Manicômio
7 Revelações
As mãos massageavam as têmporas com impaciência, a dor de cabeça insistente não deixando de incomodá-lo mesmo após o uso de alguns remédios que diziam aliviar a dor. A verdade era que não estava dormindo muito bem nos últimos dias, mais especificamente desde o dia em que Namjoon, de alguma forma, fez sua mão atravessar o espelho e lhe presenteou com um lírio. Flor esta que continuava linda em sua mesa de cabeceira, dentro de um pequeno vaso de plantas cheio de água, o que era no mínimo estranho. Pelo o que entendia de flora, já havia se passado tempo suficiente para que a flor começasse a murchar, pelo menos. No entanto, o lírio continuava ali com sua presença radiante e grande vitalidade.
O que apenas o lembrava das últimas pesquisas que havia feito na internet e na biblioteca de Busan sobre fenômenos sobrenaturais que incluíam manipulação de objetos, e admitia ter caído em vários sites estranhos e completamente irreais, com explicações que definitivamente não conseguia levar a sério. No entanto, alguns sites foram realmente esclarecedores, porém, o que mais havia chamado a sua atenção fora uma publicação de um usuário em específico em um fórum sobre clarividência: TEAM.WANG-92, o mesmo usuário da última história que Namjoon lhe havia contado. E, assim como nos relatos de seu paciente, ele relatava em detalhes todos os fenômenos relacionados ao mykrokosmos que o ex-rapper havia mencionado.
Suspirou, pegando o celular novamente enquanto se ajeitava na própria cama macia, pesquisando pelo usuário TEAM.WANG-92 mais uma vez. Havia um fórum onde suas publicações eram frequentes, fórum Highest Hopes, onde suas publicações eram, em sua maioria, em inglês.
Passou os olhos escuros por diversas publicações e debates de outros usuários até que uma sobre telecinésia chamou a sua atenção, franzindo o cenho na medida em que lia o texto do TEAM.WANG-92.
“Todos conhecemos a telecinésia ou a psicosinese como a capacidade de uma pessoa movimentar ou manipular um objeto sem interação física, apenas com o poder da mente, e que isso pode ser desenvolvido ao longo dos anos com diversos exercícios mentais. De fato, existem pessoas que conseguem a capacidade de manipular objetos com esforço e educação mental, e são geralmente pessoas que possuem um grau de sensibilidade holística relativamente maior do que a maioria das pessoas ditas normais. No entanto, a telecinésia não é algo que pode ser simplesmente explicado pelo ceticismo da ciência tradicional. É aqui que entramos mais a fundo no que significa o terceiro olho, o portal para o mykrokosmos.
Aos que não me conhecem, sou TEAM.WANG-92. Em meus textos explico como consegui abrir passagem para a ‘dimensão negativa’ ou mykrokosmos, assim como procuro ajudar aqueles recém-chegados a se encontrarem e entenderem seu verdadeiro propósito no mundo como a ferramenta divina capaz de julgar a humanidade pelos seus atos mais profundos e sombrios.
Na postagem de hoje falaremos sobre a manipulação de objetos e assuntos relacionados. Eu comumente chamo essa habilidade de ‘Interlude’, pois não há uma palavra cientificamente conhecida para resumir todas as habilidades que a abertura do terceiro olho pode proporcionar, dentre elas: Telecinésia, telepatia, precognição e clarividência. Em termos humanamente normais temos essas habilidades como sendo algo distinto de pessoas que trabalham duro para consegui-la. E, de fato, podem ser desenvolvidas ao longo da vida caso se tenha um grande empenho nisso. Entretanto pessoas normais, os não escolhidos, nunca terão o privilégio de conhecerem a magnificência do que é estar realmente envolvido pela influência do mykrokosmos.
O Interlude é a habilidade que apenas a mente dos escolhidos por Ele podem desenvolver, e geralmente é atribuída a choques emocionais intensos ou experiências de quase morte que atravessam o limite físico-espacial que bloqueia a mente humana de acessar os outros universos e realidades a qual nós pertencemos. É graças a essa habilidade que temos a capacidade de vagar por entre os universos fazendo o uso da ‘dimensão negativa’ ou mykrokosmos. Podemos resumi-lo como um portal para esses universos, que são infinitos.
Para entender o Interlude e o mykrokosmos é necessário entender como que o universo funciona. Cada um de nós seres vivos nascemos em um universo distinto, e as decisões que tomamos ao longo da vida nos permite criar, inconscientemente, várias realidades alternativas. Parece confuso em um primeiro momento, mas vejamos um exemplo simples.
Imagine que você acabou de se formar e está decidindo a universidade no qual irá estudar, assim como o curso que definirá todo o seu futuro. Você tem duas opções: Estudar administração na capital e estudar economia no interior. Digamos que você escolha estudar administração na capital, a partir do momento em que você faz essa escolha, outra realidade dentro do seu universo é criada, onde você escolhe estudar economia no interior. Desta forma você acaba existindo em duas realidades distintas, com suas escolhas distintas.
Agora, imagine que você se formou em administração na capital e você recebe duas propostas de emprego: Uma em Seoul e outra em Nova Iorque. Você escolhe trabalhar em Nova Iorque, e novamente, a partir de sua realidade, mais duas realidades alternativas são criadas.
São muitas realidades e muitos universos distintos entre si. Aqui, onde vivemos, é chamado de universo 7. Cada universo é regido por escolhidos chamados ‘Anpanman’. Não se sabe ao certo o número de Anpanmans que existem por universo, mas sabe-se que eles existem para equilibrar os poderes do bem e os poderes do mal do universo ao qual são responsáveis. Para isso, os escolhidos despertam o terceiro olho e desenvolvem o Interlude para acessarem o mykrokosmos e poderem ter a contemplação do julgamento final.
Vale ressaltar que os Anpanmans surgem em realidades onde as decisões ruins reinam. Posso afirmar com total veracidade que a realidade em que nós existimos é uma, das várias, em que o poder do mau reina acima do poder do bem. Vemos isso de diversas formas, como os altos casos de corrupção que vêm crescendo nos últimos anos, as políticas e culturas de intolerância e preconceito, o aumento do número de violência em todos os aspectos (doméstica, guerras, entre outros). Quando uma realidade está com esse tipo de desequilíbrio é necessário uma intervenção que vá além do já ultrapassado método de justiça tradicional.
O Interlude não é apenas uma habilidade psíquica, mas uma habilidade física. Quando a mente consegue romper as barreiras materiais o próprio corpo físico do usuário é capaz de se mover para o mykrokosmos, desta forma tendo a oportunidade de vagar por entre todas as realidades existentes em seu universo. A vantagem de tamanha habilidade é saber exatamente como, quando e onde agir. Anpanmans são geralmente sutis em seus movimentos e decisões, todos os seus movimentos são calculados levando em consideração uma infinidade de variáveis. Os que se destacam na sociedade são geralmente confundidos com assassinos em série, sociopatas e psicopatas. Não que esses distúrbios realmente não existam, mas não são características de um Anpanman. A confusão é compreensível, levará um tempo até a ciência moderna conseguir deixar de lado o ceticismo e levar o holístico em consideração.
Eu mesmo ainda estou descobrindo todo o potencial do mykrokosmos e do Interlude, porém, dentre eles podemos destacar: Telecinésia, telepatia, precognição, clarividência, viagens temporais, materialização interdimensional, manipulação e personificação mental.”
Seokjin parou de ler, levando as duas mãos ao rosto e esfregando com certa força na medida em que suspirava pesadamente. Era, acima de tudo, informação demais para se processar em um único dia, assim como eram ideais e fatos fantasiosos demais para que conseguisse digerir de forma séria, como Namjoon disse que havia feito há anos atrás.
Seus pensamentos, então, voltaram para dias antes, mais especificamente no momento em que Jungkook lhe entregou algumas informações sobre o caso de Namjoon e que ainda não tivera tempo de ler. Os olhos rasgados correram pelo próprio quarto até caírem sobre a estante de documentos que tinha mais à frente, e então se levantou de ímpeto, indo rapidamente na direção da mesma para pegar a pasta que Jungkook havia entregue para si, abrindo-a e folheando os documentos ali mesmo.
As informações estavam resumidas em fatos mais relevantes e que levaram para a conclusão da investigação, além das informações sobre a identidade das vítimas de Namjoon. Não havia nada muito detalhado naquelas páginas e Seokjin entendia o porquê, afinal, eram informações confidenciais demais e caso caísse nas mãos erradas poderia comprometer todo o trabalho de seu amigo policial. No entanto, a relação de vítimas, de alguma forma, chamou a atenção do psiquiatra, principalmente quando um nome familiar apareceu ao folhear as páginas do relatório.
— Min Chinmae... – Jin piscou repetidas vezes com aquela informação, e até mesmo foi em direção à cama para se sentar um pouco, a lembrança da história que Namjoon lhe contou sobre Suga se fazendo presente em sua mente. – É o mesmo homem... É o mesmo nome do avô do Yoongi...
Jin levou uma das mãos aos lábios, encarando incrédulo aquela folha de papel, a mão que segurava os documentos tremendo levemente. Até mesmo a respiração falhou algumas vezes, não conseguindo tirar os olhos das palavras ali, que resumiam a linha de raciocínio de Jungkook.
“Min Chinmae. Idade quando desapareceu, 69 anos. Vítima.
Viúvo, morava com o neto.
Min Yoongi, neto de Min Chinmae. Idade no momento do desaparecimento de Min Chinmae, 20 anos. Atualmente com 26 anos.
Denúncia de desaparecimento feita por Min Yoongi dois dias depois da ausência da vítima Min Chinmae.
Denúncia de maus tratos e abuso de autoridade feita por Min Yoongi, acusando o avô Min Chinmae dois anos antes de seu desaparecimento. Sem provas consistentes que pudessem incriminar a vítima.
Grande proximidade de Min Yoongi com Kim Namjoon após longo tempo de distância.
Foi identificado um contato anterior de Kim Namjoon com Min Chinmae no mesmo dia do seu desaparecimento. Min Yoongi alega não saber de tal fato.
Foi observado grandes sintomas de abstinência vindas de Min Yoongi. Testes confirmaram que Min Yoongi não é usuário de entorpecentes.
Posição defensiva quando se trata de Kim Namjoon. Min Yoongi o defende, questiona as provas judiciais. Vale questionar se há uma relação de ameaça ou cumplicidade entre os dois.
Min Yoongi volta a tocar no assuntos dos maus tratos de Min Chinmae, apontando possíveis provas contra o avô. Novamente nada de concreto que pudesse ser levado em consideração.”
— Céus... O que é isso? — Jin comentou consigo mesmo, virando a página e encontrando um material específico sobre Yoongi, para a sua surpresa.
"Min Yoongi. Idade: 22 anos, atualmente com 26 anos. Suspeito.
Mãe: Min Sun Hee
Pai: Min Dak Ho
Ambos falecidos em um acidente de carro quando Min Yoongi tinha 14 anos de idade. Sua guarda passou para o seu avô, Min Chinmae, com quem passou a viver desde então.
Vasto histórico hospitalar: Sofria de diversas alergias alimentares que limitavam a sua dieta.
Vida acadêmica sem grandes destaques. Notas acima da média e com pouca atividade social com amigos. Atualmente no último período de Anatomia. Destaque para seu histórico: As notas aumentaram desde a morte de Chinmae.
Foi observado grande desinteresse de Min Yoongi no caso do desaparecimento do avô, Min Chinmae.
Após a morte do avô, houve uma estranha proximidade com Kim Namjoon e um honkonguês chamado Wang Ka-Yee.
Os relatórios das investigações apontaram para atividades suspeitas com Kim Namjoon e Wang Ka-Yee. Viagens para fora de Busan com grandes intervalos de tempo e encontros fora do horário normal de circulação sendo frequentes desde o desaparecimento de Min Chinmae.
A análise das provas não geraram resultados satisfatórios o suficiente para incriminar Min Yoongi. Porém o comportamento suspeito ainda levanta dúvidas para a equipe.
A análise do interrogatório identificou coerência nos fatos relatados pelo suspeito, porém vale ressaltar o comportamento duvidoso ao defender Kim Namjoon das acusações feitas pelos oficiais.
Resumo: Suspeito de ser cúmplice de Kim Namjoon no desaparecimento de Min Chinmae."
Jin parou de ler por alguns momentos, apertando os olhos com certa força. A linha de raciocínio de Jungkook era óbvia, ele queria ligar Yoongi à Namjoon de alguma forma e por algum motivo não estava conseguindo, motivo este que o próprio ex-rapper havia confidenciado para si, afinal, Jungkook jamais imaginaria que a hipótese de haver um canibal no caso pudesse sequer ser levada em consideração. No entanto o psiquiatra sentiu um arrepio subir por sua espinha ao imaginar que muito provavelmente Yoongi, um de seus melhores amigos de infância, havia comido o próprio avô. Até mesmo sentia o estômago revirando apenas em imaginar que aquela hipótese poderia ser real.
Sua linha de raciocínio foi interrompida quando ouviu o alarme de seu celular tocar, indicando que estava na hora de sair para trabalhar e assumir o plantão no hospital psiquiátrico. Seokjin engoliu em seco, passaria a noite no hospital daquela vez, assim como diversas outras vezes, mas sentia o estômago revirar toda vez que se lembrava de Namjoon e da história que havia contado sobre Yoongi, além do fato de ter que encarar seu paciente naquele dia. Seokjin conhecia a si próprio, sabia que não deixaria de questionar Namjoon acerca daquilo.
Foi com isso em mente que desligou o alarme do celular, engolindo em seco ao fechar a pasta com os resumos sobre a investigação de Jungkook. Levaria aqueles documentos consigo e terminaria de ler na própria sala no hospital psiquiátrico. O jaleco branco, que até então repousava ao seu lado na cama, foi pego de qualquer jeito, sendo vestido rapidamente pelo médico, que suspirou cansado antes de rumar para o lado de fora, destinando-se ao trabalho com a pasta em baixo de um dos braços.
Decidiu ir com o próprio carro para ser mais rápido, e quando menos percebeu já estava nas limitações do hospital. Estava tão entorpecido nos próprios pensamentos e teorias que estava a criar a cerca de toda aquela história que se movia no automático, e só percebeu que estava finalmente dentro de sua sala quando a porta de madeira atrás de si bateu ao se fechar, libertando-o de seus devaneios perturbadores. Os olhos rasgados correram pelo local e então moveu as pernas em direção à poltrona que havia ali, sentando-se o mais confortável que conseguiu antes de abrir, mais uma vez, a pasta com os documentos do caso de Namjoon.
Fez questão de ler as fichas de todas as vítimas que Namjoon havia feito nos últimos seis anos, começando pelo possível estuprador que assassinou quando estava salvando uma jovem em um beco. Seokjin também se lembrava dessa história, as palavras de Namjoon voltando frescas em sua memória.
No entanto, um detalhe em particular naquelas fichas chamou a sua atenção: Todas as pessoas assassinadas ali estavam, aparentemente, envolvidas em alguma ação judicial, seja por algum crime em potencial, ou corrupção, onde não havia provas concretas que pudessem incriminá-las.
Mais do que depressa pulou para as páginas que falavam especificamente de Namjoon, deparando-se com inúmeras anotações e fotos de documentos ou provas que Jungkook havia coletado durante os anos de investigação. Dentre as fotos, uma série de bilhetes escritos a mão chamou a atenção dos olhos escuros do psiquiatra, que franziu o cenho para ler.
“Alguns dizem que eu sou falso, ok, eu admito isso, meu passado é obscuro”.
“Eu posso justificar isso, mas não vou...”.
“Sou verdadeiro, este é o momento das coisas que eu mais quero”.
“O pedal que eu pisei por sete anos foi finalmente lubrificado”.
“Você não pode me matar, venha me pegar se deseja ter um pedaço de mim”.
— Eu já vi isso em algum lugar... — O médico mordeu o lábio inferior levemente, fechando os olhos na medida em que tentava se lembrar de onde, exatamente, conhecia as palavras daqueles bilhetes em questão.
Foi quando a ideia de pesquisar aquelas frases na internet surgiu em sua mente, e então voltou a pegar o celular que estava guardado em seu jaleco, digitando aquelas palavras na barra de pesquisa do navegador.
E então, os olhos rasgados de Kim Seokjin quase saltaram de suas órbitas ao se deparar com o resultado da pesquisa: Voice — Rap Monster.
O psiquiatra engoliu em seco, os olhos escuros repousando em um vídeo que foi feito por uma fã onde a música era traduzida para o inglês. No vídeo de fundo preto estava uma foto em tons de cinza de Namjoon em um de seus shows, e então resolveu clicar ali, logo as notas do piano dando início à música.
Por breves momentos Jin se permitiu fechar os olhos, apreciando a melodia e as palavras tão cheias de significado que Namjoon havia posto naquela música. Até mesmo a forma como fazia o seu rap, o tom de voz que usava, conseguia transmitir toda a ansiedade e angústia que precederam as suas escolhas.
Foi tirado de seus pensamentos quando ouviu a sua porta bater, e então abriu os olhos levemente mesmo já sabendo quem seria a pessoa que invadira a sua sala. Os olhos castanhos repousaram sobre a figura masculina a sua frente que o fitava sério, porém não com uma seriedade dura. Seus olhos diziam que estava aguardando a música terminar para que finalmente se pronunciasse, e quando a mesma terminou, Seokjin conseguiu ver um sorriso brotar em seus lábios.
— Eu lembro de quando escrevi isso... Eram tempos difíceis. — Comentou, aproximando-se do psiquiatra. Jin suspirou.
— Essa música... Ela é do começo da sua carreira, não é? — O psiquiatra perguntou, recebendo um acenar positivo com a cabeça.
— Eu fico feliz em saber que você conhece essa música. — Namjoon sorriu satisfeito, exibindo suas covinhas e abaixando o olhar levemente. — Era um momento em que eu realmente achava que não iria conseguir debutar e estava sendo muito pressionado pelos meus pais e pela faculdade.
Houve uma longa troca de olhares entre os dois, ambos se encarando de forma fixa e em silêncio.
— O que está fazendo aqui, Namjoon? — Perguntou, sem deixar de engolir em seco na medida em que seu paciente se aproximou, e mais do que depressa fechando a pasta com as informações da investigação. Namjoon percebeu o movimento repentino e apenas rolou os olhos.
— Eu não vim atrás disso, se é o que está pensando. — Apontou para a pasta com uma das mãos. Apenas naquele momento Seokjin percebeu que Namjoon estava com uma das mãos atrás do corpo, escondendo algo.
— Então... O que o traz aqui tão de repente? — Questionou mais uma vez, recebendo mais um sorriso amigável.
— Eu vim te trazer uma coisa. Espero que você goste. — Disse simplista, e então deixou a mão que estava escondida visível para Seokjin, que piscou algumas vezes sem entender quando viu que Namjoon estava segurando mais um lírio. O ex-rapper ficou segurando a flor no ar por um tempo enquanto Jin continuava encarando a mesma em silêncio. — Pode pegar... É para você.
— Obrigado... — Jin se pronunciou finalmente, erguendo a mão para pegar a flor. Por breves momentos sentiu os dedos roçarem com os de Namjoon, e estranhou a forma como o ex-rapper fechou os olhos e franziu o cenho de repente, como se estivesse sentindo dor. — O que houve?
Namjoon manteve-se em silêncio e com os olhos fechados por breves momentos, sendo atentamente observado por um Seokjin desconfiado. Foi então que o maior voltou a abrir os olhos, com um semblante preocupado, e então piscou algumas vezes antes de se voltar para o médico.
— Tem... Alguma coisa que você quer dizer para mim? — Namjoon perguntou com um tom de voz sério. Jin engoliu em seco mais uma vez.
— Ah... Sim, tem sim... — Respondeu, esticando o braço para colocar o lírio sobre a sua mesa, em seguida apontando para a poltrona ao seu lado. — Sente-se, por favor... — O mais velho observou Namjoon atentamente na medida em que o ex-rapper se aproximava mais, vendo como o mesmo se acomodava graciosamente na poltrona ao seu lado, porém sem deixar o semblante preocupado do rosto. — Como você consegue esses lírios? Não é uma flor que se consegue achar com facilidade.
— Eu sei disso, Jin. Mas essa flor combina perfeitamente com você e eu nunca me cansarei de dizer isso. — Respondeu rapidamente, franzindo o cenho quando Jin uniu as duas mãos sobre o colo em um claro sinal de nervosismo que Namjoon conhecia muito bem. — Jin... Vá logo ao ponto, eu sei que não é sobre isso que você quer falar comigo.
— Huh? — O médico ergueu o olhar de repente, surpreso. — Como você sabe?
— Por que eu vi, Jin. Você... Está com medo de mim. — Namjoon mordeu o lábio inferior quando recebeu o olhar pesado do médico para si. — Jin, amor, por favor... Eu sei que é muito difícil para você entender, mas eu precisava que as coisas fossem desse jeito!
— Então é verdade, Namjoon? — O mais velho perguntou, fazendo Namjoon dar uma pausa em suas explicações. — Você... De alguma forma você leu a minha mente e viu o que eu estava pensando, então me responda, é verdade? Você... — Jin engoliu em seco, sentindo o estômago se revirar novamente. — Você matou aquelas pessoas e deu para o Yoongi comer?
Os dois se encararam novamente, um novo silêncio reinando entre médico e paciente. Seokjin tentava a todo custo conter as lágrimas que se acumulavam no canto de seus olhos enquanto Namjoon pensava nas palavras que estava a escolher para se explicar. Porém, o ex-rapper deixou os ombros caírem cansados, deixando um pesado suspiro para trás antes de continuar:
— Sim, é verdade Jin. Eu alimentava o Yoongi com a carne das pessoas que eu matava.
Jin separou os lábios, em choque, os olhos se arregalando em completo espanto e em visível medo. Sequer fez esforço para disfarçar o quão incomodado estava e Namjoon imaginava como o médico estaria confuso. Porém, não conseguiu deixar de sorrir, abrindo um enorme e visível sorriso antes de começar a rir, sendo encarado por um Seokjin incrédulo.
— Do que você está rindo, Namjoon? Você... Você se orgulha do que fez?! — Perguntou em choque, levantando da poltrona para se afastar do mesmo, assustado. No entanto o ex-rapper apenas continuou a rir, levando as duas mãos aos cabelos, jogando-os para trás levemente.
— Não é isso... Jin, eu sempre amei a sua inteligência. — Comentou, voltando o olhar para o psiquiatra mais uma vez. — Eu admito que foi uma das coisas que me deixou completamente apaixonado por você. Eu sabia que você não iria me decepcionar.
— Do que está falando? — Franziu o cenho, dando mais um passo para trás quando Namjoon se levantou da poltrona.
— Eu sabia que era apenas uma questão de tempo até que você começasse a encaixar as peças do quebra-cabeça. — Namjoon continuou, agora se aproximando em passos lentos na medida em que Seokjin se afastava, dando passos para trás. O médico estava assustado e sozinho naquela sala com Namjoon, e não fazia ideia de como sair daquela situação.
— Se afasta de mim, Namjoon. — Jin pediu, mordendo o lábio inferior quando sentiu a superfície fria da parede contra as suas costas.
— Você está com medo de mim, e eu nem preciso usar o Interlude para saber disso. — Namjoon continuou a se aproximar, Seokjin erguendo ambas as sobrancelhas, surpreso. — Sim, Jin... Eu sei que você andou lendo os textos do Jackson e já sabe sobre o Interlude... Mas sabe o que mais me surpreende? — Jin prendeu a respiração quando Namjoon se aproximou com mais rapidez, unindo os corpos de repente e pressionando o seu corpo contra a parede. Os braços fortes do ex-rapper estavam apoiados na parede, esticados um de cada lado de seu corpo, impedindo uma possível fuga de Seokjin. — O fato de você insistir em achar que tudo o que viu até agora é fruto da imaginação de um lunático.
— Eu... Eu falei p-
— Não Jin, agora quem fala sou eu. — Namjoon levou uma das mãos ao rosto de Seokjin, segurando-o levemente para que o médico não desviasse o olhar. — Você está confuso, eu sei disso. É muita coisa para digerir sozinho. Eu sei exatamente como você se sente, eu fiquei exatamente assim quando comecei a descobrir o que isso tudo significava. — Namjoon suspirou pesadamente. — Jin, você sabe, todos nós já fomos amigos um dia. Você se lembra de como a vida do Yoongi era um inferno?
— Sim... Eu me lembro. — O psiquiatra engoliu em seco, ainda olhando fixamente para Namjoon.
— Você se lembra de como que o Yoongi chegava todo roxo na sala de aula depois de faltar por dias? — Namjoon perguntou novamente, com o tom de voz mais alto. — Você lembra?! É claro que você se lembra! Você foi o primeiro de nós a reparar nisso!
— Aonde você quer chegar, Namjoon? — Jin perguntou, também alterando o tom de voz.
— Aonde eu quero chegar? Jin, Chinmae fazia coisas horríveis com o Yoongi, coisas que você sequer imagina. — Namjoon então se afastou, fechando os olhos em uma carranca dolorosa. — Só em lembrar o que eu vi quando toquei naquele homem... Do que eu vi quando entrei na casa dele e vi o Yoongi acorrentado naquele estado... Jin, nenhuma pessoa merece passar pelo o que o Yoongi passou na vida.
— Mas isso não justifica o fato de você ter transformado ele em um canibal, Namjoon! — Seokjin respondeu agressivo, atraindo os olhos do ex-rapper para si mais uma vez.
— Você realmente acha que eu fiz isso porque eu quis? — Namjoon franziu o cenho, olhando firme para o médico. — É isso o que você pensa? Você acha que o Yoongi gosta disso? É óbvio que ele não gosta disso! Mas o que eu posso fazer se essa é a única coisa que ele pode comer sem correr o risco de morrer por causa disso?
Namjoon voltou a se sentar na poltrona abaixando a cabeça e segurando a mesma com as duas mãos. Era observado atentamente por um Seokjin desconfiado, este que deixou um suspiro pesado sair de suas narinas quando ouviu Namjoon fungar alto.
— Eu não gosto disso, Jin. Eu não pedi para ser escolhido como um Anpanman. Eu só queria ter uma vida normal e viver da minha música como uma pessoa normal. Mas o que eu poderia fazer? — O ex-rapper ergueu a cabeça mais uma vez, as mãos enxugando as lágrimas do rosto em formato de coração. — Eu não conseguia ignorar tudo isso, acredite, eu tentei! Mas eu não conseguia sair na rua e interagir com as pessoas sem ver tudo o que eu vejo... Existem muitas pessoas boas como você Jin... Mas o mundo está cheio de pessoas como o Chinmae também, que fazem o que fazem e ainda saem impunes... — Namjoon fez uma pausa, fungando novamente. — Quando... O Yoongi percebeu que conseguia comer carne humana e ouviu a minha história, ele mesmo se ofereceu para me ajudar a... Limpar os rastros, como ele disse na época. Ele disse que ficaria bem com isso se soubesse que eram pessoas ruins, pessoas que não fariam falta alguma no mundo.
Seokjin se encostou mais uma vez à parede, deixando o corpo escorregar até que finalmente estivesse sentado no chão. Sua dor de cabeça havia piorado de repente com toda aquela história e todo o estresse com aquela situação. Uma parte de si queria acreditar nas palavras de Namjoon, enquanto outra parte gritava em seu interior para que saísse daquela sala e fosse atrás de Jungkook imediatamente. O médico fechou os olhos por breves momentos, mordendo o lábio inferior mais uma vez, sem saber o que fazer. E então ouviu Namjoon falar mais uma vez:
— Eu sei o que você está pensando, mas eu te imploro Jin, não faça isso.
O mais velho voltou o olhar para Namjoon, engolindo em seco.
— Hoje a noite... Acontecerá algo muito, muito ruim. — O ex-rapper disse em um tom sério, atraindo a atenção do mais velho. — É algo que não é culpa minha e muito menos culpa sua. Algo que já vem acontecendo há muito tempo e ninguém nunca percebeu, mas você vai descobrir isso hoje.
— Por favor Namjoon... Chega por hoje... — Seokjin pediu, fechando os olhos e balançando a cabeça negativamente.
— É a última vez que estarei falando sobre isso com você, Jin, eu prometo. — Namjoon insistiu, e então continuou a falar. — Essa noite será decisiva. Você terá que escolher entre acreditar em mim ou acreditar na justiça tradicional, e eu irei respeitar a escolha que você fizer. — O ex-rapper continuou olhando atentamente para Jin, que estava com uma expressão confusa mais uma vez. — Eu só peço que você siga a sua intuição e seja sincero consigo mesmo.
— Namjoon... Por favor, sai da minha sala. — Seokjin pegiu mais uma vez, apontando para a porta de saída. Desta vez o ex-rapper obedeceu, levantando-se da poltrona e caminhando lentamente até a porta.
Antes de sair Namjoon olhou para Jin uma última vez, este que continuava sentado no chão olhando para a poltrona onde estava sentado momentos antes. O ex-rapper suspirou, finalmente deixando-o sozinho.
Jin desabou quase que imediatamente, sentindo as lágrimas descerem pelo rosto fino ao mesmo tempo em que fungava. O médico encolheu o corpo, abraçando as pernas enquanto colocava o nervoso e a confusão para fora da melhor forma que conseguia naquele momento.
Não fazia ideia do que pensar depois de tudo o que havia descoberto e confirmado por Namjoon. A ética dizia-lhe para pegar o celular e ligar imediatamente para Jungkook, contar tudo o que havia se passado e ajudar o amigo policial a encaixar a última peça do quebra-cabeça que faltava e finalmente ir até Yoongi. Porém uma outra parte de si dizia para que não o fizesse e que confiasse em Namjoon depois de tudo o que ele fez e de tudo o que foi confirmado por ele.
O médico levantou quando conseguiu se acalmar um pouco, o lírio em cima de sua mesa chamando a sua atenção. Aproximou-se, segurando a flor por entre os dedos na medida em que a encarava por longos minutos, pensativo. Os acontecimentos daquele dia passando por sua mente como um filme em preto e branco.
— Mykrokosmos, Interlude, terceiro olho, Anpanman... Será possível? — Murmurou para si mesmo na medida em que encarava o lírio, sentindo um aperto no peito logo em seguida. — Eu devo estar ficando louco por sequer imaginar que isso seja real... — Jin repousou a flor sobre a mesa de novo, voltando o olhar para a porta por onde Namjoon saiu, sentindo vontade de chorar de novo. — Por que eu tenho que ter esses sentimentos por ele? Por que logo com ele?
Precisava espairecer, a cabeça doía bastante. Deixou para trás naquela sala toda a cena que teve com Namjoon e então foi na direção do corredor. Não percebera antes, mas agora, passando pelas janelas do corredor, conseguiu ver como o dia havia escurecido rápido. Seokjin foi até a cozinha do hospital psiquiátrico e lá fez um chá de camomila e erva cidreira, aproveitando para se sentar em um lugar mais calmo para tentar colocar as ideias no lugar. Quando terminou de beber, foi caminhando em passos lentos, aproveitando para ver se havia algum paciente que estivesse desrespeitando o toque de recolher por algum motivo.
A noite estava tranquila demais, e após visitar alguns de seus pacientes e conferir que todos estavam bem, voltou para a própria sala, aproveitando para retirar o jaleco e ficar mais à vontade. Havia uma porta alternativa na sua sala, perto da mesa que usava para trabalhar, que escondia uma cama reclinável. Todos os médicos que trabalhavam no hospital tinham algo do tipo por conta das vezes em que precisavam passar a noite ali. E como aquele era o plantão de Seokjin, o mesmo mais do que depressa montou a cama, retirando de umas pequenas prateleitas um cobertor e um travesseiro, ajeitando da melhor forma que conseguiu. E em seguida se deitou, encarando o teto branco por um longo período de tempo.
Apesar de amar o trabalho, Jin simplesmente detestava quando precisava passar a noite no hospital de fato. Primeiramente por não conseguir descansar direito pois nunca conseguia pegar no sono profundamente, e em segundo lugar, porque geralmente as piores crises dos pacientes aconteciam à noite, e não sabia explicar o porquê disto.
Respirou fundo, abrindo a boca em um bocejo em uma tentativa de espantar aqueles pensamentos ruins e dar espaço a coisas boas e que o ajudasse a dormir. Taehyung veio então em sua mente e acabou sorrindo ao se lembrar do extremo profissionalismo do irmão, o que o fez se lembrar também de que o mesmo havia marcado uma consulta com Jungkook para definirem como se seguiria o tratamento de Jimin. Faria uma nota mental para que não esquecesse de perguntar à Taehyung como havia sido.
Continuou daquela forma por algumas horas, vez ou outra pegando o celular para dar uma olhada em algumas redes sociais para passar o tempo, até que finalmente desistiu e se levantou. Não iria conseguir pegar no sono tão facilmente, então vestiu o jaleco mais uma vez, colocou o celular no bolso e foi caminhar pelo hospital.
Para qualquer pessoa que não estivesse acostumada com aquilo, andas pelos corredores vazios de um hospital psiquiátrico à noite seria semelhante a um cenário de filme de terror. Mas não para Seokjin, levando em consideração o fato de já estar habituado àquele tipo de situação. Era engraçado ouvir o som que seus sapatos faziam contra o piso a cada passo que dava, porém controlava a intensidade que andava para que o som não acordasse os pacientes, já adormecidos.
Naquele momento estava passando pelo segundo corredor de quartos do hospital conferindo se as portas estavam fechadas como deveriam estar, até que uma porta entreaberta entrou em seu campo de visão. Seokjin ergueu uma das sobrancelhas ao perceber que se tratava do quarto de Lalisa, e então abriu um sorriso bobo, imaginando que a menina provavelmente tivesse se esquecido de trancar a porta ao ir dormir.
Jin estalou o pescoço levemente enquanto se aproximava da porta do quarto de Lalisa, colocando a mão na maçaneta para fechar a mesma. No entanto, sentiu o corpo paralisar por completo ao ouvir um gemido grosso vindo do quarto da menina e que o fez franzir o cenho. Seokjin aproximou o rosto da abertura da porta, os olhos se arregalando com a cena que estava testemunhando.
Lalisa estava com os olhos fechados e visivelmente desacordada, nua em cima da própria cama e com as pernas abertas enquanto um homem se movia por cima dela, estocando enquanto sorria ao gemer enquanto realizava tal ato. Demorou alguns segundos para que Seokjin finalmente identificasse o homem, o que o chocou mais ainda ao perceber que se tratava do diretor do hospital, que já deveria estar em casa há horas.
Não havia palavras para descrever a raiva e o nojo que estava sentindo daquele homem naquele momento. Seokjin estava prestes a interromper o ato quando sentiu uma mão grande cobrir o seu rosto, e logo em seguida um braço forte envolvê-lo pela cintura e puxá-lo para trás, impedindo assim que pudesse falar alguma coisa. Jin ainda lutou contra aquele aperto forte, porém parou de se mover ao virar o rosto levemente para trás e percebem de quem se tratava: Kim Namjoon.
O médico arregalou os olhos, porém Namjoon seguer voltava os olhos para Jin, tendo os castanhos voltados fixamente para a cena que via dentro do quarto de Lalisa, com uma péssima expressão no rosto que fez com que subisse um arrepio pela espinha de Seokjin. Depois de longos minutos, Namjoon finalmente voltou os olhos para o psiquiatra, ainda com um semblante sério.
— Eu preciso que você fique em silêncio. — O mais alto sussurrou apenas para que Seokjin ouvisse, e então soltou o corpo do mais baixo do aperto de seu braço, assim como afastou a mão da boca de Seokjin. — Vamos sair daqui.
— O que? Sair daqui? Você viu o que está acontecendo lá dentro, temos que fazer alguma coisa! — Jin retrucou em voz baixa, mas Namjoon gesticulou para que o médico ficasse em silêncio, em seguida segurando firmemente no pulso do psiquiatra e o puxando com certa força para longe dali, ainda sobre os protestos de Jin.
— Namjoon me solta! — Seokjin pediu já irritado, aumentando levemente o tom de voz, no entanto o ex-rapper apenas aumentou o aperto que fazia no pulso do médico. — Hm... Namjoon, você está me machucando...
— Cala a boca Jin, só vem comigo. — Respondeu, aumentando a velocidade dos passos até finalmente encontrar um lugar longe o suficiente onde podiam conversar sem serem interrompidos ou descobertos. Só então soltou o pulso do médico, que ficou acariciando a região com a outra mão enquanto resmungava. — Desculpe por isso... Mas eu precisava de um lugar mais particular para conversarmos.
— O que há com você? Por que você não me deixou fazer alguma coisa? — Jin trincou os dentes e franziu o cenho, irritado. — Você sabia que isso iria acontecer, por que você não fez nada?!
— Não é assim que funciona, Jin. — Namjoon suspirou, levando uma das mãos aos olhos, apertando-os. — Se ele não fizesse, eu não poderia me livrar dele, entende?
— Como assim? Você não é um Anpanman? O justiceiro divino? — Seokjin disse em com de deboche, porém Namjoon continuava o olhando sério.
— Ele é inocente até que fizesse algo errado. Se eu agisse antes eu não estaria fazendo justiça, Jin. — Suspirou pesadamente, mordendo o lábio inferior. — Eu gostaria de poder fazer alguma coisa antes, mas eu não posso. Além disso... Eu sabia o que ele iria fazer, mas você precisava ver para acreditar em mim.
Seokjin iria retrucar, mas interrompeu a si mesmo ao refletir sobre as últimas palavras de Namjoon, lembrando-se também do que o ex-rapper havia lhe dito em sua sala horas antes, sobre algo de ruim que aconteceria naquela noite. Jin sentiu um arrepio subir por sua espinha mais uma vez, engolindo em seco. Não havia como Namjoon saber daquilo.
O médico então voltou os olhos para o mais alto, que o fitava com o olhar um pouco preocupado. Jin relaxou os ombros, mordendo o lábio inferior.
— E agora? — Perguntou, encarando Namjoon sem saber o que fazer. O ex-rapper abriu os braços, chamando o médico para um abraço, este que não recusou e, por mais que estivesse ainda relutante, aconchegou-se nos braços de Namjoon.
— Eu preciso que você tenha um pouco mais de paciência Jin. — Namjoon levou uma das mãos à cabeça de Seokjin, fazendo um leve cafuné. — Mas eu quero que você saiba que eu não estou neste hospital por acaso. — Jin ergueu o olhar para Namjoon, sem entender. — Eu não fui condenado à toa. Eu poderia facilmente ter escapado das suspeitas de Jungkook se eu quisesse. Mas se eu tivesse feito isso não teria me reencontrado com você, e não teria como eu ajudar a Lalisa estando fora daqui.
— Então você sabia o que o diretor iria fazer desde antes de ser preso? — Perguntou e Namjoon balançou a cabeça positivamente. — Desde quando?
— Desde que fui chamado para depor pela primeira vez. Você se lembra? — Comentou, sorrindo ao ver a expressão confusa do psiquiatra em seus braços. — Acho que é querer demais que você se lembre disso... Você estava acompanhando o diretor na escolta de um condenado psiquiátrico, Mark Yi-en Tuan. — Namjoon sorriu ao ver a expressão surpresa de Jin para si. — Lembrou?
— Sim... Mas eu não te vi naquele dia.
— Mas eu sim, e depois do meu depoimento eu tive uma conversa com o seu diretor, porque queria saber se você estava trabalhando no hospital psiquiátrico mesmo. No fim da conversa nós demos as mãos e... Eu vi. — O sorriso de Namjoon morreu e então o ex-rapper desviou o olhar, fazendo uma carranca. — Foi naquele dia que eu decidi que precisava entrar neste hospital a qualquer custo. Por você e por Lalisa.
Namjoon voltou os olhos escuros para Seokjin, que ainda o encarava surpreso. O médico não esperava por aquelas palavras e pelo real motivo por trás do fato de Namjoon estar ali naquele hospital como um condenado psiquiátrico. Não sabia dizer se o que ele estava dizendo era verdade, porém algo dentro de si queria gritar para quem quisesse ouvir o quanto queria acreditar nele.
Foi com isso em mente que, mesmo relutante, disse:
— E o que você pretende fazer agora?
Namjoon suspirou, levando uma das mãos ao rosto de Seokjin, acariciando levemente. Sorriu quando o médico fechou os olhos como seu toque.
— Agir, é claro. — Jin abriu os olhos mais do que depressa. — Eu irei analisar todas as minhas possibilidades antes de qualquer coisa, e... Quando for o momento, eu vou precisar que você compreenda e me deixe falar com o Yoongi. — Disse sério. — Mas por agora, a única coisa que eu quero é que você vá para a cama e descanse. — Namjoon sorriu, mostrando as covinhas novamente, o que fez Jin enrubescer de forma sutil.
— Eu não vou conseguir dormir depois de hoje, Namjoon. — O médico abaixou a cabeça levemente. — É coisa demais para digerir...
— Sim eu entendo, mas por favor, tente descansar nem que seja um pouco. — Namjoon ergueu a cabeça de Seokjin com a mão, depositando um beijo carinhoso na testa do médico, em seguida roçando levemente o nariz nos cabelos pretos do mais baixo. — Eu senti falta disso...
— Namjoon... Por favor n-
— Sabia que eu sempre amei você? — Namjoon interrompeu, pegando Seokjin desprevenido.
O ex-rapper então se afastou sorrindo, olhando uma última vez para Jin antes de se virar para começar a andar, distanciando-se e deixando para trás um Seokjin com muito em que pensar.
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