Notas iniciais
Alguns mistérios resolvidos. Melhor dizendo, confessados...
E, claro, outras encrencas mais.
Enjoy.

P.S.: quem resiste de dar cafuné assim, com Murilo pedindo com 'jeitinho'?

Já disse alguma vez que acho meu irmão meio sensitivo? Quer dizer, ele geralmente me liga pra complicar a situação em que estou inserida, pra atrapalhar algo que estou fazendo ou algo assim. Às vezes também ele só quer ser... irmão. Daquele jeito dele, mas irmão. Milagre que ele não ligou pra mim essa noite, mas ligou para meu “guardião”. Agora que esses dois se uniram pra me proteger, eu não sei bem o que faço. Se bem que ter o Vinícius no meu pé não é algo para eu reclamar...

Ao chegar em casa, encontramos tudo desligado e silencioso. De acordo com Vini, meu irmão estava em casa sim, que quando havia ligado pra ele, Murilo queria saber se íamos chegar para jantar, porque se fosse, ele nos esperaria. Mas como eu já havia jantado na faculdade e Vini perto do serviço, estando numa danceteria, ele dispensou o convite. O relógio da sala marca 23h30 quando adentro melhor procurando por Murilo, seguida de Vini, cuidadoso em não ficar tão próximo de mim – teria que falar com jeitinho com meu irmão para anunciar nosso relacionamento. E não seria boa coisa estando num mesmo teto.

Isso também porque ele não sabe o que anda rolando pelas madrugadas – só sono mesmo, mas do lado de quem que é a pegadinha – ele quase me pegou de manhã cedo na última vez.

Deixo minhas coisas em cima da mesa dando passagem à Vini para o banheiro primeiro para tomar banho. Ligo a luz da cozinha para pegar um copo d’água já imaginando minha visita ao quarto dele, lembrando-me de colocar o celular no ponto. Só tinha que passar no quarto do meu irmão para confirmar que ele estivesse no décimo sono. Me encaminho para lá, só que chegando ao corredor, desisto e vou para meu quarto.

Quem está na minha cama? Quem, quem? Sim, o empata do meu irmão. Parece que já dormia, estava de costas para minha porta, não dava para saber bem. Ah, mas ele não tinha outro dia melhor para dormir na minha cama? Tipo, logo hoje? Agradeci tanto por ele não ter interrompido minha noite com Vinícius, porém, agora, preferia que ele tivesse me perturbado naquela hora se houvesse a chance de ele não me empatar agora.

Em silêncio ainda, deixo a porta do meu quarto meio aberta e me encosto na parede do corredor. Às vezes acho que o hobby dele é me atrapalhar mesmo, logo hoje que tudo se resolveu. Quer dizer, tudo não, ainda falta muita coisa não-dita para falar com Vinícius, aos poucos espero conseguir desvendar algumas histórias.

Me sinto uma boba por lembrar de uma que ele me contou quando voltamos ao estacionamento, que eu fiquei bestificada – ainda estou. Ele realmente me “conheceu” antes daquele dia no hospital, algo que foi tão ligeiro pra mim que nem percebi. É o tipo da coisa que pode acontecer a qualquer hora e nem sempre vamos pensar na possibilidade. E se pensamos, achamos que a probabilidade disso suceder é quase nula.

Ao chegar no estacionamento, meus amigos foram pegar suas coisas no carro do Bruno, pois iríamos dividir as caronas. Foi nessa que Vini me puxou discretamente com um com licença, arrancando deles mais uns urros no estilo “eita que vocês não se aguentam” e mais uns “owns” das meninas. Chegamos próximo à rampa de entrada da faculdade, naquela mureta que eu costumava sentar às vezes. As interrogações me cobriam ao vê-lo tão centrado naquela mureta.

– Lembra daquele dia que eu pensei que poderia ser barrado para entrar e parei aqui, falando sobre a vez que me jogaram por ali?

Uma imagem me veio à cabeça, de como ele pareceu abatido e pensativo quanto àquela mureta em particular. Dessa vez ele parecia nostálgico. Até então eu não sabia como a lembrança do dia que ele foi jogado ali poderia ser uma coisa boa para ele, tanto que sua feição ditava como algo especial.

– Foi ali que te vi pela primeira vez. Você andava apressada tão concentrada nos próprios pensamentos que passou por mim nessa mesma mureta e nem me viu. Claro, quem ia olhar para um cara lascado como eu estava?

– Quando você comentou sobre ter me visto, disse que tinha sentido inveja. Eu ainda não entendi. O que quis dizer?

– Porque até o momento que você subiu na calçada e caminhou até onde eu estava, você ditava determinação em cada passo, uma determinação que eu não tinha mais. Era... destemida. Só que aí você tropeçou... E bem ali também foi a primeira vez que me fez rir.

– Ah, muito legal, muito bonito, tombar para o outro se divertir.

Ele me abraçou por trás, encolhendo-se a mim, menor que ele, para explicar melhor. Encostou sua cabeça no meu ombro, dando-me mais rebuliços de sua proximidade, principalmente por falar no pé do meu ouvido. Podendo reagir melhor a ele, deixei que me abraçasse e me agarrei mais a ele para ouvir o que tinha a dizer.

– Não, não foi isso que eu quis dizer. Quando você passou por mim, olhei para meu estado e para você, pensei algo como... “nem todos tem a mesma sorte”. Logo você tropeçou, mas não caiu. Eu ri não de você, ri de mim. Porque você não se abalou em nada, seguiu seu caminho, coisa que eu queria poder fazer. Ali você teve minha atenção, assim como no hospital, só que lá foi mais surpresa, porque demorei a assimilar mais sobre isso. De primeira eu te reconheci, não sabendo de onde, me levou umas horas pra lembrar bem. Quando me toquei, passei a te chamar, porque na minha cabeça só me vinha que não poderia deixar você passar mais uma vez...

Ele falou tão próximo do vão do meu pescoço que só de pensar os pelinhos do meu braço levantam num arrepio bom. Passo as mãos pelo meu pescoço fazendo uma leve pressão por saber que ele teve uma passagem ali e pensar do que seria essa noite no quarto de visitas me sinto meio ansiosa, a ponto de sentir o nervoso me pegar com suor nas mãos e um baque no estômago. A declaração final dele antes de me roubar mais um beijo próximo daquela mureta que selou nosso encontro foi o que me amoleceu mais ainda... minha mente só gritava “MEU, MEU, MEU, FINALMENTE MEU”:

– Primeiro você me chamou atenção, depois me surpreendeu, ainda me surpreende, mas principalmente, soube chegar ao meu coração.

O que não durou muito. A nossa plateia era exigente, apesar de adorar soltar assovios por nos verem bem juntos. Para dar uma trégua pro Bruno, que me preocupou um pouco, levamos Flávia e Gui, que moravam por ali perto, deixando a meu amigo de monitoria nossa companheira de loucuras. Achei bom dar um tempo a eles, como tenho feito faz uns tempos, deixar que eles se descobrissem por si só. Teria que investigar depois como ele está, mas isso tem tempo.

Ao pegarmos o caminho para minha casa, Vini alternava olhadas de mim pra avenida, eu mexia na bolsa para não me sentir intimidada por isso, era melhor senão eu poderia realmente tirar a atenção dele da pista. Foi nessa que achei um CD que por semanas andava comigo. Vini não queria um segredo? Pois ele teria um.

Chegando em casa, logo que descemos do carro com nossas coisas e eu ia pegar a chave de casa, tirei o CD da bolsa e lhe entreguei, assim sem mais nem menos, nem explicação. Ele olhou para o CD em minhas mãos com uma sobrancelha levantada em questionamento sem propriamente fazer a pergunta.

– Guarde.

– O que é isso?

– Um segredo.

– Aquele segredo da loja?

– Parte dele. Existe mais duas pessoas com uma cópia, Flávia e Dani. Eu confio o bastante em vocês para guardar esse segredo, e só olhar quando eu pedir, quando for necessário.

Ele fez um biquinho chateado olhando o CD em mãos. Enquanto isso dei uma checada na rua iluminada só por precaução. E para aproveitar uns últimos minutos com ele.

– Então eu não posso olhar?

– Não. Mas um dia eu sei que verá. Só... guarde. Quem nunca pode saber da existência dessa cópia e que está com você é meu irmão. E ai de você se falar, hein.

– Desconfiando de mim? Meu trato com seu irmão é para te proteger, ele não falou nada sobre o fato de estarmos juntos. Ou termos segredos.

– Falando nisso, ele desconfia de nós, sabia? Temos que ser bem cuidadosos, nada de ficarmos juntos na vista dele.

– Por que não? Uma hora ele vai saber.

– É, ele vai. Até lá, não quero que ele te machuque. Ele pode ser seu amigo agora, mas se tiver que ser “irmão pra me proteger”, ele vai é em cima de você. Aconteceu uma vez, aconteceria de novo. Já disse que ele é meio ciumento e que fica no meu pé. Você fica o defendendo, mas é seu lindo rostinho que está em jogo.

– Ah, pode deixar que com ele eu me viro. Esse lindo rostinho sabe convencer.

Revirei os olhos para ele na sua presunção. Ele guardou o CD na sua mochila e entramos em casa. Cada segundo que estive com ele essa noite é uma lembrança que não me acalma os nervos. Porque eu queria pular e dar gritinhos. Os mentais eu realizava praticamente cada vez fazia seus lábios ocupados aos meus. Estava inquieta de qualquer forma. Não estava sozinha para que pudesse o fazer... se não era por sua presença, era de outros. Acho que as meninas gritaram mais que eu.

Quando ele desligou o chuveiro nem percebi. A luz da cozinha conseguia iluminar parcialmente o corredor, não dando pra ver muita coisa mesmo. Ainda encostada na parede do corredor assisti no escuro quando ele saiu já de pijama com suas roupas de trabalho em mãos para deixar na máquina. Ele estava vivendo conosco temporariamente faz uns dias, estava bem adaptado até. Ao me perceber ali, ele olhou para um lado e para outro antes de se aproximar de mim:

– Preciso esperar ou você...

– Eu não posso.

– Hum? Como assim?

– Murilo está deitado no meu quarto.

– Ah. Hum.

Ele dá um passo em minha direção, olhando para a porta do meu quarto. A pouca iluminação que tínhamos também contava com luminosidade baixa do meu celular que eu usava para me mover na casa sem acender muitas luzes. Ela não me dá bom acesso ao semblante de Vinícius, não dá para ver sua expressão. Sinto sua decepção no timbre diferente que usa, me fazendo crer que ali havia um bico:

– Poxa, logo hoje que... Quando acordei ao seu lado hoje e vi que você estava ali... putz! Queria te abraçar e não podia. Agora posso e não tenho a chance.

– Own. Só pensar que amanhã é um novo dia e que... Vini!

Ele não me deixa terminar de falar (ou enrolar), me puxa para si. Nem dava para gritar, só o repreender por sussurro mesmo. Ele era louco de fazer isso tão próximo do meu irmão, mas o que não é o risco para aumentar o prazer de estar com o outro? Com essa eu tive que rir, ou segurar meu riso para que não saísse alto. Depois dessa, que seria nosso beijo de despedida, consigo empurrá-lo para que seguisse seu caminho e sigo para o meu. Cuidadosamente pego meu pijama para poder vestir logo que sair do banho, já que meu irmão estava no meu quarto.

Mais relaxada do banho, esgueiro-me a passos silenciosos para minha cama a fim de deitar sem acordar Murilo, que ressonava baixinho. Poderia dizer que estava fofo se não fosse a minha vontade de dar-lhe um tabefe por resolver ficar na minha cama. Ele merece na maioria das vezes. Quando me cubro com o lençol, ele parece acordar. Resmunga com a voz fraca:

– Demorou. Estava te esperando.

A voz fraca eu poderia dizer que era por estar com sono ou por estar acordando, porém sinto algo... diferente. Havia alguma outra razão. A última vez que eu vi de um modo parecido foi quando ele ficou preocupado de levar a suspensão pela besteira que ele fez no trabalho.

– Aconteceu alguma coisa, maninho?

– Eu... eu só queria um cafuné da minha irmãzinha.

– Ai, menino, dengo a essa hora?

– E tem hora? Tô carente.

Normalmente eu sou à prova de chantagem emocional do meu irmão, mas sei quando ele precisa de mim, como agora. Sabia que tinha algo errado e que tinha que arrancar dele, pois não estava colaborando muito para falar, ele só se aconchega a mim esperando que eu fizesse um carinho.

– Por que eu tô achando que tem algo a mais nisso? Desembucha.

– Você tem um jeitinho tão meigo de me amar.

– Sabe que sim, agora diz a real razão de você estar aqui.

– Okay...

Ele suspira, desconfortável, ao travesseiro. Definitivamente havia algo errado, meu irmão não é de ficar assim. Alcanço seus cabelos para um cafuné a fim de dar-lhe algum conforto, esperando que me conte.

– Sabe a Aline?

Ah, isso explica muita coisa só com uma palavra. Respondo que sim para que continue a relatar. O que teria ele aprontado mais?

– Pois é, hoje começaram os exercícios do R.H. para voltar a “unir” nosso departamento, porque não poderia suspender todo mundo. São umas baboseiras que a gente tem que fazer para “respeitar um ao outro”. Eu estava até aceitando, só que... na hora do intervalo da atividade, eu ouvi ela conversar com uma amiga dela do R.H. e ela comentou de um sacana que trabalha comigo. Tipo, o pior cara é que ela tá interessada... e eu que sou a vítima naquele departamento que sou a caveira pra ela. Como pode isso eu não sei, só sei que ela continua não gostando de mim. Toda vez ela dá um jeito de se afastar... não é legal.

Seu tom é fraco para contar as coisas. Dá um aperto por sentir que ele tem sido magoado pela Aline. Que meu irmão fez besteira, ele fez, ele confessou. Como ela quer que o departamento se respeite se ela mesmo não dar credibilidade ao outro? Pior, dá para o pior cara. Imagino quem seja, mas prefiro não perguntar. Tudo bem, dessa vez meu irmão merecia carinho, não tapas.

– Ô, maninho.

– Eu que sou o cara legal, ela não vê. Acho que pra ela sempre vou ser o cara que aprontou na reunião que a diretora viu. Agora como aquele cidadão ganhou a atenção dela eu não sei, é um dos maiores cafajestes que tem ali.

– Ela vai ver, uma hora ela vai ver. É só... você não insistir. Dá um espaço, mostre seu melhor, uma hora o outro cara vai mostrar o pior lado dele. Se ela for esperta, ela vai ver quem vale a pena. Se não, quem não vai valer a pena é ela.

– E se não acontecer assim? E se ele a machucar?

Ele se move na cama para me olhar, em seus baixos olhos tristes embaçados pela pouca iluminação do meu celular. Essa garota de fato o pegou pelo coração. Não acredito que meu irmão tá apaixonado. E ainda me dizendo tudo isso, enquanto eu tenho que esconder dele o que sinto por Vinícius. É o jeito, pois, vai que ele dá uma de ciumento e resolve chutar o Vini daqui por ficar com a “irmãzinha” dele? Nam... ele não pode saber agora. É só me deter a ele, usar minhas técnicas para distrair sua atenção. A Aline de certa forma veio num bom momento.

– Você a defende, oras. Vai deixar um cafajeste ficar de gracinha com ela? Dá uma dura no cara.

– Só que eu fiz isso hoje. E ele deu um jeito de eu parecer o cara mau, por o ameaçar. Agora que ela não quer mais olhar pra mim mesmo...

– Ai, maninho, você faz cada coisa sem pensar, viu! Essas coisas exigem cautela, não sair adoidado por um impulso. Mas fica triste não, gente apaixonado faz isso o tempo todo.

Chamo-o de apaixonado de propósito para ver o que ele faz, que reação ele viria a ter depois dessa. Da última vez ele negou. Agora ele enfia a cara no travesseiro ao meu lado se entregando. Abro a boca em surpresa por ele confessar.

– Own, meu irmão apaixonadinho, gente.

– Cala boca, Milena.

– Ah, mas tenho que falar.

– Para, é sério.

– Que lindo.

Ele emburra e se vira, deixando sua cabeça debaixo do travesseiro. Ele queria se esconder da minha voz de fofura, aporrinhando-o cada vez mais. Faz tempo que não o via assim, poucas foram a que conquistaram de verdade seu coração. Ainda bem, isso não o fazia um cafajeste. Ou besta por amor.

– Tá, eu paro. Volta.

Ele vira o rosto debaixo do travesseiro me olhando desconfiado por uma brecha. Queria lhe apertar as bochechas, mas sei que ele ficaria chateado por estar caçoando dele apaixonado. Que era tão fofo, isso era. Devagar ele se mexe de volta ficando de frente pra mim de novo, esperando por mais cafuné. Gaiato.

– Fresco. Você num dispensa um cafuné, né?

– Claro, agora você só quer saber de cuidar do outro. Quero que cuide de mim, oras. Eu sei que o Vinícius tá numa fase difícil, mas eu também, poxa. Sinto... ciúmes.

– Não sei de onde saiu tanto ciúmes, Senhor!

– Não vamos começar de novo, Mi. Só... cuida de mim.

– Contanto que você não o acerte de novo...

– Contanto que ele não mexa com você... ainda tô de olho. Me arrependo de ter batido nele daquele jeito, mas vê-lo gritando com você... eu não me aguentei, quando vi, tinha meus punhos segurando-o pela camisa. Ele precisa de nosso apoio sim, mas agora eu que preciso de você.

– Pedindo desse jeito, quem nega, né?

Não demorou muito e ele dormiu. Se eu fosse outra pessoa poderia arriscar me esgueirar para o outro quarto, sabendo do sono pesado que meu irmão tem, porém, como sou boa pessoa, eu fico na minha cama. O bichinho precisava de mim, da maninha dele. Tem coisas entre irmãos que são assim, temos que ficar um do lado do outro. Não precisava dormir com Vini para ter uma boa noite de sono, só por saber o que ele sente por mim tá de bom tamanho. Tiro o alarme do meu celular e me viro pra dormir. Confesso que é difícil, tendo todas as cenas e sensações ainda frescas na pele.


~;~


Tem um bicho me atazanando o sono. Primeiro ficou fazendo graça no meu ouvido, depois no meu nariz. Dei um jeito de afastar com a mão, mas agora o mosquito tá me atentando pelo pescoço. Faz muito tempo que mosquitos não chegam ao meu quarto, que estranho.

Mexo-me para afastar o bicho de novo e... sinto a presença de outro cidadão na minha cama, pelo peso que fazia no colchão. Ah, deve ser o Murilo que dormiu aqui. Mal abro um olho captando uma luz vindo da fresta da janela, dando de cara com a parede do meu quarto. Espera... mas o quarto está muito iluminado para ele ainda estar aqui se ele levanta cedo. Será que ele dormiu demais? Ah, ele que acorde. Eu só quero dormir mais um pouqu... Reteso na cama ao sentir um arrepio me subir dado a uma respiração morna. Hã...

– Acordou?

Me viro bruscamente na cama ao perceber quem era. O que Vinícius estava fazendo na minha cama? Quer dizer, e o Murilo? Meu Deus, ele vai nos pegar aqui! Assombrada por essa possibilidade, tento falar algo que o alerte, mas ele me cala pousando um dedo sobre minha boca em um pedido de silêncio, num poço de calmaria. Como ele pode ficar tão... “lindamente” relaxado nessa situação?

– Shiii, calma. Seu irmão já foi.

– Mas...?

– Só vim depois que ele saiu.

– E o que você...?

– Ontem antes de dormir eu vi um e-mail falando que houve um problema no sistema central dos computadores, então nos ordenaram voltar apenas para o turno da tarde para dar espaço para a equipe de manutenção. Sendo assim, manhã livre.

Suspiro de alívio. Estávamos seguros por enquanto. Me espreguiço, querendo na verdade dormir mais um pouquinho. Assim, ainda sonolenta, me aconchego nele, puxo seu braço para minha cintura e ficamos de conchinha. Escuto sua risada baixa pela minha atitude para com ele. Ele não reclama também. Só resmunga pelo fato de eu querer dormir mais, pois ele não quer deixar:

– Dormir de novo? Chega, né? Faz tempo que te olho dormir, quero você acordada.

– Hum. Soninho.

– Soninho é? Vamos ver.

Golpe baixo. Ele tinha a bela passagem para meu pescoço, meus cabelos espalhados pelo travesseiro liberando o caminho, fazendo meu corpo se retrair com as cócegas que fazia de selinhos trilhando até minha mandíbula. Como dormir com um cara fazendo isso?

– Eu tenho todo o tempo do mundo. Quer dizer, mais umas horas da manhã. Como anda o sono?

– Hãããã...

Linha de pensamento, cadê você? Se foi no momento que ele me prendeu com seu braço a si enquanto deslizava beijos suaves ainda para me acordar, quer dizer, não me deixar dormir. Sono? Sei nem que é isso.

– Isso te acorda, né? Tentei te provocar pegando uma mexa do seu cabelo e passar no seu rosto, mas você só se remexia. Já sei qual o melhor truque.

Ah, era ele, safado. E eu mentalmente odiando o maldito mosquito que não existia. Só por isso eu não ia desistir fácil, só pra provocar também. Esse tom de voz dele não vai me quebrar, não vai. Nem mesmo sussurros na minha orelha.

– Não vai dizer nada?

– Me-e-elhor ne-em di-izer.

Merda, gaguejar não era bom sinal. Isso me entregava fácil para ele. Não, eu tenho que re-e-evidar antes que e-e-ele tenha todo o controle. Era hora de resgatar meu lado malvado, brincar um pouco. Assim me remexo na cama para ficar cara-a-cara com aquele sorriso só meu, me olhando achando que estava ganhando. Há, ele que pensa! Lanço meu melhor olhar que podia ante minha cara de não mais sono, seguro com a mão seu rosto como se fosse partir pra cima dele, o que foi o bastante para ele se distrair, justamente o que eu queria, para poder aprontar.

Com uma expressão mais traquina, pego meu travesseiro e levemente o jogo no seu rosto, dando-me tempo de levantar e fugir dele.

– Ah, você-não-fez-isso. Melhor correr...

Antes mesmo que dissesse para correr eu tava longe. Saio até sem chinela. Consigo chegar ao banheiro antes de ele me pegar, gargalho alto por ele não conseguir. O tempo todo que fico fazendo minha higiene matinal, fico olhando pra fresta da porta no chão, vendo sua sombra.

Antes de sair, olho pelo buraco da fechadura e não o vejo mais. Sei que está a minha espera, ele acha que pode mais que eu. Estou nessa estrada há anos! Mais esperta, abro a porta e me esgueiro para a parede do banheiro ao lado. Ele pula na porta sem me encontrar. Quando ele coloca a cabeça para dentro do espaço do banheiro, arremato-o com um beijo. Diferente.

Uma vez assistira num programa de drama adolescente falando sobre o segundo beijo de um casal. Sei que não é nosso segundo, se for considerar as últimas horas, mas pensando sobre isso como estava noite passada antes de dormir, talvez o fosse. Recordo que a série dizia algo como “Nada melhor que o segundo beijo”, pois o primeiro era aquele cheio de dúvida, incerto, impulsivo, caloroso de um momento crítico, até mesmo precipitado. O segundo era aquele que, dado ao tempo do pensamento, era carregado de certezas, segurança, convicção... era a certeza do casal. Nossa, éramos um casal agora. Posso gritar? Não, estou mais ocupada para isso.

Sendo nosso segundo dia, eu considero ser nosso segundo beijo. Ele tinha esse lado calmo, firme, confiante que nos levava a outro rumo de relacionamento. Já havíamos nos descoberto, só não um ao outro. Essa era a melhor parte.

Pelo menos até ouvir um pigarro de dona Bia passando com a vassoura pelo corredor saindo do quarto do meu irmão. Vergonha? Nada, fiz foi rir. Ao contrário de mim, Vinícius que pareceu um pouco retraído. Principalmente com o comentário dela:

– Num tô vendo, num tô sabendo de nada. Finjam que não me viram.

Assisto ela seguir seu caminho, colocando a cabeça para fora do banheiro tentando ver sua expressão. Não conseguindo, olho para Vini, que parece... encabulado? Ele... encabulado? Que troca foi essa, hein? Que sempre sou eu a sentir vergonha... que fizeram comigo? Conosco?

– O que foi, hein?

– É que... ela me viu quando entrei no seu quarto. Ficou, sei lá, estranho.

– Ah tá, porque só eu tenho que ser pega saindo do quarto dos outros, né?

Ele sai o estado transe pensativo para concluir com divertimento da minha situação, pior que a dele:

– É.

– Eu e minha sorte.

Com essa deixo-o para trás para ir a cozinha tomar meu café-da-manhã. Esses dias dona Bia que preparava o dele, deixando só no ponto de acordo como eu havia lhe falado, que Vini estava passando um tempo ali. Ela ria nervosamente, ele o mesmo pelo que ela me contava quando eu acordava. Dois românticos encabulados? Vamos quebrar esse gelo.

Sento à mesa pegando meu café e bolinhos de tapioca – dona Bia me mima demais, é perigoso – e Vinícius me acompanha. Ele comenta que já tinha se alimentado, tinha tomado banho. Só assim para me fazer olhar pra ele, encontrando-o de roupa casual de camisa cinza e bermuda branca, que eu ainda não tinha observado. Deve ser uma daquelas vezes que estamos tão... hã... entretidas com outra coisa... que não realmente passamos o olho no que está a nossa frente. Estava lindo de qualquer forma.

– Vai almoçar aqui hoje?

– Vou. O serviço só volta ao normal de tarde.

– Ouviu, dona Bia? Temos nosso hóspede hoje provando sua comida.

– Opa, ouvi. Hoje tem torta, espero que gostem.

Ele olha para dona Bia atrás de mim, preparando umas coisas na pia, e se aproxima de mim para falar baixinho:

– Se dona Ana souber disso...

– Já sei quem é que vai falar.

– Não se eu impedir antes...

Onde esse menino andou aprendendo sobre golpe baixo? Me diz que eu quero também. Ele sabe usar bem a inflexão de voz, deixando aquele “bem entender” num tom específico que dá aquele arrepio na espinha, isso sem falar de uma cara bem sacana de que tentaria qualquer coisa pra impedir. Qualquer coisa. Desse jeito me dá até vontade de denunciá-lo pra dona Ana só pra ver o que ele ia fazer.

– Sabe que dia é hoje?

Olho longe tentando lembrar que dia era hoje. Quarta, não? Que não seja o aniversário dele, que não seja! Vou parecer uma namorada muito desleixada desse jeito, que nem sei a data. Espera... eu sou namorada dele? Ele não fez o pedido. Preciso de um pedido? Não quero apressar as coisas...

– Me diz que não é seu aniversário.

– Não, não é. Meu aniversário é em janeiro. Isso se não mentiram pra mim sobre isso também.

– Vou fingir que não ouvi essa última. O meu é em abril, só pra saber. Hoje não é feriado que eu sei, pois tem prova de... de Ética hoje. Flávia me pediu pra ajudá-la à tarde.

Quase, quase, quase falo de Djane numa divagação. Ele já tinha mal se referido a ela no segundo anterior, melhor se fosse se eu não a citasse. Uma hora a gente vai ter que conversar melhor sobre isso, só não sei quando. Tenho que ver Djane também, ainda me preocupo muito com ela. Melhor a turma rezar para ela não descontar toda essa frustração dela na prova, eu tinha esperanças de ela amolecer até a última avaliação, não por mim – pois estava fora por causa do evento – mas pela galera lá da sala.

Os tempos que passamos pela monitoria me mostrou tantos lados dessa mulher que quando a via mais relaxada, ficava mais contente. Ao contrário de mim, o resto da sala começavam a ficar mais nervosos achando que era algum plano de psicologia reversa ou outra viagem assim. Pareço um pouco egoísta de ter só eu essa versão mais calma? Isso me deixava tão próxima dela. Quase como uma mãe. A mãe que ele vai demorar a reconhecer talvez...

– Hoje faz exatamente um mês que você me acordou.

Abaixo a xícara que levava a boca, agora um pouco boquiaberta. Ele fala baixo, talvez por não querer que mais gente saiba do que tinha passado ou mesmo para evitar trazer tudo a tona de novo. Eu nunca tinha parado pra ver um calendário ou fazer as contas, eu só... ia vivendo um dia de cada vez – a prova disso é que, nessa brincadeira, eu quase tinha esquecido o aniversário de Flávia.

Pra mim, estar naquele hospital foi há três anos atrás.

– Putz.

– Putz? O que isso quer dizer?

Ele tem essa expressão divertida e duvidosa quanto a minha resposta tão... monossilábica. Mas foi a primeira coisa que me apareceu em mente, que logo proferi sem realmente saber como reagir. Tento complementar, não sabendo se por mais que falasse eu conseguisse expressar de fato o que era um mês pra mim.

– Putz... parece tão pouco tempo para tanta coisa que já passou.

Minha expressão deve ser de incrédula. Porque... um mês! UM MÊS! Só isso? Se eu for contabilizar tudo que já me aconteceu desde aquele dia, toda a loucura, eu não imaginaria que seria um mês pra tudo isso. Mas que crédito posso me dar se nunca fui boa quando se trata de tempo? Grande exemplo esse, pois sempre pareço ficar perdida. Eu só sabia da passagem de mês, dezembro estava no começo.

– Eu sei, nem parece.

– Até o evento acadêmico já passou, mas parece que ainda não respirei.

Respirar como mesmo? Se essa confusão de família continua nos rondando? Só é bom saber que em um mês nós conseguimos muito mais do que nesses últimos anos tecidos pela rixa dos pais dele. Agora eu preciso dizer: é muito crédito pra uma pessoa.

Dona Ana e Djane uma vez falaram em modéstia minha. Mas sério, parece um feito muito grande para atribuir a mim. Foi o universo, esse sacana. Não gosto de levantar muito esse assunto porque ele sempre dá um jeito ou de as coisas melhorarem ou piorem de vez, sem prévias. Agradeço-o de qualquer forma, olhando para o teto presa nos meus pensamentos malucos. Se não fosse por ele – se estou acusando-o certo – eu não teria entrado no mundo deles e eles não teriam entrado no meu. Nossas histórias seriam outras quaisquer sem conexão, soltas e fechadas.

Provavelmente estaria me descabelando por ser prova de Djane, a vaca do prédio. Colocar isso em perspectiva é perceber que ainda há muitas esperanças. Por mais que temamos pelo que está para acontecer, são elas que ainda garantem nossa sanidade. Espero que Djane esteja segurando bem tudo isso. Me sinto um pouco mal por tê-la deixado um pouco de lado enquanto cuidava primeiro do seu filho, era uma necessidade de emergência. Agora a poeira está baixando, não o terror do desconhecido.

– Esse é seu celular tocando?

Ao longe escuto o assobio do Ryan (One Republic) que não teria percebido se ele não falasse. Estava começando a divagar sobre as coisas e, quando começo, é difícil parar. Tomo o último gole do meu café, pego mais um bolinho e saio da mesa para atender. Só, claro, não o deixo falando sozinho, retiro-me com um singelo carinho no rosto e uma bagunçada no seu cabelo – ô saudades desses fios. Não queria deixar mais nenhum daqueles dois encabulados.

Ele também levanta, no entanto, para ir à mesa, onde seu notebook fechado estava ligado. Também não tinha o visto. Ando muito distraída, isso sim. O negócio é que o motivo da distração não é algo que ajude a não me distrair, se ele sempre arranja um jeito de roubar meus pensamentos. Ai, suspira.

Chego ao quarto ao fim do toque de Good Life, sorridente pelo meu “good life” do dia. Porém ao checar no visor de quem era a ligação, penso que sempre vai ter alguém tentando nos atrapalhar. Devia estar salvo desde aquela mensagem que enviei e Djane me odiou. Ryan, oh Ryan, essas ligações a gente bloqueia. Mas já que você não sabia, deixo passar. Eu atendo, incorporando meu melhor papel debochada, porque sabia que ele odiava:

– Oi, tio, como anda o nariz?

Só não falo alto o bastante, pois Vinícius estava na sala e não queria que soubesse logo pela manhã do tio, quer dizer, pai dele, me ligando assim sem mais nem menos. Nosso último encontro foi bem conturbado e não foi algo que Vini tenha gostado, ainda mais do jeito que tudo se sucedeu, com Filipe me perseguindo e me atacando, aquela coisa toda. Ninguém entendia como eu poderia sair ilesa disso, pois Filipe não poderia tentar nada contra mim. Ninguém vê que ele não se arriscaria tanto assim? Ele não seria tão burro. Seria?


~;~


– O que você acha?

Sinceramente eu não sei.

Não sei como anda o gênio da professora esses últimos dias. Na segunda-feira ela não foi, só deixou um recado para a turma com Fabiano, de que a sua prova seria na quarta-feira. Nesse dia eu só fiz minha prova e fui seguida pelo patife do Filipe. Me sinto um pouco desleixada quanto à Djane quando Flávia me pergunta como dessa vez ela vai preparar a prova, pois como muitos tinham observado ao longo desse último mês, ela tinha mudado. Pra mim pareceu aos poucos, para eles, foi meio que uma reviravolta suspeita. Algumas vezes acalmei meus amigos de classe quanto a isso, que não se preocupassem, e ainda assim as pessoas não acreditavam muito.

Flávia e Gui que ficavam meio divididos entre o que parecia e o que eu dizia. Mas depois daquele jantar que tive com Djane e seu filho na lanchonete no fim de noite do evento acadêmico, fofocas e fofocas rolaram alto. Eu não disse nada quanto a isso, que pensassem e “mirabolassem” o que quisessem.

Com tudo o que tem acontecido eu não posso afirmar nada. Se eu não sabia para mim, imagina para falar para minha amiga. Estudamos a tarde toda – até eu que não tinha assistido às aulas e não faria a prova, estava me dedicando um pouco – nos mantendo bem concentradas no conteúdo e nas perguntas certas. Esperávamos serem as perguntas certas, revisando bem uns casos e tópicos de estudo.

– Acho que não sei dizer bem.

– Por não ter assistido as aulas? Mas você estava trabalhando com ela.

Foi mais que isso, na verdade, eu que não falo. Abaixo meu sanduíche que tinha trilhado caminho para morder – era hora do lanche para acalmar os nervos antes da temida prova, na cozinha de Flávia – não deixo de me remexer inquieta na cadeira por saber disso, esperando que minha amiga não perceba.

– Eu sei. Só acho que... esses últimos dias foram meio incertos para eu dizer qualquer coisa, sabe?

– Tudo bem. Vamos mudar de assunto então, não quero mais saber disso até chegar na sala e pegar a prova. Como anda com o Vinícius?

Sua carinha travessa cobre qualquer preocupação que lhe acometia. Ela estava chegando num rumo da conversa que eu queria muito dividir. Preciso só saber como faria isso sem comprometer a identidade de ninguém nessa bagunça que me meti, todo cuidado era precioso. Um mês atrás quando segui com Djane para o hospital e presenciei o lado que ela tanto queria esconder, uma coisa ela me pediu e até então eu não quebrara.

Pediu que eu não comentasse com outras pessoas – traumatizada o bastante com as fofocas do nosso prédio imagino ser – o que para mim não era besteira. Só meu irmão descobriu e foi porque ela mesma explicou a ele, porque mentir não estava funcionando e ela se sentiu mal por ficar no meio de nós dois. Olho para meu último pedaço de sanduíche antes de colocar na boca tendo em mente a imagem desse dia, na lanchonete do hospital.

Tudo que eu havia comentado com Flávia até então foram coisas faladas por cima, sem quaisquer detalhes, só porque eu estava frustrada o bastante com tudo o que estava acontecendo, saindo do meu controle, gostando do Vinícius, esquecendo o caso principal. Com ela eu podia ser vaga em minhas palavras, mas ela estava me escutando e tentando entender para me ajudar.

– Bem. Ainda não tivemos muita chance de conversar sobre, de como fomos meio que levados pelo impulso de gostar um do outro. Meu irmão anda com uns problemas, então as coisas andam meio devagar, só aproveitando o tempo que não temos muito pra pensar, só... ter um ao outro.

– Hummmm. Essas que são os melhores. Agora você está desencanada, não? Digo, vocês estão juntos, se gostam e não tem ninguém entre vocês. Então aquela história de seu desconforto sobre a namorada dele, quer dizer, ex, foi superada...

– Na verdade...

– O que? Não me diz que você ainda se preocupa com isso... eles já terminaram e ele mesmo disse que as coisas não estavam fluindo entre eles. E fica bem na cara o quanto ele te respeita, ele não vai te machucar com isso.

Abro a boca pra falar e a fecho. Essa parte da história até hoje não foi explicada, afinal, ele só falou de sua história com Becca num momento de alteração. Também não podia exigir nada dele, não por considerar apenas seu estado, mas porque tem coisas que por assim mesmo acabaram ficando, como a história do Diogo, que como a dele e Becca, não poderia ser dita aos ventos, causando sentimentos desnecessários. Ele mentiu pra mim e eu omiti dele. Posso dizer que estamos quites?

– Eu sei, eu sei... não é isso. É que... você não vai acreditar nessa, mas... de fato, as coisas não estavam fluindo entre eles, porque na realidade, não havia relacionamento.

– Como assim?

– Era um namoro de fachada. Uma história com os pais dela, ele ainda não falou muito sobre isso. Só que, era um “acordo”, e que eles já tinham finalizado, mas com os últimos eventos, ela meio que foi chamada à “foto” de novo, porque achavam que ela era namorada dele. Mas não era, então eles tiveram que fingir mais uma vez e finalizar na frente de todos. Basicamente, são estranhos.

– Estamos falando das mesmas pessoas? Pasmei. Porque não parece. Verdade que eu mal o conheço, mas fazer isso? Como você tem lidado? Quando descobriu?

– Sábado. Pra você ver, não tivemos muito tempo, como disse ainda pouco. Ainda tem muita coisa que precisamos lidar. Eu sei que devia estar me sentindo traída ou algo assim, mas não sinto. De verdade. Talvez chateada por ter sido feita de besta, por ele ter mentido, só que... eu entendo. Entendo porque existem coisas que eu mesma tive que esconder dele, que não competiam a ele saber, então, se isso era algo dos pais da Becca, eu... eu não tinha algo a ver, certo? As coisas acontecem devagar, porém, a verdade sempre acaba chegando. É libertador e preocupante ao mesmo tempo.

– Acho que nem sei o que dizer.

– É mais ou menos minha situação com ele em relação a Becca. Além do mais, tem muita coisa rolando pra... pra poder falar abertamente das coisas.

– Já que você puxou o assunto, eu queria perguntar uma coisa da noite passada e não deu. Bruno comentou antes de sairmos que “sábado foi sinistro” e você falou de problemas de família, e agora mais isso. Ainda é aquela história que você falou? De que algo ruim estava por vir?

Finalizo minha vitamina junto com ela, de frente para mim na mesa, sentindo um pesar me pegar por saber que as coisas caminham para ficarem mais sinistras. O tio, quer dizer, o Filipe me ligou mais cedo para tentar me “convidar” para encontrar com ele, algo mais pacífico dessa vez, “garantia” dele.

– Oi, tio, como anda o nariz?

– A sua insolência não vai me atingir dessa vez, não vou te dar esse gostinho.

Sua voz firme e rude tampouco me atingia, cara feia dele menos ainda. Mas era engraçado ouvir sua raiva pela telefonia, perturbá-lo talvez fosse uma atividade de defesa minha, porque única arma com ele eram as palavras, não bem os argumentos, já que ele não aceitava nenhum meu. Da vez passada tive que usar os dentes, pé e punho, mas só foi por causa da situação que tanto requereu uma atitude drástica, foi impulsivo e defensivo. Palavras eram então o pouco que tinha para me manter longe dele.

– Pô, tio, minha diversão ó.

– Olha, vamos ser diretos, pode ser? Preciso falar com você, já sabe o assunto. Dessa vez eu... eu prometo não me alterar. Eu só quero poder conversar. Onde podemos nos encontrar?

Pareceu sério e urgente dessa vez. Estranho ele passar por todo esse meu teatro – ele sempre reclamava como eu era insolente, petulante e blá blá blás parecidos. Parecia que não mudava o disco, era o mesmo discurso desde aquela minha atrapalhada entrada na sua briga com Djane no consultório do diretor do hospital. Essa mudança é algo a se pensar. Só não quer dizer que eu ia “sair” com ele. De novo. O sarcasmo é um traço muito interessante de ironia misturado à zombaria para negar o pedido.

– Senhor conhece a Rua dos Bobos, número zero? Pois é, te espero à meia-noite lá.

– Garota, não brinque comigo.

– E o senhor não fique me fazendo proposta indecente. Ainda não sacou que eu não tenho nada a ver com o senhor? Eu não tenho nada que lhe ouvir. Ouvi até demais.

Tentei ao máximo ser clara, o bastante para querer logo desligar. Não me sentia bem em falar com ele no celular enquanto seu filho estava na minha sala. Nem levantei minha voz, justamente para não chamar atenção.

– Eu sei o que você quer fazer. Só porque agora estão juntos acha que pode me tirar de cena, né? Pois está muito enganada, não vou descansar. Você não vai estragar tudo pelo qual batalhei.

Ele sabe que estamos juntos. Deve estar nos seguindo adoidado pela cidade, nos vigiando, espreitando. Por um momento um arrepio me subiu a espinha e uma coisa eu senti no estômago por tê-lo tão assim próximo a nós. Foi caso de dois segundos apenas, pois logo um suspiro saiu de mim, notando quão triste isso era para ele. Quer dizer, ele chegar a esse ponto mesmo? É porque a coisa bonita não está.

– Filipe, quer saber? Pense o que quiser. Se virou stalker, se tem andado de binóculos, tanto faz pra mim. Eu mesma já lhe disse para não desistir, e isso não é psicologia reversa ou qualquer outra baboseira que o senhor pense que estou falando para se confundir. Sabe o que penso disso, já fiz meu pedido. Não é para se afastar para todo o sempre, só dar um tempo, oras. Não é o senhor quem pode resolver isso, é o Vinícius. Ele que precisa de um tempo. E eu não vou ficar me repetindo. Tchau.

Desliguei na cara dele. Desliguei o celular também. Medo, medo, eu não senti. Preocupação sim, de saber qual era seu próximo passo. Eu podia falar em tom jocoso com ele, mas ele falava sério, isso eu não podia deixar passar despercebido.

Fiquei uns 5 minutos sentada na minha cama debatendo se eu falaria ou não pra o Vini sobre a ligação. Poxa, ele estava tão feliz essa manhã... estragar isso era cruel. Pensei então em não dizer naquele momento, que procurasse por algo mais oportuno, até porque mesmo com a proteção dele e do meu irmão, o homem continua nos vigiando. Onde ele arruma tempo pra isso, eu não sei.

Só sei que mascarar isso para alguém de que se gosta não é fácil, estava praticamente me colocando no lugar de Djane. Tenho que contar e logo, para não parecer que não confio nele... até tentei levantar o assunto quando ele me deixou na casa de Flávia depois do almoço, mas aquela carinha dele... ai, como é difícil amar.

– Milena?

Flávia me chama passando a mão ante meu rosto chamando minha atenção. Estava agora de volta a minha cadeira, ao meu corpo. Pensar demais nisso agora me transporta a mundos estranhos e perigosos.

– O que?

– Você ficou calada e... você está bem?

Ela se debruça sobre a mesa, tirando os copos que ficavam entre nós, pega uma de minhas mãos e me olha preocupada. Não, não se preocupe amiga, eu sei me cuidar, sei me defender daquele ser.

– Estou. É que... eu só pensei longe. O que você tinha perguntado mesmo?

– Sobre o comentário de Bruno, sobre Vinícius. Algo ruim.

– Ah, isso. Foi. Digamos que a “bomba” maior estourou. Foi tão horrível que eu mesma não tinha como dar todo um suporte a ele, tive que chamar meu irmão e Bruno para me ajudarem, pois ele não poderia dirigir do jeito que estava, tão devastado. Foi uma queda tão grande que acho que meu coração chora só por ter ainda essa imagem viva na memória.

– Caramba. Tão grave assim?

– É. Quando não estava apático, ficava raivoso... ele tinha e tem razões pra isso. Segurar essa barra tem sido uma grande prioridade, porque a coisa toda ainda não acabou, ainda vai haver mais uns “rounds” e todos precisamos de estabilidade e calma para saber lidar. Por isso ele tem ficado na minha casa, não tinha como ele conseguir isso se ficasse perto de seus familiares, que tanto lhe causaram essa dor.

– Mas o que tanto fizeram com ele?

– Ai, Flávia, sinto muito, sabe não posso dizer. Até porque... até porque uma das grandes vítimas – ou vilã, como ele acredita – você conhece. Falar sobre isso é falar de outras pessoas. Eu não me sentiria bem em falar assim...

– Tudo bem, eu entendo. E esses “rounds” que você disse, estão muito próximos?

– Estão, mais do que eu queria. E ele não sabe o quão próximo está. Ainda não conversei bem com ele, não contei tudo que tenho a contar...

Umas lágrimas enchem meus olhos por me sentir tão falha nesse momento. Eu quero tanto que ele se recupere para saber lidar com o que está por vir que acabo escondendo essas coisas dele. Não por maldade, por amor mesmo. Dói saber que ele vai se machucar mais, que eu não tenho como impedir, que essa dor é necessária para ele crescer e se redimir. Beiro uma tremelicada dos lábios em começo de choro, pisco nervosamente, mas me controlo. Eu precisava de boas palavras e Flávia era em quem eu confiava para ter isso.

Fungo um pouco para fazer passar. Apenas uma recaída, apenas isso, eu tento me convencer. Flávia logo está ao meu lado me passando conforto.

– Own amiga, desculpa trazer esse assunto. Se eu soubesse... nem teria falado.

– Não, tudo bem. Foi bom, eu acho. Assim eu não preciso me fechar tanto.

– Não, não, deixemos isso para trás. Vamos falar de coisas boas. Tipo... tipo... hã... ah! Não é todo dia que temos um namorado vivendo sobre nosso mesmo teto, né? Seu irmão tá sabendo?

Com essa eu tive que rir. Imaginar meu irmão saber disso é pra rir mesmo. Espanto os resquícios do choro com uma esfregada de mão nos olhos, direcionando-os para a carinha divertida da minha amiga que fazia aquela ênfase com as sobrancelhas questionadoras.

– Ele não tem a míiiiiinima ideia. Quer dizer, ele desconfia lá e acolá sobre alguma ligação nossa faz um tempo, mas nada que eu não consiga enrolar. Na verdade eu não tenho pensado muito nisso, só combinamos de por enquanto ser segredo. Vai que meu irmão dá uma de “meu irmão” e chuta o Vini pra fora? Nam, negativo. Não precisamos de mais um problema nas costas. Mas... estamos aproveitando bem.

Esse último “bem” é dito por mim com uma inflexão de voz que acho estar pegando dele, num realce bem notado por Flávia que abre a boca com aquela cara de “vocês estão...?”. Ela não me ouviu, não? Isso eu não poderia fazer dentro de casa com aquela peste do meu irmão do lado, oras.

– Não, Flávia, não é pra tanto. Só estamos... nos curtindo.

– Sei. E esse curtindo aí já tem nome?

– Sabe que eu não sei? Eu não quero apressar nada, pra mim estar com ele já me faz feliz, ainda mais sabendo que é recíproco.

– Ai, agora até eu morri. A história de vocês, pelo pouco que sei, é de se suspirar.

Imagina se ela soubesse como tudo rolou, desde um mês atrás quando eu peguei uma carona muito suspeita de nossa professora. Era capaz de ela dizer que era coisa de filme, mas pra mim, esse filme não é bem romance ou drama, é tragicomédia, porque eu me lasco e os outros que riem. Só não posso negar que tudo de alguma forma valeu a pena, soube encontrar aqui e ali minha felicidade.

Notas finais
(Eita que esse saiu grande)