Manhunters
68 Sob os olhos de um predador
Notas iniciais
Domingo. O que fazer num domingo? Muita coisa.
Era o último dia deles em Cold Springs como não planejaram anteriormente. Serem apenas subordinados tinha suas desvantagens, como por exemplo, ter que acatar ordens de um homem que tinha uma "rixa" interna com o sargento a ponto de submetê-lo a sanções consideradas por ele absurdas.
Era o último dia deles em Cold Springs e a dupla, agora um casal, tinha pouco tempo para coletar o máximo de informações antes de voltarem à badalada Vegas. A última vez em que se encontrariam num ninho pessoas ricas reunidas para atuarem numa causa aos pobres... ou algo do tipo.
Era o último dia deles em Cold Springs, lugar que não deixaria lembranças boas, principalmente para o sargento. Foi lá que ele encontrou um indivíduo de seu passado. Para falar a verdade, foi lá onde ele reencontrou com seu passado novamente. Encontrou-se, também, com um assassino que se sentia muito confortável em fazer o que fazia e que tinha coragem de lembrar ao policial o que houve com ele. Estava marcando território? Dizendo ao sargento qual o seu lugar e o que poderia fazer caso o caçador tentasse caçá-lo?
Quanto mais avançavam, mais os policiais se aproximavam de uma linha tênue entre o ócio e o ódio de Zodíaco. Bem, temos ele, o predador. Aquele homem rico, bonito, com uma família bonita e situação bonita. Ele estava acima de quaisquer suspeitas, definitivamente era um carneiro em pele de lobo; ou melhor, pior que isso. Complexo de Deus.
Pior que isso? Eles não tinham ideia de onde ele estava, quem ele era. Parecia que estava em todo o lugar. Um trabalho tão bem executado que o próprio executor admirava. Complexo de Deus.
Um deus contra dois caçadores. Um "deus" que sabia dos passos dos policiais; não todos, isso era verdade, mas conhecia boa parte deles. Esse deus estava sempre um passo à frente, ou melhor, um passo acima.
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A morena acordou ao toque do despertador. Dormiu bem. Não acordou pela madrugada como era costumeiro fazer, o que ajudou em seu descanso. Ao se virar para o lado, na esperança de encontrar seu companheiro, recebeu a primeira decepção do dia. Ele não estava lá. Mesmo tendo recebido toda aquela atenção no dia anterior, seria pedir demais acordar e ver aquele homem ao seu lado?
Ao recobrar os sentidos, Sara percebeu um som vindo do banheiro. Era o som de água corrente, mais precisamente do chuveiro. Ao menos Grissom ainda estava por perto, mas não era o suficiente. Ela tinha que ter cuidado em dar atenção demais àqueles sentimentos. Tentou raciocinar; o dia seria cheio, quanto mais cedo eles trabalhassem teriam um desempenho melhor.
À sua esquerda, ficou encarando a porta fechada. Sua cara não estava das melhores. Não passou muito tempo até que a porta fosse aberta. Grissom deixou o banheiro usando apenas uma cueca boxer marinho e segurando sua toalha. Ao encará-lo da cabeça aos pés, Sara teve que admitir que para uma primeira visão parceiro no dia aquilo não foi nada mal.
Percebendo que ela acordara o sargento abriu um sorriso, deixou a toalha na cadeira e seguiu ao seu encontro. Subiu na cama, beijou-lhe a testa e depois os lábios com todo o carinho possível.
— Bom dia, querida. — falou-lhe ao ouvido sem tirar o sorriso do rosto.
— Bom dia. — respondeu rapidamente — Levantou cedo. — desabafou, sem disfarçar o semblante meio decepcionado.
— Eu... — O sorriso se apagou e ele desviou o olhar brevemente — Quis aproveitar o dia. Já estava acordado há um tempo, então... — Deu de ombros e se calou. Notando que ela ainda não parecia satisfeita, prosseguiu — Por quê?
— Ah... — Foi a vez dela em disfarçar. Sara olhou para o lado por alguns instantes — Queria encontrar você por aqui.
Aparentando surpresa Grissom voltou com aquele rosto contente.
— Que foi? — perguntou ela, inconformada com aquele sorriso.
Sem esperar ele envolveu seu rosto com as mãos e beijou seus lábios. Era bom demais receber tanto carinho e consideração. Ou melhor, era bom demais não estar sozinho, não mais.
— Vamos ter muito tempo para acordar juntos, Sara. — O homem passeou sobre seu rosto com os dedos da mão direita. Depois disso se levantou, pegou a calça dobrada em cima da cadeira e começou a vesti-la.
Ao soltar um suspiro ela deslizou os cabelos soltos para trás.
— Eu poderia me acostumar em ver você só de cueca. — A morena sorriu maliciosamente enquanto se encolhia no edredom. O frio da manhã se fazia presente e como ontem ela não estava muito disposta a levantar logo.
O sargento umedeceu os lábios e sorriu como se não acreditasse no comentário da parceira.
— Poderia ficar assim. — admitiu — Mas arriscaria pegar um resfriado com esse tempo e então... sem chance de acontecer.
— Ah... — Sara inclinou a cabeça para trás e revirou os olhos.
Ele, que percebeu o desânimo da parceira, terminou de abotoar a calça e caminhou em sua direção. Achou um espaço entre a borda da cama e sentou-se à direita dela.
— Você está bem para ir ao evento hoje? — perguntou baixo, tocando em sua perna carinhosamente. Diferente de antes estava sério no momento.
Sara arqueou as sobrancelhas por causa da estranheza que achou da pergunta. Ela baixou o edredom até a barriga e se ajeitou na cama.
— Claro que estou. Por que não estaria? — Deu de ombros e disfarçou um sorriso — Só por que falei aquilo com você ontem?
Ele fez um biquinho, aparentemente desapontado com a resposta. Grissom deslizou a mão sobre a perna dela novamente e virou o rosto para o lado.
— Não precisa ir se não estiver à vontade, amor. — Ele se voltou a ela, mas com o rosto meio virado.
A morena se inclinou para a frente e cobriu a mão do sargento.
— Acha que eu vou te deixar sozinho naquele lugar? — Encarou-o nos olhos. Mas antes que ele abrisse a boca para responder, Sara tocou em seus lábios com o indicador — Eu sou a sua parceira.
Estático, o sargento atentou para o rosto dela, que mostrava um sorriso confiante. Mas no fundo ele sabia que havia algo além daquele sorriso, um motivo abafado por aquele gesto da qual ela não queria revelar, mas que ele já desconfiava.
— Ok. — Grissom segurou a mão dela com as suas e as esfregou lentamente — Então eu vou para o meu quarto e terminar de me vestir.
— Já sei: nos encontramos lá em baixo. — A mulher aproveitou a oportunidade para se erguer da cama.
— Não, dessa vez não. Vou te esperar. — Assentiu e piscou para ela. Então recolheu as roupas que usou para dormir e se encaminhou para a porta.
Debochando daquela atitude, ela arqueou uma sobrancelha e assistiu ao namorado sair dali confiante.
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Ele estava em dúvida. Não sabia se os veria novamente e uma sensação de dever a cumprir tomou conta dele. Achou que deveria ter feito mais, se comunicado mais. Queria vê-los novamente. Sabia que tinha de se controlar ou aquilo tudo viraria paranoia, como se ele já não soubesse. Talvez estivesse criando empatia por eles ou algum sentimento desconhecido.
****** e sua família confirmaram presença no segundo dia do evento. Ele conseguiu bons resultados ontem e estava satisfeito; fechou possíveis parcerias e conversou sobre negócios e negócios. Mas uma de suas maiores "vitórias" foi ver pessoalmente e conversar com os dois policiais. Poderia não ter a mesma oportunidade novamente tão cedo, então ficou decepcionado consigo mesmo, pois achou que poderia ter feito algo mais.
No dia seguinte, domingo, seguiu pela manhã um pouco avoado, evasivo e disperso. Sua esposa achou que o efeito do trabalho exaustivo da semana o deixou assim e preferiu não se meter. Ao mesmo tempo que estranhava o garoto criava mais admiração pelo pai que não parava nunca de trabalhar.
No meio do caminho passou por outro período de distração. Sua mente estava distante do carro onde se encontrava. Se não fosse o motorista que guiava o carro ****** teria problemas sérios com sua própria segurança e de sua família. Ele parecia mais sério que o normal, ainda que todos seus planos tivessem saído como planejava; e se tinha uma coisa que ele tinha como qualidade era ser planejado, perfeccionista.
— Será que teremos aquele batalhão de policiais novamente? — perguntou a mulher enquanto afagava o filho meio sonolento.
Ao ouvir "policiais" rapidamente ****** olhou para a esquerda e a encontrou com um semblante relaxado, como se estivesse numa conversa banal. Só assim para ele voltar à realidade.
— Não sei... — admitiu — Aquele incidente ocorreu na sexta, provavelmente eles ainda estarão presentes. — ****** olhou para o filho que parecia não ligar para o assunto. Perto dele, o casal evitava falar de temas como aquele. O pai era um pouco mais maleável e amenizava para o garoto, ao menos quando estava perto da mãe.
— É bom. Me sinto mais segura, até.
Ele apoiou o cotovelo na porta e ficou a observar a janela. Virou-se ligeiro para ela após alguns segundos. Atentou para seus olhos serenos que observavam ***** tranquilamente. Sua esposa estava certa. A presença de policiais traria mais tranquilidade; proteção demais nunca era o bastante. É sempre bom se precaver de se encontrar com assassinos sanguinários.
****** deixou escapar uma risada silenciosa. Balançou a cabeça e se voltou para a janela. A presença de policiais poderia significar a presença daqueles dois. Pensar naquilo encheu sua mente de esperança.
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O dia dava a impressão de ter um clima um pouco mais quente ao sábado. Bom para o evento; o calor parecia animar as pessoas, o que seria um bom negócio para os organizadores. ****** fez o mesmo de antes: falou com os responsáveis pelo evento, que lhe indicaram tudo o que planejaram fazer no dia. Conversou com alguns "colegas" de profissão e outros que participavam ativamente da feira, como representantes de organizações. Parou em um canto para conversar mais um pouco, tirou fotos, deu entrevistas e passou um tempo com sua família.
Depois de uma pequena maratona ele decidiu comer alguma coisa junto da esposa e do filho. Escolheram um dos estandes que oferecia mesa e cadeiras. Escolheram algo básico, cachorro quente e refrigerante. Não era sempre que eles comiam aquela comida tão simples e barata, então aproveitaram a oportunidade para se "misturarem" aos demais. Minutos após começar a comer ****** finalmente se encontrou com quem mais queria: eles dois. Mal pôde conter o sorriso que se instaurou em sua boca. O coração acelerou, pulso rápido, respiração mais longa.
— ******? ******?
Sua esposa o chamou. Na segunda vez parecia mais preocupada. Ele voltou à sua realidade ao olhar um pouco assustado para a mulher.
— Me... me desculpe, acabei me distraindo. — Balançou a cabeça, olhou rapidamente para os dois ao longe e se voltou definitivamente para ela.
— A moça me avisou que daqui a pouco é a sua vez de falar. — Disse ela ao comer um pedaço do cachorro quente.
O homem arqueou as sobrancelhas, mas desta vez parecia despreparado para o que ouviu a pouco tempo.
— Já? — ****** desistiu de comer o pedaço para se concentrar na esposa.
— É. — Deu de ombros, e ao encarar o marido ainda um pouco atônito ela sorriu — Eu conheço essa cara. Pare de se preocupar, querido, eu sei que você vai se sair bem. — Gesticulou com a mão.
Ao ouvi-la ****** olhou para o filho logo em seguida. Ele continuava a comer seu lanche sem problemas; sua serenidade em continuar da mesma forma o motivou, mesmo que o garoto não pudesse entender completamente o que estava acontecendo.
— Certo. Obrigado, meu amor. — Assentiu. Comeu o pedaço que pretendeu antes e aproveitou para buscar os dois policiais novamente.
Então sua cara se fechou, eles já não estavam mais ali. No meio da pequena multidão a ausência daqueles dois fez seu humor mudar depressa. Se tinha uma coisa que ****** gostava era de se manter no controle da situação, do espaço, do tempo. Qualquer mínimo detalhe fora da curva o deixava estressado; e se tinha uma coisa que ele não gostava era se estressar.
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— Eu não sou um homem de muitas palavras. Na verdade eu sou uma pessoa de muito poucas palavras, na verdade. Eu não tenho o dom que muitos dos nossos colegas aqui presentes tem...
Três minutos, no máximo. Alertou-se.
****** estava lá em cima, discursando para várias pessoas presentes no parque. A "casa" estava cheia, parecia estar mais cheia que ontem, ou seria impressão sua?
Na primeira fileira sua esposa e seu filho estavam presentes, atentos a ele e prontos para dar apoio moral e presencial.
— Quando me chamaram para este evento eu fiquei nervoso, eu admito. — Deu de ombros e fechou os olhos brevemente, assim ganhou controle de si próprio — Eu não sabia o que fazer aqui, foi minha primeira vez. — falou risonho — Achei que ficaria perdido no meio de tanta gente importante, mas fui bem acolhido na verdade.
Ele olhou para aquela gente. A maioria atentava para ele, o que o deixou mais motivado. Em silêncio por alguns segundos, procurou mais do que apenas sua esposa e filho, procurou por outra dupla que não saía de sua mente. Num primeiro momento não os encontrou e nem poderia esperar mais, ou perderia todo o ritmo do discurso.
— Achei que sairia daqui com a sensação de dever cumprido, mas fui surpreendido por tantas histórias que... sairei deste evento com muito mais trabalho a fazer. Isso... esse evento não pode se limitar aqui, neste espaço. O trabalho de todos vocês tem que continuar além dessas fronteiras.
****** falou mais algumas palavras antes de completar seu objetivo que era localizar os dois policiais. Eles assistiam ao seu discurso bem ao longe. O homem soube disfarçar bem e não olhou para eles diretamente ou poderia se complicar. Seu rosto pareceu mais sorridente, confiante.
— Foi uma honra ter sido chamado para esse projeto e espero participar dele sempre, não apenas investindo, mas atuando, também. Vocês são o motivo que me faz acreditar na bondade do ser humano. Eu quero... agradecer a todos vocês e à minha família, é claro. — Apontou para a mulher e a criança, que sorriram carinhosamente — Vocês foram meus maiores incentivadores e eu devo tudo a vocês. — falou diretamente aos dois.
Suas palavras finais arrancaram aplausos calorosos do público. Chegou a ficar sem jeito. Fez um gesto positivo com o pescoço, riu e aplaudiu junto com os outros; só se retirou do palco quando a mediadora se aproximou dele e lhe cumprimentou.
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— Viu só? Você foi ótimo. — Sua esposa o recebeu quando ele voltou ao seu lugar.
— Bem... — Ele sorriu debochado e ergueu as mãos — Fiz o que você disse: respirei fundo e falei algumas palavras bonitas. — Brincou, encarando o filho que se encontrava entre os dois, que sorriu em resposta.
— Seu bobo. — A mulher olhou para a frente, mais precisamente para o palco, onde a mulher estava prestes a apresentar o outro discursante — O que vai fazer agora?
****** aproveitou a deixa para olhar de relance para trás, mais precisamente na direção de onde estavam os dois policiais. Infelizmente não os encontrou, então retornou à posição original.
— Vamos ficar por aqui enquanto isso. O compromisso que tenho ainda não é agora.
— Tá bom.
Ele cruzou os braços e deu atenção ao homem que começava a falar. Por dentro nem sabia ao certo o que aquele cara estava dizendo, só pensava na imagem dos dois. Tinha que ter cuidado ou aquilo viraria paranoia, se já não fosse.
Seu problema era ser confiante, até demais. Gostava de ser precavido e quando se encontrava numa zona de conforto também gostava de arriscar-se um pouco mais.
— Vou comprar água. Vocês querem também?
A mulher recusou.
— Eu vou querer, pai.
— Certo. — Ele sorriu. Não queria comprar nada, mas da sua desculpa arranjou um motivo real.
Quase num pulo ****** se levantou e caminhou para trás, onde procuraria alguém que vendesse bebidas e, de quebra, se aproveitaria em observar aqueles dois. O motorista ofereceu-lhe companhia para que não fosse sozinho, mas confiante e seguro de si, ****** recusou. Ele tinha que ser cuidadoso ao se aproximar deles, afinal da mesma forma poderia estar sob vigia dos policiais. Mesmo assim não conseguia conter a si mesmo de fazer aquilo, mal percebia que parte de seus pensamentos se voltavam apenas para os dois.
****** sabia que o policial não era bobo, muito pelo contrário. Provavelmente o sargento escolheu um caminho para traçar e estivesse trabalhando fortemente nele. Talvez o bilhete que deixou para o policial tenha o assustado ou motivado-o ainda mais.
Tanto faz. Ele sorriu ao pensar naquilo. Provavelmente o sargento tenha ficado furioso e destemido a resolver o maldito caso de uma vez por todas. Ele teria que trabalhar bem para mantê-lo no seu lugar ou todos teriam problemas.
A outra questão era do sexo feminino. A jovem policial apareceu de repente, a nova parceira do sargento; ela o deixava intrigado, curioso, como uma criança que avistava algo novo. Queria saber mais sobre aquela mulher, conhecê-la a fundo assim como conhecia o sargento. Seria uma questão de tempo até tivesse sua vida na ponta da língua, ou algo perto disso. Ficou admirado assim que atentou para seu olhar na televisão.
Ao passar ao lado dos dois a alguns metros de distância, posição segura, ****** aproveitou e olhou-a de canto de olho para não criar suspeitas. Foi rápido, infelizmente não pode provar o sabor de encará-los diretamente como foi no sábado. Nos rápidos segundos de visão pode deduzir que eles estavam atentos a todo mundo. Bem, todo mundo menos a ele. Coincidência? Talvez imaginassem que o assassino à sangue frio estivesse presente no local bem longe ou num local estratégico observando aquela gente. Pensaram que poderiam, de alguma forma, sondar todos aqueles convidados por meio da observação e da conversa para criarem alternativas de investigação. Ele sorriu. Não tinha que se preocupar, estava tudo bem.
Quando se afastou começou a pensar nas inúmeras possibilidades em que se encontraria com os dois novamente sem que parecesse suspeito ou que fosse considerado um. O que mais gostaria era ter um tempo a mais com eles longe de todo mundo. Será que era pedir demais?
Suas mãos formigaram por um instante. Ele respirou fundo e balançou a cabeça rapidamente para voltar ao mundo externo. Se aproximou de um vendedor e comprou duas garrafas de água. Olhou em direção aos policiais, ofuscados pelo passear de várias pessoas. Como todo guerreiro tinha de saber esperar a hora certa, e uma de suas virtudes era saber esperar.
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****** era um predador que estudava suas presas cuidadosamente. Ele era um calculista, gostava de planejar seus movimentos e trabalhar para deixar o tempo ao seu favor, além de conhecer seus oponentes, ou melhor, suas "presas". Era uma tarefa complexa, sabia disso, e tão complexo quanto era ensinar ao filho a arte de um guerreiro. Mesmo pequeno o garoto compreendia certas lições das quais o pai demorou a entender. Isso era bom.
Passado algum tempo novamente ele se pegou pensando nos policiais. Não era paranoia, não para ele. Era... apenas admiração ou algum sinônimo parecido.
Perto...
Até mesmo ele se imaginava sendo observado por toda aquela multidão. Não era adepto de eventos com muita gente, mas estava trabalhando consigo mesmo. Nesse ele faria questão de ver aqueles dois tão de perto. Claro, não podia dedicar todo o seu dia apenas para fazer isso, podia somente agarrar àquelas oportunidades.
Tão perto...
— ******.
— O quê? — respondeu meio de repente. Não gostou de ter seus pensamentos interrompidos, mas disfarçou como sempre fazia, e muito bem.
— ***** não está se sentindo bem. — Junto dela estava o garoto. Ele olhava para o lado esquerdo um pouco abatido.
Ele ergueu as sobrancelhas. Virou-se para encarar os dois, principalmente o filho, que continuava a olhar para o nada. Foi sugado de seu universo de volta à realidade.
— O que você está sentindo, *****? — O homem cruzou os braços e manteve o semblante desconfiado.
O menino balbuciou algumas palavras inaudíveis enquanto desviava o olhar do pai. ****** não esperou mais e se agachou para ficar à altura do filho.
— Me conte, filho, o que você está sentindo? — perguntou pausadamente e em voz baixa, para que somente o garoto pudesse ouvir. Seu rosto estava sério, queria saber imediatamente o que o garoto sentia.
— Eu não me sinto bem, papai.
Papai.
Não era sempre que ***** chamava-o de papai, só em poucas situações. O pai baixou o olhar e suspirou brevemente. De tantas decepções que sobrevieram a ele ultimamente aquela com certeza estava deixando-o mais estressado.
Ele se levantou e encarou diretamente a esposa, vindo a se aproximar dela para lhe falar mais perto.
— Cansado, ******? — questionou-a, evidenciando o garoto que olhava para baixo como se estivesse envergonhado.
— ******, ele já estava reclamando disso ontem, mas hoje parecia melhor! — Ela se defendeu.
— Por que não deu algum remédio a ele, ou alguma vitamina?
— Céus, ele é uma criança! — A mulher balbuciou algumas palavras, mas preferiu deixar o filho próximo do homem de confiança da família antes de continuar a falar particularmente com o marido — Não posso enchê-lo de remédios como um adulto se enche. Eu queria ficar em casa com *****, mas ele disse que estava bem!
Nervoso, o homem levou a mão à testa e tentou pensar em alguma solução que não fosse deixar aquele evento.
— Olha. Se você quiser ficar aqui eu vou embora com ele, ok? Eu chamo um táxi... ou-
— Não. — Rigidamente ele a interrompeu ergueu a mão direita. Franziu a sobrancelha e cobriu os olhos brevemente, parecia um pouco irritado — Se ***** está mal vamos levá-lo ao médico o quanto antes.
Desgraça.
O dia dele tinha tudo para dar certo. Todos os imprevistos tinham sido pensados... ou melhor quase todos. Seu filho, seu herdeiro; nunca pensou que o imprevisto viria dele. Ser praticamente obrigado a deixar o evento só para não causar uma imagem ruim para ele foi quase a gota d'água. Mesmo não querendo transparecer ele estava irritado.
— Vou avisar aos outros que estamos indo. — ****** pediu que a esposa esperasse com os outro por ele.
Ela pareceu não gostar daquela reação, mas não se opôs. Atendeu ao seu pedido enquanto o homem se afastava e se misturava na multidão novamente.
Tudo estava dando certo para ele até aquele momento. Aquele maldito momento que interrompeu o curso de sua agenda particular. Ele estava tão irritado com a esposa por não ter avisado sobre o estado do filho que mal conseguia pensar direito, mal conseguia disfarçar seu estado.
Ao avisar aos organizadores sobre o inesperado motivo da partida, ****** preferiu não cumprimentar os colegas distantes. Falou apenas com alguns mais próximos e depois fez sua saída "pela porta dos fundos".
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A família seguiu para o melhor hospital que encontraram no centro de Reno. Eles não se importavam com as despesas, somente a saúde do garoto. ****** não iria arriscar mandar seu filho para um hospital qualquer, ainda mais após todo o alarde. Todo cuidado com ele era pouco.
Sem demora para serem atendidos, um pediatra disponível os atendeu com total atenção. Os pais praticamente exigiram estar ao lado do menino em vez de ter a presença de apenas um parente. ***** foi levado para uma sala específica no intuito de receber todos os exames indicados pelo médico. Foram processos rigorosos, tudo para descobrir o que estava acontecendo com o herdeiro de ******. Apesar de estar chateado com toda aquela situação, o homem estava mais preocupado com o garoto que com qualquer outra coisa no momento.
— Bem... — Após uma longa bateria de exames, o pediatra chamou os pais para uma conversa no lado de fora do quarto, onde ***** estava repousando, praticamente dormindo — Fizemos todos os exames para tentar chegar a um resultado direto. Foi constatado que o filho de vocês está anêmico e apresenta fadiga.
Os pais, que estavam em pé assim como o doutor trocaram olhares confusos.
— Fadiga? — O homem foi o primeiro a questionar e recebeu um gesto positivo do médico em resposta.
— O filho de vocês mostrou sinais de estresse durante os exames e contou que teve dores de cabeça ao longo dos dias. — O pediatra guardou as mãos no bolso — O exame de sangue revelou falta de ferro no sangue, o que contribuiu para o estado de fadiga que ***** se encontra.
Foi a vez da esposa olhar para o marido com um semblante inconformado, até. Ele não percebeu até o momento em que se virou para ela novamente.
— O menino vai precisar repor ferro e vai ter que repousar bastante. Ele pratica alguma atividade?
— Várias, na verdade. — A mulher tomou a palavra antes do pai. Ela cruzou os braços, fez um gesto negativo com o pescoço e deu um passo para trás. Parecia irritada.
— É melhor que vocês maneirem em tudo que exija muito esforço dele. ***** está em fase de crescimento e qualquer atividade ou atividades que ele faça que não tenha o cuidado com os limites de seu corpo pode ser prejudicial.
— Nós entendemos. — Novamente ela tomou a palavra e respondeu pelos dois. ****** não encarou nem a esposa nem o médico; baixou o olhar na tentativa de arranjar alguma explicação para si mesmo sobre o que estava acontecendo.
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Anoiteceu. O tempo fechou em Reno. As gotas de chuva não demoraram a cair abaixo das nuvens negras. Estas ameaçavam trazer uma tempestade, bastavam aos pobres seres humanos esperar pelo pior ou não. Cinco minutos depois a camada fina de chuva aumentou para algo mais, porém nada preocupante, chuva suportável.
****** olhava para a grande janela do quarto disponível apenas para o garoto e sua família. O espaço era generoso, parecia mais um quarto de apartamento. Os equipamentos médicos e a cama hospitalar recobravam-no à realidade de que estava num hospital, acompanhando a recuperação do filho diagnosticado com fadiga. A luz principal estava apagada, somente o abajur emitia luz no quarto por opção dos pais.
Droga...
Por diversas vezes ele negava com a cabeça que aquilo realmente estava acontecendo, algo fora da curva, um evento inesperado. ****** estava tão acostumado em ter a situação sob controle que o ocorrido neste domingo levou sua agenda interna a um caos.
— ******. — A esposa chamou baixo. Ela que se sentara no sofá cama próximo ao filho se levantou e caminhou em sua direção.
O homem virou o rosto para vê-la, mas encostou o braço na janela e apoiou a cabeça na dobra do braço.
— Você devia ter me contado. — respondeu da mesma forma que ela: em voz baixa.
— Ele disse que estava bem. — retrucou ela na defensiva — Eu acreditei! Ele parecia bem.
****** fez um gesto negativo com a cabeça. Não gostou nem um pouco da atitude da esposa em não contar a ele o que o filho disse antes. Poderia ter se reorganizado e evitado um problema daqueles.
— Vocês dois ficam juntos quase sempre, como não notou que ele não estava melhor? — A voz inconformada dele era evidente.
— Eu admito, tenho culpa nisso, ok? ***** idolatra você, as vezes acho que ele quer ser como você. — Ela deu de ombros — Ele soube disfarçar muito bem porque não reclamava de nada nesses últimos dias. Só agora me apareceu assim. — Ela fez uma pausa — E você também passa boa parte do tempo com ele, tá? — retrucou inconformada — Você poderia ter notado, já que foi ideia sua colocá-lo nisso tudo.
****** cerrou o punho esquerdo rapidamente e fechou os olhos com força. Ela não percebeu. Ele deixou de dar atenção à janela e se virou em direção ao filho.
— Nosso menino é forte. Mais forte que os demais. Ele tentou demonstrar que aguentava toda a carga e acabou assim. — O pai explicou.
— Esse é o problema. — A mulher apontou a mão para o filho e depois cruzou os braços — ***** está levando esses treinos muito a sério, assim como você.
— O que quer que eu faça, ******? — Ele deu de ombros, meio irritado — Que pare com tudo isso?
Como se não acreditasse no que ouviu, ela ficou boquiaberta. Arqueou as sobrancelhas e ameaçou dizer algumas palavras de antemão, mas não conseguiu de cara.
— Nosso filho é apenas uma criança! Não pode ficar se esforçando desse jeito ou algo pior vai acontecer com ele.
Antes que ****** pudesse responder em sua defesa, ela ergueu a mão direita e continuou:
— Sei que foi assim com você e seu pai, mas você e seu filho são diferentes, os tempos são diferentes! — A mulher ergueu os braços na tentativa de convencê-lo — Nosso menino é forte, claro que sei disso! Mas se continuar assim-
— Tá. — ****** a interrompeu se virando totalmente para ela. — Tá. — Deu por encerrado o assunto e se afastou alguns passos dela com a mão direita erguida.
A mulher não parecia satisfeita com ele, mas se continuasse discutindo daquele jeito não levaria a nada.
****** parou a uma curta distância da cama do filho. Não sabia se ficava chateado ou não com ele por não ter avisado sobre o que sentia. Talvez o pai tenha cometido um erro em não ensiná-lo direito ou cometeu um erro por não ter reparado no próprio estado do filho já que seu foco principal era o resultado, apenas o resultado.
Ele levou a mão ao bolso de sua camisa social listrada e retirou um pequeno objeto reluzente. Passou o polegar sobre ele e o observou contra a luz. Aquele era um dos objetos mais preciosos dele, um presente que ganhou há muito tempo. Seu relógio, quase um guia. Ele voltou a olhar para o filho que dormia e caminhou para perto dele, então pôs o objeto cuidadosamente por entre suas mãos, fazendo-as guardar como se guardava um tesouro. Um tesouro que no futuro iria pertencer ao seu herdeiro.
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