Mantendo O Equilíbrio (Temp 1 + Temp 2)
3 Capítulo 3
Volto pra cadeira perto da recepção onde eu tinha sentado quando cheguei. Um segurança me acompanhou no trajeto, eu só sentindo a pressão. Ele nem pra guardar a arma, como se eu fosse tentar algo. Quando cheguei à recepção, aquele enfermeiro bonito apareceu e eu o apontei, mostrando pro guarda quem tinha me levado pra aquele quarto. Quando me imaginei fazendo isso mais cedo, foi engraçado. Agora nem tanto.
O enfermeiro bonito pelo menos confirmou a história. Disse que achou que eu estava acompanhando a professora por ser parente... Não tinha como ele imaginar que uma aluna estaria a essa hora acompanhando uma professora num hospital. Ele já a tinha visto algumas vezes e em todas elas, estava sozinha, por isso que quando me viu, entendeu tudo errado. De qualquer forma, o segurança me deixou de “castigo” esperando pelo diretor.
Busco o celular na bolsa já imaginando a história que vou contar pro Murilo quando o diretor aparece. Entramos no seu consultório, aquele do início que vi, e sento com a maior cara de inocente que pude improvisar. Não era culpada de qualquer forma.
- Senhorita...
- Milena.
- Então, senhorita Milena, você pode me dizer o que aconteceu naquele quarto?
Ele fala como se eu tivesse feito muita coisa. Se não fossem minhas mãos suando, eu até poderia ser irônica e dizer que troquei a fiação, entrelaçando com os que encontrei, que chamei meus camaradas pra fazer uma rave e puxar um gato de energia do hospital.
- Depois que o enfermeiro boni... que um enfermeiro gentil perguntou se eu estava com a professora Djane, ele me levou àquela sala e me deixou lá. Disse que a professora logo apareceria. Pensei que eu tivesse me perdido dela, porque o enfermeiro apareceu perguntando logo depois que voltei da lanchonete.
- E por que você não falou nada quando ele lhe deixou no quarto?
- Porque fiquei sem-graça de perguntar, oras. Só fui perceber que tinha um paciente lá quando o enfermeiro saiu e me virei. Ele tava dormindo, então eu só fiquei na poltrona. O máximo que fiz foi atender uma ligação. Como a professora estava demorando muito, quase dormi sentada. Mas aí uns bips soaram e eu vi que ele tinha acordado. Tossiu um pouco e ainda quis se levantar. Eu não sabia bem o que fazer, mas o forcei a ficar deitado, parecia mais lógico. Aí ele pediu água e o ajudei a tomar... só que ele pensou que eu era enfermeira. Quando eu disse isso a ele, decidi sair logo dali pra não arrumar confusão. Então vocês apareceram.
- Não aconteceu nada mais que isso?
- Não. Por que a pergunta?
- Bom, ele acabou de acordar de um coma de três meses.
~;~
- Desculpe mais uma vez, eu não quis lhe prejudicar.
- Tudo bem.
O enfermeiro bonito me comprou duas gelatinas, uma de morango e uma de limão, pra se desculpar do incidente. O diretor me liberou, dizendo que eu tinha que esperar pela professora Djane, que ela iria falar comigo. Nem sei com que cara vou olhar pra ela agora.
Depois que ela me pegou com o filho dela – soou estranho – ela me puxou pelo braço e me expulsou do quarto com toda a força que ela achou. Totalmente atônita, me deixei levar sem ter o que dizer. Ela gritou pelo segurança e o diretor disse a ele pra me deixar perto do consultório e me vigiar. Ainda não acredito que eles são mãe e filho, agora sim me toquei da semelhança deles.
Quando saí do interrogatório na sala do diretor, o enfermeiro bonito estava na recepção me esperando. Disse estar se sentindo mal pelo que houve e queria se redimir, mesmo que fosse com gelatinas. Respirei fundo e com um sorriso meu, aceitei. Vi no celular que eram 00h41 e já estava com um pouco de fome, então decidi ir lanchar e ganhar essa sobremesa.
- Por que você disse naquela hora “ainda bem que você veio”?
- Porque das vezes que eu vi a senhora Garra por aqui, nas esperanças de o filho acordar, sempre a vi sozinha. E desta vez ela te trouxe... Tantas foram as vezes que ela mascarou o sofrimento dela. Vi muitas dessas, ela costuma ficar tempos no quarto dele, isso quando não se refugia na dispensa de vassouras. Certa vez, acho que foi há uns dois meses, um senhor vomitou num desses corredores e a zeladora me pediu pra buscar o carrinho de limpeza... encontrei a senhora Garra no canto junto do carrinho. Ofereci ajuda, só que ela não quis saber, se levantou e seguiu fria o seu caminho. Encontrei ela mais várias vezes assim e passei a não oferecer mais ajuda. Quando lhe vi, pensei que... bom, ela teria com quem contar dessa vez. Acho que, apesar de todos nós esperarmos que os pacientes acordem, quando eles acordam, não é bem o alívio que nos encontra de primeira instância. É o susto, um choque... er... agradável. Ah, desculpe se estou monopolizando a conversa.
- Nada. Você se desculpa demais.
- E agora, o que você vai fazer?
- Vou esperá-la. O sono tem batido na minha porta, mas dá pra aguentar. De qualquer forma, meio que estou presa aqui. Minhas coisas estão no carro dela e se ela não puder me levar pra casa, eu posso pegar um táxi... ônibus não existe a essa hora.
- Eu poderia te levar, mas acho que você não vai esperar mais.
Parei de remexer na gelatina de morango quando ele disse isso e levantei os olhos. Ele focalizava alguém atrás de mim. Ai que é agora! Viro-me devagar e vejo a professora Djane de rosto inchado e... serena? Séria, mas serena? A gente não acredita até ver uma coisa dessas.
- Valeu pela gelatina. Tchau.
- Tchau.
O enfermeiro levanta e vai embora. Enquanto a professora senta em seu lugar, me toco que não perguntei o nome do enfermeiro... Poxa. Ah, deixa pra lá.
- Pensei que você já tivesse ido embora. Já passa das 1h da manhã.
- O diretor disse para eu esperar que a senhora ainda ia falar comigo, então esperei, além de que minhas coisas estão no seu carro.
- Espero que não comente com alguém sobre o ocorrido de hoje.
A mulher continuava pára-dura, por fora claro. Acho que queria camuflar seu estado vulnerável perante mim, uma desconhecida praticamente. Tudo não passava de uma fachada, imagino, que ela criou para mascarar a dor que tanto sentiu esses tempos, escondida. Me sentia naquele filme “O diabo veste Prada”, quando a heroína percebe o lado humano da chefe, que também sofre, que tem problemas familiares. As pessoas podem criar as mais firmes barreiras, mas não importa, porque as brechas emocionais sempre arranjam um cheio de rachá-las.
Eu olhava minha professora, vendo o cinza de sofrimento que carregou por tanto tempo sem poder se apoiar em alguém. Hoje as rachaduras derrubaram seu império de dor... o cinza que lhe cobriu por meses era ultrapassado por um brilho. E nem esse brilho ela parecia compartilhar, porque ainda assim, ela quis puxar as barreiras de volta, sua postura voltou às antigas. Acho que nunca mais a veria da mesma forma como antes.
- Não faria isso.
- Ainda aceita uma carona pra casa?
- Sim. Estou pronta para ir.
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