Manoel

1 Capitulo Único


Manoel Santos era o tipo de pastor que encontrava uma maneira de prodigalizar sem dar-se conta do que fazia. Fora estranho pensar em algum motivo que o levou para um lugar como o Heaven’S; irônico pensar que o nome em nada condizia com o que realmente acontecia dentro de tal estabelecimento.

Esperaria que ele estivesse espantado com o que via, a mistura de casais, toques e carícias e os pecados correndo solto pelos quatro cantos da boate cujo nome mais parecia uma blasfêmia. Porém como qualquer homem com seus segredos, o que via ali não o chocou tanto como o esperado, diferente do que imaginei o pastor local parecia já familiarizado com tantas almas a cometer pecados hediondos.

Ele avançou primeiro como todo e qualquer homem cristão ao ver uma alma perdida; algo que já esperava que viesse a acontecer e por isso não me espantou tanto assim.

O contato de seu olhar julgador como o de qualquer um em sua posição religiosa estava mirado com perfeição em mim; como se ele pudesse ler todos os meus pecados ali mesmo. E sinceramente, eu não tinha dúvida alguma de que ele pudesse fazer isso.

Assustei-me quando o vi ao meu lado, como um pai preocupado com sua filha ele estava disposto a tirar-me daquele lugar de todas as formas possíveis. Contudo não foi preciso inúmeras tentativas ou falas que me assustasse, o pastor Manoel foi ele mesmo. Desde a primeira palavra a dizer a mim, até o convite incomum para sua casa.

O conhecia de ouvir falar, sobre como ele era sempre tão agradável e sábio com seus sermões e muito querido pelos membros de sua congregação. Manoel de fato transmitia tal sensação, entretanto parecia eufemismo de minha parte julga-lo como alguém de bem, principalmente quando sua real intenção fazia-se visível na maneira exagerada que seus olhos encantavam-me sempre que tinha oportunidade.

Ele não era casado e não possuía nenhum familiar morando próximo, talvez fosse um meio que encontrou para ser livre de julgamentos futuros ou de laços. Pudera eu imaginar que ambas a opções eram certas.

Rutilante seus olhos pousaram sobre mim após tantos encontros incomuns em sua residência, após quase um mês ouvindo sermões e recebendo a ajuda que precisava finalmente nos deixamos ser entregues ao prazer carnal.

Aquela não era a primeira vez que entregava-me a um homem; mas a experiência de alguém mais velho e religioso ter-me como no momento em questão era novidade. Diferente dos outros, Manoel fora estranhamente amoroso e cuidadoso, tirando de mim uma inocência que há muito me deixou; tal fato era desconhecido por ele.

Aquele fora seu primeiro erro, permitir se envolver quando ele mesmo não sabia as consequências de seus atos imundos e impensáveis. O pastor Manoel Santos não sabia, talvez sequer tinha noção de que estava envolvido a mim de forma mental, emocional e claro, espiritual. A todo custo querendo transformar-me na amante perfeita e fiel à palavra pregada nos cultos.

A verdade era que aos olhos do Senhor, todos já eram pecadores condenados; uns com chances de salvação enquanto outros... O diabo faria questão de levá-los ao tormento eterno. Aqueles dentro de igrejas e especialmente os que pregavam a seu povo, os mais imundos e afundados nas transgressões não permitidas seriam os primeiros.

Manoel fazia parte desse grupo de pecadores sujos, o numeroso grupo de homens que diziam-se fiéis às leis de Deus, mas que na primeira oportunidade que tinham caíam facilmente. Como aconteceu com ele.

Seu segundo erro fora permitir que eu conseguisse destrui-lo de corpo e alma sem precisar esforçar-me tanto. Afinal, ele o fizera sozinho e sem minha ajuda.

Aos domingos dizia a todos como o diabo era astuto e ansioso para fazer-lhes mal, em busca constante de uma brecha para destruir a criação perfeita de Deus. Nos cultos de quarta, a oração era em prol a vida espiritual, mais intimidade e claro, presentes que os interesseiros pediam a Ele.

Às sextas era diferente, todos vestiam máscaras do perfeito crente hipócrita e temente. As fofoqueiras eram santas, os que se masturbavam enquanto assistiam filmes pornograficos eram bons maridos e ele... Bom, Manoel era apenas o mesmo bom pastor tão disposto a salvar minha podre alma perdida e nem mesmo percebeu que a alma necessitada de salvação era a sua.

Seu terceiro erro foi descontrolar-se tão facilmente, havia permitido a mim um controle em suas emoções que ele mesmo não possuía mais e que por meses ainda o tinha. Deixou que, ao ser questionado sobre suas ações e o que realmente buscava em mim, qualquer objeto por perto virasse uma arma letal que causaria em mim um ferimento sem retorno.

Seu quarto erro foi achar que estaria livre de mim após minha estranha e inexplicada morte após cair dois lances de escadas, julgou-se esperto o suficiente para tirar de meu corpo os tantos anos que tinha pela frente e achar que conseguiria seguir em frente sem a culpa a pesar-lhe na mente. Pobre pastor assassino, aos domingos pregava como Deus era bom o tempo todo, porém na segunda se afundava em suas culpas; matando-se lentamente.

Seu último erro foi pensar que Deus o perdoaria por tudo, pelo abuso e o sexo sem consentimento negado tantas vezes por elas. Sua alma estava tão suja quanto a minha, contudo era um homem do Senhor, devoto e sempre temente. Teria Seu perdão divino... Pobrezinho, não sabia o que fazia.

Sua alma não mais tinha salvação e o diabo que tanto julgou e orou para ser afastado viera pessoalmente para pegá-la.

No fim, o real pecador era Manoel Santos, que mesmo um homem religioso deixou-se desviar.

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