer dizer, perdeu, mas pode reaver.

Eu falava dos óculos, mas sem querer saiu como se fosse nossa relação. Fui sincera de qualquer forma. Quando ele abriu e viu o que era, começou a rir sozinho e engatou uma conversa sobre o carnaval, de que ele tinha comentado com vovô e tal. Sei que quando ele tirou os óculos da caixa, ele queria me abraçar novamente, mas aí eu já não estava preparada para outra dose dessas. Me sentei novamente no sofá e esperei que a próxima rodada, a dos prejuízos que começaria. Aquele Natal mal tinha começado e eu ainda tinha umas 22h de trégua de acordo com o relógio da parede da sala.

Notas finais
Milena também sabe emocionar, gente. Ela não é tão bruta assim não. Foi um dos caps mais ♥ de escrever :)
Sobre o próximo só digo duas coisas: jogatina (UNO) e pequenas alegrias :)