Manipulável

3 Capítulo II - Parte 1


Notas iniciais
Boa leitura.

Tão logo saí do quarto senti meus pulmões se inundarem em respirações úmidas e frias. A primeira coisa que percebi no lugar, além da iluminação trêmula, foi a completa falta de janelas e de luz natural. Nicolas não se deu ao trabalho de explicar o caminho ou de dar atenção a minha curiosidade direcionada a tudo e a todos.

Seguimos por vários corredores e passamos por incontáveis pessoas, todas diferentes de alguma forma. A única coisa que todas pareciam ter em comum eram os olhares de desprezo ao rapaz que me guiava e os de curiosidade direcionados à mim. Cheguei a ver dois homens conversando em um dos cantos. Assim que nos viram, apontaram com desdém e abafaram risadas excêntricas. Nicolas os ignorou por completo.

Ele me levou a uma sala que exibia um enorme aviso na porta. “Entrada proibida à pessoal não autorizado.” O aviso foi ignorado e seguimos adentro.

Aquele cômodo era bem mais frio que os corredores e rapidamente levei as mãos aos braços em uma tentativa desesperada de me aquecer. As paredes eram todas em um branco gélido e haviam mesas cirúrgicas e metálicas pelo centro da sala. Apenas quando vi os inúmeros armários prateados que pude reconhecer que tipo de lugar era aquele. Um necrotério.

Respirei fundo, mas isso não conseguiu me acalmar. Dei alguns passos rápidos em direção à Nicolas, de alguma forma esperava que a presença de outra pessoa pudesse aliviar o peso e a tensão que aquele lugar parecia proporcionar, mas me aproximar do rapaz que abria calmamente uma das gavetas apenas fez com que meu estômago se revirasse e implorasse por um lugar onde pudesse vomitar em paz.

Em poucos segundos o corpo de Arthur estava estirado na minha frente. Seus cabelos ondulados ainda estavam embebidos no próprio sangue, o que dava à algumas mechas uma tonalidade um pouco mais escura. A pele estava completamente cinza e tão fria quanto o ar naquele lugar.

Nicolas levou as mãos à cabeça do corpo à minha frente e a inclinou com uma gentileza que eu não esperava ver. Só então percebi que ele usava finas luvas de couro. O material tinha a mesma cor de sua pele acobreada e parecia ter sido feitas especialmente para ele. Me apontou um furo na cabeça de Arthur, onde o tiro havia o acertado. Vire-me de costas para o corpo.

Lágrimas grossas escorriam pelo meu rosto antes que eu sequer pensasse em impedi-las. Meu peito latejava e comecei a soluçar sem controle. Arthur. O rapaz por quem eu esperava todos os dias atrás daquele balcão. O rapaz que precisava apenas mostrar um sorriso tímido para que eu tivesse um bom dia. O rapaz que sempre pedia um Café Árabe. O rapaz que tentou me machucar em um beco escuro.

— Alana, por favor, veja.

A voz de Nicolas era calma e pude apenas pensar em quantas vezes ele havia feito isso. Em quantos corpo ele segurou daquela forma e analisou tão minuciosamente. Mas não importava o quão comum aquilo tudo era para ele, simplesmente não fazia diferença alguma o quão acostumado ele estava. Era minha primeira vez vendo um corpo, e mesmo se não conhecesse Arthur, a própria ideia de ter a morte tão perto seria suficiente para causar náuseas.

— Por favor. Tem algo que você precisa ver. — Prosseguiu.

Continuei de costas para ele. Eu estava passando as mãos pelo rosto em uma tentativa desesperada de secar as lágrimas, mas isso parecia apenas piorar ainda mais a situação.

Assassinos!

Minha mente começou a gritar.

“Não é o tipo de coisa que a polícia pode resolver.” Ele havia dito.

Assassinos!

Arthur foi morto de acordo com as regras deles, não de acordo com as leis. Se o tal Cícero quisesse realmente ajudar deveria ter intervindo de outra forma. Chamado a polícia. Tirando o corpo pesado de Arthur de cima do meu enquanto ele me agarrava naquele beco. Talvez acertá-lo com um soco, mas um tiro? Que tipo de monstro faria isso a sangue frio? Talvez fosse por isso que eu estava naquele lugar. Talvez ele não quisesse uma testemunha à solta.

Então por que ele não me matou antes?

— Alana. Por favor.

A voz de Nicolas soou baixa, quase inaudível. Era como se ele estivesse implorando. Deixei que meus braços caíssem ao lado do meu corpo. Era simplesmente impossível conseguir impedir as lágrimas de cair. Virei-me para ver novamente o cadáver à minha frente.

Nicolas levou as mãos aos lábios de Arthur e os ergueu. Presas. Ele tem presas. Dentes longos e pontiagudos estavam no lugar dos caninos. Eram pelo menos três vezes mais longos que os outros dentes e bem mais finos. Bem mais afiados.

— É um truque. — Falei sem desviar o olhar da cena medonha a minha frente.

— As marcas no seu pescoço também são? O que ele fez em sua pele naquele beco também foi um truque, Alana?

O que doía na fala de Nicolas não eram as palavras que eu me recusava a acreditar, mas sim sua tonalidade sempre calma. Era como se ele estivesse pacientemente explicando á uma criança teimosa como se deve fazer uma soma simples, um dois mais dois.

Ele se inclinou em minha direção quando fez a pergunta. As mãos enluvadas apoiadas na mesa metálica poucos centímetros de tocar o corpo frio a sua frente. A luz amarelada da lâmpada incandescente acima de nós deu aos seus olhos castanhos uma tonalidade avermelhada, como se suas pupilas queimassem enquanto me cobravam uma resposta.

Dei alguns passos para trás, levando a mão diretamente ao meu próprio pescoço, no exato lugar onde havia sentido os cortes na noite anterior, o exaro ponto em minha pele onde Arthur — se entendi certo — havia me mordido. Senti a pele sensível junto a dois furos na minha carne, mas não havia dor.

— E então, Alana... É um truque?

Notas finais
Imediatamente peço desculpas pelo capítulo curto. Tive alguns problemas com meu computador e ele precisou passar alguns dias na manutenção, então o capítulo acabou sendo escrito pelo celular, coisa que, pessoalmente, não gosto muito. Entretanto, a segunda parte desse capitulo será publicada até domingo, se tudo der certo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.