Manhunters

63 O que não se pode ver


Notas iniciais
Fala aí, meus amores, como vocês estão? Primeiramente quero agradecer a vocês por estarem lendo até aqui essa fanfic que tenho o maior prazer em escrever. ♥ Hoje atrasei um pouco o horário de postagem porque desde o final de semana estou com uma munhequeira na mão esquerda devido a uma dor que tenho sentido. Por causa disso, fiquei com dificuldades pra escrever e editar os caps e tudo mais haha. Mas enfim, fiquem aí com o maior (maior mesmo) capítulo da fanfic até agora. Não sei como deu nisso, saí escrevendo que acabou com isso aí kkkkk Se eu separasse ia ficar fragmentado demais, então deixei assim, eh isto. Aproveitem o cap!

Agonia, agonia, agonia. Os minutos se passavam e a mente do caçador ficava cada vez mais atormentada. Eram onze e dez manhã e nenhum sinal. Não ligou para mais ninguém desde o dia anterior para não criar alarde. Sentado em sua cadeira por longos minutos, mal conseguir acessar o computador para buscar alguma informação relevante para o caso. Sem luz alguma para encaminhá-lo a alguma direção, ficou em silêncio a olhar para o nada. Visivelmente abatido, não tinha mais vontade de deixar a sala até o momento em que recebesse a informação de mais uma morte. Tentou não culpar a si mesmo, mas o sentimento ruim surgia certas vezes e não dava para evitar.

Por alguma força extraordinária Sara também estava na sala. Ela analisava alguns documentos e variava entre a sala do sargento e a mesa do detetive Ivanenko, na tentativa de aproveitar o tempo melancólico para fazer alguma coisa.

Em certo momento pegou Grissom nitidamente cabisbaixo. Quieto, mal olhava para a frente quando a porta era aberta. Angustiante era vê-lo daquela forma, totalmente diferente do homem de oito anos atrás. Mesmo sentindo raiva por algumas atitudes dele (principalmente a de domingo), Sara não aguentava mais encontrá-lo daquele jeito, só não tinha coragem de falar.

— Onde esteve? — Ela perguntou quase com desdém, na tentativa de fazê-lo se mover.

Segundos depois o sargento ergueu seu olhar para ela, ainda se mantendo com a mesma cara abatida.

— Fui comprar alguma coisa pra comer. — respondeu, voltando seu olhar para o computador.

Vamos, seu idiota, reaja!

— Não devia ter saído sem me avisar. — Sara o reprovou — Não imaginou que o assassino poderia seguir você e- — Ela balançou a cabeça, interrompendo a frase.

— Estava ocupada. — Ele respondeu sem reservas.

— Então quer dizer que você correu perigo apenas porque eu "estava ocupada". — falou sarcástica.

— Se ele fosse atrás de mim pouparia nosso trabalho em procurá-lo. — Mesmo com o semblante negativo, Grissom não mediu o sarcasmo em suas palavras.

Sara fechou os olhos e impediu a si mesma de explodir com ele.

— Eu não sei por que ainda tento, sinceramente... — Balançou a cabeça.

Sem vontade alguma de continuar a conversa, Sara optou pela melhor opção que veio à mente: Deixar a sala.

— Fico feliz que esteja bem. — Grissom falou quando ela tocou na maçaneta da porta, fazendo-a parar no mesmo instante.

Ao se virar para trás, encontrou o sargento encarando-a diretamente. Ela não respondeu; gostaria, mas preferiu guardar o comentário para si. Suspirou e fez seu caminho para fora da sala.

— Trouxe torta pra você.

Ouvindo aquilo e quase não acreditando no que ouviu, Sara fechou a cara. Pelo visto ele não mudou tanto quanto antes. Continuava tão...

Cara de pau.

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Meio-dia e quatro, a hora que acendeu uma faísca e queimou toda a palha seca. Aquele foi o momento que uma notificação chegou aos ouvidos do capitão Brass, que em seguida alertou o sargento Grissom e a detetive Sidle. Morte em Cold Springs, Reno; um homem não identificado levou mais de sete facadas segundo a observação inicial dos socorristas locais que o encontraram já sem vida. Além disso, uma inscrição foi encontrada em sua testa. Três outros alertas foram obtidos ao longo das onze, mas nenhuma tão específica quanto aquela; a marca foi o detalhe chave que "acordou" a equipe. Hora de correr contra o tempo.

— Vão para o heliporto agora. Eu tive sorte e consegui um helicóptero com um colega da Força Aérea. Não percam tempo. O local é pequeno e a vizinhança não tá nada contente em ter um assassinato por aqueles cantos. Tentem usar esse povo pra conseguir alguma informação.

Os policiais mal trocaram duas palavras e já se dirigiram com suas bolsas de viagem até o elevador. Aquilo virou uma correria. Uma hora se passou desde a morte e qualquer minuto perdido seria o prelúdio do caos. O sargento e a detetive não trocaram muitos olhares desde o chamado, mantendo a distante relação que dois colegas profissionais manteriam.

Eles entraram no elevador que já estava ocupado por duas pessoas. Silêncio de todos, como de costume. Para duas pessoas que trabalhavam juntas num caso delicado e perigoso, Grissom e Sara seguiam por um caminho arriscado. A falta de uma comunicação mais aberta poderia ser um problema no futuro, mais que no presente. Até chegarem ao último andar, os dois já se encontravam sozinhos. De canto de olho, ele observou a parceira quase imóvel em sua posição, a olhar para a frente. O medo chegou em sua garganta e ele não conseguiu se expressar. Achou melhor que o silêncio era a única ligação que os mantinha.

Finalmente chegaram ao último andar. A porta se abriu e bastou um breve percurso e uma porta para, enfim, chegarem ao heliporto. O timing foi quase perfeito, o helicóptero terminava de pousar no local. Um oficial os esperava no heliporto e após uma pequena conversa, os dois policiais foram rapidamente para dentro do helicóptero, que não demorou e logo partiu.

Sara estava perto de participar do início da investigação de (mais) uma vítima de Zodíaco. O sentimento era o mesmo que seu parceiro sentia: inconformismo. Decepção pela falha em encontrar pistas ou uma prova mais concreta. O resultado disto foi preço pago com o sangue derramado de mais uma vítima. Sara não sabia se ele sentia o peso da morte de mais alguém, mas ela sentia, e muito.

Estar num helicóptero causou-lhe nostalgia de algo que viveu há pouco tempo. Ao menos quando estava com Ivanenko a conversa fluía melhor. Já com ele a situação era diferente, emocionalmente diferente.

— Vamos ter que pousar em Reno e alugar um carro por lá. — Falou Grissom pela primeira vez após quase dez minutos de silêncio mútuo — Problemas de cidade pequena.

— Que ótimo... — Ela respondeu sem muita vontade.

— Me admiro que tenham criado o alerta não muito tempo depois da morte desse homem. — Continuou.

— Talvez porque o lugar é pequeno e as notícias se espalham rápido. — Sara, que encarava a janela à sua direita, finalmente se virou para ele. Por instinto, Grissom também se virou o que acarretou num contato visual de alguns segundos. A morena, surpresa com gesto, foi a primeira a desviar o olhar, retornando sua atenção à janela.

— É uma boa possibilidade. — Afirmou, mantendo-se a observá-la. Vendo que ela não faria o que fez novamente, ele também voltou para a janela.

Não houve discussão na curta conversa, o que já era um começo. Mas não era o suficiente, ele sentia falta dos momentos de aproximação e de uma conversa mais franca, mais aberta. O que mais gostaria era de voltar no tempo, para aquela noite de domingo e corrigir-se. Era triste carregar aquele desejo e pensar nisso toda hora. Só que precisava seguir em frente, ao menos tentar se concentrar mais no trabalho e tentar não discutir com sua parceira.

Após duas horas de viagem, os policiais pousaram num heliporto particular. Conforme combinado com uma empresa, um carro alugado estava à espera deles. Grissom acertou os últimos detalhes com o funcionário da empresa de aluguéis e após isso, os policiais partiram em viagem. Um bom tempo se passou desde o crime e a tensão aumentava cada vez mais. Por sorte, Brass deixou a polícia local a par da situação, mas não satisfeito. Então a cada minuto a mais de espera deixaria o xerife mais furioso.

Grissom e Sara seguiram com tanta pressa para o local que mal tiveram tempo de fazer uma reserva em Reno ou pensar em reservar quartos em Cold Springs. O carro estava com o tanque cheio então evitou mais tempo gasto (e o retorno de um trauma) numa ida ao posto de gasolina. Pelo celular, Sara informou ao capitão Brass sobre a chegada dos dois no pequeno município. O primeiro ponto era a delegacia, no centro, lugar onde já se encontrava o corpo.

Já eram três e dez da tarde quando o ciclo de viagem terminou por enquanto. A temperatura beirava os 17 graus e o tempo prometia castigar ainda mais ao anoitecer. Apenas as roupas presentes já o protegiam do clima com qual estavam acostumados. Quando pisaram os pés na delegacia, o sargento e a detetive se tornaram o centro das atenções de algumas pessoas que se encontravam lá. Um homem de aparência jovem e que carregava uma caderneta e uma câmera fotográfica estranhou a presença dos dois e logo se aproximou. Atentou primeiramente para Grissom, que não gostou dele.

— Boa tarde. Sou Derek Mann, repórter do Reno Bulletin. Pelo visto os senhores estão aqui por causa da morte daquele senhor-

— Sem entrevistas. — O sargento ergueu a mão, tratando de seguir em frente. Sara não se conteve e sorriu por um instante. Ao olhar para o jornalista deu de ombros e tratou de acompanhar o parceiro, que não perdeu tempo e falou com o secretário.

Ele parecia impaciente, e estava. Também estava disposto a responder friamente a qualquer um que viesse com graça para cima dele, principalmente jornalistas. Os outros presentes que pareciam repórteres olharam desconfiados para os policiais e conversaram entre si. Logo viram a cara feia do sargento e preferiram não arriscar nada com aquele estrangeiro.

Após três angustiantes minutos de espera, o sargento e a detetive foram liberados para falar com o xerife. O secretário indicou o caminho para os dois, que não perderam tempo e foram num pulo.

— Finalmente Mulder e Scully chegaram. — Ironizou o homem de mais ou menos sessenta anos. Era branco e um pouco forte. Ostentava um cavanhaque grisalho e óculos de grau quadrado. Usava o "clássico" uniforme de um xerife, mas claro, com a variação da unidade local. Ao vê-los entrando logo se levantou da cadeira ficando a uma curta distância dos dois. Então cruzou os braços.

— Creio que já deve estar ciente de boa parte da situação, xerife...? — O sargento tomou a palavra.

— Horton. Irving Horton. — respondeu secamente.

— Xerife, nós estamos com um pouco de pressa. Pode nos levar para ver o corpo? — Sara se adiantou, para a surpresa do sargento, até.

Mas o xerife não aparentou gostar daquilo. E a última coisa que os dois gostariam era de alguém disposto a dificultar o trabalho deles, principalmente um "colega da força".

— Vocês mal chegam aqui e já querem passar com a carroça na frente dos bois?! — Irving ergueu os braços.

— Claro que nós queremos. Enquanto estamos aqui ouvindo a sua reclamação o assassino pode estar cada vez mais longe! — Estressado, Grissom retrucou na hora.

— Não sei de onde conseguiram poder para barrar a nossa investigação e mandar nas coisas por aqui. Aqui não é Las Vegas, não é aquela bagunça. — Apontou para a frente.

— Já? — O sargento foi sarcástico — Só queremos investigar essa droga de caso e sair da sua bendita cidade.

O comentário de Grissom serviu apenas para irritar mais ainda o oficial. Percebendo isto, Sara deu um pequeno passo à frente e tentou contornar a situação.

— Xerife, a gente só quer resolver isso logo. Eu sei que deve estar chateado em ver dois estranhos chegando para tomar conta desse caso, mas nós temos uma base para esta investigação. — Ela tentou argumentar. Ela não era do tipo persuasiva; em outros momentos poderia explodir com certa facilidade. Mas seu parceiro já não estava em bons dias, então se falasse algo pesado poderia comprometer a situação.

Horton se virou de lado e levou a mão à nuca. Irritadiço e quase sempre inflexível, o xerife tinha de tomar uma decisão da qual nunca gostou: deixar que outros andassem por seu território e tomassem as rédeas de um caso. Ele respirou fundo. Já recebeu o contato do capitão Brass e caso recusasse ajudar os policiais poderia se encrencar depois.

— Vão pro necrotério logo. — disse, erguendo a mão direita como se quisesse tirá-los de sua sala o quanto antes.

Após um agradecimento meio seco, Grissom e Sara deixaram a sala e pediram ao secretário para levá-los ao necrotério. Detalhe era que os repórteres ainda estavam presentes, apenas esperando por alguma informação. Quando o sargento e a detetive chegaram ao local encontraram a legista acessando o computador e um corpo na mesa, já coberto. Ao ouvir a movimentação, a mulher se virou e os encarou desconfiada.

— Boa tarde, quem são vocês? — perguntou ela ao apontar para eles. Um pouco magra, de feições asiáticas, cabelos curtos da cor preta, cor idêntica ao de seus olhos. Aparentava ter quase a mesma idade do xerife, um pouco menos. Usava óculos retangular e vestia as roupas características de uma legista.

— Sargento Grissom e detetive Sidle. — Ele apontou para os dois — Somos responsáveis pelo caso do homem que morreu hoje pela manhã.

A mulher mais velha ergueu as sobrancelhas.

— Ah, sim. — Ela se levantou e foi ao encontro dos dois — Bem, eu sou a doutora Janice Wei, a legista-chefe daqui. — Apresentou-se, e depois um breve contato visual, encarregou-se de se aproximar do corpo envolto em um tecido — Anos trabalhando com os mortos e essa morte está virando a cabeça da cidade, mais do que o comum. Eu nunca vi tanto repórter acampando em Cold Springs. — Reclamou.

— Problemas de cidade pequena. — Sara repetiu as palavras do parceiro, que ficou surpreso.

— Pois bem, — falou a doutora, retirando o tecido do rosto da vítima — Esse é o homem de vocês. Os peritos fizeram o procedimento padrão: tiraram fotos da cena do crime, recolheram amostras e tiraram as digitais. Está tudo ou quase tudo naquela pasta ali. — Wei se aproximou de sua mesa, pegou a pasta e a entregou para a detetive — Causa da morte: hemorragia causada por múltiplos ferimentos com um objeto cortante.

— Ryan Park. — Sara comentou para que Grissom a ouvisse — Tinha 52 anos... jornalista...

— Merda. — Irritado, o sargento lamentou — Tinha que ser logo um cara desse?

— O nome dele foi revelado para a imprensa? — perguntou Sara à legista.

— Não que eu saiba. A ordem era informar tudo primeiramente a vocês. — Janice deu de ombros.

Grissom caminhou para perto do corpo e afastou o tecido até a barriga. Observou o rosto da vítima e franziu as sobrancelhas.

— Tem uma foto dele? — Ele estendeu a mão para a parceira, que procurou no montante e entregou para ele. O sargento comparou a foto do registro da vítima com o corpo.

— O que foi? — Curiosa, Sara se aproximou dele.

— Não sei, eu... — Grissom piscou várias vezes — Esse rosto me parece familiar.

— Ele era jornalista. Talvez vocês dois tenham se encontrado em um de seus casos.

O sargento atentou para a inscrição feita em sangue na testa da vítima. Número onze, onze horas, a décima primeira vítima.

— Hora da morte? — perguntou o homem, mas já sabendo a resposta.

— Provavelmente às onze. Pelo que sei o xerife já mandou uma viatura à procura do suspeito.

— Acho bem difícil que o achem a essa altura. — Lamentou ele — Mas... não custa nada. — Ele se voltou para a legista — Tem alguma sala onde nós podemos trabalhar?

— Olha, é melhor vocês falarem com o xerife. Meu trabalho se limita a lidar com os mortos. — Wei brincou.

Aborrecido, Grissom olhou para Sara, indicando que já estava de saída. Após um breve agradecimento seco, o sargento fez o seu caminho para deixar o local. Confusa, ela deixou o necrotério também, caminhando rápido para alcançá-lo.

— Cadê os peritos desse lugar? — questionou irritado a olhar para todos os lados.

— O xerife disse que o perito teve de levar as amostras recolhidas na cena para Reno. — Ela respondeu quando o alcançou — Você não ouviu?

Ele deu meia-volta para encará-la. Parecia um pouco desnorteado. Poucos segundos encarando-o, Sara percebeu aquilo.

— Droga. — resmungou em baixa voz, levando a mão à bochecha esquerda. Ele desviou o olhar de Sara e ficou encarando o chão por alguns segundos.

Não dava para ficar vendo ele daquele jeito. De alguma forma vê-lo no estado em que se apresentava doía nela. Depois de viver todo um contexto do caso em pouco tempo, ela era a única pessoa que podia compreender ao menos um pouco o que o parceiro sentia. Sara pensou em dizer algo para mantê-lo na linha da sanidade, mas optou por manter a fala profissional.

— Vamos falar com o-

— Pode falar com o xerife? — Ele ergueu a mão esquerda, interrompendo-a — Você se deu melhor com ele que eu.

Mais confusa ainda, ela franziu o cenho, chegando a hesitar no momento seguinte:

— T-tá, mas o que você vai fazer-

— Vou voltar para o necrotério. Acho que deixei algo escapar. — Respondeu, já voltando para a sala anterior.

Sara o observou fazer o caminho de volta. Definitivamente ele não estava bem. A tristeza que sentia pelo erro dele com ela não afastava a presente aflição do caminho que Grissom estava tomando. Se os dois continuassem da mesma forma algo ruim iria acontecer, isso evidente, perigosamente evidente.

O sargento estava de volta ao necrotério para a surpresa da legista-chefe. Grissom pediu permissão para analisar o corpo da vítima novamente e assim foi feito. Aproximou-se lentamente do corpo, retirou o tecido de seu rosto e ficou a observá-lo. Como solicitado anteriormente, seu corpo não foi lavado quando a análise dos peritos terminou. Grissom tirou o terno, pediu por um jaleco à legista, pegou as luvas de látex na caixa e vestiu-os.

Ele abriu a boca da vítima, atentando para os dentes um pouco amarelados. Procurou pelo relatório, mas se esqueceu que estava com Sara — Ele era fumante? — perguntou ao se virar para a médica.

— Sim. — Wei respondeu.

O sargento voltou-se para a vítima.

— Park tinha cinquenta e poucos anos... — Grissom moveu a cabeça para o lado, à procura de marca de uma possível luta. Depois pegou em cada braço e os observou — Sem marcas visíveis de luta corporal, o que indica certa confiança da vítima para com o assassino — comentou em voz alta — Ainda que tivesse entrado numa briga com ele, Park levaria a pior. Algum problema de saúde?

— Não. Ele fumava, mas sabia maneirar.

— Talvez estivesse fazendo alguma reportagem, deixou se levar pela conversa do assassino e... — Ele se interrompeu, afastando-se do corpo. Planejou ficar mais tempo ali, mas não tinha o que fazer por enquanto. Precisava continuar investigando, ou seja, tinha de ficar perto de sua parceira — É... obrigado. — Agradeceu meio sem jeito. Tirou as luvas e o jaleco, pegou seu terno e saiu de lá. A imagem daquele rosto não sairia de sua mente tão cedo.

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A equipe de duas pessoas chegou à cena do crime junto do xerife. O lugar era bonito, de tirar o fôlego; uma pena que foi manchado com sangue de alguém. O frio continuava a castigar, dessa vez com algumas brisas e rajadas curtas. O sargento e a detetive usavam sobretudos para se protegerem da baixa temperatura. Já o xerife usava suas roupas tradicionais, incluindo a grossa jaqueta da polícia.

Na cena do crime, as faixas amarelas foram postas em suportes improvisados. Lonas cobriam o local de onde encontraram o corpo de Ryan. De longe, algumas pessoas observavam a presença dos policiais. Não dava para saber se eram comuns ou repórteres. Quanto mais longe deles melhor, era o pensamento de Grissom.

— Uma mulher achou o corpo quando passava por perto. — Horton falou enquanto retirava a lona.

— Ela chegou a ver o assassino? — Perguntou Grissom.

— Não. Não viu nada nem ninguém mais quando chegou.

Sem responder o sargento "passeou" no local cercado pela faixa amarela. Mãos no bolso e cara fechada, Grissom atentava para todos os pontos distantes e próximos. Procurou por guimbas de cigarros, mas não encontrou nenhum como informado no relatório da cena do crime.

— Essa área tem bastante movimento pela manhã ou na hora em que Park foi assassinado? — Sara dirigiu-se para perto do xerife.

— Não. — Horton balançou a cabeça — Como vocês podem ver não há muitas casas por aqui. — Ele estendeu a mão para evidenciar o local à sua volta.

— Quem mora naquela casa ali? — Grissom apontou para uma pequena casa à uns trezentos metros, sudoeste de onde eles estavam.

— Mary Jenkins e o filho Douglas. Nem ela nem o filho foram encontrados para dar depoimento.

O sargento olhou para a parceira, que pareceu não muito satisfeita com a resposta do policial.

— Câmeras de segurança da rodovia ou das ruas? — O sargento gesticulou com a mão direita enquanto a outra se fazia presente no bolso.

— Foram para análise, mas como você pode observar, não há câmeras nessa área num raio de no mínimo, um quilômetro. — Ele repetiu a expressão de antes com quase o mesmo tom sarcástico de antes.

— Que ótimo. — Grissom ironizou em voz baixa. Sozinho, caminhou para perto do lago. Cruzou os braços e inclinou a cabeça para cima.

Observando aquilo e mesmo querendo ajudar, Sara não se aproximou do parceiro. Ela sabia que, de alguma forma, Grissom estava perdido, quase desolado. O peso das falhas em encontrar respostas sobre o criminoso aumentava cada dia mais e se espalhava para seus ombros, também.

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Eles conseguiram uma sala para trabalhar, graças à persuasão de Sara para com o xerife. Os peritos retornaram com os objetos encontrados na cena do crime, assim como as roupas que Ryan usava no momento do crime. Segundo o relatório, nenhuma digital foi encontrada no local, nem mesmo na barra de ferro próxima à vítima, adjacente ao lago. As fibras encontradas ainda estavam sob análise, assim como possíveis rastros de DNA do assassino. Não foi encontrada a identidade de Park, como era costumeiro encontrar nas outras vítimas, o que reforçava o palpite de Grissom, no qual o jornalista participava de alguma investigação. Os outros objetos foram disponibilizados para a dupla, que após ouvir as palavras do perito, começaram a investigar o "passado" até o momento do crime.

Sara foi a primeira a "revirar" os pertences que Park carregava consigo. Ela abriu a bolsa e dispôs tudo o que nela continha. Pegou o celular, um livro de um filósofo marxista, uma carteira com sessenta dólares, um maço de cigarros com isqueiro, um gravador, e uma caderneta com caneta. Os objetos que mais lhe chamaram a atenção foram o celular e a caderneta, da qual ela começou a folhear.

— Deixa eu ver... Tem umas anotações interessantes aqui. — disse após passar as anotações mais antigas — É de umas semanas atrás.

— Sobre o quê? — perguntou ele, que estava prestes a pegar a bolsa.

— Tá falando sobre... — Ela franziu o cenho — Alguns nomes, apelidos... — Ela soltou uma breve risada — números relacionados a eles...

— Devem estar coligados. — Assentiu e voltou a olhar para a bolsa. Sara estranhou aquilo, já que acabara de revistá-la.

— Achou alguma coisa? — Desconfiada, ela o questionou.

— Só estou me certificando. — Ele respondeu, checando cada pequeno bolso que encontrava. Tinha mania de verificar algo que lhe chamasse atenção, ainda que outra pessoa o tivesse feito. Segundos após dizer aquilo, Grissom arqueou as sobrancelhas. Ao sentir algo entre o tecido que forrava a bolsa, ele pegou o item escondido nele.

Era um papel dobrado, o que permitiu ser "negligenciado" pelos outros. Quando deixou o papel sobre a mesa, Grissom tratou de pegar e vestir as luvas de látex que pedira ao perito. Na mesma hora Sara deixou a caderneta de lado e se aproximou do parceiro. Com cuidado, Grissom abriu o papel, fortemente marcado por uma cor vermelha. Ele se aproximou e tentou sentir o cheiro do papel. Pelo tamanho, deduziu que ele tenha sido retirado da caderneta.

— Sangue, não tenho dúvida. — falou para ela. Ao tentar identificar o que estava no papel, ele franziu as sobrancelhas.

— Que merda é essa? — Ela perguntou em voz baixa. Aquilo não poderia pertencer ou ter sido feito pela vítima, seria "bizarro" demais.

O papel foi marcado por vários pontos, feitos possivelmente com o sangue da vítima. Devido à dobradura ocorreram algumas manchas na folha, mas nada que prejudicasse a compreensão da bizarra "mensagem". Não poderiam estar ali por qualquer motivo aleatório. Grissom não respondeu, na verdade, ficou em silêncio por um bom tempo. Ele apoiou suas mãos na mesa, em volta do papel, e tentou se concentrar, montar uma rede de hipóteses para prosseguir com aquilo. Sara não insistiu com a pergunta; preferiu esperar por ele.

— É braile. — Grissom falou, seus olhos ainda se fixavam no papel.

Ela franziu o cenho. De tantos tipos de mensagem que podiam surgir, nunca poderia imaginar que a mensagem viria codificada no alfabeto dos cegos.

— Não vai me dizer que...

— Não, não acho que Zodíaco seja cego. Depois de tudo que ele fez é muito improvável. — O sargento dirigiu seu olhar à parceira — Ele pode ter feito isso para evitar que identifiquemos sua caligrafia. É bem mais fácil se comunicar desta forma.

Após isso, Grissom retirou a luva de látex e caminhou para perto do computador para pesquisar na internet o alfabeto em braile. Sara atentou para o bilhete. As mais diversas perguntas invadiram sua mente sobre os objetivos de Zodíaco e o que o levou a tomar uma decisão como aquela. Ela olhou para o parceiro; estava concentrado demais, vidrado na tela do computador em busca da tradução daquela mensagem.

Ele nem pediu ajuda. Se levantou e vestiu a luva novamente e pegou o bilhete. Trouxe-o consigo, pegou um papel e caneta e começou a traduzir a mensagem, tudo em silêncio. Estava tão centrado que tecnicamente se "esqueceu" da presença de Sara ali. Só falou com ela ao terminar de traduzir o bilhete, um minuto depois.

— São números. — falou baixo.

Tudo o que foi identificado no papel foram três números. Dois de dois dígitos e um de quatro dígitos. Estavam ordenados horizontalmente, como se estivessem dispostos não aleatoriamente, mas com um motivo bastante específico.

— O que é isso? Um código... uma data?

Grissom olhou para ela momentos depois que ela terminou de falar. Sua mente estava tão focada em traduzir a mensagem que mal pensou em seu sentido. Ela também o encarou. Em silêncio, os dois ficaram daquele jeito até que o sargento se voltou para o bilhete traduzido.

— Uma data... É uma- — Ele parou de falar de repente.

— O que foi, Grissom?

O homem se virou para ela com um olhar vazio. Parecia ter ficado pálido de uma hora para outra.

— Não... não... não... — Quase sussurrou. Ele correu para o computador com certa urgência.

— Ei! — Sem entender aquela explosiva reação, Sara foi atrás dele.

Sem perder tempo, Grissom usou a ferramenta de pesquisa da internet e digitou o nome de Ryan. Após isso fez uso de ferramentas avançadas e procurou incansavelmente por uma resposta. Ela pensou em tocar no ombro dele, na tentativa de trazê-lo de volta e pedir explicações, mas viu que seria inútil. Não demorou para que ele largasse a mão do mouse e levasse as mãos ao rosto. Então balançou a cabeça repetidas vezes.

Sara tentou ver o que ele achara na internet, porém, Grissom levantou quase bruscamente da cadeira.

— Não, isso- isso não pode ser verdade... — falou sozinho.

— Grissom, dá pra você me dizer o que tá- — Ela reclamou, mas quando finalmente viu o conteúdo presente na tela, calou-se assim com ele.

"Professor de universidade é acusado de matar mais de dez pessoas" era o título da matéria de alguns anos atrás. O subtítulo, logo em baixo, dizia: "Policial é torturado e mantido refém".

— Grissom... eu... — Sem jeito, ela se virou para ele.

— Olha. — Encarando-a com aqueles olhos vazios novamente, ele voltou a apontar para a tela.

Ao olhar para a foto da cena do crime, que era a casa de Albert Stone, Sara atentou para as fotos seguintes. Viu o interior da casa e os tenebrosos porão e sótão. Somente ao olhar para aquelas fotos um frio percorreu sua espinha. Logo depois outra foto chamou sua atenção. Era a imagem de um homem sendo levado pela ambulância. A foto foi capturada a certa distância, mas para ela, foi possível identificar a pessoa naquela maca.

— Você... — disse em voz baixa quando se virou para ele.

— Aquele desgraçado lá no necrotério foi o responsável por cobrir o caso. — Grissom apontou para trás — Ele teve a maldita "sorte" de ser o único que conseguiu essa foto... essa foto minha. — De uma hora para outra, o sargento mudou o semblante irritado para alguém totalmente desnorteado.

Sara notou na mesma hora que ele sentiu o efeito que o bilhete transmitiu. Pouca coisa escrita, mas que foi o suficiente.

— Grissom. — Ela deu um passo à frente para alcançá-lo, mas ele recuou.

— Essa... essa data foi o dia exato em que fui pego. — Apontou meio incrédulo para o bilhete escrito em sangue — MISERÁVEL! — Grissom não se conteve e exclamou sem o mínimo de moderação.

— Se acalma, Grissom! Com um pouco de pesquisa é possível encontrar essa informação! Não tá vendo que ele quer mexer com a sua cabeça e desviar seu foco?

— Ele conseguiu. — O sargento assentiu bruscamente. Seu tom soou sarcástico até — ELE CONSEGUIU! — Apontou para o chão com força.

Silêncio tomou conta da sala. Os dois se encararam nos olhos. Enquanto um mostrava-se indignado, até mesmo enraivecido, a outra estava chocada, sem reação para o que viu. O que imaginava de Grissom se fazia comprovado; o parceiro estava no limite e logo iria sucumbir.

Ele engoliu em seco e segurou algo parecido com a vontade de chorar. Aquelas cenas voltaram em sua mente como um gatilho. Zodíaco acertou um golpe baixo em Grissom que o pegou em cheio. Conseguiu alcançar uma área sensível de seu passado, do qual conseguiu se abrir (com muita dificuldade) para sua parceira. Imaginou-se desprotegido, apavorado com o que mais o assassino pudesse ter conhecimento.

Grissom deu meia-volta e bateu na parede com a mão direita fechada. Segundos depois o fez novamente. Abatida por vê-lo assim, ela caminhou para perto dele e disse-lhe baixo:

— Temos que falar com o Brass. — Foi a primeira vez que ela falou de forma tão doce desde aquele domingo.

Ao ouvi-la, ele franziu as sobrancelhas e retirou sua mão da parede.

— Não. — Curto e grosso, ele saiu de sua posição e a encarou — Não vamos falar nada ainda.

— O quê?! — Ela arqueou as sobrancelhas — Grissom você não tá vendo que isso é grave?!

— Se o Brass souber disso ele vai querer interferir e me tirar do caso definitivamente! — respondeu ele, inconformado.

— Já parou pra pensar que o Zodíaco pode estar visando você?! — Inconformada, Sara ergueu os braços.

Grissom pensou em responder, mas se calou quando estava prestes a fazê-lo. De cara fechada, ele suspirou e olhou para o outro lado.

— Isso não é sobre você ficar no caso ou não, é sobre a sua vida, droga!

Irritado, Grissom deslizou a mão direita sobre o rosto e olhou para todos os lados. Uma onda de ansiedade tomou conta dele. Ficou desorientado, ao mesmo tempo em que se remoía de raiva e indignação. O turbilhão de sentimentos se transformou em medo, angústia, um coquetel mortal.

— Ele pode vir, então!

Sem ao menos encará-la, ele se afastou e caminhou para a porta. Deixou a sala em seguida.

"Você é imperfeito."

Não era um homem quem falava com ele, era um demônio; um monstro capaz de agir da forma mais cruel e sádica possível.

"É o meu dever corrigir o que está errado."

O cheiro do sangue invadiu suas narinas. Teve que parar de caminhar, pois sentiu-se tonto. Apoiou-se na parede e se encostou nela. Observou suas mãos úmidas de suor e fechou seus olhos.

"Você é um privilegiado, senhor Gilbert. Irá desfrutar a mudança que trarei a você. O senhor será a minha maior criação, deveria me agradecer."

— Ele não está aqui. Ele não está aqui. — repetia para si mesmo. Lentamente se recompôs e olhou para trás, com receio de que ela estivesse por ali, vigiando-o.

O fato de Zodíaco saber sobre aquele doloroso passado e usá-lo para o atingir abalou as estruturas do sargento. O trauma ainda era presente, bastou apenas um gatilho para deixar Grissom desse jeito.

— Vamos. — disse em voz baixa, na tentativa de se erguer.

Ele sentiu uma pontada em sua cabeça. Tentou inutilmente parar a dor pressionando a mão sobre a testa. Encostou-se novamente na parede e aos poucos sentou-se no chão.

Os olhos do demônio eram vermelho escarlate. Ele olhava para o policial como quem estivesse pronto para fazer sua refeição. O caçador que virou a caça estava assustado, terrivelmente assustado. Preso numa cama tentando desesperadamente sair do covil diabólico, seu coração palpitava rápido assim como de um cervo que enxergava a morte certa. Seria capaz de ter um colapso a qualquer momento. Assim como cervo, a morte para ele parecia-lhe próxima, prestes a chamá-lo.

Torturas físicas e psicológicas o atormentavam em quase todo momento. Ele sabia que iria sucumbir, mas uma força interior o impedia de aceitar tudo aquilo ou desistir de lutar, mesmo que fosse inútil.

Juntando as últimas forças que tinha, a caça se soltou das amarras e derrubou o demônio. Tomou fôlego novamente e o empurrou "até o abismo". Depois desse evento borrões tomaram sua visão; sentiu-se zonzo e já não sabia mais o que fez em seguida. Pediu por ajuda mesmo? Desmaiou? As visões seguintes se deram num quarto de hospital. Branco, fresco, que emanava o cheio típico do lugar. E lá estava ele novamente numa cama e aquilo não era bom.

Os borrões o levaram a enxergar uma figura que vestia um jaleco branco que entrou no quarto. Mal viu seu rosto direito, teve um ataque de pânico. Os dias seguintes foram melancólicos. Não falava direito e passava boa parte do tempo encarando o nada. O tempo passava ele continuava o mesmo.

Sua melhor amiga o visitava sempre. Não demonstrava isso exteriormente, mas no fundo sentia-se revoltada consigo mesma por não estar lá para salvá-lo. Ela não era do tipo de pessoa que se abatia fácil, mas aquilo a pegou de jeito.

"Ei, Gil, sou eu." dizia ela toda vez que se aproximava dele.

O olhar vazio dele, aos poucos, se dirigia a ela. Na maior parte das vezes ele não respondia.

Nem a detetive nem ninguém se atrevia a falar alguma coisa relacionada ao caso em que ele trabalhava. Havia o receio de uma resposta indesejável ou até mesmo violenta.

"Nós estamos com saudade." Ela pegou sua mão e apertou firme "O pessoal não para de falar de você, Gil."

Ainda assim aquele gesto não fez efeito; parecia mais que ela falava com um corpo de mente distante. Houve momentos em que seus olhos começavam a marejar, mas ela segurava o choro para se mostrar firme, ainda que no fundo lamentasse impiedosamente.

"Vamos, reaja. Ele não está mais aqui."

Foi nesse momento que o caçador olhou para a amiga. Não expressou reação, mas o coração saltou rapidamente. Ela não queria falar aquilo, mas o amigo não reagia para quase tudo. Foi a pior opção para ela, mas foi um mal necessário. Então aproveitou o momento.

"Você tem que se erguer, Gil. Não deixe que ele vença." Ela envolveu a mão dele nas suas.

Ele olhou para sua mão coberta por algum tempo. Só depois moveu alguns dedos do membro o que fez a amiga respirar um pouco mais aliviada. Já era um começo de um longo caminho.

Grissom abriu os olhos e se recompôs. Se deu conta que estava sentado no chão e desorientado. Respirou fundo e se levantou.

— Ele não está aqui.

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Ao voltar para a sala de Horton, encontrou o sargento falando com o xerife. Desta vez os dois não pareciam discutir, estavam apenas falando alto.

— Olha só, envie um alerta para Reno e as outras cidades vizinhas. Homem branco, de vinte seis e a quarenta anos, alto, porte médio. Se virem ele carregando um relógio de bolso dourado e agir suspeito abordem ele na hora. — Convicto, o sargento apontou para o homem mais velho.

— É o quê?!

— Foi isso o que eu falei. — respondeu como se fosse uma ordem — Coloquem os homens para correr. Esse cara é uma ameaça.

— Agora que você me fala isso?! — O xerife se levantou da cadeira — Ele pode atacar novamente?

O sargento pensou por alguns segundos. Mentir ou dizer a verdade?

— É uma possibilidade. Ainda por cima, ele pode estar por perto. — disfarçou, ainda que houvesse um pingo de verdade em suas palavras.

— Droga, o evento de sábado! — Irving bateu a mão direita na mesa.

— Que evento?! — Aflito, retrucou na mesma hora.

— Um evento beneficente no parque. — Ele apontou para o parque — Muita gente daqui e de fora vai vir. Mulher, criança...

— Por que não falou antes?! — Grissom levou a mão à boca e se virou de lado. Acabou encontrando a detetive a encará-lo — E agora? — perguntou ele, mas sem muita perspectiva de resposta.

— Acha que ele pode estar nesse evento?

— Eu não sei, Sara. Eu não sei. — Desta vez o sargento levou as duas mãos ao rosto — Ele fez algo diferente, quis me provocar. Isso... — Ele balançou a cabeça — foi algo completamente fora da rotina dele. — Grissom esfregou a testa rapidamente.

Percebendo aquilo, Sara ficou preocupada com ele.

— Você tá... bem? — perguntou em voz baixa. Depois de tê-lo visto daquele jeito na outra sala, tinha medo que ele não estivesse bem para continuar a investigar o caso nesse dia.

— Como é esse evento, xerife? — Ele não respondeu à detetive, que ficou um pouco indignada por aquela atitude.

— Vai ter algumas barracas pra vender coisas... acho que vai ter um leilão e esse negócio de serviço social também. — disse, mas sem muita certeza — O dinheiro vai ser destinado para a caridade da região.

— Gente rica vai estar lá? — falou Grissom olhando para o policial.

— Isso é óbvio. — Horton deu de ombros.

Seria um tiro no escuro, só que os dois não tinham muitas escolhas ou tempo para medir outras opções. Se Zodíaco foi ousado o suficiente para provocar Grissom, poderia ser audacioso em aparecer num evento como aquele. Tudo indicava que o serial killer era alguém rico e até uma pessoa de influência. Não precisaria de muito esforço para aparecer lá.

— Acho que temos um novo destino para amanhã. — Grissom se dirigiu a Sara, que assentiu, porém ainda estava preocupada.

Ele atentou para a serenidade em seu rosto. Ao contrário dele, Sara parecia estar calma apesar da situação adversa. Vê-la assim aliviou um pouco seu estresse que seu mundinho caótico lhe passava.

— Fique alerta, xerife. Por hoje vamos continuar investigando a morte do Park.

Horton pareceu não ter gostado de receber uma informação daquela, todavia não podia fazer mais nada sem a direção dos policiais de Vegas. Os dois saíram da sala por indicação do sargento.

— Vamos voltar para aquela sala e tentar achar um possível hotel que Ryan possa ter estado.

— Isso pode levar horas, Grissom. — Ele, que já caminhava, parou e deu meia-volta. A detetive não estava satisfeita com sua opção.

— É um risco. O que você sugere, então? — Um pouco impaciente, Grissom ergueu os braços.

— Ele era jornalista. — Sara se enfatizou.

— Não. — Ele balançou o indicador — Eu não vou falar com eles. — Foi curto e grosso.

— Ah, então você vai deixar de seguir um caminho que pode ajudar a gente porque tem birra com repórter?!

— Eles vão fazer de tudo pra arrancar informação da gente, Sara! O que vai acontecer se- — Ele olhou para o corredor que dava na área principal da delegacia — eles descobrirem que tem um serial killer à solta?! — retrucou em voz baixa, mas duro o suficiente.

Eles não sabem disso! O que eles querem saber apenas é do corpo que está lá no necrotério!

— Essa gente vai querer saber porque ele foi morto. Por que, hein?! Por que ele estava escrevendo uma história, se arriscou muito e morreu? — A voz do sargento saiu quase sarcástica.

Após uma pausa e olhares trocados, Grissom continuou:

— Eles vão cavar mais fundo, vão dar um jeito de descobrir a história de uma forma ou de outra, se já não sabem. — Ele falou com toda a certeza — Me desculpe se não sou como o Ivanenko, está bem? Só estou tentando não estragar tudo de novo. — disse olhando para o chão e depois para ela.

Sem dizer mais nada, Grissom voltou para a sala do xerife.

Zangada num primeiro momento por causa da comparação entre ele o detetive, este sentimento deu lugar à pena. A garganta coçou para lhe dar uma resposta à altura, porém, ela se conteve. Lembrou-se que Grissom estava em seu limite.

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O noticiário da tarde dava destaque para a morte de um homem que ainda não teve a identidade revelada pelos policiais. A vítima sofreu uma morte brutal que chocou a pequena comunidade de Cold Springs. A notícia teve algum destaque nos canais da Costa Oeste, com mais presença na região de Reno-Sparks. A verdadeira bomba viria quando o nome e a profissão de Ryan surgisse na mídia.

O sargento e a detetive conseguiram descobrir a pousada na qual Park se hospedara, ainda em Cold Springs. Em um quarto simples, foi encontrada uma bolsa de viagem, apenas. Junto do perito da polícia local, eles praticamente "reviraram" o espaço e viram de mais relevante uma câmera fotográfica, um caderno e um notebook, que por sorte, estava ligado. Começou, então uma busca por informações que possivelmente ligariam o jornalista a Zodíaco.

— Me deixe ver aquela caderneta novamente. — Grissom pediu ao perito que estava de posse do objeto.

O sargento leu aqueles nomes e valores dispostos nas páginas mais recentes. Em silêncio, sentou-se na cama e fez uso do notebook conectado à internet que o perito trouxe. Ele e o outro perito que se encontravam no local além de Sara ficaram curiosos com a reservada atitude dele. Vendo aquilo, pediu para os outros dois continuarem analisando o notebook da vítima.

— Cassinos. — disse o sargento após alguns minutos, chamando a atenção de todos — Park investigava um suposto escândalo com empresários e donos de cassinos.

— Como descobriu isso? — questionou Sara.

— Conheço alguns figurões. Esses apelidos apenas trouxeram os nomes à tona. — Assentiu — Garanto que Ryan estava se metendo em um mar de tubarões. Não duvido que encontrem mensagens ou ligações de ameaças pra casa dele. — Ele se levantou da cama e entregou a caderneta ao perito — Imagino que... de alguma forma, Ryan entrou em contato com o assassino em busca de informações sobre essa investigação, ou o assassino entrou em contato com ele para lhe mostrar uma nova história.

— Se essa investigação partiu do assassino, então Ryan mordeu a isca e foi morto por isso. Ele trabalhava para algum jornal?

— Era freelancer há alguns meses. — respondeu Grissom — O desgraçado pensou em fazer a história da vida dele e vendê-la pra um jornal grande. — lamentou.

— Tudo indica que Zodíaco pode ser um empresário ligado a cassinos, ou alguém próximo a isso. — Sara falou o apelido do serial killer apenas quando estava próxima ao parceiro — Sabemos que ele é rico, não ia ficar surpresa se tivesse um cassino em Vegas.

Notas finais
É isso aí pessoal. Tá chegando o encontro das três figuras. O Zodíaco está cada vez mais ousado, fez questão de "lembrar" ao Grissom o que houve com ele. O assassino fez de propósito para deixá-lo transtorná-lo. Ele soube acertar o ponto exato daquela ferida, foi golpe baixo. A morte do Ryan ainda vai render algumas dores de cabeça. O palpite que o Zodíaco estará no evento está certo (só eles que não sabem kkk). É arriscado, já que eles não tem certeza, mas como não tem muitas escolhas, preferiram não perder a oportunidade. Eu não vou falar nada, mas o próximo capítulo promete, galera. Não posso nem dar dica sobre o que vai acontecer, fui proibida por mim mesma hahaha! Tá muito legal o cap, gostei muito de escrevê-lo, garanto que vale a pena. Muito obrigada a todos que leram ♥ Beijos e até o próximo capítulo!