Manhunters
21 Escolha
Notas iniciais
A morena acordou assustada. Era o telefone do quarto tocando.
— Ah...! O que foi agora? Que droga! — resmungou irritada. O sono estava bom demais, sem sonhos ou pensamentos obscuros. Nem parecia que quase fora atingida e que seu parceiro levou dois tiros.
Sara olhou para a janela e percebeu a escuridão vinda de fora, deduziu que eram seis e pouca ou quase sete da noite. O aparelho continuou a tocar, deixando-a mais irritada.
— Alô? Sidle falando.
— Senhorita Sidle? Sou eu, Vivian, da recepção.
— Oh, sim, o que deseja? — perguntou a detetive, fechando seus olhos.
— O senhor Steve Hawnkins pediu que deixasse uma pasta para o senhor Grissom ou para a senhora. Como ele não está presente posso mandar alguém enviar para o seu quarto?
A mulher abriu os olhos rapidamente, lembrando-se do que Grissom falou no carro no dia anterior.
— Sim, sim! Pode mandar, obrigada.
— Certo, obrigada.
Depois de voltar à pousada Sara almoçou e retornou ao seu quarto. Tomou uma ducha rápida para aliviar o calor e esfriar a cabeça. Depois pensou em descansar um pouco, acordar e visitar o sargento. Ele não merecia, mas precisava saber se aquele cabeça dura estava vivo.
O relógio do celular marcava sete e cinco da noite. Rapidamente a detetive levantou da cama e trocou a camisa grande que vestia por uma blusa azul justa e uma calça confortável. Cinco minutos após ter recebido a ligação, bateram à porta do quarto; era um dos empregados trazendo uma pasta com elástico branca e opaca. O rapaz, branco, alto e de aparência jovem, parecia fazer um leve esforço para carregar a pasta. Assim que o viu, Sara deu-lhe uma gorjeta de dez dólares, que agradeceu e foi embora.
Até mesmo ela ficou impressionada com o peso da pasta. Grissom fez bem em pedir aqueles arquivos ao guarda Hawnkins. Alguma coisa importante teria naquele monte de papéis.
Ela deixou a pasta na borda da cama e sentou-se ao lado. Pensou em abri-la e começar a pesquisa o mais rápido possível, mas olhou para o celular parado no meio da cama. Ficou encarando o objeto por alguns segundos. Bateu os dedos por várias vezes no colchão, decidindo se o fazia ou não.
— Ah! Deixa eu acabar logo com isso! — resmungou, pegando com avidez o celular.
Sara procurou o número na agenda do aparelho e o chamou. Esperou ansiosa, após três toques foi atendida por uma mulher.
— Hospital William Bee Ririe.
— Oi... é, eu queria saber como se encontra o estado do paciente Gilbert Grissom...
Após responder outras breves perguntas de protocolo à atendente, a detetive precisou aguardar três longos e intermináveis minutos. Sara bateu os pés no chão diversas vezes, olhou ao seu redor e soltou um longo suspiro. Não admitia a si mesma, mas estava preocupada com ele.
— O senhor Grissom está passando por uma cirurgia para retirar o projétil de sua perna.
— Mas... achei que já tinham feito isso! — Ela retrucou, franzindo as sobrancelhas.
— Senhora, a cirurgia precisou ser adiada.
— Por quê? — A voz de Sara alterou-se um pouco.
— Não tenho essa informação, senhora. Precisaria falar com o médico.
— Tá... Tem alguma previsão de quando posso ir aí visitá-lo? — Ela perguntou, claramente decepcionada.
— Depois de amanhã, provavelmente. A partir das três. Ele precisará de muito repouso e ficará sob observação
Provavelmente?!
— Como assim, provavelmente?
— Caso não haja mais complicações ele será avaliado se poderá receber visitas.
Ah, mas que droga!
A morena esfregou seus olhos. Não podia culpar a atendente por aquilo, mesmo que o ser humano tivesse a mania ridícula de xingar até a quinta geração da família de alguém.
— Ok, certo. Obrigada pela informação.
— Tenha uma boa noite, senhora.
Sara finalizou a chamada e largou o celular para o lado.
— Ah! — soltou a voz, mais irritada. Queria tanto pôr a culpa nele. Jogar a carga no sargento por tudo de ruim que aconteceu nos últimos dias e, principalmente, nas últimas horas. Se ele tivesse reabastecido o carro antes não precisariam ir ao posto.
Por outra via, o lojista poderia estar morto. Os dois jovens poderiam estar livres, imaginando qual lugar assaltar novamente e que pessoa ameaçar. Sarah poderia ver seu filho novamente no cair da noite, e quem sabe, com o dinheiro que o garoto conseguira nos assaltos, daria para pagar o tratamento do pai doente.
De qualquer forma, tudo resultaria em caos.
O que ela podia fazer no momento? Afundar-se naquela pequena pilha de documentos e achar algo que pudessem usar "contra" os guardas. Das duas uma: alguém era culpado por cumplicidade ou negligência.
Sara abriu a pasta e, de cara, notou um bilhete escrito à mão.
"Nossa conversa e esses arquivos nunca existiram."
Ela teve que admitir; o guarda Hawnkins se arriscou bastante em mandar esses arquivos quase na surdina, com a possibilidade de ser pego e demitido. Agradecê-lo-ia quando tivesse a oportunidade.
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De volta no tempo.
Não... não...
Sara estava... morta? Que diabos poderia estar acontecendo naquela maldita loja? Quando ouviu os dois tiros, aquele se tornou o momento em que o caçador perdeu toda sua concentração. Entretanto, ao contrário dele, o jovem se mantinha completamente atento a qualquer movimento dele e dos policiais.
— Ei! — Ouviu do jovem. Tinha certeza que apertaria o gatilho sem dó.
O caçador se preparou, com a mente na loja e as mãos na pistola, apertou o gatilho. Mas a arma não disparou. Quando percebeu aquilo foi tarde demais. Como o jovem prestava deveras atenção, aproveitou a oportunidade e atirou duas vezes contra o homem à sua frente.
— O q- — O caçador não teve tempo de falar direito, tudo que viu nos segundos vindouros foi o céu, já que caiu para trás, soltando a arma.
Sentiu um turbilhão de emoções e sensações físicas. Sentiu medo, angústia, pânico; a dor veio segundos depois, como se o corpo sofresse uma explosão. Então ouviu seguidos tiros e estremeceu ainda mais. Foi rápido, mas o caçador viu duas figuras surgindo atrás de si e avançando para a frente. Provavelmente atiraram naquele jovem, e não foram poucas vezes.
Ainda naquele momento do choque, o caçador virou sua cabeça para o lado, em direção à porta da loja. Pensou nela. Foi mesmo atingida e estava caída no chão que nem ele?
O caçador tentou erguer o braço direito, mas quase gritou de dor.
— Ah! — agonizou e fechou seus olhos. Pôde sentir o efeito da adrenalina passar e a dor aumentar ainda mais. Ofegava sem parar. Não conseguia raciocinar direito, e no meio de caóticos pensamentos bizarros que cegavam sua mente.
Sara...!
Tudo aquilo estava acontecendo porque simplesmente esqueceu-se de reabastecer o carro. Tudo por culpa dele. Sara poderia estar morta, e em breve, ele.
Deus... por quê...?
— Sa... Sar... — sussurrou, olhando novamente para a porta.
— Sargento! — O oficial Souza foi o primeiro a se aproximar. Com rapidez, ele pegou um tecido do bolso do uniforme e pressionou sobre o ferimento na barriga — Aguente firme! McCarty já foi chamar ajuda.
Devia estar morta. Ele falhou.
— E... Ela... — tentou dizer em voz alta, mas não conseguiu.
Passou-se meio minuto. A interminável angústia do sargento findou. A porta da loja foi aberta por dentro e alguém saiu de lá.
Sara.
O caçador não conseguiu se fixar muito nela, mas tinha plena certeza que estava bem. Estava sã e salva. Garota esperta.
Ele notou que o policial McCarty foi ao encontro da detetive. Ambos trocaram algumas palavras, mas foram interrompidos pelo caçador.
— Ah... AH!
— Aguente firme sargento! — O policial se dirigiu aos outros — Essa ambulância tem que chegar logo, ele tá perdendo muito sangue!
Aquilo chamou a atenção de Sara, que logo visou o caçador. E o resto foi história.
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Dia seguinte, o mesmo ciclo de sempre. O despertador de Sara tocou às sete da manhã. Ao contrário de antes, não dormiu bem. Em seu leito não conseguia achar uma posição confortável para descansar, e quando o fazia, uma enxurrada de pensamentos a obrigava abrir os olhos, interrompendo a árdua tentativa de cair no sono. Mesmo relutando em impedi-la, a ansiedade tomava conta de sua mente. O estado de Grissom não era grave, bastava apenas uma cirurgia para retirar a bala; ainda assim, continuava a pensar em inúmeras possibilidades das quais nenhuma era agradável ou consoladora.
A cirurgia precisou ser adiada. Alguma coisa ruim aconteceu e ela não parava de imaginar o que poderia ser.
Por uma hora, mais ou menos, Sara ficou naquela agonia em mudar de posição, abrir os olhos e fechá-los novamente. Implorava desesperadamente para que o tempo passasse logo e que tentasse ao menos descansar o seu corpo e mente por um tempinho.
Quando o despertador tocou foi o momento de sua libertação. Finalmente.
Ela se arrumou e pediu um café da manhã no quarto mesmo. Vestiu as roupas de ontem, com exceção da blusa, optando por uma camisa de manga curta preta. Curiosa, ela ligou pela primeira vez a TV do quarto, sabendo se aquele incidente havia repercutido. Implorou silenciosamente que não. Teve sorte, revirou os principais canais de notícias por algum tempo e não encontrou nada.
Antes disso, precisava fazer outra coisa. Ela pegou o celular em cima do criado-mudo e procurou pelo registro de ligações. Chamou pelo número do hospital.
— Por favor... por favor... — Pedia incessantemente por algo que nem ao menos sabia direito.
— Hospital William Bee Ririe.
— Olá, bom dia. Eu sou Sara Sidle, gostaria de saber qual o estado do paciente Gilbert Grissom.
Foi a mesma coisa de antes. Após umas breves perguntas, a detetive precisou esperar um tempinho até que recebesse uma resposta.
— Olhe, senhora. Eu não tenho essa informação. Não recebi atualizações do quadro do paciente Grissom.
— O quê? Como assim, não recebeu?! — questionou explicitamente alterada — Deixe-me falar com o médico dele, eu preciso saber como ele está!
Por mais que não morresse de amores pelo sargento, todavia, ele era seu parceiro. Ela sentia o peso da responsabilidade que caía sobre seus ombros. Caramba, porque tinha que ser logo ele?! Por que isso tinha que acontecer logo agora?!
A linha ficou em silêncio por um minuto. Breves cochichos foram ouvidos, e logo a atendente respondeu:
— Infelizmente o doutor Griffin não pode atendê-la neste momento.
— Sabe a que momento ele estará disponível?
— Não sei, senhora, desculpe.
Não sabe?!
O que ela poderia fazer? Xingar a mulher? O máximo que ia conseguir seria o fim da ligação ou uma resposta automaticamente educada.
— Certo... — Ela fez uma pausa — Obrigada.
De volta aos seus... afazeres. Que afazeres?
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Ele era diferente. Tinha algo nele que ela não conseguia explicar. Assim que subiu ao palco, pigarreou por um estante e arrumou sua pequena pilha de arquivos. Franziu a testa e levou alguns segundos até que olhasse para a frente e observasse todas aquelas pessoas, sendo que muitas não estavam nem aí para ele. A luz acima de sua cabeça estava fraca, permitindo que enxergasse com clareza o público.
Foi sem querer. Ao olhar para aquela gente na tentativa de se identificar no espaço, acabou encontrando os olhos de uma jovem detetive morena. Por poucos segundos, ficou meio boquiaberto, mas logo se recompôs. A jovem, por sua vez, ficou surpresa em perceber que, no meio de tanta gente, o detetive de Las Vegas encontrou os seus olhos.
— É... boa tarde...
Alguns responderam. Inclusive ela.
— Eu sou o detetive Gilbert Grissom, da polícia de Las Vegas...
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Sara, pare de se distrair, DROGA!
Franklin Lewis voltaria à Baker amanhã. Era o momento perfeito em abordá-lo e interrogá-lo. Tinha certeza que, tanto Janie quanto o xerife Wright estariam do seu lado. Porém, faria tudo isso às costas do capitão Brass, que ordenou sua volta à Las Vegas assim que Grissom estivesse lúcido. Tinha que conseguir alguma coisa, se não, daria adeus à Las Vegas com certeza.
Aquela seria sua última chance. Tinha de conseguir falar com o último guarda, mesmo que para isso, precisasse quebrar as regras. Não foi a primeira vez que fez isso, e, provavelmente, não seria a última.
A morena era o tipo de pessoa que ia até o fim para conseguir o que queria. Era insistente, persistente, não deixava que os obstáculos a derrubassem tão facilmente sem uma luta. Talvez fosse por isso que carregava um ótimo desempenho em sua carreira, já que resolvia crimes que se diziam ser quase impossíveis devido à alta complexidade. "Crimes são emaranhados", dizia ela, "cabe ao detetive desembolar esse amontoado e chegar até o fim da linha".
Resolveu sair da toca e descer para tomar café. Retornaria para seu quarto e aos arquivos recebidos do guarda Hawnkins. Precisava se preparar mentalmente, amanhã seria um dia daqueles.
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Eram quase nove da manhã. O tempo estava mais fresco, quase frio. Esse era o dia.
Sara levantou da cama com rapidez, seguindo diretamente para ao banheiro. Se arrumou, vestindo uma calça jeans escura, a camisa preta de ontem e a jaqueta escura. Pediu um café da manhã leve; torradas integrais e a bebida preferida de um policial, café. Ela não podia evitar, mas estava ansiosa. Logo, logo, Franklin Lewis estaria de volta à Baker e essa seria a sua oportunidade de falar com ele, e quem sabe, por um fim naquele mistério.
Terminada a refeição, Sara se preparava para deixar seu quarto e partir de volta à Baker. Porém seu celular começou a tocar. Impaciente, ela correu para a cama, onde o aparelho se encontrava e atendeu. Mal olhou para o número no registro.
— Senhora Sara Sidle? — falou a voz feminina.
— Sim?
— É do hospital William Bee.
Os olhos da detetive se arregalaram.
— S-sim, o que houve? — perguntou meio apreensiva.
— O quadro do senhor Grissom melhorou. Ele já passa bem e recobrou a consciência.
Ela não pôde evitar que um sorriso escapasse de sua boca. Após ouvir tantas notícias ruins nos últimos dias, saber aquilo foi uma redenção.
— O-ótimo! E-eu posso visitá-lo?
— Sim, o doutor liberou a sua visita.
— Está bem, obrigada!
— De nada.
A morena finalizou a chamada. O sorriso não saía de seu rosto; todas aquelas horas angustiantes tiveram o seu fim. Grissom estava bem.
Ela levou as mãos ao rosto. Sentiu todo aquele peso da ansiedade se esvaírem de seus ombros.
— Ele tá bem... — sussurrou, enquanto suas mãos ainda cobriam seu rosto. Depois suspirou.
De repente, ficou numa encruzilhada: seguiria para Baker ou para o hospital em Ely? Era a mesma pergunta feita a si mesma dois dias atrás. Qual a sua prioridade?
Sara olhou para a pasta de arquivos por alguns segundos. Cerrou os punhos.
Pensou bem e se decidiu.
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Usando seus óculos escuros para bloquear os raios solares, Sara dirigiu com as janelas abertas, evitando ligar o ar condicionado. Ligou a rádio e sintonizou numa de suas estações preferidas das quais só tocava rock e metal para tentar manter-se leve. Com pouco trânsito e boas músicas tocando, Sara se encaminhou para o hospital na cidade de Ely. O trajeto durou uma hora e vinte minutos. A detetive deixou o carro no estacionamento do hospital e saiu do veículo. Consigo, trazia sua bolsa e outra de viagem; ela carregou a sua na mão e a outra nas costas. Então seguiu para a recepção, convicta de que não sairia de lá sem ter notícias dele.
Dez e quinze da manhã. Pouco movimento era percebido no grande hospital. Apenas um ferido num estado de emergência chegou. As pessoas que esperavam sentadas nas cadeiras logo voltaram sua atenção à morena, que carregava aquelas bolsas como se não estivesse nem aí para a opinião deles. De cara séria, a detetive ergueu seus óculos e se aproximou da recepção.
— Bom dia, o que deseja? — falou a recepcionista, uma mulher de aparência asiática, um pouco baixa e que aparentava ter uns quarenta anos.
— Sou a detetive Sara Sidle. — Ela tirou o distintivo do cinto e mostrou à mulher — Eu vim para visitar o paciente Gilbert Grissom.
— Sim, um momento. — A atendente fez um gesto com a mão e começou a digitar alguns comandos no computador preto — Certo. Irei chamar o doutor Griffin para que a acompanhe. Só aguarde um instante.
Sabendo que poderia esperar um pouco, Sara pegou a bolsa grande, se aproximou da área de espera e se sentou em umas das cadeiras de metal acolchoada. Ela deixou sua bolsa e a repousou em seu colo, enquanto a outra, deixou à frente de suas pernas. Encostou-se à cadeira, largou um longo suspiro e pensou em tudo que os dois passaram até o momento. Foram poucos dias, porém, "memoráveis". Mal conseguia acreditar no que estava vivendo. Ah, seu cabeça dura... Pensou, balançando a cabeça.
— Senhorita...? — chamou a recepcionista, fazendo um gesto com a mão.
A detetive não perdeu tempo, se levantou e levando as duas bolsas consigo, seguiu para o balcão.
— Vá para o quarto andar, o doutor Griffin estará esperando pela senhora próximo ao elevador.
— Ótimo, muito obrigada. — A detetive sorriu novamente para a recepcionista.
Sara tomou o acesso aos elevadores à sua direita e entrou no espaço, vazio, por sinal, com exceção do ascensorista, um senhor de idade magro e calvo. Com um rosto simpático, ele perguntou à morena:
— Bom dia, senhorita, qual andar?
— Bom dia, quarto, por favor.
Em poucos segundos o elevador chegou ao destino. Sara agradeceu ao senhor e deixou o espaço. Logo deu de cara com um homem alto, forte, barba feita e cabelos pretos grisalhos. Ele conversava com uma das enfermeiras quando ela se aproximou dele.
— Olá, o senhor é o doutor Griffin? — perguntou, assentindo para a enfermeira como cumprimento. A mulher se despediu dos dois e seguiu para o elevador.
— Sim. Você deve ser Sara Sidle, certo? — Ele esticou sua mão a ela — Bruce Griffin.
— Muito prazer. — Ela esticou sua mão para retribuir o gesto — Já deve saber porque estou aqui.
— Sei, sim. Faremos uma exceção ao caso de vocês dois...
— Como ele está? — perguntou logo a morena, fazendo o médico erguer uma sobrancelha.
Bruce fez um gesto para que os dois começassem a caminhar.
— Ele está bem. No começo, chegou aqui num estado delicado; precisou fazer uma transfusão de sangue. Se demorassem mais um pouco... bem, talvez nem estivesse mais aqui.
Sara olhou para o lado, todo aquele trabalho em pressionar a ferida não foi em vão.
— Bom... — disse para ele — Soube que a cirurgia dele precisou ser adiada, mas não me disseram o motivo.
— A pressão dele ficou alta.
Ela franziu as sobrancelhas.
— Ele é hipertenso?
— Não constava no registro médico dele. Deve ter ficado nervoso por causa da cirurgia, só sabemos que ele não estava bem e seria um grande risco se continuássemos.
— Entendo. — Assentiu, um pouco melancólica.
— Após duas horas verificamos se ele estava apto a passar pela cirurgia, pois se a bala continuasse a mais tempo alojada, ele poderia ser ainda mais prejudicado. No final, tudo correu bem e a cirurgia foi um sucesso.
— Há quanto tempo ele recobrou a consciência?
— Há poucas horas. Não parava de fazer perguntas.
Os dois pararam na porta do quarto dele, o 415-B. Griffin sentiu o pager e o pegou parar ler a nova mensagem.
— Tenho um chamado aqui. Pode entrar, senhorita Sidle. — Ele estendeu a mão para a porta, despedindo-se dela em seguida.
— Obrigada.
Respirando fundo e cerrando o punho direito por um instante, Sara se preparava mentalmente para abrir aquela porta. O que parecia uma tarefa simples, de repente, se tornou uma luta. Parecia que há meses não o via; estava sem jeito, imaginando quais as primeiras palavras deveriam ser ditas e as conseguintes.
Vamos lá, Sara.
Ela tocou na maçaneta e abriu a porta. Entrou. Tomando cuidado para não fazer barulho, Sara fechou a porta e se virou para a cama atrás dela, no canto superior esquerdo. Lá estava ele, de olhos fechados. Imóvel, como se estivesse passando por um sono restaurador.
A detetive não sabia o que fazer ao certo. Ainda carregando as bolsas, caminhou até se aproximar de sua cama, deixando a bolsa grande ao lado direito. Percebendo que não estava só, o sargento abriu os olhos, e virou o rosto para o lado. Pela primeira vez, desde o acidente, seus olhares se encontraram.
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