Mansão Arpini
2 O corpo
Notas iniciais

Minutos antes do apagão.
Todos se encontravam na sala, com exceção de Júllya e Jess. Chovia cada vez mais forte do lado de fora e ventava muito. Jibby, sentado em um braço de uma das poltronas brancas observava Calissa que andava de um lado a outro de braços cruzados.
— Nossa! Quem diria que ia chover tanto — Calissa olhava para o chão.
— Pois é... — Ele queria conversar com ela a qualquer custo, mesmo ela não percebendo.
De costas para Calissa, sentada no sofá branco, Bianca mandava mensagens para Júllya, na esperança de que a garota lhe respondesse e lhe dissesse onde estava. Bi estava entediada, como Bryan, que não mais se contendo, levantou-se do sofá e foi beber água na cozinha. Keylan estava sentado no sofá ao lado de Dylan que se encontrava sentado no braço do sofá. Ele tentava entrar na conversava do melhor amigo com a irmã que tinha um ar bem preocupado. Ela temia que Jessey quisesse ir embora depois do acontecimento, pois sabia o quanto a nova amiga era sensível. Ela também se preocupava que a opinião sobre sua festa não fosse boa entre as amigas.
— Não era para isso acontecer. Ainda íamos nadar na piscina — Seus braços estavam cruzados.
— Bem, então devia ter olhado a previsão do tempo antes — Dylan estava um pouco indiferente a situação, porém bem mais sarcástico. Ele achava um pouco de graça da situação.
Lis faz uma careta para Dylan que nem muda a expressão do rosto.
— Calma, Lis. Tenho certeza de que as meninas estão gostando, além disso vocês podem ver um filme — Keylan tenta consolá-la. Falando de um jeito pausado, confiante, manso ele acaba por aliviar um pouco Elisa, que retribui-lhe com um sorriso. Ele sorri de volta, sem graça.
A cada minuto que se passava o tédio deles aumentava. Calissa sentou-se ao lado de Bi e começou a bater os pés ansiosamente no chão até que se levantou e perguntou, tentando estimular a dona da festa a fazer algo:
— Então, o que a gente faz agora? Quem é a dona da festa mesmo? Nada de cronogramas? — Lissa questionou levando em conta sua mania de listas e o tempo agendado. Ela era, de certo, perfeccionista e organizada.
Todos encararam Calissa o que a fez ficar surpresa. Ela não esperava essa reação e nem Liz esse comentário. Antes que Elisa pudesse responder a pergunta de Calissa o telefone tocou, roubando toda a tenção, para o alivio da questionadora. Dylan entendeu o braço para pegar o telefone que se encontrava na mesinha de centro, mas antes que pudesse pegá-lo sua irmã o pegou apressadamente.
— Alô.
— Oii, filhinha... Tá tudo bem aí?
—Sim, mãe... — Ela falou em tom desanimado.
— Que bom. Olha... Eu não vou poder voltar para casa hoje...
—O QUÊ?!
— É que com a chuva, a estrada que liga a nossa casa ao centro está impossível. Muitas árvores caíram e também tem essa chuva. Estará difícil de ir de dia, imagina de noite! Mas eu volto amanhã de manhã sem falta, viu?!
— Não acredito... aonde você vai ficar?
— Num hotel qualquer. Quem ainda está aí?
— Todo mundo, ninguém foi embora.
— E o seu irmão, tem se comportado?
— Tem... — Ela continuava desanimada.
— Tá, vocês todos vão ter que dormir aí sozinhos. Se você sentir medo o Dylan pode...
Mas ela foi interrompida.
— Não, mãe! Nós não vamos precisar.
— Certo então... — As duas ficaram alguns segundo em silêncio. Sem ter o que dizer até Elisa resolver desligar o telefone.
— Tchau...
— Espere filha! Já que vão ficar aí sozinhos, não se esqueçam de trancar tudo. Te amo filha.Tchau.
Elisa desligou o telefone pausadamente e devagar.
— Quem era, Elisa?
— A mamãe. Ela não vêm hoje Dylan.
— Mas por quê?
— Por causa da situação na estrada. Tem muitas árvores no caminho.
— Ah, entendi — ele permaneceu calmo e então teve seu momento de agitação — Mas, todos vão dormir aqui?! Não dá para pegar a estrada assim!
Todos se entreolharam. Ninguém tinha realmente pensado nisso. No instante que ia ocorrer uma discussão, todos ouviram um barulho estrondoso e depois um clarão. E então, as luzes de toda a casa se apagaram.
Bianca Biancastelly — POV's
Eu estava lá tentando falar com a Júllya. Mandando milhões de mensagens para ela no celular, quando de repente a luz apagou. Tudo ficou escuro. Eu arregalei os olhos à procura de alguém, mas não conseguia ver nada. A não ser uma imensidão preta. Respirei fundo até que meus olhos se acostumaram com a escuridão.
—Galera? Estão aí? O que acabou de acontecer? — Pude escutar a voz de Bryan ecoando pela sala quando ele voltava da cozinha.
—Eu diria que acabou a energia, né? — Comentou Dylan em seu humor sarcástico.
—Ótimo! Mais essa agora! O que vamos fazer? — Elisa questionou enquanto se levantava.
—Okay. Isso eu percebi... Peraí, gente, eu ainda não estou... — De repente eu escutei um barulho de alguma coisa se chocando contra a parede e me virei para deparar com Bryan — Ai, vendo vocês... — O moreno passou a mão sobre a testa latejante.
Me levantei e caminhei em sua direção. Coloquei a mão em seu ombro e liguei a lanterna do celular. Estendi o aparelho na frente de seu rosto para poder checar se ele estava bem e não tinha se machucado, de verdade. O garoto empurrou minha mão de uma vez.
—O que foi isso? Quem é?
—Meu celular. Sou eu. Bianca. Você ta mesmo bem? — Levantei a lanterna contra seu rosto um pouco mais distante mais uma vez.
Bryan me encarou sobre a luz escassa do meu aparelho eletrônico e eu o encarei de volta. Não dissemos nada, mas continuamos a nos encarar até que escutamos alguém e nos viramos para nos depararmos com uma Elisa sobressaltada, uma Calissa rindo e os garotos ainda sentados.
—Do que ta rindo? — Perguntou Lys — Estamos sem energia justo na minha noite das meninas! — A morena colocou as mãos na cintura indignada com a situação.
—Calma, Lisa, não estou rindo disso. Ta na cara, não ta? Eu to rindo do Bryan! — Calissa colocou a mão na barriga e respirou fundo para cessar as risadas — Ele se chocou com a parede!
Naquele momento, todos se voltaram em nossa direção e eu e Bryan nos entreolhamos, antes de todos começarmos a rir freneticamente. Continuamos assim por um bom tempo, até que Elisa nos parou.
—Gente, precisamos ver se a Jess ta bem.
—Verdade, acabei me esquecendo dela... — Comentei e me voltei até o sofá — Então, quem vai subir até lá? — Perguntei um pouco apreensiva de vagar pelos corredores em meio à escuridão.
—Deixa comigo. Eu vou atrás dela — Encarei Calissa por um tempo, mas ela apenas deu de ombros — Que foi? Eu não tenho medo do escuro.
Observei a loira se distanciando e dirigindo até as escadas, que levavam até os quartos e o banheiro em que Jessica estava tomando banho há alguns minutos.
— Tá olha... Eu vou checar a caixa de força. Acho que alguém deveria procurar a Júllya. Se eu a conheço bem ela deve estar tendo um chilique agora — Sugeriu Dylan, roubando a atenção e se tornando o líder da missão, como normalmente era o papel de Júllya.
—Certo. Eu vou com você — Elisa caminhou até o irmão, que já estava de pé e Keylan, se levantou de uma vez e foi até eles também.
—Eu também.
Observei os três se distanciarem em direção do porão e senti um arrepio só de me imaginar indo até lá. Eu odiava ter de ficar sozinha, mas odiava ainda mais o escuro. Aquilo tudo me deixou bastante assustada, por isso preferi não acompanhá-los. Dirigi minha atenção até o celular em minhas mãos e desbloqueie a tela à procura de alguma mensagem respondida por Júllya no Whatsapp ou algum vestígio de onde ela podia estar. Quando entrei em sua página no Instagram me deparei com uma foto que ela postará há poucos minutos. Ela estava na garagem em frente ao conversível vermelho de Dylan.
—Gente, a Júllya estava na garagem, olhem — Estendi o celular com a foto para que Jibby e Bryan que continuavam ali pudesse ver — Melhor irmos atrás dela. Talvez ela ainda esteja lá.
Me dirigi até a porta da frente, guiando-os.
—Ei, espera. Ainda está chovendo — Bryan se colocou ao meu lado e retirou a blusa de moletom, assim colocando-a sobre nossas cabeças para impedir que nos molhássemos demais — Vamos.
O garoto segurou em minha cintura para me guiar junto dele e nós começamos a correr em direção à garagem passando pelo quintal molhado e Jibby correu atrás de nós, então, entramos pela porta entreaberta e nos separamos. Passei as mãos nos cabelos me certificando de que não havia os molhado, porém tento total certeza de que meus sapatos estavam arruinados.
Jessica Valadares — POV's
A água fria percorreu meu corpo. Demorou alguns segundos para eu realmente perceber que estava sem luz e com a água fria me percorrendo. Se só um dos dois tivesse ocorrido eu pensaria que a culpa era minha, mas com os dois juntos acho que a energia acabou. Fecho a torneira do chuveiro e abro o boxe. Me enrolo na toalha sentindo um pouco de frio. O que será que aconteceu? Como é que eu vou me vestir nesse escuro? Com os pés molhados e descalços no chão tento achar o lugar onde eu havia colocado minha roupa. Em cima da tampa da privada. Tento me trocar rapidamente sem me preocupar muito com o fato de por a blusa do lado do avesso. Me preocupo mais com o fato de me trocar rapidamente e sair daqui. "Ai!". Bato meu dedo em alguma coisa dura. Respiro fundo e termino de me trocar bem rápido. Calço meus sapatos e coloco a mão no interruptor para ligar a luz. Lembro que não tem luz. O som do silêncio me da arrepios. Estava muito quieto. Eu pude respirar bem devagar e relaxar. Escuto batidas na porta. Alguém está do outro lado.
— Jessie! — Reconheço a voz de Calissa — Jessie, você está aí?
— S-sim, espera Lissa. Já estou saindo — Eu corro apressada e me jogo para abrir a porta. Quando posso finalmente ficar de frente para Calissa, mesmo sem vê-la eu me sinto mais segura — Oi!
— A luz acabou...
— Sim! — Eu a abracei bem empolgada. Ela me abraçou de volta.
— Podemos ir agora?
— Sim, podemos.
Que bom que alguém que já conhecia a casa veio até aqui se não eu não conseguiria voltar.
Keyllan Medina — POV's
Segui os irmãos Arpini pela casa, até sairmos pela porta da cozinha para o lado de fora da casa.Passamos pela pscina e pisamos em pisos de cimento cercados por gramas verdes atá entrarmos em uma porta. Apenas um cômodo, justamente onde ficava a caixa de força. Escuro e abafado. Elisa começou a vasculha a pequena sala em busca de forfóros, porém eu a puxei delicadamente pelo pulso para que parasse. A garota se virou e dirigiu o olhar sobre mim, senti um arrepio e distanciei um pouco.
—Ahn, não precisa... Procurar. Aqui ta bastante sujo, não quero que uma dama como você se suje por nossa causa. Melhor usar algum celular — Sugeri sorrindo e ela concordou e estendeu seu celular em modo lanterna.
A morena sorriu fraco para mim, que pisquei para ela e Elisa iluminou o comôdo para que pudessêmos ver o estado de dentro da caixa de força.
Dylan, logo, se aproximou e a abriu. Por fora ela parecia completamente intacta. Quando Dylan abriu, percebemos que as chaves não haviam caído. Provavelmente o apagão fora, então, por causa de raio ou algo do tipo. Ficaríamos no escuro.
— Então vamos mesmo ter que ficar sem luz? — Lisa reclamou e já se virou para ir embora.
Olhei de relance para encará-la. Uma das coisas mais bonitas do mundo para mim era quando eu a via sorrir e quando a vi triste, algo dentro do meu peito se rompeu. Era a pior das sensações. Me aproximei dela e coloquei meu braço ao redor de seus ombros para tentar dar apoio a ela, todavia logo me lembrei de que Dylan estava ali e de que ele não poderia nos ver daquele jeito, uma vez que Elisa era a irmã dele e, praticamente, minha também. Teve uma época que éramos apenas nós três, quando éramos crianças, já que sou amigo do Dylan desde os 5 anos, quando ainda estávamos no primário. Por sorte ele não nos viu. Parecia ocupado com outra coisa, até que saiu do transe e se virou para nós com uma expressão de quem tinha visto um fantasma.
—Olhem isso... — Ele apontou para alguns fios soltos próximo da caixa de força — Parece que tentaram sabotar nossos fios.
—Ou foi só um roedor. Já aconteceu antes — Sugeriu Lisa.
—É, mas não estavam assim daquela vez... Parece com uma tesoura ou alicate, não com dentes.
—Acho que ela ta certa, além do mais quem iria querer sabotar sua casa? — Questionei o óbvio, ao menos o que parecia para mim.
Dylan apenas olhou em minha direção. Parecia analisando a situação e o que eu dissera, antes de chegar a me responder, contudo antes que isso acontecesse algo cativou a nossa atenção e todos olhamos em direção da casa com os olhos arregalados e os ouvidos apurados. Um grito estridente ecoou por todo o terreno e fez com que meu coração desse um pulo. Dava para sentir uma ponta de desespero na voz.
—O que foi isso? — Perguntou Elisa. Ela parecia assustada e gravou as unhas no meu ombro, como se fosse seu escudo e, de certa forma, eu sorri por dentro, porque ela se sentia segura comigo e, logicamente, eu queria protegê-la.
—Acho que encontraram a Júllya — Comentou Dylan e partimos em direção a sala, para encontrar com o resto do pessoal.
Olhei para Elisa e ela sorriu levemente enquanto me soltava e começava a andar atrás do irmão. Suspirei e os segui escada a cima para fora do porão.
Bryan Lins — POV's
A porta da garagem estava entreaberta o que indicava que provavelmente alguém havia entrado ali há pouco tempo, e nós deduzimos que fosse Júllya, assim entrei com Bianca e Jibby logo atrás. A loira estendeu a luz do celular para iluminar o caminho a minha frente e continuamos a caminhar, passando pelo espaço, onde antes deveria estar o hyundai prata da Sra. Arpini e o camaro preto do Sr. Arpini, então, nos deparamos com o conversível vermelho do Dylan.
—Onde ela está? — Jibby perguntou olhando ao redor e tentando focalizar alguma sombra ou algo que a entregasse.
—Júllya! Aqui sou eu, Bianca! Cadê você garota? — A loira atrás de mim desviou a luz do celular para iluminar todos os lados da garagem.
Pudemos enxergar prateleiras com várias peças, caixas e ferramentas, que provavelmente estavam ali para caso algum dos três veículos precisasse de reparo ou algo do tipo, mas nenhum sinal de outra loira usando um vestido vermelho em lugar nenhum.
—Ela não está aqui? Para onde ela iria senão dentro da casa, então? — Questionou Bianca e girou passando a luz do celular por todo o lugar mais uma vez, só que dessa vez rapidamente.
—Espera! — Jibby exclamou — Volta! Ali! — O loiro direcionou a mão da garota até o espaço, onde separava o conversível da parede lateral da garagem.
Nossos olhos foram guiados por ele e a cena que vimos fez com que congelassemos. Ficamos sem reação. Estávamos em choque. Não sabiamos se corriamos, se gritavamos, se choravamos ou chamavamos por ajuda. Bianca foi mais rápida que nós e em segundos todo o cômodo foi inundado pelo seu grito agudo.
—Júllya! — A garota fraquejou e em um baque escutamos o seu celular deslizar e bater no chão, despedaçando a tela de vidro para todo lado.
Jibby se jogou no chão ao lado do corpo de Júllya, não se importando em sujar a roupa na enorme poça de sangue que cobria o chão ao redor dela, e colocou a mão em seu pulso para checar os batimentos e a orelha próxima de seu nariz para se certificar de que ela estava respirando, enquanto Bianca se virou para mim e começou a chorar em meu ombro no impulso. Sai do transe e a abracei pela cintura, tentando tranquilizá-la, enquanto escutava seu choro abafado contra minha blusa.
Elisa Arpini — POV's
No momento em que chegamos na sala novamente, encontramos Jessica, já com a roupa trocada, e Calissa sentadas no maior dos sofás a nossa espera, conversando, mas nenhum sinal do resto do pessoal. Dylan se colocou no centro do cômodo:
— Era mesmo a caixa de força. Só que os fios... — Ele disse olhando para o chão e revirei os olhos quando as últimas palavras sairam de sua boca — Parecem terem sido sabotados.
—Ainda podem ter sido apenas roedores.
Debati e meu irmão me encarou do outro lado da sala, porém antes que pudesse responder qualquer coisa escutamos a porta da frente sendo aberta de uma vez e por ela passaram Bryan abraçado em Bianca, que chorava e tremia. Ela estava desesperada.
—O que aconteceu? Você ta legal, Bi? — Jess levantou e caminhou até a garota.
Logo percebi que não estavam todos aqui. Faltavam duas pessoas. Todavia não tive tempo de me lembrar quem eram e Jibby entrou correndo com alguma coisa nos braços, ou melhor, alguém. Ele segurava Júllya desacordada.
—E-ela caiu? Desmaiou...? — Calissa perguntou quase como se segurasse as palavras de tão fraco que as pronunciara.
Todos encaramos Jibby em busca de uma resposta. Ele parecia hesitante. Nos encarou de volta. Passou os olhos por nós sem dizer nada. Tentavamos não pensar o pior, mas o silêncio estava se tornando insuportável, quando Bianca se soltou dos braços de Bryan e gritou descontrolada:
—Não! Morta! A Júllya ta morta! — Seu grito ecoou por nossos ouvidos e a verdade alcançou nossos cerébros, antes que pudessêmos dar conta. Júllya estava morta
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