Manhunters
88 Revele-se
Notas iniciais
— A médica disse que ele vai precisar de um tratamento e provavelmente fisioterapia.
— Merda. O Gil foi pego em cheio. — O capitão resmungou e ergueu os braços em seguida — Mas também! Foi cometer aquele erro e deu nisso. Policial não pode errar...
Sara não respondeu. Sentada frente a Brass a voz dela era baixa, pairando entre abatimento e firmeza. Não adiantava; falar sobre Grissom no hospital outra vez era se remeter às lembranças da primeira visita.
— Acho que agora ele aprendeu a... — Ela não teve coragem de completar a frase. Não podia fazer isso com o sargento, mesmo longe.
— Lição? Hum... — Brass balançou a cabeça em negativa — Só acredito se ouvir da boca dele e ver com meus olhos.
Sara não comentou, preferiu olhar para o outro lado. Respirou fundo, mas não tão obviamente para não despertar uma visão ruim de si mesma.
— Quando ele vai ser liberado mesmo?
— Talvez hoje à noite.
— Do jeito que é capaz de querer voltar a trabalhar amanhã.
Sara abriu um sorrisinho. Ela pensava exatamente o mesmo, mas não tinha dúvidas que desta vez seu amante “seguiria as regras” à risca ou ao menos um pouco disso.
— Não sei se tenho que pedir desculpas a você por seu parceiro ser assim.
— Não se preocupe com isso, capitão. Foi escolha minha aceitar o desafio. — Gesticulou ela.
— Ótimo. Então volte ao trabalho. — O homem mais velho sorriu sem problemas.
Sara ergueu uma sobrancelha, mas disfarçou um sorriso rápido para não sair mal na conversa. Ela deixou a sala do capitão com certa pressa. Não parecia, mas sua mente e cada centímetro de seu corpo sentia os efeitos da ansiedade, e estas duas a consumiam devagar e não a deixavam focar em outra coisa. Estava na sala de Brass, e ao mesmo tempo, estava fora. Péssima hora para receber uma notícia como essa. As boas novas não chegavam com tanta facilidade.
Ela chegou a cogitar uma ligação a Annastasia, porém só jogaria o peso à irmã. Deixá-la-ia fora da situação até o momento no qual achasse propício contar. Se bem que ela já deveria ter em mente que em breve isso iria acontecer.
Ao se sentar na cadeira de Grissom, Sara olhou para o computador desligado imaginando o que poderia “produzir” no dia sem a presença dele. Os dois pararam num caminho importante e que talvez fugisse um pouco do próprio Zodíaco, todavia era uma pista da qual não devia ser ignorada.
A morena ligou o computador dele e ficou tamborilando os dedos na mesa enquanto o sistema era iniciado. Depois disso ficou sem saber o que fazer. Sua mente não lhe deixava focar no trabalho.
— Vamos, depois eu resolvo isso. — disse para si mesma. Porém se adiasse ainda mais o assunto sentir-se-ia mais torturada, longe de por um fim a isso.
Ela se recostou na cadeira e olhou para o alto de olhos fechados. Hank já estava em Vegas; parte de sua ansiedade se foi com isso. Agora só faltava encerrar a história de vez, e se possível, nunca mais vê-lo. Sara sempre teve discernimento para tomar decisões com facilidade, só que desta vez a presença de Grissom seria muito bem-vinda, junto com um conselho.
Não, melhor não.
Seria “loucura” afinal e só traria mais estresse a ele, que já não estava 100% da saúde.
Não dava mais para ficar ali. Num impulso a morena se levantou seguiu para fora da sala. Nem fez questão de levar sua bolsa, apenas o distintivo e sua arma bastavam. Se alguém viesse para cobrar explicações — das quais ela não tinha obrigações em dar, somente ao capitão — ela já tinha uma resposta em mente.
Saiu de cara séria, olhar fixo à frente, não falou para onde ia. Foi bom não ter se encontrado com Catherine, na verdade foi bom trocar palavras com absolutamente ninguém. No momento ela não pensava em mais nada apenas naquele homem.
Hostel Cat, Las Vegas Valley 14h47min.
Sara não poderia se esquecer de compensar toda a gasolina que gastou ao menos com essa viagem; devia muito ao parceiro e faria questão de pagar.
Antes de desligar o carro ela olhou uma última vez para o endereço no papel recebido. Era este o lugar. Quando se preparou para sair respirou fundo e pressionou o volante com as mãos. Mesmo tendo garantia de si sobre o que diria nos possíveis minutos seguintes, era difícil para a detetive seguir adiante. Não era apenas “dar o fora” em alguém, Hank por muitas vezes foi um ombro amigo e uma pessoa a quem Sara tinha muito apreço. Tudo isso passou com apenas uma ligação, como se as memórias fossem aos poucos se apagando da mente ou sendo distorcidas. Os momentos com ele foram bons, sim, mas nada disso importava mais.
Ela tirou a jaqueta, evidenciando o distintivo e arma, um alerta para qualquer um que pensasse em algo, principalmente ele. Quando entrou no hostel, a mulher falou com o recepcionista e ele a informou que o hóspede estava esperando especialmente por ela. Por sorte Hank estava lá. A detetive seguiu ao quaro indicado sem problemas no começo, porém na medida que avançava ela ficando estranha.
Sara bateu a porta três vezes e esperou alguns segundos. Quando foi aberta os olhares se encontraram após muito tempo. Então o coração dela acelerou, não porque um sentimento bom foi despertado, muito pelo contrário.
— Você veio, afinal. — disse ela.
— Temos que conversar.
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No coração de Las Vegas, ****** passou parte do dia no escritório do andar que comprou para si num dos prédios comerciais mais valorizados da região. A ideia de expandir os escritórios no andar era recente, haviam poucos instalados, mas os resultados estavam acontecendo. Ele era bom com os negócios e isso se refletia em suas conquistas financeiras e o reconhecimento entre parceiros e possíveis alianças.
De sua janela era possível ter uma visão fantástica da cidade situada no meio do deserto. À noite a vista era de tirar o fôlego. Todavia este não era o foco de ******, mas sim nos vários arquivos que passou horas analisando com cautela e precisão. Anotava o que precisava ser anotado e grifava o que precisava ser grifado.
Dava para enumerar as vezes que ele saiu do amplo escritório: duas. Não permitia que ninguém entrasse sem rígido esclarecimento além do aviso prévio e deixava a porta fechada com tranca biométrica. ****** tinha suas reservas. A camisa dobrada e a gravata afrouxada eram provas de seu intenso trabalho intelectual e até físico naquele lugar.
O “privilegiado” de entrar no escritório foi o amigo pessoal de ******, quem o acompanhava sempre. Aproximou-se em silêncio após fechar a porta e se certificar que estava fechada.
— Você demorou. — Enquanto observava os arquivos ele não fez questão de erguer o olhar ao amigo. A voz de ****** foi fria como o ar condicionado que refrescava a sala, até mais.
— Sinto muito.
— “Sentir muito” não vai retornar o tempo que passou.
— Claro. — O homem em pé assentiu com respeito — Chegarei mais cedo da próxima vez.
— Assim eu espero.
Quando finalmente repousou o papel de volta à mesa, dez segundos depois, ****** atentou para ele, que o observava em silêncio e parado como um legítimo soldado, apenas aguardando ordens.
— Notícias sobre os nossos colegas? — perguntou ao cruzar as mãos sobre a mesa. Chegou a abrir um sorriso espontâneo.
— Como o senhor pediu, não informei sua vontade em não participar do almoço. Disse que está analisando o convite com total respeito.
— E como reagiram?
— Ficaram desapontados, como se esperava-
— Esse almoço não pode acontecer. — ****** o interrompeu de repente — Não posso perdê-lo, todavia. — Deu de ombros discretamente — Não são muitas as oportunidades de ficar perto daquela gente e fechar algo.
— O que o senhor pretende fazer?
Impaciente, ele não respondeu. Ficou alguns segundos em silêncio a olhar pela janela.
— Como impedir um evento de acontecer, meu caro? — perguntou retoricamente. Sua visão, por mais que parecesse direcionada ao amigo não focava nele. ****** estava longe em seus pensamentos e de forma alguma gostava de ser interrompido — Ah... estou sem ideias agora. — Balançou a cabeça — Chame meus advogados, tenho um assunto importante a tratar com eles.
— Certo.
— Só isso, obrigado. — Assentiu com um sorriso terno.
Na mesma hora o amigo saiu da sala a passos rápidos, até. ****** o acompanhou pelo olhar até o momento que a porta foi fechada e o som da tranca digital foi ouvido. Enfim, ele retornou a pequena pilha de arquivos dos quais analisava com atenção. Em meio dos arquivos, uma seleção considerada por ele “importantíssima”, foi pega novamente. Fez questão de separa-los e lê-los outra vez.
No meio de tantos textos complexos e jargões das mais variadas ciências, um sobrenome em particular foi o motivo para que ****** adquirisse estes arquivos e que passasse horas os lendo.
— Sidle, Sidle, Sidle... Deixe-me conhecer você.
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De volta ao hostel.
— Eu não sei por que você veio aqui, sinceramente. — disse a morena ao adentrar no quarto. Sua vontade era de começar e terminar a conversa ali na entrada.
— Porque eu quero me acertar com você, óbvio. — Ele ergueu os braços assim que fechou a porta. Este último deixou Sara desconfortável.
— Já está tudo acertado, Hank. — Sara o encarou bem — Acabou tudo entre a gente.
— Ué, então é assim? Você termina comigo sem dar chance de me explicar? — Ele arregalou os olhos — Mesmo depois de eu ter vindo aqui?
— Aquela ligação esclareceu tudo, seu desgraçado. — Ela deu um pequeno passo à frente — Noiva?!
— Sara...! — Hank caminhou para o lado — Você termina toda a nossa relação, simplesmente apaga tudo o que tivemos juntos por causa de uma ligação?
— Ah, então descobrir que sou a amante não tem importância alguma, não é? — Ela sorriu em ironia.
— Se você me desse uma chance para explicar, poxa! Tentei te ligar várias vezes e o que você faz? Me bloqueia!
— Sabe por que eu te bloqueei? Porque estava enojada. — A voz dela saiu baixa e fria como o abismo — Eu achava que tinha uma pessoa para confiar e... quem sabe passar o resto da minha vida junto, mas acabou que isso não passava de uma mentira. — Ela falou quase pausadamente — Eu odeio que mintam pra mim.
— Eu te amo, Sara. — Ele insistiu melancólico.
— Para com isso! — A mulher o cortou, erguendo as mãos na tentativa de fazê-lo parar — Você é um mentiroso!
O paramédico olhou para o alto e suspirou.
— Já disse que é você quem eu amo! Quantas vezes vou ter que repetir?
— Me ama mesmo? Então quem era a mulher que você estava pegando, hein? Só uma amiga?! — Ela ironizou.
Atenta a cada reação do paramédico, Sara notou que ele engoliu em seco.
— Aquela mulher é louca, é obcecada por mim!
Vendo a expressão dele ao dar a resposta, Sara cruzou os braços e começou a rir.
— É sempre a mesma desculpa que vocês usam, merda!
— Sara... — Ele insistiu.
— Eu sei de tudo. — retrucou, agora numa voz mais fria — Sei que mesmo depois daquilo você continuou junto dela com o rabo entre as pernas.
— Quem te disse isso? Sua irmã? — Hank a questionou com desdém, apontando para trás — Ela nunca gostou de mim, vai mesmo acreditar nela?
— Isso mesmo que falou. Ela é minha irmã. — A mulher não se intimidou e aumentou o tom — Eu acredito nela, mil vezes nela no que em você! — Apontou bruscamente para ele — E sim ela me contou, viu você e aquela mulher juntos recentemente. É assim que você me ama, Hank?
De forma alguma Sara gostaria de citar Annastasia na conversa, mas foi uma questão de emergência, e de honra. Se achava que ele iria tentar se acertar do jeito certo, ouvir as palavras dele foi pior do que imaginava, nem pedir desculpas ele pediu.
Agora de cara fechada, Hank deu um passo à frente, e por instinto, a morena recuou erguendo a mão direita.
— Acabou. — repetiu — Volta pra Califórnia, vai viver sua vida e nunca mais olha pra mim, ok?
— Sara, você tá exagerando... — Tentou argumentar, mas sério desta vez. E novamente se aproximou dela.
— Para, Hank. — Ela não perdeu a firmeza, mas recuou um passo. Em seguida fez seu caminho para fora do quarto — Eu já disse.
Antes de chegar à porta, todavia, o paramédico tentou segurá-la pelo braço. Na mesma hora a detetive puxou-o e se virou para o homem, pronta para se defender caso precisasse. Sua respiração ficou ofegante e o coração acelerou. Mal percebeu que sua mão ameaçava puxar a arma da cintura. Ela já podia sentir o cabo da arma em sua palma.
Vendo isso, Hank ergueu as mãos em derrota e fez uma cara de confuso a ela.
— Calma, Sara!
— Fica longe de mim. — Sara apontou o dedo próximo ao rosto dele. Sua mão chegou a tremer e sua voz estava falhando. Ela o encarou nos olhos uma última vez antes de dar meia-volta e se encaminhar até à porta.
— Você tá com outro, não é? — Ele perguntou no momento em que ela tocou na maçaneta.
A morena inclinou a cabeça para baixo, fechou os olhos e pressionou a mão no objeto. Então abriu a porta quase bruscamente. Não respondeu e se encaminhou para fora.
— Isso não acabou, não. — disse em voz alta, o que enfim atraiu a atenção de Sara. Ela o encarou por três segundo e depois saiu — Eu não vou desistir de você.
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Olha pra mim.
Nada.
Vai, olha pra mim. Eu sei que você vai olhar.
O caçador, irritado, pois foi tentado a fazê-lo, o fez. Olhou para quem o chamava e começou a lidar com uma figura aterrorizante. Ele, que estava cercado por um cenário escuro vestia roupas brancas e puras. À sua frente, não viu ninguém mais que a si mesmo. Não era um espelho, era o seu eu. Vestia as mesmas roupas, mas a diferença era o vermelho tingindo o branco. Vermelho tipo sangue, uma cena medonha.
— Viu só? Não foi difícil. — A figura de branco e vermelho sorriu, mostrando a si mesmo.
Seus olhos eram vazios e o sorriso beirava ao macabro. O pior de tudo é que ele era tão parecido com o caçador em todas aquelas feições. Um alter ego não muito distante do seu eu “original”.
— O que... você quer?
— Não é o que “você” quer ou “nós” queremos, é o que “eu” quero. Assim que tem de falar.
— Eu não sou você. — retrucou o caçador apontando para ele, mas se recusando a encará-lo nos olhos.
— Pare de tentar separar o que faz parte de você. — insistiu, e o caçador virou as costas para ele — Não dá para negar algo tão evidente.
O caçador caminhou alguns passos na tentativa de afastá-lo, mas assim que parou seu outro ‘eu’ falou acima de seu ombro:
— Esse caso está me consumindo, esta é a verdade. Aquele desgraçado tá solto e rindo da minha cara. Eu não gosto disso. — O homem de branco manchado bateu no outro ombro do caçador.
— Até que enfim um comentário pertinente. — O caçador olhou para ele e o homem sorriu.
— Olhe só para todos os corpos empilhados pelo maldito. — O homem estendeu a mão para a frente e em poucos segundos uma “vala” se abriu no chão.
— Eu sei disso.
— Claro que sabe. Claro que eu sei, você sabe, seja o que quiser. — O alter ego caminhou para frente, em direção à vala e apontou para lá — Veja.
— Não.
— Pelo amor de Deus! — argumentou devidamente irritado — Olha pra isso aqui!
O caçador pressionou os punhos. Não era possível entrar numa briga consigo mesmo (ou era), sabia que seu ‘eu’ iria vencer, como no momento presente. Ele caminhou até a borda da vala e olhou de uma vez. Aquilo foi perturbador. Eram onze corpos nus jogados como se fossem pedaços de carne descartáveis. Todos mortos.
— Tá vendo? — Seu alter ego o enfrentou com as palavras — Onze pessoas e contando. E ele estava lá, apertando minha mão, zombando do que fez.
— Eu sei.
— Quem vai ser o próximo, hein?
O caçador fechou os olhos por cinco segundos.
— Não diga... não diga... — sussurrou, sabendo que ele o ouviria da mesma forma.
— Alguém próximo de mim, alguém que eu amo?! — O homem de branco manchado aumentou a voz e ergueu os braços — E não são muitos, eu sei muito bem.
— Eu já falei pra não dizer-
— A minha Sara?!
— CHEGA! — Ele gritou — CHEGA! EU JÁ DISSE!
A vala se fechou num piscar de olhos.
— ELE NÃO VAI TOCAR NELA! — O caçador estava ofegante, como se tivesse virado um animal prestes a atacar — Vai ter que passar pelo meu cadáver ENTERRADO pra encostar um dedo nela!
— E o que EU vou fazer para impedir isso? — Com o mesmo sorriso debochado de antes, o homem de branco manchado cruzou os braços e caminhou em sua direção.
Temendo o que fosse acontecer o caçador balançou a cabeça várias vezes e tentou recuar.
— Zodíaco tá se aproximando e quando menos perceber ele vai estar lá, perto da única mulher que eu amei. Ele apertou a mão dela naquele dia, falta pouco.
— Para...
— E aquele desgraçado do Hank, hein? O que ele veio fazer aqui? Levar a minha companheira pra longe? Tocar nela...?
O caçador levou a mão ao rosto e depois tapou os ouvidos com força. Não aguentava mais ser atormentado por aquele nome até mesmo no subconsciente.
— Alguma coisa tem que ser feita, não?! — O alter ego ergueu os braços — Ou vai deixar esse pavão mostrar suas penas?!
— Chega, pelo amor de Deus, o que você quer de mim? — O caçador literalmente implorou a ele.
Sem responder na mesma hora, a figura manchada sorriu e se aproximou dele aos poucos. Somente quando achou estar perto o suficiente ele respondeu:
— Você tá virando um homem fraco.
— “Você”? — Ele o ironizou — Agora usa o “você”, não é?
— Onde estava? Ou melhor, onde você está? No hospital, porque deixou de cuidar dessa perna? Tudo porque se achava capaz de resolver tudo sozinho, se achando um deus?
— Isso-
— Mal conseguiu proteger a si mesmo, como vai proteger a mulher que eu amo?
A forma como ele agia, como se fossem duas pessoas diferentes o assustava. Um momento eram um só e outro era um monstro com sua aparência. Mas o pior, era impossível argumentar consigo mesmo, uma luta perdida. O caçador, abalado, deu meia-volta e começou a caminhar sem rumo.
— Tá na hora de mudar. — O homem de branco manchado surgiu-lhe atrás de seu ombro novamente. O caçador estremeceu.
— Eu estou mudando.
— Eu sei. Mas às vezes é necessário de uma mudança mais... profunda. Mais... extrema.
A sua própria voz ecoou em seus ouvidos como uma bola de chumbo afundando nas águas.
— Às vezes é necessário ser um pouco mais radical. — O alter ego tocou nos dois ombros do caçador — Às vezes... é necessário sujar as mãos de sangue. — Quando terminou de falar ele mostrou a mão direita à frente do caçador. Estava ensanguentada e parecia ser de um “trabalho” recente.
Ele arqueou as sobrancelhas, mas não falou nada. Logo depois o homem de branco manchado apertou ainda mais seus ombros.
— Eu sou parte de você. Só tem que... me deixar entrar no jogo.
E então o alter ego desapareceu. O caçador não percebeu na hora, mas no momento em que olhou para baixo viu sua roupa alva como a neve, agora suja de vermelho. Suja, não, suas roupas adquiriram o vermelho total. Perplexo ele sentiu algo descendo pelos braços, quando os ergueu que não era suor ou água. Era sangue.
Suas mãos estavam sujas com o líquido carmesim, assim como as roupas, a pele e todo o chão ao redor.
— Você sou eu e eu sou você. — disse a voz que surgiu pelo ar — Não se esqueça disso.
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Era tarde da noite, umas nove e quarenta. Para a decepção do sargento ele ainda teria de passar a noite no hospital, pois precisava passar por outro exame pela manhã para confirmar a dor neuropática e indicar os remédios para iniciação do tratamento. Grissom achava tudo aquilo um inferno, mas faria um esforço (maior) desta vez para seguir à risca tudo o que lhe indicassem.
— Pelo visto não estava sentindo minha falta... — disse a morena ao entrar. Ele não percebeu que Sara já estava no quarto.
— Querida? — Ele respondeu surpreso. Estava sentado na beirada da cama, de costas a quem entrasse no quarto.
— Já está descumprindo a recomendação da médica? — Ela cruzou os braços, com um sorriso zombador.
— Estou morrendo aqui nessa cama, deitado quase o dia todo.
Rindo baixo Sara verificou pelo vidro da porta se havia alguém se aproximando. Não notando ninguém ela caminhou para perto dele e se sentou ao seu lado. Nem se passou dez segundos de troca de olhares e os dois acabaram se beijando. Foi curto, mas o sargento não se conteve, tocou no rosto dela e a beijou mais uma vez.
— Parece que não sinto seus lábios há dias. — Sorriu timidamente e depois suspirou — Ou será que dormi por dias e não percebi?
— Não, ainda estamos no mesmo dia. Por incrível que pareça.
— Bom.
Ao analisar seu rosto meio abatido e postura inclinada, ela perguntou o óbvio, mas para saber de sua boca como se sentia.
— Como se sente?
— Ah... — Ele soltou uma brevíssima risada e sussurrou — esgotado.
Por instinto ela acariciou seu braço e se aproximou mais.
— É o preço que eu tô pagando, não é? — desabafou, e em seguida levou as mãos ao rosto — Céus, eu espero que isso passe logo. Odeio ficar refém de remédio.
Ao longo do tempo que ficou no trabalho, Sara aproveitou para pesquisar a possível condição da qual o companheiro se encontrava, só por curiosidade. Leu artigos complexos que iam além de sua noção de saúde, mas fez um esforço para entendê-los. Viu respostas e resultados desanimadores que falavam sobre a possibilidade de o paciente carregar a dor por toda a vida; mas também encontrou tratamentos diversificados, até mesmo a tal cirurgia vagamente citada pela médica, assunto ainda inicial no meio, mas que já mostrava alguns resultados completamente positivos. Era a tal citada cura ou algo próximo disso.
Ela não era do tipo que acreditava numa força maior ou poder superior. Entretanto, assim como um “sentimento” ou algo parecido surgiu quando via Cassandra numa cama de hospital se tratando do câncer, aquilo de certa forma retornou e com força. Não poderia simplesmente aceitar uma “eterna” condição de Grissom com dor neuropática ou seja lá o que fosse isso. Ela acreditava numa melhora, numa cura, na verdade.
— Vai passar. — Sara acariciou seu rosto. Quando sentiu o toque Grissom fechou os olhos como se recebesse o melhor dos remédios. Ela nunca pensou que se tornaria o refúgio de alguém, nem mesmo de sua irmã.
— Como foi seu dia? — perguntou enquanto ainda estava de olhos fechados.
No momento oportuno Sara o fitou com total atenção. Pela primeira vez no dia o viu com uma expressão relaxada, diferente do começo da manhã e até mesmo noutros dias comuns. Como dizer que seu dia — especialmente naquela “viagem” ao quarto de Hank — foi um inferno?
Não diria. Ainda não.
— Cansativo. — brincou — Estava sem meu 50%.
— Sinto muito.
— Não... isso passou, Gil, agora temos que focar no-
— Agora. — Ele a completou. Olhou para frente e depois suspirou — Obrigado por ter vindo, querida. Mas não acha melhor dormir em casa?
— Hã? Como assim?
— Tenho medo que alguém de fora venha me visitar, encontre você e comece a fazer perguntas.
— Acho que o risco já passou. O horário de visitas comuns vai começar amanhã e acho que até lá não será um problema.
Em vez de argumentar o sargento atentou para seu rosto e o tocou com delicadeza.
— Eu te amo. — disse de repente.
De todos os “eu te amo” falado por ele, este pareceu o mais singelo. Talvez por causa das circunstâncias.
— Esse “nós” é muito recente, mas eu vou dar tudo por ele. — Grissom fez uma pausa por alguns segundos — Eu não estou disposto a perder você. — disse aquilo quando as imagens do sonho recente vieram à tona. Não sabia se era seu “eu” bom ou o ruim.
Com um sorriso bobo a detetive aproximou os lábios dos dele e o beijou sem o mínimo de receio de alguém aparecer e ver os dois em um momento tão íntimo.
— Vamos, melhor você deitar logo ou os enfermeiros vão vir aqui e te dar umas palmadas.
Ele riu por um instante o que a confortou, sabendo de sua melhora. Não reclamar da perna ou não aparentar sentir dor já era a vitória do dia.
Sara o ajudou a se deitar. Ela ouviu um breve gemido vindo dele, mas nada grave, ou pelo menos ele disfarçou. Não quis acreditar nesta última. Vê-lo coberto e sem nenhuma agulha furando sua veia foi um alívio, mas era só o começo.
— Tem espaço para mais um. — comentou sem compromisso.
— Eu duvido. Uma coisa é eu ficar aqui e outra é dormir aí com você. Sabe que se pegarem a gente assim...
— O que eles podem fazer se descobrirem que somos um casal? Eles não são o Brass. — zombou.
— Essa cama não serve para duas pessoas dormirem, Gil. Vou passar a noite no meu maravilhoso sofá. — Em deboche ela apontou para o amplo sofá de dois lugares.
O sargento fez um único gesto com a mão, a convidando silenciosamente para lhe fazer companhia.
— Fique aqui conversando comigo... até eu pegar no sono, então. — disse ele — Apenas... fale, fale, eu... gosto de te ouvir. Sua voz me acalma.
Sara não sabia como, mas isso fez o coração dela derreter. Ela retirou os sapatos e, com cuidado, subiu à cama e se aconchegou ao seu lado.
— Annie dizia brincando que minha voz parecia de uma taquara. — Sara se deixou envolver pelo seu abraço.
— Não... — Ele sorriu — Sua voz... era o que eu mais queria ouvir em São Francisco. — Respirou fundo e lamentou — Foi meu maior arrependimento daquela época.
— Tem certeza? — brincou — Deviam ter outras coisas lá que você se arrependeu de não ter feito ou... ouvido.
— Então porque me sinto tão mal quando penso nisto?
Ela tocou em seu peito delicadamente, tentando não se mover muito para não atrapalhar sua posição.
— Fica bem logo, tá? Preciso do meu parceiro. Vamos ter muito trabalho pela frente.
— Droga.
Sara não exagerou ao falar aquilo. Era trabalho demais até para duas pessoas, imagina uma.
— Você deve precisar de ajuda. Deve, não, vai. — disse o sargento ao se ajeitar. Acabou reclamando de dor — Tá tudo bem. — respondeu ao notar que ela se preocupou com o ocorrido — Tente falar com o Ivanenko, Catherine... ou fale com o Brass para pedir apoio.
— E... você?
— Não vou ser um estorvo enquanto não estiver 100%. Não vou garantir que estarei ruim, mas será melhor desse jeito. Ainda tem o caso do Lewis, os nomes na lista do Park... é peso demais pra você.
— Falando nisso... o enterro do Park é amanhã. — A morena ergueu o olhar para ele.
— Ainda quer ir?
— Acho melhor dar uma olhada para saber o que vai acontecer lá.
— Está bem. — O sargento se esforçou para envolvê-la em seu braço.
Os dois ficaram em silêncio.
— Tenho medo que me tirem desse caso em definitivo. — Grissom desabafou após um minuto quieto.
Ela não respondeu.
— Também sei que você pensa o mesmo, não precisa se envergonhar. — Ele acariciou seu braço — Se isso acontecer, não quero que tente reverter isso e acabe se prejudicando.
Sara se esticou para alcançar os lábios dele e o beijou.
— Melhor, vamos fazer um trato. Se o Ecklie tentar dar um jeito de me tirar por definitivo eu não quero que você tente me defender.
— Como é? — Ela franziu as sobrancelhas.
— Ele ainda deve achar que odiamos um ao outro. Se ver você tentando interceder por mim ele vai acabar desconfiando-
— Eu vou te proteger porque você é meu parceiro. Fim de papo.
Boquiaberto, Grissom até tentou argumentar novamente, mas percebeu que não teria chance.
— Melhor você ir dormir. — disse ela — Tem que ficar melhor para voltar ao caso.
Ele sorriu timidamente, meio envergonhado pela conersa anterior.
— Vai ficar comigo?
— Não... vou ficar aqui até você pegar no sono. — replicou após bocejar.
— E se você dormir primeiro?
— Então você me leva até o sofá.
Os dois riram e aos poucos ela descansou a cabeça em seu peito e suspirou. Sara queria muito, queria mesmo contar a ele toda a verdade sobre o que o houve no dia. Contar que Hank veio a Vegas no dia anterior procurando por ela no trabalho e por pouco não obteve o endereço de sua casa. Não contou sobre a briga que tiveram no hostel e o quão hostil ele pareceu ao não aceitar o término do relacionamento. Ela não teve coragem, ou melhor, não achou “justo” contar isso a Grissom, que se encontrava num estado ainda delicado. Deixaria isso para depois, quando a situação se mostrasse o mais favorável possível.
Já ele... Grissom não contou algo que provavelmente criaria outro conflito no futuro. E não era pouca coisa, era algo que a faria lutar com garra para o impedir. Ele não contou sua pretensão em se encontrar com o homem que o destruiu.
Ainda haviam segredos dos quais os dois ainda não estavam dispostos a contar.
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