Manhunters

91 Final de semana


Notas iniciais
Fala galere, eu voltei aqui do nada de boas né pra postar mais um capítulo pra vocês. Espero que agora vá, né, porque eu tenho feito umas alterações loucas em alguns capítulos, mas está tudo sob controle. Outra coisa, enquanto eu não escrevo para esta fic eu tento escrever para a outra fic que eu comentei com vocês. Obrigada a todos que estão lendo, show de bola e vamos ao cap!

— Eu ganhei de novo! Tá me devendo duas pizzas já.

— Tá bom. Eu vou comprar aqui e pedir pra enviarem por correspondência. — A morena respondeu sarcástica à irmã.

Final de noite no sábado. Em vez de se entregar à bebida, o que faltava bem pouco, Sara preferiu resistir e optou por fazer outras coisas. Depois resolveu falar com alguém de confiança, a pessoa que melhor a conhecia, mas que infelizmente estava longe demais. Sara ligou para Annastasia torcendo para que a irmã não estivesse fora de casa, já que pretendia passar algum tempo trocando algumas palavras com ela.

As duas iniciaram uma chamada por voz em um programa de computador e com o tempo começaram a brincar com alguns jogos online. O escolhido da vez era dominó, bem recebido pelas duas que disputaram ao menos umas quatro partidas.

— Eu sou uma pessoa paciente. Posso esperar a minha irmã voltar para cá. Só espero não morrer de fome.

— Coitada de você, então. — A mulher respondeu rindo antes de efetuar sua jogada.

Não acredito que minha própria irmã faria isso comigo.

— Sinto muito, maninha.

As duas prosseguiram em jogar o restante da partida em silêncio, veio o final do jogo e finalmente Sara ganhou. Ela soltou um grito abafado em comemoração e ergueu o punho para o alto, desejando que Annie a visse.

Não fica comemorando, não, isso foi sorte. Você ainda me tá me devendo.

— Nossa, quanta sorte que eu tenho. — Ela ironizou.

Não disse? — Annie se segurou para não rir.

— Eu vou mudar de jogo, só estou me dando mal nesse aqui.

— Ah não! — Ela protestou como uma criança que estava prestes a perder a diversão — Vamos continuar com esse. Eu deixo você ganhar agora, se é o que tá querendo.

— Vá se ferrar, Annie. — A morena disse em tom de deboche.

Já me ferro muito por aqui, não vou sentir algo a mais. — Annie retrucou do mesmo jeito.

— Falando nisso, como é que tá o trabalho aí? Não foi demitida, foi?

Ah, está bem. Odeio quase todo mundo e às vezes sinto vontade de por fogo naquele prédio, mas está tudo bem.

— Oh, nada de mais.

Pise lá naquele lugar infestado de publicitários e tudo de ruim que imaginar para ver se não vai pensar o mesmo que eu.

— Annie. Você é uma publicitária.

Exatamente! Por isso eu posso falar com clareza.

— Troca de profissão comigo, então.

E carregar uma arma pra lá e pra cá?! — Exclamou — Não parece uma ideia ruim... — Ela comentou claramente com segundas intenções.

— Esquece.

Ah! — Annastasia deixou-se levar pelo riso — E o seu trabalho, já que estamos falando nisso? Tá tudo bem?

Estava tudo péssimo na verdade, mas Sara não tinha coragem de admitir isso para a irmã, ainda que fosse uma pessoa íntima. Annie, acima de tudo, sempre foi contra seu trabalho em Vegas e contar o que estava se passando iria apenas dar combustível a ela para continuar com a pressão.

— Tá indo.

Tá indo...?

— Tá indo, Annie. Esse caso é complicado, não vamos resolvê-lo da noite pro dia.

Eu sei! Só queria saber se está ocorrendo tudo bem com você.

Sorte dela que a webcam não estava ligada ou sua irmã viria o semblante triste que se formou. Sara fechou os olhos por alguns instantes e se preparou para continuar disfarçando que estava bem com ela.

— Tá sim, mana.

Não senti muita confiança nessa resposta.

— Eu tô cansada, Annie. Fui no enterro de uma pessoa hoje, o clima não tá muito bom.

— Por isso não quis ligar a webcam? Ou porque o teu namorado está aí na cama com você? — Annie nunca perdia a oportunidade de alfinetar Grissom.

— O quê?! Não! Eu tô sozinha, tá? Falei isso quando te liguei! Acha que ele ficaria esse tempo todo calado se estivesse aqui comigo?

— Eu não sei!

— Quando você vai parar de destilar ódio pelo meu namorado, Annie? — Sara nem percebeu que falou “meu namorado” de um jeito tão natural.

— Quando você voltar pra cá sã e salva. — Annastasia respondeu como se estivesse sorrindo.

— Sei que você não vai aceitar o nosso relacionamento, mas ao menos eu peço que respeite isso, tá bom?

— Não tenho outra escolha, né? — Annie retrucou áspera.

— Já tive que encarar muita coisa, como por exemplo, o Hank bem aqui em Vegas.

— Aquele filho da puta foi atrás de você mesmo?! — Ela mudou de humor de uma hora para outra.

— Ele veio. Não tinha tanta fé que ele viria, mas aconteceu.

— Que desgraçado. Ele fez alguma coisa com você, Sara? Ele te ameaçou?!

— Não... — A detetive suspirou e depois se ajeitou na cama — disse que não tinha acabado ainda, só.

— “Só”?! Sara! Olha isso esse Hank é louco, pode tentar fazer algo pra te machucar! O teu namorado sabe disso ao menos, não sabe?

— Eu ainda não contei. — Ela respondeu bem baixinho.

— Hã? Como assim?! — Annie encerrou a partida imediatamente — Por que ele não sabe sobre isso? Logo a pessoa que ao menos deveria estar sabendo?

— Ainda não consegui contar isso a ele!

Por que não?! Tá com medo que ele dê a louca e atire no Hank?

— Não é isso, Annie! — Sara retrucou já cansada de manter aquela discussão.

Vai me dizer que vocês brigaram e não estão se falando. Porque eu não te entendendo, Sara! Esse negócio é sério, não dá pra saber o que aquele cara pode fazer.

— Olha só, enfrentei muitos problemas nessa semana, você nem imagina. Acho que o Hank foi o menor deles. — desabafou.

? — O tom da irmã mudou aos poucos — O que houve aí, Sar?

— É complicado de contar. Tivemos alguns problemas no trabalho, — A morena balançou a cabeça algumas vezes e tomou uma respiração longa — o Gil foi parar no hospital...

Seu namorado?!

— É. Teve problemas na perna baleada.

Do outro lado Annastasia ficou em silêncio em vez de trazer uma resposta ácida ou sarcástica contra Grissom. Ela sabia que não era a oportunidade, tampouco seria conveniente.

Que horror. — Foi a única coisa que Annie conseguiu dizer, mas que serviu de algo.

— Teimoso como é prefere continuar trabalhando de qualquer jeito. — Sara esfregou os olhos e esticou os braços — Um monte de outras coisas me deixaram cansada. Agora estou tentando repor minhas energias.

Por que não vai dormir, hein?

— Logo você me mandando fazer isso?

Por incrível que pareça, sim. Melhor você descansar mesmo para ficar atenta nesse trabalho aí.

— Annie, está tudo bem, não vai acontecer nada comigo. — Sara forçou a voz para evitar parecer hesitante.

— Como tem coragem de falar isso depois do que me contou?

— Eu disse! Vou ficar bem. Vamos fechar esse caso, sim. Só peço que tenha um pouco de fé na gente, droga. — Sara disparou — Vamos terminar esse caso, sim, e em breve você vai estar falando com uma agente do FBI.

— Ei, calma aí! — Annie ficou na defensiva — Para de falar desse jeito, vai acabar se matando por causa desse sonho!

Sara pressionou os punhos, faltando pouco para encerrar a conversa de uma vez por todas. Ela mordeu os lábios com tanta força que ficaram avermelhados, o sangue quente corria por suas veias como se estivesse preparada para revidar com força bruta.

— Posso até morrer pelo meu sonho, Annie, mas eu não vou desistir dele. — A detetive respondeu por entre dentes. Sempre se irritava quando a irmã fazia pouco caso do seu desejo em entrar para o FBI, porém não sabia se às vezes era pelo sonho em si ou porque a mãe delas era uma agente.

— Você é igualzinha a ela, Sara. — Annastasia resmungou — Acha mesmo que a nossa mãe iria querer que ficasse por aí arriscando sua vida depois de tudo que houve com você?!

— Nossa mãe ia querer que seguíssemos o nosso sonho. Você está aí, trabalhando com o que gosta, não está? Por que simplesmente não deixa seguir o meu?

— Porque eu tenho medo de te perder, DROGA! Será que é tão difícil de entender?

Depois da resposta dura Sara não conseguiu obter as palavras corretas para respondê-la, ficou boquiaberta, sem saber para qual caminho seguir. Toda a raiva, cólera que mantinha sobre ela se esvaiu como o vapor e não restou nada para ela a não ser o pesar. Annastasia nunca falava sobre perda de modo tão explícito, apenas demonstrava preocupação por um perigo iminente. Não esperava receber a declaração daquela por uma chamada de voz.

— Annie... — lamentou enquanto fechava seus olhos — Vai, liga a webcam.

Não estou mais a fim. Annastasia respondeu de cara, sendo áspera em suas palavras.

— Você não vai me perder, ouviu bem?

— Realmente espero por isso. — Sua irmã replicou em voz baixa e depois de alguns segundos continuou — Olha só eu... vou desligar. Legal jogar com você hoje, mana.

— Annastasia. — Sara insistiu chamando-a pelo nome para deixar a conversa mais séria.

— Boa noite, Sara.

— Vai mesmo terminar a noite assim?

— Eu acho melhor, antes que a gente fale coisa que não devia.

A morena soltou um suspiro longo e não o disfarçou justamente para que Annie pudesse ouvir e perceber aonde aquele diálogo as estava levando.

— Tá. — Sara acabou se rendendo — Boa noite, Annie.

— Nos falamos outro dia.

Foi Annastasia quem encerrou a chamada por voz, deixando Sara a olhar para a tela do notebook com o jogo encerrado. O semblante estava gélido, como se toda a diversão tivesse sido apagada com um balde de água fria. Não conseguia imaginar o porquê do teor da conversa tenha mudado tão repentinamente, as duas pareciam bem. Sara mediu quase todas as palavras que disse a ela temendo “ferir seu ego”, coisa antiga já que dura desde a época em que pisou na casa de Cassandra.

A detetive se levantou da cama sem pressa. De pé, esticou-se após ficar bastante tempo numa posição na qual pouco variou, depois seguiu para a cozinha sem se preocupar em calçar as pantufas. Esfregou os olhos como quem estava com sono, mas era o efeito de ficar muito tempo olhando para uma tela digital. Chegou lá e se agachou para abrir o armário e pegar uma garrafa de uísque. Levou-a consigo até a pia, onde pegou um copo e o deixou ao lado da garrafa.

Sara se apoiou sobre a superfície plana com ambas as mãos e inclinou a cabeça para baixo. Tamborilou os dedos por diversas vezes enquanto lutava consigo mesma para não enfiar toda a bebida garganta abaixo.

“Nem sempre podemos ser a melhor versão de nós mesmas no dia seguinte. Às vezes tentamos não ser uma versão merda, só segurando as pontas.”

Ao se lembrar do discuro-sermão de Cassandra a morena esboçou um sorriso, e por pouco não começou a rir. Sua mãe tinha um senso de humor afiado, ácido às vezes, mas nunca ia longe demais. Ser "encontrada” por Cassandra foi uma das poucas coisas na vida de Sara que ela não consegue achar explicações lógicas para responder como aconteceu. Se fosse religiosa diria que foi um milagre, e como não era, tentou buscar outra solução. De qualquer forma, sua vida mudou radicalmente quando achou que não merecia nada de bom do mundo.

Alguns anos atrás.

E quando a agente do FBI viu aquela garota coberta por um grosso edredom olhando para todos os lados em busca de “segurança”, Cassandra não viu outro caminho para seguir senão aquele. Alguma coisa naquela jovem, entre tantos outros, a atraía e a mulher precisava conversar com ela.

A megaoperação que visava combater uma rede envolvendo tráfico de pessoas que durava onze meses ainda estava longe do seu fim, ainda que esta operação tenha sido um sucesso. Terminou de modo dramático; eram vidas jovens em perigo e uma série de decisões bastante delicadas para serem tomadas. Todos foram salvos desta vez, o que já foi a maior vitória para os agentes.

A mulher alta, loira de cabelos ondulados e curtos e de rosto fechado se aproximou da jovem, sentada numa calçada e longe dos holofotes. Já havia sido atendida pela equipe emergencial e esperava pelo “sabe se lá o que”. Envolta na coberta, como se aquela fosse seu único meio de segurança, a jovem parecia estar atenta a tudo o que ocorria ao seu redor, e ao mesmo tempo, distante de tudo e todos. Seu olhar era vazio, de alguém apático ao que ocorrera; talvez fosse um processo automático de sua mente em tentar se esquecer dos eventos traumáticos.

Cassandra, a pedido de ninguém, se aproximou à direita da jovem e se sentou ao lado. Seu movimento atraiu a atenção da garota, que olhou imediatamente. Seus olhares se encontraram e não bastou muito tempo para que houvesse uma reação.

— Espera aí... — Cassandra franziu as sobrancelhas, imaginando se recordar daquele rosto — S-sara? — Do nada a voz dela falhou.

A jovem fez uma careta, perplexa pela mulher falar seu nome não muito natural, mas não de modo automático, como se acostumou a ouvir de quase todos os adultos à sua volta. Buscando traços em seu rosto dos quais pudesse se identificar, como os olhos profundos e o nariz fino, aos poucos sua memória retornou.

— Ca... ssandra... — Ela sussurrou — Cassandra? — perguntou ainda baixo, mas numa voz mais alterada.

Ninguém falou mais nada. Sem saber o que dizer em seguida as duas se encontraram num abraço apertado. O melhor abraço de todos. Chegou a se perguntar desesperadamente se aquilo não era um sonho ou final de um pesadelo, difícil de acreditar que era verdade. A mulher que não via há anos estava ali, abraçando-a como se ela fosse uma filha que foi levada por homens maus e estava a salvo agora. Se o destino fosse uma pessoa Sara não poderia afirmar se era alguém bom ou ruim em juntá-las num momento daqueles.

— Sara, meu Deus! — lamentou Cassandra com a voz embargada. Aquilo foi algo além do comum, a agente Ross seria uma das últimas pessoas a demonstrar emoções em um caso, ainda em público. Não era o tipo que chorava à toa, mas aquela foi sua maior exceção. Não conseguiu conter as primeiras lágrimas que desceram pelo rosto.

Ela tocou em sua nuca e a atraiu ainda para mais perto de seu abraço. Uma sensação horrível tomou conta de seu corpo pela primeira vez desde quando começou a atuar no caso. Ninguém merecia passar por aquilo, muito menos Sara.

— Lindinha, o que houve? Como... — Cassandra balançou a cabeça, incrédula por ver a jovem que conhecera ser liberta do cativeiro de homens dos quais ela investigava — Isso... foi acontecer?

— Ross. — Um homem vestido com o uniforme do FBI se aproximou na hora, atraindo a atenção das duas.

— O que foi?! — A expressão de Cassandra mudou da água para o vinho quando falou com o agente. Sem se afastar da jovem ela o encarou.

— Conhece a vítima? — Ele apontou para Sara, parecendo surpreso.

— Conheço. Na verdade, a reconheci agora. — A agente respondeu sem tirar os olhos dela. Só depois virou-se para o outro agente.

Após assentir e forçar um breve sorriso e algumas palavras de alívio pela jovem estar bem, o homem se dirigiu à Cassandra mais uma vez:

— Tem um tempo?

Cassandra sabia que não podia ignorar o aviso. O caso não estava fechado por completo e ainda haviam outros detalhes a serem abordados ali. Foi a coisa mais difícil para Cassandra fazer.

— Espera aqui, Sara. Eu já volto. Quando eu retornar quero que me conte tudo, ok? Não saia daqui. — disse a mulher enquanto se levantava e apontava para o local onde Sara estava. Ela se inclinou para a jovem e envolveu seu rosto com ambas as mãos — Você tá bem agora e só isso que importa.

A mulher se afastou de Sara. Naquele momento a jovem viu sua visão que se tornara colorida voltar ao preto e branco novamente. Nem com seus primeiros pais adotivos ela sentiu tanta segurança quanto sentiu com aquele abraço.

Este não foi o último encontro. Foi o começo de uma jornada para as se tornarem o que viria ser uma família. Ela nunca se esqueceria daquela cena, quando reconheceu a mulher que lhe dera um presente há alguns anos e que em breve lhe daria outro. De uma coisa ela foi descobrindo aos poucos: que não estava sozinha no mundo e que havia alguém disposto a lutar por ela, afinal.

De volta ao presente.

Sara estava lutando, estava mesmo lutando. Não era a garota perfeita que um dia achou que pudesse virar, reconheceu sua imperfeição e reconheceu sua constante luta para não cair. Também reconheceu que não seria sempre os dias dos quais seria melhor que os anteriores.

Depois de hesitar por trinta segundos ela abriu a garrafa e despejou o conteúdo ralo abaixo. Parou apenas quando restava apenas a medida de um copo.

— Me desculpe, amor. — Ela suspirou — Vou tentar ser melhor amanhã. — Terminando de falar ela tomou o conteúdo restante da garrafa de uma vez só.

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Domingo, 20.

As perguntas não saíam de sua cabeça, a foto, os bilhetes... Sua mente relutava para trazer sentido àquilo tudo, mas nunca dava certo.

Duas mensagens, duas datas. Um velho conhecido morto e uma rosa para alguém que não deveria ter morrido. Datas marcantes para duas pessoas, dias em que suas vidas por pouco não tiveram destinos cruéis. No meio desse caos houve um revés e de alguma forma ambos sobreviveram.

Qual o sentido dos bilhetes? Dizer que por um momento suas vidas não passavam de mero vapor d’água que em breve iria desaparecer? Que como todo ser humano a morte bateria à porta? Para piorar a situação os dois bilhetes possuíam vários significados, de morte à esperança. Todavia seria bem improvável que um serial killer trouxesse uma mensagem positiva para aqueles dois.

Poucos minutos após acordar, ainda na cama, Sara decidiu separar um tempo do seu dia para si. Por mais que a ansiedade sobre o caso a incomodasse bastante, sua palavra final foi descansar ou ao menos tentar fazê-lo.

Começou o dia num ritmo leve, lento. Foi ao banheiro e depois se dirigiu à cozinha, onde se manteve calada, diferente de como estava acostumada a fazer. Os únicos sons vinham de outras fontes: seus passos percorrendo o cômodo, o som da água fervendo, a colher tilintando na xícara, o barulho da torrada ao ser mastigada... Tão acostumada aos sons, da voz de outra pessoa e até mesmo sua própria voz que a ausência delas a incomodou.

Nove e trinta e oito, ao olhar o celular pela primeira vez no dia Sara ficou mais ou menos surpresa ao receber uma única chamada, a de Grissom. Acabou se esquecendo de tirar do modo vibratório então não percebeu a ligação, que a propósito veio com uma mensagem de voz. Deduziu que não fosse algo urgente, afinal, mas decidiu ouvir logo a mensagem, mas isso não a impediu de hesitar por quase um minuto. Sara ficou encarando a tela apagada do celular temendo o que pudesse ouvir em seguida.

Tomou coragem, enfim, e colocou o modo de viva-voz para que pudesse ouvir enquanto terminava de comer.

“Oi...”

Houve uns sete segundos de total silêncio, ela chegou a pensar que a mensagem havia terminado.

“Imagino porque escolheu não atender a esta ligação. Eu... estou me arriscando muito ao mandar esta mensagem e você está se arriscando muito a ouvindo.” Mais silêncio. “Vou dizer a verdade. Ultimamente minha cama tem estado vazia sem você. Pior ainda, minha casa ficou vazia.”

Ao ouvir esses últimos trechos Sara mudou sua atenção à tela do celular. Ele começou a mensagem declarando-se de vez, poderia ser um problema.

“Percebi o quanto estava sentindo a sua falta quando me deitei e não pude te olhar nos olhos ou... tocar em seu rosto, ou... beijar seus lábios. Não sei o real motivo de não ter vindo comigo, mas penso que seja por causa da discussão de ontem. Ou talvez seja por minha causa.”

O semblante permaneceu sério. Ela continuou a mastigar sua torrada, já mudando o foco do olhar.

“Enfim... Eu fiquei revoltado ontem e isso não é um segredo para nós dois. Assim como eu, você também tem motivos para sentir o mesmo.” Silêncio. “Acho que estamos próximos e talvez essa tenha sido a razão para querer investir em tudo com força máxima. Não sei se podemos conseguir algo, mas... céus! Depois que ele te mandou aquela mensagem deixando-a no túmulo da Holly ainda... eu... fiquei estressado, mais do que já estava.” Ouve um suspiro. "Sinto que ele atacou a mim também quando fez aquilo.”

— Hum...

“Tomei café agora há pouco e estou prestes a sair com Hank. Queria que estivesse aqui com a gente.” Ele fez uma pausa. “A última coisa que gostaria de fazer era discutir com você. Eu tenho que admitir, estou com medo e o meu maior medo é de te perder. Sei que eu não devia falar assim, mas... não consigo evitar. Você é a melhor coisa que reapareceu em minha vida e... e...” Sara ouviu um som parecido com um suspiro. “Perder você seria duro demais, nem imagina o quão duro seria.” Grissom fez questão de enfatizar o tom. Enfim, depois de alguns segundos ele continuou. “Eu sei que não gostou da minha posição hoje... percebi o jeito que você ficou antes de sair do departamento e eu entendo. Mas temos que resolver isso, da sua forma ou da minha, e espero que desta vez sem desavenças.”

Finalmente ela terminou a refeição.

“Eu cheguei muito longe te mandando esta mensagem, fiquei vários minutos pensando se fazia esta ligação e agora eu não me sinto arrependido. Eu sinto a sua falta, mesmo que tenham sido poucas horas longe, talvez um dia inteiro se não nos encontrarmos hoje. Pior pra mim. Eu... Se ouviu a mensagem até aqui eu agradeço. Espero te ver logo.” Houve uma longa pausa antes da última despedida, sussurrada e quase inaudível. “Amo você.”

Fim da mensagem.

— Todos tem medo de me perder. — disse ao silêncio. Parecia algo bom de se saber, mas não era. Para Sara era algo incômodo, um espinho na carne que levava consigo e não conseguia retirar.

Com um olhar melancólico Sara ficou por ali, encarando o celular por tempo demais. Pensou em ligar de volta, mas algo dentro e si pedia para não fazê-lo, deixar como estava. Quem sabe até o final do dia colocaria a questão como uma possibilidade.

A morena prendeu o cabelo num coque e vestiu um conjunto esportivo marinho para correr e se exercitar um pouco. Ela dobrou as mangas do moletom, pôs os fones de ouvido e os conectou ao velho toca-fitas que ganhou quando criança. Velho, mas em bom estado, junto da fita com uma coletânea de músicas que mais gostava na época. Aproveitou e levou o celular, também, como não podia se descuidar e perder uma ligação urgente. Dois outros itens que (infelizmente) precisava levar junto era a o distintivo e a pistola. A arma ela guardou atrás de si, por dentro da calça, se aproveitando que as roupas eram folgadas o que facilitava discrição.

Ela saiu de casa e ligou o walkman. Um sorriso involuntário se abriu quando uma sensação nostálgica surgiu ao ouvir Three Little Birds tocar. Foi um incentivo à caminhada naquela manhã amena em Henderson; enquanto caminhava aproveitava para cantar junto, ignorando qualquer olhar avesso. A detetive arregaçou as mangas do moletom e com o tempo foi apertando a caminhada. Os quarteirões pouco movimentados chegavam a ser novidade para ela, que se acostumou a ver a região com um fluxo constante de veículos e pessoas.

Ao se aproximar de um pequeno parque ela acelerou e começou a correr. Decidiu dar algumas voltas por lá e retornar depois. A sensação de liberdade era impagável, ela corria, sentia o vento tocar seu rosto e imaginava-se livre das amarras que os problemas criavam.

Continue correndo, Sara.

E assim o fez. Correu mais rápido, sem perder a precisão no pisar. As vozes em sua mente começavam a tomar o controle. Ela conseguia ouvir a voz de seu parceiro falando pelo telefone que sentia a falta dela em sua casa, que gostaria de vê-la o quanto antes, que sentia falta de beijar seus lábios.

Continue, Sara.

Não sabia se “odiar” era a palavra para traduzir o que sentia certas vezes quando Grissom a desmontava por completo e a deixava numa posição da qual não podia se defender. Ele tinha o poder de quebrar suas muralhas e tirar sua máscara, tudo isso com poucas palavras, pouquíssimas palavras.

O ritmo foi diminuindo.

Se por um lado uma pessoa conseguia quebrar suas muralhas, outra pessoa era a fazia duvidar de suas defesas. Aquele homem, Zodíaco. O homem que matou todas aquelas pessoas, que mandou um bilhete para Grissom e para ela, que estava no enterro de sua vítima e vigiando a detetive. Foram tantas mortes e quase nenhuma pista; ele parecia ser uma entidade onisciente, sempre por perto a observá-los e pronto a atacar a hora que quisesse.

Falando nisso, se quisesse, poderia matar Sara naquele cemitério sem muitos problemas. Ou melhor, poderia matá-la em sua casa, no momento em que menos esperasse. Afinal, se sabe tanto sobre seu passado ele sabe do seu presente. Quem sabe... o local onde mora, o local onde ele mora. Poderia já estar sabendo de seu relacionamento com o sargento.

— Não...

Ela foi parando... parando... e quando deu por si notou que apenas caminhava. Seu olhar, antes focado no caminho foi se desviando para os lados. A respiração estava ofegante, então bebeu um gole generoso de água da garrafa que trazia e continuou a caminhar, mas nem isso foi o suficiente para acalmá-la. Toda a concentração foi perdida com pouco raciocínio e agora ela só pensava no assassino.

Ainda no parque, Sara encontrou um banco vazio e se sentou nele. Tirou os fones do ouvido, apoiou-se sobre as pernas e suspirou de cansaço. Uma brisa percorreu o lugar causando calafrios em seu corpo suado, mas nem isso a fez retrair. Ainda inclinada para frente Sara percorreu com o olhar pelo ambiente deserto, imaginando se houvesse uma pessoa a vigiá-la... ou até mesmo perseguindo-a.

Ela passou a mão sobre o rosto. Aquilo não estava fazendo bem.

A detetive se recostou e colocou os fones novamente. Fechou os olhos.

— Comfortably Numb.

Notas finais
Tadinha da minha Sara, mas vamos superar. Foi complicado a ela não revelar ~toda a verdade~ à irmã, que consiste em ela ter recebido um bilhete sobre algo delicado que aconteceu em sua vida. Annie já está por conta de sua estada em Vegas e se tivesse poderes faria de tudo para tirá-la de lá. É isso aí, galera! Muito obrigada a todos que leram, um grande beijo e até o próximo ♥