Manhunters
49 Eu sou a morte
Notas iniciais
Ele tinha uma vida perfeita. Qualquer um que olhasse para ele poderia ter inveja, mesmo que pouca. ****** era o tipo de homem que tinha quase tudo na mão se assim o quisesse. Olhando assim poder-se-ia pensar que ele fosse o pior tipo de pessoa; esnobe, nariz empinado e exibido. Todavia, quem pensasse desse jeito se enganava. Quem convivesse com ****** via um coração nobre e gentil; homem altruísta que sempre se importava com o próximo. Caráter íntegro, manso, aquele todo mundo gostava de ter por perto.
Na televisão passava a notícia de que os quatro homens acusados de participação no assassinato de Vanessa Temple foram presos e aguardavam o julgamento final. Em todo canal de notícia aquelas mesmas cenas dos homens sendo levados no carro policial passava. Também transmitiam o breve discurso de uma detetive da qual muitos não tinham conhecimento de seu trabalho. Criminólogos e comentaristas quase sempre davam um pitaco sobre a situação. Todos concordavam sobre a incompetência da polícia na demora da captura do assassino, do qual não tinham uma única ideia de quem fosse.
O homem assistia à televisão atentamente. Apoiava o braço esquerdo no encosto e com a mão esquerda segurava o controle. De pernas cruzadas, ajeitou a gravata vermelha em seu pescoço. Ele vestia uma camisa branca, calça social preta e sapatos sociais pretos.
— Nossa, agora só passa isso na TV. — falou a mulher. Tinha estatura média, cabelos lisos longos e da cor ruiva clara natural. Ela usava um vestido de mangas longas vermelho vinho com um decote 'v' discreto. Os cabelos estavam soltos (como ele adorava). Suas sandálias abertas douradas possuíam salto baixo, já que a mulher era um pouco alta.
Ouvindo seu comentário, na mesma hora ****** se virou para trás e encontrou uma vista fantástica de sua esposa.
— Pois é. Ao menos a família dela vai ter um pouco de justiça. Quem diria que homens como aqueles fariam algo como aquilo. — Deu de ombros, ainda a olhar para a mulher.
Ela percebeu que o deixara encantado e largou um sorriso.
— Você está cada vez mais linda.
— Ah... — A mulher levou a mão à cintura.
****** também sorriu ao ver que conseguira o que planejou: fazê-la sorrir. Ele era um homem apaixonado por ela e não conseguia ver seu mundo sem aquela pessoa.
— Ele já está pronto?
— Sabe como é o nosso filho. Ele quer aparecer do melhor jeito para fazer bonito pra você.
— Já está quase na hora e eu não gosto de atrasos. — O homem mudou o semblante para a seriedade.
— Eu sei. Já falei com ele, que me prometeu estar pronto em três minutos.
— Certo. — Assentiu.
Não demorou muito para que o garoto de onze anos aparecesse a passos rápidos. Ele desceu a escada central. Era loiro de cabelos curtos, magro e de rosto largo. Tinha um semblante acolhedor e uma personalidade tão parecida quanto a do pai.
— Estou pronto. Desculpe a demora, pai. — Ele disse, ao se aproximar deles.
— Você veio a tempo.
A mulher tocou os dos ombros do filho e sorriu. O garoto vestia um conjunto social cinza e uma grava vermelha quase igual a de ******, e sapatos sociais marrons e cabelo estava penteado para o lado.
— Vão na frente. Eu desligo os aparelhos por aqui.
— Tá bom. — Ela assentiu e levou o filho consigo para fora.
****** olhou para a TV mais uma vez. Desligou-a ao ver que a matéria sobre a morte de Vanessa havia terminado. Se levantou e vestiu o terno. De dentro dele tirou um objeto reluzente. Era um relógio de bolso dourado acoplado a uma corrente também dourada. Ao ver a hora ele pressionou levemente o objeto em sua mão direita. Guardou em seguida e olhou para a TV desligada. Queria olhar para o rosto daquela mulher mais uma vez. A mulher que... por alguns segundos ele teve a oportunidade de conhecer, e o prazer em tirar sua vida.
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Presente. Quatro de novembro de 2XXX.
A delegacia estava uma loucura, um verdadeiro caos. A morte de um dos principais envolvidos no assassinato de Vanessa Temple criou um clima totalmente pesado. Se por um lado todos aguardavam o de mais uma vítima para Zodíaco, por outro não tinham ideia do que pudesse acontecer com seu "cúmplice indireto".
O táxi que ela solicitou pelo celular demorou um pouco a chegar em sua casa. No relógio a hora marcava "07h28min" quando Sara chegou à delegacia. Estressada pela demora que o transporte chegou à sua casa e pelo repentino engarrafamento no caminho, ela foi direto para a sala do capitão sem pausa alguma. O lugar estava movimentado por causa do turno anterior e por causa do "rebuliço" que a notícia causara.
— Capitão Brass. — Falou ela após bater à porta e ele fazer um gesto com a mão para que entrasse, já que as persianas estavam levantadas. Se vestiu às pressas: pôs uma blusa de meia manga azul escuro, calça jeans, sapatos pretos e o sobretudo também da cor preta já que ainda fazia bastante frio. Também usava um cachecol preto para se aquecer.
— Deu merda, Sara. — Já de pé o capitão balançou a cabeça.
— Caramba! Mas... mas o que houve?! Não era pra ter alguém vigiando ele?!
— Um dos caras que era pra fazer não estava atento no momento que Lewis foi atacado. — retrucou irritado, apontando pra mesa.
A morena levou a mão direita à testa e suspirou.
— A mídia já sabe-
— Não. Eu tô segurando eles enquanto posso. O detetive e os peritos estão lá fazendo os procedimentos. — Impaciente, Brass fez um gesto com a mão.
— Eu quero pegar esse caso. Com certeza a morte dele tem alguma relação com isso tudo.
— Não. — Ele foi curto e grosso — Você continua no caso do Zodíaco. Acumular mais uma investigação vai ser um desastre.
— Mas eu preciso saber dos detalhes disso, capitão! — A mulher ergueu as sobrancelhas — Não posso ficar às cegas!
— Já tem um bom detetive no caso. Tudo vai ser resolvido.
Não era a resposta que ela gostaria de receber. Tentou por mais uma vez conseguir alguma garantia ou "vantagem" no bom sentido.
— Posso ao menos ter alguma autonomia? — Deu de ombros — Ao menos... saber ou opinar sobre a direção da investigação?
O capitão franziu as sobrancelhas e a encarou por alguns segundos. Se não estivesse a fim com certeza desistiria na primeira tentativa.
— Tá, tá bom. Pega um carro na garagem e vá até a cena do crime. Peça a localização- — Sua fala foi interrompida pelo telefone que começou a tocar — Um momento. — Ele ergueu a mão para ela — Brass.
O semblante mudou de uma hora para outra. Se antes ostentava uma face carrancuda, no momento ele se mostrava terrivelmente surpreso, e não no sentido bom. A cara dele estava pior que antes. Só quando retornou o telefone ao gancho o capitão se voltou para a detetive.
— O que foi agora? — perguntou apreensiva.
— Você tem visita. — Ele ironizou.
— Hã? Q-quem?
— Adivinha só. — Brass revirou os olhos.
— Não, não pode ser-
— É ele, sim. — O capitão assentiu e depois apontou para Sara — É melhor você dar um jeito de tirá-lo daqui o quanto antes ou a coisa vai ficar feia.
Sem mais perguntas, Sara deu meia volta quase lentamente. Se já não bastasse aquele choque da notícia sobre a morte de Lewis, precisaria, ainda, lidar com uma certa figura. Dentro de seu corpo ainda recobrando a plena consciência devido ao sono interrompido, Sara enfrentava um turbilhão de pensamentos acerca daquilo.
Ele estava por perto, sabia disso, e ainda não tinha as palavras certas para lidar com aquele homem que, em breve, daria de cara com ela.
— Sara!
— Grissom... — Ela parou aos poucos. Estava ansiosa, não sabia o que dizer ao certo ao mesmo tempo em que gostaria de gritar com ele. — Céus... o que está fazendo aqui?!
— Estou aqui pelo mesmo motivo que o seu. — Vestindo uma calça jeans, camisa de botões preta, sapatos marrons e um sobretudo da mesma cor, Grissom caminhou em passos rápidos quase sem a ajuda da bengala.
— Você tá suspenso! — Disse quase com os dentes fechados. Olhou para o lado e logo notou alguns olhares curiosos — Se esqueceu disso?! — Ela baixou o tom de voz.
— E é por isso que vou pedir para ser readmitido no caso.
A morena fez uma careta. Estava nervosa, quase desesperada por causa da presença dele na delegacia.
Sara estava prestes a falar alguma coisa, mas se calou ao abrir a boca. Então fez um gesto com o dedo indicador direito, chamando-o para acompanhá-la. Tendo Grissom feito o que lhe fora pedido, os dois seguiram para perto dos elevadores, distante de quaisquer olhares curiosos.
— Quando eu te liguei pra avisar sobre aquilo, eu não disse pra você vir até aqui! — A mulher ergueu os braços.
— Eu não podia ficar parado ao saber da morte de um dos nossos suspeitos, Sara.
Enquanto ele falava, a morena balançava a cabeça negativamente a todo o momento. Arrependeu-se intensamente em ter entrado em contato com Grissom.
— Olha só. — Ela juntou as duas mãos — Siga o meu conselho. Vá embora pra casa. Se o Ecklie souber que você está aqui querendo bater o pé — Ela apontou para seu peito — você vai se complicar, Grissom.
Ainda assim o sargento pareceu não se dar por vencido.
— Eu preciso voltar. Isso é uma avalanche que vai cair em cima de você. Eu não posso deixar que carregue o peso todo sozinha. — O homem fez um gesto com o pescoço.
A todo o momento ele a encarava, mas ela continuava a desviar o olhar dele para não se afetar.
— Eu já encarei pessoas teimosas, mas você ganha de todas elas, Grissom!
Seu comentário arrancou um breve sorriso dele. Só que ao contrário do sargento, ela não achou aquilo engraçado.
— Isso está fora de cogitação. — Foi direta — Deixa isso comigo, tá? Eu posso aguentar. — insistiu, quando finalmente o encarou nos olhos — Eu não quero que você se arrisque, Grissom. A única coisa que eu realmente me preocupo agora é com você. — Ela fez uma pausa de três segundos — O Ecklie... — Parou de falar de repente.
— O que tem ele? — perguntou ele ao franzir o cenho.
Sara olhou para os lados na esperança de não encontrar ninguém próximo.
— O Ecklie está de marcação cerrada com você. Ele... — terminou quase sussurrando — quer tirar você do caso em definitivo. — Quando o fez, Sara o encarou melancolicamente.
Grissom não respondeu de cara. Desviou seu olhar e baixou ligeiramente o pescoço.
— Droga... — Ele deixou escapar um suspiro, baixou o olhar e já não demonstrava aquele semblante persistente.
— Sei que está chateado com isso, mas eu te peço pra fazer um esforço. O pessoal aqui deve estar uma pilha de nervos por causa da morte do Lewis. Eu, por exemplo já estou uma pilha de nervos. — Sara respirou fundo — Olha... faça isso... por mim, tá bom?
Grissom ergueu seu olhar para encará-la. Então visou a sua frente, para longe dela. Por breves segundos ficou naquela posição, até que, do nada, balançou a cabeça positivamente.
— Está bem. — disse em voz baixa — Farei por você. Mas só por isso.
Ela sorriu ao ouvi-lo falar daquele jeito. Mas o sorriso se apagou logo para que ninguém notasse o semblante alegre em seu rosto.
— Ótimo. Obrigada, Grissom. — Assentiu. Depois tocou em seus ombros com as mãos — Agora, por favor, vá embora daqui. Deixa que eu mesma tente falar depois com o Ecklie para aliviar a sua barra, tá bom?
— Está me expulsando? — Ele perguntou brincando, se mantendo imóvel.
— Estou sim. — retrucou ela no mesmo tom cômico — Agora vá logo antes que alguém nos veja e espalhe pra delegacia toda. Além disso eu também tenho que sair, vou até a cena do crime.
O sargento deixou escapar um sorriso. Quando finalmente resolveu se mover, virou-se de lado para seguir até o elevador à sua esquerda e depois apertou o botão.
— Você não vem?
Ela cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha. No começo ficou avessa àquela ideia, mas relevou de cara. Quando o elevador chegou e abriu as portas, Grissom foi o primeiro a entrar e logo em seguida, Sara. Não havia mais ninguém dentro do espaço, somente eles.
— Pode me fazer um favor? — perguntou ele logo após a detetive apertar os respectivos botões.
— Manter você a par do caso? — Ela respondeu sorridente com outra pergunta.
— Isso mesmo.
— Farei o que puder. — A mulher se virou para ele que se mostrou satisfeito.
Assim que apertou os botões, ela não demorou e tomou a palavra novamente:
— Você acha que a morte dele tem a ver com o nosso cara?
— Lewis era um dos principais responsáveis pela morte de Vanessa. Ele arranja um ótimo advogado, ganha um pedido de soltura, paga a fiança que não foi barata e agora é encontrado morto? — O homem fez um gesto com o pescoço — Minha opinião sobre isso? Ele sabia demais e Zodíaco deu um jeito para que ele não falasse demais, direta ou indiretamente.
— Eu também acho.
O elevador chegou no andar principal. Não era o destino de Sara, que desceria para a garagem. Quando o som do elevador tocou e as portas se abriram Grissom deu o primeiro passo, porém, se voltou para ela mais uma vez.
— Zodíaco tem uma boa ideia do que estamos fazendo. Não é à toa que ele deve ser o responsável por essa morte. — Grissom tocou no braço direito dela — Eu vi o seu depoimento na TV no dia da audiência e tenho certeza que ele também viu. — Ele suspirou brevemente, encarou-a nos olhos e ergueu sua mão. Estava prestes a tocar em seu rosto, mas de última hora desistiu; tocou em seu ombro — Tenha muito cuidado, Sara.
— Eu vou. — respondeu encarando-o nos olhos — E... obrigada por atender ao meu pedido.
Infelizmente para Grissom, seu desejo em voltar ao trabalho foi mais uma vez adiado, e o pior: a situação se tornava cada vez mais perigosa. Ele tinha uma grande certeza que Zodíaco foi o mandante da morte de Franklin Lewis e que estava de olho em quem pudesse estragar o seu "trabalho" ou ficasse em seu caminho. Isso quer dizer que mais que nunca os dois corriam perigo. Mais ainda a sua parceira.
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Em algum lugar de Nevada. 08h37min.
****** acabara de acordar. Ao seu lado esquerdo encontrou um dos rostos mais lindos que já viu. Era o dela, de sua esposa. Sonolenta, ao ver que ele também acordara, deixou escapar um sorriso.
— Bom dia, meu amor... — falou ele, vidrado naquele rosto.
— Bom dia... — Ela respondeu ao fechar os olhos por alguns segundos.
Sem esperar mais, ****** se esticou um pouco e a beijou. Foi simples, um selinho carinhoso para começar o dia.
— Todos os dias eu me apaixono por você, sabia? — disse ele, acariciando seu rosto com os dedos.
A mulher fechou os olhos e sorriu. Aproveitou para beijar a mão que a acariciava.
— Eu queria ficar mais tempo aqui, mas você sabe... tenho que agitar as coisas. — Brincou ela ao se mover para deixar a cama.
— Tá bom... — ****** aproveitou e beijou seus lábios mais uma vez.
Ele queria impedi-la, mas pensou duas vezes e a deixou ir. Se estivesse em seu lugar não gostaria de ser interrompido e sua esposa estava empolgada em começar o dia logo. Coisa deles dois, ninguém conseguia entender.
A mulher seguiu para o banheiro e fechou a porta. ****** a observou atentamente até que ela não estivesse mais à vista. Poderia admitir a si mesmo que era um homem completamente apaixonado por ela, não resistia.
****** se levantou da cama e deixou o quarto, rumo ao seu escritório no terceiro andar da casa. O escritório era quase uma quitinete; tinha uma suíte, um mini guarda-roupa com alguns conjuntos sociais específicos para cada ocasião, um frigobar e um sofá-cama. Tudo decorado e montado com todo o luxo que o dinheiro podia pagar. ****** trancou a porta do escritório, escovou seus dentes, tomou um banho e vestiu um calça social preta, sapatos pretos e uma camisa azul escura.
Depois disso, ele sentou em seu sofá cama, ligou a TV LCD de 32 polegadas e abriu um vídeo gravado em um pen drive. Sorriu ao ver aquele rosto que recentemente apareceu nos noticiários. Em seguida, ****** pegou o notebook em cima do sofá, ao seu lado direito e abriu-o. O aparelho já estava ligado, então só analisou as páginas na internet abertas.
"Nós não temos nada a declarar sobre o caso. Estamos satisfeitos que a justiça está sendo feita e que os responsáveis serão levados a julgamento."
Ele gostou daquela voz, gostou muito. O semblante em seu rosto mantinha-se calmo e preciso em meio a vários jornalistas segurando gravadores e microfones, ainda que, ligeiramente, apresentasse um pouco de nervosismo. E quem não ficaria assim no lugar dela?
Assim que a viu pela primeira vez na TV, ****** ficou impressionado com aquela mulher. Não romanticamente ou por incrível que pareça, sexualmente. Era uma atração que ele não conseguia explicar, quase paranoia.
Descobriu que aquela mulher participava do caso, encarregada de resolver o assassinato de Vanessa Temple, Arthur Kyle, Cassidy Young e outras sete pessoas. Talvez seja por isso que aquela mulher atraiu tanto a sua atenção, assim como o sargento.
Afinal: onde estava o sargento? Ele não apareceu nas gravações, em nenhuma delas, e ele pesquisou bastante entre os canais que transmitiram a notícia sobre aquele caso. ****** estranhou aquilo. Encarregar-se-ia de saber a respeito.
****** se levantou e caminhou até a sua mesa principal. Lá, abriu a gaveta com uma chave e retirou um de seus objetos mais preciosos: seu relógio dourado. Sorriu e escondeu o objeto em sua mão. Então voltou a observar o vídeo da detetive que voltava num loop toda vez que terminava. Realmente não conseguia tirar seus olhos dela.
— Seus olhos... — sussurrou.
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