Manicômio

2 Era uma vez... O começo


Os olhos rasgados corriam livremente pelo ambiente na medida em que observava tanto os seus, como os pacientes de seus companheiros de profissão e a forma como interagiam. O grande salão de paredes brancas trazia aos pacientes e aos visitantes do local uma sensação agradável pelas mesas geometricamente dispostas e os janelões que iluminavam todo o ambiente, deixando os raios de sol entrarem para aquecer seus corpos. Era um local de confraternização, afinal, parentes e amigos eram mais do que bem vindos a visitar os internos no hospital.

Percebia algumas pessoas, até mesmo pacientes seus, que conversavam tranquilamente apesar de estarem usando uma camisa de força para conter seus impulsos. Por mais que achasse tal condição completamente desnecessária, precisava ouvir as ordens de seu diretor e superior. Seus belos olhos repousaram sobre um paciente que estava nessas condições, conversando com um rapaz de cabelos pretos levemente desgrenhados e que conhecia muito bem. Tratava-se de seu mais recente e polêmico paciente, Kim Namjoon, que estava com os braços bem presos à camisa de força, no entanto, não conseguia entender o real motivo que levara o diretor a tomar aquela atitude, visto que aos seus olhos Namjoon não fizera nada de errado para isso.

Observava como ele se portava, sentado em um dos bancos e relaxadamente encostado, enquanto ria pela conversa que alimentava com o tal amigo que ambos conheciam. Aos seus olhos, aquela situação o lembrava dos momentos em que passavam juntos quando estudavam nos anos do secundário, das piadas e brincadeiras que faziam juntos e dos momentos em que apenas aproveitavam a companhia um do outro. Naquele momento Namjoon parecia exatamente aquele mesmo jovem de suas memórias, com os cabelos escuros levemente bagunçados que caíam sobre seu rosto, o sorriso divertido e aquele brilho no olhar espontâneo que se lembrava que ele tinha.

Na medida em que caminhava por entre os corredores de mesa e ajeitava o jaleco branco que usava com uma das mãos, foi tirado de seus devaneios justamente pela conversa que os dois estavam a ter. Resolveu atentar-se ao o que estava acontecendo ao mesmo tempo em que continuava a caminhar pelo local, parando em um ponto levemente privilegiado em tempo o suficiente para ouvir Namjoon dizer:

— Ainda com todas aquelas alergias alimentares, Yoongi?

O rapaz de cabelos pretos que até então sorria, agora esboçava uma carranca com um misto de deboche e desagrado que fez Namjoon rir alto. O rapaz, que de certa forma chamava a atenção pela forma excêntrica na qual estava se vestindo, usando jeans rasgados, uma camisa branca e uma jaqueta azul brilhante, ergueu os olhos pequenos para o ex-rapper, arqueando as sobrancelhas para a pergunta do amigo.

— Obviamente. Sinto que estou emagrecendo tanto que posso desaparecer qualquer dia desses. – Yoongi respondeu, recebendo um acenar de cabeça negativo de Namjoon, que ergueu uma das sobrancelhas para ele.

— Você precisa ingerir mais proteína vermelha, meu amigo. Você sabe o mal que a falta de proteína faz ao seu corpo. – O ex-rapper comentou, fechando os olhos com tranquilidade, desta forma não conseguindo ver o olhar de incredulidade do amigo.

— Você sabe que eu não consigo comer esse tipo de carne! – Yoongi franziu o cenho, suspirando pesadamente. Os pequenos olhos pretos correram o local analiticamente, e logo em seguida o rapaz moveu-se rapidamente, encostando os cotovelos sobre a mesa entre eles para que, desta forma, pudesse se aproximar mais de Namjoon. – Eu não aguento mais comer soja! Desde que te pegaram eu estou definhando!

— Fale mais baixo, Yoongi. – Alertou em um tom de voz baixo, apontando com os olhos para o psiquiatra logo atrás deles. Apenas naquele momento que Yoongi pareceu ter percebido de quem realmente se tratava.

— Ah... Eu ouvi falar sobre isso pela televisão, mas não pensei que fosse verdade. – Yoongi respondeu também em um baixo tom de voz. – Quem diria que o seu médico seria o nosso Jin.

Namjoon deu de ombros, suspirando pesadamente antes de continuar:

— Seu estoque já acabou? Você é um guloso mesmo. – Estava debochando de Yoongi de certa forma, sorrindo ao ver o rapaz rolar os olhos. – Infelizmente eu não posso te ajudar, não nessas condições.

Os olhos rasgados de Namjoon contemplaram as reações do amigo, que variaram entre impaciência e desânimo. Yoongi suspirou pesadamente, esfregando o rosto com uma das mãos enquanto os olhos pequenos voltavam a correr todo o ambiente, parecia tentar encontrar uma solução para o pequeno problema que estava tendo naquele momento.

— Você quer que eu morra de fome? – Acabou comentando com um sorriso de canto que atraiu o olhar curioso de Namjoon para si.

— Meu querido amigo Min Yoongi. – O ex-rapper inclinou a cabeça levemente para o lado, na direção do seu ombro esquerdo. – Se eu quisesse te ver morto eu já o teria feito naquele dia, você se lembra?

— Claro, não tem como se esquecer daquele dia. – Suspirou pesadamente, voltando a se encostar normalmente na cadeira. – Então o que você me sugere?

Namjoon levantou a cabeça olhando para o teto por longos segundos, provavelmente matutando sobre a melhor forma de ajudar Yoongi com seu pequeno problema alimentar. Por mais que brincasse com o rapaz, o fato era que se preocupava em demasia com o seu bem estar e saúde e não queria vê-lo sofrendo por conta disso.

— Se eu fosse você, falaria com Jimin. – Namjoon desceu o olhar para o amigo, que franziu o cenho de repente.

— Jimin? Park Jimin? – Yoongi perguntou, recebendo um acenar positivo com a cabeça. Praticamente no mesmo instante começou a rir bem alto, atraindo a atenção das pessoas das outras mesas e de outros médicos ali presentes também. Namjoon apenas ergueu as sobrancelhas, esperando o amigo se recompor pacientemente. – Qual foi a droga que deram para você? Em que o Jimin pode me ajudar? É ele quem precisa de ajuda!

— Você se esqueceu do grande potencial do nosso pequeno Jimin-ssi? – Namjoon suspirou pesadamente pela reação exagerada de Yoongi, que voltou a se recompor.

— Não, eu não me esqueci. Mas desde o momento em que você foi preso o Jimin... Não é mais o mesmo. – Yoongi comentou e Namjoon cerrou os olhos sem entender. – Você lembra como ele sempre foi dependente de você, Nam. A cabeça dele não está aguentando toda essa pressão. – O rapaz se aproximou mais de Namjoon para que pudesse falar mais baixo. – E... Cá entre nós, você não poderia ter evitado tudo isso se simplesmente desse um fim no Jeon logo no começo? Ninguém suspeitaria.

— Yoongi, Yoongi... – Namjoon sorriu mais abertamente, encarando-o profundamente nos olhos. – Como eu gostaria que você enxergasse pelos meus olhos, tudo ficaria tão mais claro para você que sequer iria questionar as minhas decisões. – Fechou os olhos, ficando sério de repente. – O que você precisa saber no momento é que tudo o que está acontecendo não é simplesmente por acaso. Além disso, eu não poderia simplesmente matar o Jungkook, não é esse o propósito.

— Eu realmente gostaria de ver através dos seus olhos, iria me poupar muito. – Bufou, porém acabou rindo baixo em seguida.

— Paciência meu amigo. Eu sei que isso acontecerá em breve. – Namjoon suspirou pesadamente, voltando os olhos para a enorme janela que iluminava a mesa em que ambos estavam diretamente. – Você está cuidando do Jimin?

— Tentando. Você sabe que a minha rotina com as aulas não me permite ter tanto tempo livre. Mas eu pedi para que o Hobi fosse dividir o apartamento com ele, desta forma o Jimin não fica sozinho o tempo todo e os riscos dele fazer alguma besteira são menores. – Yoongi respondeu simplista.

— Às vezes eu esqueço que você é professor. – Namjoon acabou rindo, balançando a cabeça. – Fez bem em não deixa-lo sozinho. Eu temo o que o Jimin pode fazer consigo mesmo.

— Eu temo que ele faça alguma besteira e fale demais, isso sim. – Disse levemente irritado. Tocar no assunto de Jimin parecia afetar Yoongi de forma muito negativa.

— Jimin não fará nada que prejudicaria a nós. Acredite, a dependência dele é maior do que a língua. – Namjoon riu enquanto Yoongi relaxava os ombros, mais tranquilo. – Confie nele. Jimin com certeza irá ajuda-lo, principalmente se souber que foi eu quem pediu.

— Tudo bem, irei dar um voto de confiança a ele mais uma vez. Mas apenas porque estou realmente necessitado.

— Ótimo. Agora me diga como está sua situação com o Hoseok. Eu admito que quando vocês começaram a namorar eu pensei que não fosse durar muito graças às suas... Peculiaridades. – Namjoon alfinetou, recebendo um olhar raivoso do amigo.

— Meus hábitos alimentares não me impedem de construir um relacionamento. – O professor devolveu, fazendo o ex-rapper rir controlado.

— Sim, eu acredito nisso agora. – Namjoon assentiu, sorrindo gentil. – Além disso, você não é um homem ruim, e mesmo nas atuais condições você simplesmente não atacou o Hoseok, como qualquer um na sua situação normalmente faria.

— Eu jamais sujaria as minhas mãos por um capricho, Namjoon.

— Não é um simples capricho, é uma necessidade sua! Você precisa disso para sobreviver. – Namjoon se levantou levemente, estava começando a sentir as costas doerem pelo tempo em que estava sentado. – Não estou dizendo para você tomar iniciativa e nem nada do gênero. Eu só estou te elogiando porque é necessário ser um homem muito nobre para manter o autocontrole desta forma.

— Digamos que eu tenha tido um bom professor. – Yoongi riu, sendo acompanhado por um Namjoon também feliz. – O horário para as visitas vai até que horas?

— Não sei exatamente, mas deve estar terminando.

— Jimin queria vir te ver, e nem dei essa opção ao Hoseok porque ele não quer te ver nem pintado de ouro. – Yoongi comentou. – Se ele soubesse que ainda mantenho contato contigo ele me mataria com toda certeza.

— Não me importo com a presença do Hobi aqui, sem ofensas. Agora o Jimin... – Namjoon pareceu estar ponderando sobre o assunto. – Não. Ele não irá me ver ainda. Ele precisa aprender que os atos dele têm consequências.

— Você é bem cruel quando quer Namjoon.

— Não. Como você mesmo disse eu sou um excelente professor, e ele precisa aprender. Obviamente é mais difícil fazer as escolhas certas quando você não enxerga, mas eu consigo ver que Jimin terá um futuro brilhante conosco.

— Eu já ouvi esse discurso antes. – Yoongi deu de ombros, resolvendo se levantar também. – Bom Namjoon, eu vou tentar vir mais vezes, mas agora eu realmente preciso ir. Tenho uma aula a dar daqui a pouco na universidade.

— Certo. – Fechou os olhos, tentando se esticar um pouco, porém sendo impedido pelas amarras da camisa de força. Até mesmo resmungou um pouco, atraindo a atenção do olhar atento de Yoongi.

— Eu só consigo sentir mais raiva do Jungkook quando te vejo assim. – O professor fechou as mãos em punho, cerrando os dentes.

— Tudo irá se acertar em breve, meu amigo. Confie em minhas palavras. – Disse simplista, sorrindo cordial. – Agora vá, não quer chegar atrasado que eu sei. E pense no que falei sobre Jimin.

Com um último sorriso, Yoongi deu um abraço antes de se despedir de forma apropriada de Namjoon. O ex-rapper ficou em pé, parado, olhando o amigo até que ele desaparecesse completamente de seu campo de visão. Durante todo o período em que conversava com Yoongi sabia que estava sendo atentamente observado por Seokjin, que por mais que rodeasse todo o salão, não deixava de se concentrar em seus assuntos.

Naquele exato momento Jin resolveu se aproximar de Namjoon, estava com um sorriso amigável que desenhava seu rosto belo. O ex-rapper virou-se levemente e em tempo suficiente para perceber a aproximação do psiquiatra, retribuindo o sorriso amigável que lhe era dirigido, porém, não deixava de transparecer o completo descontentamento com o fato de estar tão bem amarrado à camisa de força.

Enquanto se aproximava, resolveu notar a maneira como Jin se portava, sorrindo mais uma vez ao perceber que o rapaz não havia mudado nada desde a época de escola. Apenas estava surpreso por perceber que havia seguido uma carreira na área da medicina, uma nobre profissão aos olhos de Namjoon. O ex-rapper admitia para si mesmo que o amigo combinava em demasia com o outfit completamente branco, adornado com o jaleco branco aberto ao meio e revelando suas roupas, também brancas, porém casuais, que usava por baixo. Por breves momentos a imagem do jovem Jin correndo em sua direção veio em sua mente e não pôde deixar de suspirar com isso, porém, mais do que depressa recuperou a compostura, erguendo uma das sobrancelhas antes de se pronunciar:

— Ouvir a conversa dos outros é tão feio, Kim Seokjin.

Namjoon acabou sorrindo ao ver o sorriso do médico, que rolou os olhos em escárnio.

— Eu preciso saber o que se passa com os meus pacientes para ajuda-los da melhor forma! – Jin respondeu, colocando as duas mãos nos bolsos do jaleco que usava, olhando diretamente nos olhos brilhantes de Namjoon.

— Para mim isso tem outro nome.

— É mesmo? E qual seria? – Jin inclinou a cabeça para o lado, curioso.

— Fofoca. – Namjoon respondeu direto e acabou arrancando uma risada espontânea do amigo, uma risada na qual conhecia bem e era uma de suas maiores características.

Após se recompor minimamente, Jin voltou os belos olhos rasgados para Namjoon, analisando-o brevemente. Era nítido que o ex-rapper estava deveras desconfortável com a camisa de força e então suspirou pesadamente. Detestava quando era obrigado a fazer seus pacientes passarem por esse tipo de coisa, principalmente quando estavam sendo tão prudentes como Namjoon.

Suspirando pesadamente, o médico levou uma das mãos às costas do amigo, empurrando-o levemente. Tal gesto fez o rapaz erguer uma das sobrancelhas, porém, Namjoon o acompanhou até onde quer que o psiquiatra quisesse leva-lo. Ambos seguiram pelo mesmo corredor que Yoongi usou para sair do hospital, apenas entrando em uma porta auxiliar que os encaminhava até a área externa, onde um pátio com jardins e áreas livres para se caminhar acabou se revelando.

Naquele momento Jin se posicionou logo atrás de Namjoon, rapidamente desfazendo os nós que prendiam os braços do rapaz mais alto. O ex-rapper até mesmo suspirou aliviado ao sentir a pressão diminuir, resmungando em bom tom quando movimentou os braços, sentindo as articulações doerem um pouco. Era algo natural, levando-se em consideração o tempo em que o rapaz estava usando aquilo. Jin aproveitou o momento para retirar por completo a peça de roupa, deixando Namjoon apenas com a camisa branca de mangas curtas que usava por baixo, era o uniforme padrão dos internos do hospital.

— Eu não sei o porquê de insistirem em colocar esse tipo de restrição em nossos pacientes. – O médico se pronunciou, deixando a peça de roupa em cima de um banco. – Os braços estão doendo muito?

— Sim, mas logo isso irá passar. – Namjoon sorriu cordial, os orbes escuros correndo pela paisagem pacífica que o circundava. O jardim externo do Hospital Psiquiátrico Nacional de Busan era, aos olhos de Namjoon, um local repleto de paz e tranquilidade. Os tons verdes do gramado contrastavam perfeitamente com as flores que ali jaziam, colorindo o ambiente e de certa forma atraindo borboletas e passarinhos, ambos coloridos e que traziam vida e melodia ao local. Os olhos rasgados encontraram um banco vazio perto de uma colunata. – Quer se sentar ali? Parece que está querendo conversar comigo. E se eu estiver certo, a conversa será longa.

Jin piscou algumas vezes surpreso pela inciativa do rapaz, porém, não recusou o convite, acompanhando-o até o banco onde se sentaram lado a lado. Ficou observando a maneira como Namjoon se acomodava tranquilamente ao banco, apoiando um dos braços no encosto enquanto jogava a cabeça para trás, sentindo os raios de sol penetrar em sua cútis. Daquela maneira sequer parecia que Jin estava sentado ao lado do temido “estripador de Busan”, um dos criminosos mais odiados da Coréia do Sul.

— Sabe Namjoon, eu fico me perguntando quando foi que ficamos tão diferentes. – Jin comentou, fechando os olhos levemente enquanto se apoiava melhor no encosto do banco. Namjoon permaneceu na mesma posição, porém, estava atento às palavras do outro. – Obviamente quando nos encontrássemos novamente veríamos diferenças entre nós dois, afinal ficamos muito tempo afastados um do outro, mas eu realmente me surpreendi quando o noticiário começou a falar aquelas coisas sobre você, o que me deixa ainda mais inquieto. Quando o vejo aqui, você é uma pessoa tão serena.

— Eu sou uma pessoa serena por natureza. – Namjoon respondeu, sorrindo, atraindo os olhos rasgados de Jin para si. – Eu sei o que você está pensando de mim, Jin.

— Sabe? – O médico ergueu uma das sobrancelhas, curioso.

— Você está se perguntando como um dos seus melhores amigos da vida pode ter se tornado um assassino em série detestável. – Naquele momento ele voltou os olhos pretos para Jin, encarando-o. O médico concordou mentalmente, porém não deixou transparecer ao outro. – Eu já sabia que esse tipo de coisa iria acontecer. As pessoas que estão de fora realmente não entendem, na verdade até mesmo as que convivem com isso às vezes ficam confusas. Eu mesmo fiquei no princípio também, foi depois de muito tempo que finalmente entendi qual era o real propósito de tudo isso. E eu sinceramente não me importo com a interpretação que os outros irão ter, eu não quero o reconhecimento delas.

— Você não se arrepende nem um pouco? – Seokjin perguntou curioso, estreitando levemente o olhar para o amigo. – Eu não sei o que você fez àquelas pessoas, e eu sinceramente temo que você me conte. – Riu. – Mas... Você não sente remorso, ou algo do gênero.

— Todos os dias e em todos os momentos da minha existência. – A resposta de Namjoon pegou Jin completamente desprevenido. O ex-rapper suspirou pesadamente, fechando os olhos e apertando-os com os dedos. – Eu nunca me imaginei como o tipo de pessoa que faria esse tipo de coisa sem um bom propósito por trás disso. Mas o destino tem formas inusitadas de mover as nossas vidas, sabe?

— Destino? – Jin ergueu uma das sobrancelhas. Achava aquele tipo de coisa cômica, principalmente pelo fato de ser cético, situação que se agravou ainda mais após a escolha da profissão. Namjoon voltou os olhos para Jin, agora com um sorriso de canto nos lábios.

— Sabe Jin, as pessoas dizem que você começa a enxergar o mundo com novos horizontes após passar por um grande trauma. – Namjoon começou, agora capturando completamente a atenção do psiquiatra.

— Então você passou por um grande trauma, como essas pessoas dizem? – Perguntou e o ex-rapper sorriu abertamente, rindo seco.

— Irei te contar uma história, Jin. Espero que mantenha a mente aberta o suficiente para compreendê-la.

Os dois rapazes se encararam fixamente por longos segundos, Namjoon com um sorriso com um misto de maldade e gentileza, e Jin com certa incerteza. No entanto, não o impediu de falar o que quer que fosse.

Busan, 6 anos antes

— E de onde surgiu a ideia de lançar um clipe de debut tão controverso, Rap Monster?

A pergunta o martelou durante alguns segundos enquanto pensava nas palavras certas para responder à mulher a sua frente, que lhe sorria gentil. Estava sendo convidado para milhares de entrevistas para diferentes emissoras de televisão desde o lançamento do seu clipe de debut. Não sabia ao certo como responder à enxurrada de perguntas que todos lhe faziam, porém sempre agradecia mentalmente à BigHit Entertainment por lhe direcionar nos bastidores, desta forma, sabia por onde começar a se arriscar, até que fizesse isso de forma natural.

— Eu senti que faltava algo na indústria de k-pop, e por mais que nós estejamos vivendo em uma sociedade conservadora, temos que começar a separar o entretenimento desses valores morais tão ríspidos. – Respondeu simplista. Com um sorriso, correu os olhos por breves momentos pelo ambiente, focando em um ponto em específico dos bastidores. Lá, encontrava-se um rapaz sentado em uma cadeira em estilo diretor, as pernas cruzadas enquanto fazia um sinal positivo com ambas as mãos. Os cabelos coloridos em um loiro médio estavam partidos de lado, proporcionando-o um charme natural ao rosto infantil. Namjoon sorriu para ele, sendo retribuído, e então voltou a se concentrar na entrevista. – Eu acredito que os meios artísticos são formas de expressão, independente de que tipo de expressão seja.

— Realmente, o conceito básico de arte é exatamente a liberdade de expressão. Mas você não tem medo de que isso afete negativamente a sua carreira?

— Veja bem, riscos existem para tudo na vida. Até mesmo o simples fato de colocar os pés para fora de casa é um risco. – Namjoon respondeu, engolindo em seco enquanto tentava formar as palavras em sua mente. – O único medo que eu tenho é que as pessoas interpretem minhas palavras errado. Eu escrevo minhas músicas na intenção de ajudar a quem precise de palavras de apoio. E enquanto essas pessoas continuarem me ouvindo e acreditando em mim, Rap Monster continuará firme e forte na vida delas.

— Essa é realmente uma forma muito bonita de se pensar a música. – A mulher comentou, em seguida voltando-se de frente para a câmera. – Muito obrigada pela sua presença conosco hoje Rap Monster. Após os comerciais seguiremos com as próximas notícias.

Ambos sorriram para as câmeras até que o programa saiu do ar. Namjoon se levantou plenamente, suspirando aliviado por ter se saído bem naquela entrevista. Não gostava de admitir, porém ficava extremamente nervoso a cada novo convite para a TV.

As pernas moveram-se rapidamente para fora do estúdio, invadindo os bastidores e indo em direção ao rapaz que encarara anteriormente, este que se levantou da cadeira em estilo de diretor com um enorme sorriso, caminhando apressado na direção de Rap Monster.

— Você foi incrível como sempre, Namjoon! – Ouviu o rapaz dizer, este que tocou as duas mãos nos ombros do rapper antes de se aproximar do mesmo, ficando na ponta dos pés para que pudesse depositar um selinho em seus lábios, que fora prontamente correspondido juntamente com um sorriso bobo.

— Obrigado, Jimin-ssi. Mas eu ainda estou muito nervoso. – Namjoon respondeu, logo em seguida dando um sorriso nervoso, puxando o rapaz de cabelos claros para mais perto na medida em que o conduzia para longe das câmeras, afinal, não podiam atrapalhar as gravações. – Eu não sei se vou conseguir me acostumar com isso tão rápido quanto imaginei.

— Fique tranquilo Nam, você está se saindo muito bem. Logo será tão natural quanto respirar. – Jimin respondeu, ainda com um belo sorriso nos lábios que, aos olhos de Namjoon, era capaz de iluminar até o mais escuro dos ambientes.

Na verdade era um tanto suspeito para si quando o assunto era Park Jimin e suas qualidades. Para o rapper o rapaz tinha tantas e sentia-se um homem extremamente sortudo por fazer parte da vida de alguém tão belo por dentro e por fora. Jimin era um exemplo para si, um exemplo de pessoa forte e determinada que, apesar de todas as trivialidades da vida continuava a erguer a cabeça e seguir em frente. Namjoon sentia que deveria se esforçar tanto, ou mais, para ser digno de ter alguém como Jimin ao seu lado.

Podia-se dizer que ambos se completavam tão perfeitamente que parecia terem nascido um para o outro. Enquanto estudavam no secundário era a principal coisa que os amigos diziam para os dois, principalmente pelo fato da determinação de Jimin esconder aspectos de sua personalidade que apenas Namjoon conhecia profundamente, e que apenas o rapper conseguia ser capaz de fazer alguma coisa para ajudar.

Balançando a cabeça levemente para espantar aqueles pensamentos, o rapaz voltou os olhos rasgados para o mais baixo, passando o braço pelos ombros do mesmo enquanto se dirigiam para o lado de fora da emissora. Havia anoitecido, permitindo que desta forma Namjoon aproximasse discretamente o rosto da cabeça de Jimin, depositando ali um beijo singelo.

— E como estão indo as suas aulas? Imagino que esteja tendo trabalho para elaborar todos aqueles textos. – Perguntou, vendo como Jimin bufava de maneira adorável.

— Ultimamente tenho dormido pouco por causa desses textos. Eles querem que desenvolvamos nossas habilidades em todo tipo de tema e eu estou enlouquecendo. – Reclamou, suspirando forte enquanto se apoiava levemente sobre o corpo de Namjoon, aproveitando aquele momento juntos que era tão raro terem nos últimos dias.

— Ser um jornalista não é fácil, meu anjo. – O rapper acabou rindo da careta que o rapaz fez para si. – Mas eu acredito no seu potencial, eu sei que você irá conseguir lidar com toda essa carga de responsabilidades e irá se tornar um excelente jornalista.

— Você acredita mesmo? – Jimin voltou os olhos esperançosos para Namjoon, que lhe sorriu amigável na medida em que ambos ganhavam as ruas de Busan, caminhando lado a lado e ignorando completamente os olhares de algumas pessoas inconvenientes.

— Claro que sim, tudo é possível se você acreditar, e eu acredito em você. – Completou. – Mas eu tenho que admitir que fiquei muito surpreso quando você disse que queria ser jornalista. Eu sempre pensei que esse era o sonho do Taehyung.

— Eu já imaginava que ele iria seguir os passos do Jin, ele sempre o admirou muito. – Jimin comentou, virando junto com Namjoon em uma esquina. – Eu queria ter o dom para fazer medicina igual esses dois, mas não consigo de forma alguma! Só em pensar em ver sangue me dá um nervoso!

Namjoon riu alto, puxando o rapaz mais para perto do próprio corpo. Naquele momento, enquanto passavam por uma rua lateral com pouca iluminação, foram distraídos por sons estranhos que vinham daquela mesma rua. O rapper parou por breves momentos, voltando os olhos rasgados para o interior escuro enquanto Jimin alternava o olhar entre o local escuro e o namorado.

— O que foi Nam? – Perguntou, segurando levemente no braço do rapper.

— Você está ouvindo isso? – Namjoon perguntou e então ambos ficaram em silêncio para ouvir os barulhos suspeitos vindo daquele ponto em específico. Para o rapper, tais sons se assemelhavam bastante a gemidos, o que obviamente não era algo comum de se ouvir àquela hora e, principalmente, em um local público como aquele. – Tem alguma coisa errada...

— Namjoon... – Jimin o puxou, no entanto o rapaz mais alto puxou o braço de volta e começou a caminhar lentamente para dentro daquela ruela.

O rapper andava com cautela, a visão tentando se habituar à falta de iluminação daquele lugar. Procurava por qualquer coisa suspeita que pudesse ver e, infelizmente, encontrou uma cena que jamais imaginara que contemplaria em toda a sua vida.

Lançada ao chão com suas vestes rasgadas encontrava-se uma mulher amordaçada com um pedaço de pano amarrado em sua boca, as mãos estavam presas com uma espécie de arame que acabava ferindo seus pulsos pela força que a mesma fazia para se soltar. Por cima dela estava um homem, que abria suas pernas para consumar o ato tenebroso.

Namjoon sentiu seu estômago revirar, no entanto, engoliu em seco, os olhos movendo-se milimetricamente atentos a qualquer coisa que entrasse em seu campo de visão e que pudesse usar para libertar a jovem que, naquele momento, pareceu perceber sua presença. O rapper gesticulou para que ela continuasse em silêncio, porém, notou que o olhar dela vagava entre ele e um ponto logo atrás do homem. Apenas naquele momento Namjoon percebeu que, próximo aos pés do desconhecido, havia uma barra de ferro lançada ao chão.

Esgueirou-se até ali, abaixando-se lenta e cuidadosamente. Entretanto, um movimento do homem desconhecido fez com que um de seus pés se chocasse contra o pé de Namjoon. O homem virou-se rapidamente, e naquele momento e sem pensar muito, o rapper segurou a barra de ferro com uma das mãos, desferindo um forte golpe contra o rosto daquele homem.

— Corre daqui, menina! – Namjoon disse alto, ficando entre ela e o estranho desconhecido, que se recompôs rápido demais.

Namjoon tentou se esquivar da investida do homem, que acabou acertando-lhe um soco no rosto, fazendo com que cambaleasse para trás, o que acabou dando tempo para o homem se lançar contra o seu corpo, derrubando-o no chão e desta forma desferindo socos atrás de socos contra o rosto do rapper. Porém, em um movimento rápido, Namjoon conseguiu acertar outro golpe com a barra de ferro, e em seguida, em um golpe baixo, desferiu uma joelhada entre as pernas do homem, acertando o membro dele com força. Tal dor fez com que o mesmo caísse de lado, permitindo a Namjoon ficar por cima.

Arfante, o rapper começou a desferir golpes atrás de golpes com a barra de ferro contra o rosto daquele homem, os olhos arregalados, olhando fixamente para o rosto ensanguentado do desconhecido que há tempos já havia parado de se mover. No entanto, Namjoon simplesmente não conseguia parar, sentindo-se em um frenesi que se intensificava cada vez que o golpeava, cada vez que ouvia o som da barra de ferro contra o rosto dele, cada vez que ouvia o som do sangue em cada golpe. Em outro movimento, Namjoon segurou a barra na vertical e apontou contra o peito do homem desconhecido, fincando-a ali violentamente repetidas vezes. Apenas parou de se movimentar daquela forma hostil quando sentiu um peso em suas costas, com braços envolvendo seu corpo com força. Ainda assim, continuou a se movimentar algumas vezes, até que ouviu uma voz sôfrega balbuciar:

— Para com isso Namjoon... Por favor, amor, para!

Apenas naquele momento que, com os olhos arregalados, o rapper largou as barras de ferro e finalmente percebeu o que acabara de fazer. Namjoon sentiu Jimin encostar o rosto em suas costas e ouvia o rapaz chorar compulsivamente atrás de si, no entanto, tudo em que seus olhos conseguiam focar no momento era nas mãos completamente banhadas em sangue, cenário este que se repetia pelo restante de seu corpo. As mãos estavam trêmulas, e o corpo começava a se recuperar do choque de adrenalina que havia recebido naquele momento.

— Jimin... O que eu fiz?! – Disse em um tom de voz ainda incrédulo. O rapaz ainda o abraçava forte, porém também tremia provavelmente de nervoso e pelo fato de estar chorando.

— Vem comigo Nam... Temos que sair daqui agora... – Jimin insistiu, levantando-se junto com o namorado. Precisavam sair dali o mais rápido possível e chegar ao apartamento alugado por eles antes que alguém os visse naquele estado.

Resolveram, portanto, seguir um caminho mais longo por entre as ruelas menos iluminadas e mais desertas de Busan para não correrem o risco de serem vistos. Jimin estava preocupado principalmente com Namjoon, visto que agora o namorado era uma figura pública e poderia perder tudo o que conquistou com tanto esforço. Ambos permaneceram em silêncio durante todo o trajeto, e no momento em que colocaram os pés dentro do apartamento Namjoon se dirigiu automaticamente para o banheiro.

Ainda catatônico, o rapper se apoiou contra a pia do banheiro com uma das mãos enquanto abria a torneira com a outra, colocando agora ambas as mãos em baixo da água e esfregando ali com força para limpar o sangue que tingia seus braços. À sua frente encontrava-se um espelho e ao voltar os olhos rasgados para ele, Namjoon contemplou o estado de seu rosto que, além de ferido por conta dos golpes que recebera, também estava pintado com o sangue daquele homem.

Foi quando deu alguns passos para trás até encontrar a parede fria em suas costas, escorregando lentamente até estar completamente sentado no chão em seguida enquanto a mente ainda tentava processar o que havia acontecido há momentos atrás. Acabara de matar uma pessoa de forma extremamente violenta e por mais que se sentisse mal pelo fato de ter feito isso com as próprias mãos, não conseguia sentir arrependimento por isso.

Foi tirado de seus devaneios pela presença de Jimin que apareceu logo ao seu lado no banheiro, no entanto Namjoon não voltou os olhos para ele, olhando para um ponto fixo aleatório no banheiro. O rapaz então se abaixou, sentando-se ao seu lado no chão e ficando assim por longos minutos em silêncio, na medida em que um turbilhão de pensamentos sobre o ocorrido invadia a mente de Namjoon.

— Nam... – Jimin o chamou, finalmente cortando o silêncio incômodo entre os dois. – Você está bem? – Voltou os olhos para o namorado, que apenas acenou positivamente com a cabeça antes de abaixá-la, olhando para a própria camisa suja. – Ele... Machucou muito você?

— Sim... E eu devolvi. – Namjoon respondeu, e então Jimin se aproximou mais, envolvendo o corpo do namorado com os braços mais uma vez. O rapper suspirou pesadamente, erguendo a cabeça e a encostando na parede fria. – Jimin... Eu não faço ideia do que pensar, eu... Matei um homem...

O estudante de jornalismo não comentou, apenas encostou a cabeça no ombro de seu amado, depositando um beijo doce ali. Ficaria ao lado dele o tempo que fosse necessário até que Namjoon se sentisse bem o suficiente para falar alguma coisa a mais.

O rapper então fechou os olhos e respirou fundo na intenção de organizar seus pensamentos. Entretanto, imagens em tons negativos do banheiro onde se encontravam se fizeram presentes diante de seus olhos. Namjoon franziu o cenho ao contemplar à sua frente a figura de Jimin, também em cores negativas, regulando a forma como o namorado o fitava com uma tristeza tão profunda que era quase palpável. Namjoon até mesmo prendeu a respiração quando percebeu Jimin levar ambas as mãos ao pescoço e fechar os olhos, apertando ali profundamente enquanto lágrimas negras escorriam de seus olhos desenhando o seu rosto.

Voltou a abrir os olhos no mesmo instante em um espasmo, as cores à sua volta agora normais. Namjoon virou o rosto na direção de Jimin, que continuava a abraça-lo com força e mantinha a cabeça deitada em seu ombro, pacientemente esperando-o.

— Mas o que... – O rapper estava confuso, alternando o olhar entre Jimin ao seu lado e a figura que deveria estar à sua frente. Tal atitude vez com que o mais baixo voltasse a erguer a cabeça para ele.

— O que foi, Nam? Fala comigo. – Jimin forçou um sorriso, levando uma das mãos ao peito do namorado e sentindo o coração do mesmo bater disparado.

— Você estava... Você... – Namjoon voltou a olhar para frente, onde não havia nada ali, arrancando um olhar completamente confuso de Jimin. Foi então que levou as duas mãos aos cabelos, puxando-o levemente em agonia. – O que diabos está acontecendo comigo?!

Atualmente, no Hospital Psiquiátrico Nacional de Busan

— A vida faz as coisas acontecerem de uma forma estranha, Jin. – Namjoon comentou, olhando sereno para as flores que estavam dispostas imediatamente à sua frente enquanto sentia a brisa acariciar seu rosto, fazendo os cabelos escuros esvoaçarem. – Eu nunca me arrependi do que fiz naquele dia. Eu salvei a vida daquela mulher, mas logo em seguida vieram essas... Visões.

Seokjin estava, definitivamente, incrédulo com a história que acabara de ouvir de seu paciente. Lembrava-se do momento em que o amigo havia debutado como rapper em carreira solo e que fora justamente por este motivo que haviam se afastado, afinal, Jin estava ocupado com as responsabilidades da faculdade de medicina. No entanto, jamais imaginou que fora durante esse período que essa “tendência” havia despertado nele, principalmente por este motivo.

Namjoon agora voltara os olhos rasgados para o médico ao seu lado, sorrindo de canto pela expressão do amigo.

— Eu acredito que essas visões tenham sido um prêmio pelo o que eu fiz naquela época. Obviamente era um sinal que dizia para que eu continuasse. – Namjoon desviou o olhar, levantando a cabeça agora. – Às vezes a justiça legal dos homens não é suficiente. Eu imagino... Se eu tivesse ignorado aqueles sons, o que teria acontecido com aquela menina? Será que teriam encontrado o homem responsável por aquela atrocidade?

— Com certeza a justiça poderia ter feito alguma coisa para dar o suporte necessário para a menina. – Jin finalmente se pronunciou, franzindo o cenho ao perceber onde o ex-rapper queria chegar. O rapaz riu alto, balançando a cabeça negativamente.

— As estatísticas mostram o contrário, meu amigo. Muitos casos de estupro sequer são denunciados pelas vítimas e quando são, muitos não possuem solução por falta de interesse da justiça e, principalmente, por não acreditarem nas vítimas. – Namjoon devolveu, ficando sério novamente. – E também... Não foi apenas por isso que eu resolvi começar com o meu trabalho.

— Então... O que fez você realmente mudar de ideia? – Jin engoliu em seco, temendo o que o amigo poderia responder. No entanto, Namjoon sorriu mais abertamente.

— As visões. – O ex-rapper respondeu, ainda esboçando o enorme sorriso. – Eu não entendi em um primeiro momento, mas depois eu entendi. Eu comecei a ver tudo o que existia de bom e de ruim nas pessoas, e então quando consegui compreender de fato como controlar isso, eu entendi que eu tinha uma missão a cumprir. E foi então que eu comecei a agir.

Jin não conseguiu disfarçar a incredulidade no olhar, até mesmo separando os lábios levemente. Nunca algum paciente seu havia tocado em assuntos desse gênero, e se até então encarava Namjoon com um olhar de amizade, agora definitivamente estava convicto de que o amigo estava com um severo problema e que precisava urgentemente de ajuda e acompanhamento.

Entretanto, acabou sendo tirado de seus devaneios por mais uma risada de Namjoon, desta vez mais divertida.

— Eu sei que você não acredita em mim. – Comentou, suspirando suavemente. – Mas eu sei o que está por vir. Jin... – Namjoon voltou a olhá-lo, dessa vez com um tenro carinho. – Eu posso te mostrar isso em breve, e então você entenderá.

Em um movimento sutil, Namjoon segurou na mão de Seokjin, deixando ali uma suave carícia com o polegar, e em seguida se aproximou do rosto do mesmo. O médico sequer se movimentou, até mesmo prendendo a respiração quando sentiu os lábios de Namjoon sobre sua bochecha em um toque sutil, em seguida observando o homem se afastar, ainda o fitando com carinho no rosto. Quando iria retrucar, foi interrompido pelo ex-rapper, que se levantou e foi caminhando em direção ao corredor mais uma vez, deixando para trás um Jin repleto de dúvidas pairando em sua mente.