Manhunters
81 Vivendo a realidade de um pesadelo
Notas iniciais
Era uma vez uma garota que vivia um ciclo sem fim. Essa garota era como uma borboleta. Tímida como tantas, vivia no seu próprio ritmo diferente dos demais, uma pequena lagarta. Só que essa lagarta também era diferente das outras lagartas, ela não tinha medo de enfrentar os desafios que surgiam. Pouco a pouco ela comia suas folhas, crescia e criava seu próprio casulo.
Pronto, a cada ficava mais esperta, aprendia a viver e ficava mais forte.
A pequena lagarta, enfim, virou uma borboleta. Suas asas, azuis cintilantes, pinceladas por tons de cores diferentes a definiam como um ser forte, mesmo com tamanha pequenez. Ela deu seus voos, experimentou flores diversas, boa menina ela. Parecia que nada conseguia abalá-la, ainda que se visse em meio a um caos que era o mundo lá fora. Parecia.
Cortaram suas asas. Cortaram-na sem dó. O que era uma borboleta sem suas asas? Nada, apenas um simples inseto deficiente.
Cortaram suas asas, sim, porém ela não morreu. Virou uma pequena lagarta.
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— EU TE FALEI PRA NÃO FAZER ISSO! — berrou a voz masculina.
A garota acordou subitamente. A voz que vinha lá de baixo se assemelhava com a de um monstro dos mais terríveis. Esse monstro ela conhecia e temia, e o pior: vivia dentro de sua casa. Destemida a sair da cama o quanto antes, a coragem se foi no momento em que deslizou o lençol para o lado. O medo surgiu de repente, como aquele calafrio que acontecia do nada.
— FICOU SURDA VOCÊ?! Parece que não escuta ou se faz de burra mesmo!
Sua respiração aumentou, suas mãos tremiam e ela não conseguiria mais dormir no momento. Teve que levantar. Não somente a voz do monstro estava presente, como uma segunda voz, feminina. Essa não dava para ouvir direito, mas não queria dizer que esta voz não estava agitada, muito pelo contrário.
Com cuidado, a garota caminhou até a porta de se quarto e a abriu com toda a lentidão possível. A porta era meio barulhenta e qualquer ruído que soasse um pouco mais alto poderia ser perigosíssimo para ela. Quando a abriu por todo, o móvel emitiu apenas um pequeno rangido, por sorte.
Ela sabia de onde vinha aqueles gritos, então seguiu a passos delicados. Mesmo pisando descalça nos tapetes a garota queria evitar qualquer som que eles pudessem ouvir. Aos poucos se aproximou da escada, ajoelhou-se e foi engatinhando até o limite onde não podia ser vista.
— São nossos clientes!
— QUE VÃO PARA O INFERNO! — A garota conseguiu enxergar claramente o homem que berrava — Te falei pra não dar desconto, merda! Não vê que a situação tá difícil?!
A garota pressionou as mãos na madeira que formava o corrimão. Ela temeu a voz brava que parecia não se acalmar de forma alguma. Ao se posicionar melhor, pôde ver os dois com mais clareza. Os ânimos estavam agitados e não era a primeira vez que isso acontecia. Ela atentou para o homem irritado. Sua postura e voz alterada já indicava o óbvio: embriaguez.
— Daqui a pouco ninguém mais vai querer dormir aqui com você BERRANDO DESSA FORMA! — A mulher respondeu à altura.
— Por SUA culpa! — O homem apontou diretamente no rosto dela e a mulher afastou com a mão com raiva — É por sua culpa que a situação tá desse jeito! Você não presta mesmo!
Foi o momento em que ela explodiu. A mulher bateu no rosto dele com tanta força que foi possível ouvir o “estalo” lá de cima. Quando viu a cena a garota levou a mão a boca e arqueou as sobrancelhas. Mas não acabou por aí, quisera ela que acabasse.
Quando tocou no rosto atingido, ele se calou por alguns segundos e então desferiu um soco na mulher, que a levou ao chão.
— MÃE! — A garota não pensou em mais nada. Desceu as escadas correndo em direção à mulher caída, que até o momento tentava se erguer.
— O que tá fazendo aqui, garota?! — O homem exclamou, atordoado por vê-la surgir de repente.
— Mãe, mãe! — Ela se agachou para atendê-la e levantá-la com toda a força que tivesse disponível. Virou-se para trás como quem estivesse em pânico, e estava mesmo. O homem atrás dela tinha os olhos vermelhos, olhos de um monstro.
— Sara?! Saia daqui, volte para o quarto! — A mãe tentou afastá-la sem ao menos se importar com o sangue que corria de seu nariz.
Não deu tempo. O homem foi em direção às duas e puxou a garota pelo braço com força.
— Não se meta, Sara! Quer apanhar também? — Ele a encarou frente a frente e também apontou para seu rosto. Desse jeito ela pôde sentir o hálito de álcool angustiante.
— Por que machucou minha mãe? — perguntou quase se calando.
O homem fechou o punho frente ao rosto dela e lentamente apontou para cima.
— Volta pro seu quarto. Agora.
A garota o encarou no mais profundo olhar que lançou a ele. Em silêncio tomou sua posição. Voltou-se para perto da mãe, agachou-se e tentou levantar a mulher que agora estava sentada, assistindo horrorizada toda aquela cena.
Quando viu aquilo ele cerrou os dois punhos com força, tanta força que podia esganar alguém, mesmo embriagado.
— O QUE FOI QUE EU TE FALEI?
Ele a puxou novamente com brutalidade, jogando a garota no chão. O homem foi para perto dela e a bateu no braço esquerdo sem medir as consequências. Estava nervoso, mais ainda ao ver a “rebeldia” da filha após recusar seguir a sua ordem. Foi uma afronta.
— PARE COM ISSO, ADAM! — Gritou a mulher, mas ele não lhe deu ouvidos.
O homem tirou o cinto de sua própria calça, dobrou-o em dois e segurando-o firme pela mão começou a chicotear a garota.
— Aprenda a respeitar o teu pai! — Ele disse bem próximo ao ouvido dela e em seguida continuou com as agressões.
Ela já sabia o que fazer. Encolheu-se em posição fetal esperando que tudo aquilo acabasse. A garota sabia que se resistisse seria pior.
— Adam! — Tomando impulso a mulher se levantou e foi ao encontro deles acabar com a barbárie. Ela o puxou pelo braço que segurava o cinto e tentou afastá-lo da filha. Só que isso apenas o deixou mais irritado.
O homem, ou o monstro se é que podia explicar, empurrou-a com violência e a mulher acabou batendo na parede.
— Fica longe disso! Tô ensinando o respeito pra nossa filha!
A garota que estava de olhos fechados tentou resistir às lágrimas que se acumulavam, mas foi impossível. Não gritava, porque sabia que não iria adiantar, só o deixaria mais nervoso. Mais uma vez ela estava caída no chão levando marcas em seu corpo e logo pela pessoa que devia protegê-la de todo mal.
— Para agora ou eu vou chamar a polícia.
A voz de fora soou fria como o inverno. O homem se virou para trás, onde a encontrou se erguendo com a ajuda da parede que acabara de bater.
— Como é que é? — Finalmente ele parou de bater na garota e se voltou para a mulher.
— Continua com isso e eu chamo a polícia. Eu não tô... brincando.
— Tem coragem? — Ele a desafiou.
— Assim como você tem de bater na sua mulher e na sua própria filha.
Então os gritos pararam. As vozes altas, os berros. Tudo parou.
O homem afrouxou a mão que se avermelhou de tanta pressão aplicada sobre o objeto. Cambaleando um pouco e em silêncio ele se dirigiu à escada e foi subindo aos poucos. A ameaça tinha cessado, ao menos por enquanto.
A garota mexeu as duas mãos tentando recobrar a força. Ela tocou no braço mais atingido e conteve o gemido de dor. A pele estava vermelha e quente como queimadura de sol. Quando o tempo passava a pele adquiriu uma cor mais escura, uma mistura de roxo e vermelho.
— Não quero ouvir choro! — Gritou o pai quando chegou no final da escada. Não havia choro, nem lamúrio. Sara estava em silêncio.
Os minutos se passaram e a mulher caminhou para perto da menina, ainda caída.
— Levanta logo, Sara. — alertou a mãe, temendo que o homem voltasse.
A menina fez um esforço. Limpou as lágrimas que molharam seu rosto assim como aquelas que começavam a cair, apoiou-se no chão e ficou sentada. A mãe se agachou e tentando apressá-la, pegou-a pelos braços, mas dessa vez foi delicada, diferente do pai. A expressão da garota não mudou; não pensou em cair em prantos nos braços da mãe, já fez isso outras vezes e agora estava cansada demais. Aquela não foi a primeira vez e sabia que não seria a última.
No momento em que as duas estavam próximas uma da outra, a mulher falou baixinho:
— Cansei.
A única palavra ecoou fundo no ouvido da garota, que olhou pasma para a mulher de semblante vazio. Ela nunca se esqueceria daquela palavra.
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Aquele ciclo nunca terminava. Os dias pareciam iguais, era um purgatório tolerado, ninguém estava disposto a fazer alguma coisa para mudar. Estavam conformados. Ela achava tudo aquilo... normal. Era normal que os pais discutissem e que às vezes os ânimos extrapolavam. Normal às vezes se ferir (ser ferida) por ter feito algo errado, era a vida, infelizmente.
Mas com o passar do tempo ela começou a questionar tudo isso que estava vivendo. Isso estava certo mesmo? Todas as outras famílias passavam por isso? Ela não sabia direito, vivia numa bolha criada por si mesmo e inchada por seus familiares. Que havia algo errado nisso, havia.
Brigas, gritos, sermões... eram quase um evento programado. Todos sabiam que ia acontecer, mas não faziam nada para impedi-lo de tão impregnado que isso ficou. A parte pior era a consequência. Lágrimas, lamento, promessas de que isso não iria acontecer novamente... ela realmente tentou acreditar nisso, mas com o tempo conformou-se que era apenas um desejo que nunca iria se realizar. Ao menos ela pensava nisso.
Então houve aquele dia. O dia que mudou tudo de uma vez por todas e para sempre. O dia do qual não sairia de sua memória.
Tudo começou com um barulho alto, parecia o estrondo de algo grande e pesado. Ela acordou assustada com o silêncio interrompido. Escuro total no quarto, sua visão foi direcionada ao feixe de luz vindo do lado de fora. Era mais um daqueles episódios de sempre, todavia, ela sentiu algo em seu corpo, uma sensação estranha e perturbadora. Ela não podia e não conseguiria ficar presa à sua cama, não com aquele pressentimento ruim.
Em vez de caminhar a passos lentos como sempre o fazia, desta vez ela chegou rápido até a porta. Abriu-a com rapidez e seguiu em direção à escada, mas parou no meio do caminho.
— VOCÊ FICOU LOUCA, É? ME DEIXA! — gritou a voz, dessa vez era o homem. Lá de cima deu para notar que estava alterado por alguma substância, provavelmente bebida.
O ritmo devagar dela voltou e aos poucos ela foi caminhando até a escada, mas não viu os dois diretamente.
— EU NÃO TE AGUENTO MAIS! — A mulher exclamou.
— Deixa de falar besteira! — Ele retrucou — Quem mais vai querer você, Laura?!
Eles estavam na cozinha pelo som distante de suas vozes. Pânico tomou conta de seu corpo e ela se viu imóvel, como se seus pés tivessem sido colados ao chão.
— Minha vida é um inferno por sua causa! SUA CAUSA! — A mulher deixou bem explícito para ele e qualquer um que pudesse ouvi-la.
Não somente a vida dela como a da garota.
— Para de GRITAR! Tô com uma dor de cabeça e você tá piorando tudo! — esbravejou ele.
— Se você parasse de beber que nem um vagabundo não estaria assim!
— Quer saber?! Vou dormir fora antes que eu dê um jeito nessa tua boca.
Foi a última coisa que a garota ouviu. Agachada no canto da escada, ela se encolheu como de instinto. O pai não subiria, pelo visto, então estava segura ali. Mas o que iria acontecer depois ninguém iria prever.
Não deu para ouvir muito, apenas um silêncio maldito que durou alguns segundos.
— ARGH!
Os olhos da garota se arregalaram. Aquele grito foi diferente do que estava acostumada a ouvir; foi mais profundo, amedrontador, gélido, parecia um grito que só aqueles filmes de terror podiam proporcionar. A diferença? Este foi real.
— O que-... PARA-...
A voz era do pai. Ele mal conseguia completar uma frase, como se estivesse tentando se defender de algo. A garota entrou em pânico, mais um pouco e conseguiria ouvir seu coração pulsando rápido. Parecia que ia fugir pela boca.
— NÃ-não...
Ela fechou os olhos e contou até cinco. Pressionando a madeira com toda a força enquanto contava, ela rangeu os dentes até terminar a contagem. Em seguida se levantou e desceu para ver algo de que iria se arrepender por muitos anos.
A mãe não ligou para polícia.
Sangue. Foi a primeira coisa que atraiu os olhos da garota, o líquido avermelhado que aos poucos manchava o carpete. Havia um homem caído parando de se mover e uma faca ensanguentada nas mãos da mulher. Aquilo não parecia real.
Quando a garota desceu o último degrau da escada suas pernas cambalearam, suas forças a deixaram assim como toda a coragem que juntou anteriormente. Só que ao contrário de entrar em pânico e correr para cima, ela ficou apática, paralisada. Não conseguia fechar os olhos para apagar algo que nunca mais sairia de sua mente.
Seu pai estava caído no chão. Abaixo dele uma poça vermelha começava a se formar. Ele caíra poucos metros depois da cozinha, quase na divisa entre a sala e este cômodo. Atrás dele, sua mãe, parada; olhando para baixo com um olhar frio e sem vida. A faca de cozinha ainda estava em sua mão direita.
As mandíbulas da garota começaram a tremer, assim como suas pernas.
— Mãe... — Ela sussurrou, dificilmente alguém ouviria.
A mulher deixou o objeto cair no chão. Assim como a faca seu braço estava ensanguentado, além de outras partes de seu corpo. Ela continuou olhando para baixo até o momento que passou o antebraço esquerdo no rosto para afastar os fios de cabelo e limpar o vestígio de sangue. Foi quando deu de cara em sua filha, que olhava horrorizada para ela.
A garota deixou-se cair de joelhos. Encolheu-se porque não tinha forças para sair dali. Seria o próximo alvo? Sua mãe ameaçou caminhar em sua direção, mas no primeiro passo acabou tropeçando no corpo. Então levou as mãos ao rosto e começou a chorar copiosamente.
Fim daquele ciclo.
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