Manhunters
28 Enfim, de volta
Notas iniciais
Sara deixou o carro no estacionamento do prédio da polícia. Desligou-o. Fim da (longa) jornada.
Assim que retirou a chave da ignição, estendeu-a para Grissom.
— Antes que você saia do carro e leve sua bolsa, — Ele ergueu a mão esquerda — pode me fazer um outro favor?
Ela suspirou brevemente.
— Qual?
— Pode dirigir até a minha casa depois?
A detetive ergueu as sobrancelhas, pronta para dar uma resposta negativa e reclamar, também. Num primeiro momento achou um abuso e um absurdo por parte do sargento em lhe pedir aquilo. Porém, observou bem seu rosto e notou que não havia segundas intenções.
— Ah...! — Ela balançou a cabeça — Tá bom! — Soltou as palavras ao entregar a chave para ele.
— Obrigado. — disse, pegando a chave da mão dela; em seguida guardou no bolso da calça.
Sem demora, a detetive abriu a porta do veículo e o deixou. Grissom o fez em seguida, abrindo a porta, retirando as muletas primeiro para se apoiar.
Vamos lá... Pensou, tomando coragem de sair.
Tentou segurar o semblante de dor ao pisar com o pé esquerdo e jogar metade do peso do corpo na perna atingida. Por sorte Sara estava do outro lado, esperando por ele. Grissom fechou a porta, ajeitou seus braços nas muletas e começou a caminhar em direção à mulher.
— Tudo bem aí? — Ela perguntou, após erguer uma sobrancelha.
— Eu aguento.
A mulher franziu a testa. Na mesma hora pôde notar que ele não estava se saindo muito bem.
— Grissom, eu falei que-
— Eu estou bem, Sara. — Ele a cortou na hora, encarando-a seriamente. Ainda sentia pontada de dores, mas ninguém precisava saber aquilo.
— Tá. — Sara retrucou no mesmo tom. Então tomou o caminho até o elevador primeiro.
Ele a observou seguir em frente, reprovou a si mesmo com aquela atitude não muito agradável; ou melhor, bastante desagradável. Ultimamente, o sargento tem criado, mesmo que sem querer, conflitos e choques com as pessoas ao seu redor. Ainda que se esforçasse para ser alguém mais tolerante, em alguns momentos deixava escapar certas "grosserias".
Sara chegou ao elevador e apertou o botão. Ela se virou para o sargento e cruzou os braços. Viu o homem se aproximar dela e não pôde evitar mudar de semblante. Inconscientemente se lembrava daqueles momentos quando deixou a loja e o encontrou caído no chão, sangrando, morrendo. Não conseguia ficar brava com ele por muito tempo.
— Não quis ser grosso.
— Hã? — disse, pega de surpresa — Esquece. — Ao dar-se por conta, balançou a cabeça e fez um gesto com mão.
O elevador chegou. Abriu-se, vazio. Sara foi a primeira a entrar, logo depois Grissom. Ela mesma foi a responsável por apertar o botão do andar que deveriam prosseguir. Enquanto ela olhava para cima, ele, olhava para baixo, mais precisamente para suas muletas. Ao notá-lo, a detetive baixou a cabeça e dirigiu a palavra ao homem:
— Grissom.
— Diga. — respondeu, olhando para ela.
— Você tá vivo.
Novamente ele se voltou para as muletas. Não dava para evitar, Grissom se apresentava claramente decepcionado. E aquilo a incomodava.
— Não é o suficiente?
Ele não respondeu. Mudou sua atenção, mantendo-se fixo à frente.
Não.
A porta se abriu. O barulho não chamou a atenção dos oficiais que se encontravam no andar. Foi no momento em que Sara deixou o elevador, e logo em seguida Grissom, que os olhares se voltaram a eles quase automaticamente.
Quase todas as conversas findaram quando os falantes notaram a presença da dupla no local.
Já a detetive e o sargento evitaram trocar olhares entre si e entre os outros. Em silêncio, cruzaram aquele espaço de cabeça erguida. Quando alguns viram Grissom usando muletas, ficaram boquiabertos e arregalaram os olhos. Uma boa parte já sabia do "acidente" que quase levou a sua vida, e mesmo assim ficaram um pouco espantados; os que não sabiam, ainda mais. Mas ele não tinha como evitar aqueles "segundos de fama", precisou passar por aquele caminho de espinhos.
— Nossa, o que aconteceu com ele? — uma mulher comentou, nenhum dos dois se deu o trabalho de saber quem falou.
Sara, que ia na frente, ouviu vários comentários dos outros oficiais. Não se atentava a eles, mas sim a Grissom, atrás de si. Antes mesmo de chegarem àquele andar, notou como o sargento estava. Tinha medo até, que ele desse atenção e começasse a discutir. Não o conhecia tão bem, por isso não sabia se era do tipo que "pegava uma briga".
Os dois seguiram caminho para a sala do capitão Brass, só que antes disso, foram abordados por alguém.
— Ei, Grissom, Sara! — Uma voz feminina chamou-os. A pessoa, que estava atrás dele se aproximou com rapidez.
Quando ouviram seus nomes, a dupla parou de andar e se virou para ela.
— Gil, meu Deus, eu soube o que houve com você. — A detetive tocou no ombro dele, e depois o abraçou rapidamente, percebendo que não estava 100%. Era Catherine. Em seguida a mulher se virou para Sara e tocou gentilmente em seu braço direito — Vocês estão bem? Como isso aconteceu?
Grissom aproveitou e olhou brevemente para aqueles rostos dos oficiais. Alguns já voltavam aos seus afazeres, mas outros continuavam observando a cena.
— Complicado de explicar agora, Cath. Outra hora com mais calma. — disse em voz baixa, já voltado a ela.
Sara concordou com as palavras do sargento.
— Vamos falar com o Brass agora. — Ela disse para Willows.
— Tá bom. — A detetive respondeu nitidamente decepcionada. Não sabia ao certo o que havia acontecido com os dois, mas notou que seus rostos claramente não esbanjavam alegria, muito menos satisfação.
Ela ficou ali, parada, observando os dois seguirem adiante.
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Queriam chegar como heróis, tinham de admitir a si mesmos.
Chegaram como... derrotados?
Vergonha. Era a única palavra que vinha à mente do sargento. Apenas isso. Vergonha. Ele estava tão confiante, tão eufórico, a todo o vapor. Ainda que conseguisse levar os guardas para o interrogatório, sentiu-se abatido.
A detetive sentia-se um pouco melhor que o parceiro. Afinal, conseguiram a autorização e, em breve, os guardas estariam na delegacia para prestarem um depoimento oficial. Mas só por causa de do sargento ela não estava tão bem assim. Aquele Gilbert Grissom de oito anos atrás era totalmente diferente do homem que trabalhava junto há poucos dias. Certo que pessoas mudavam ao longo dos anos, porém não parecia nenhum pouco com o Grissom do passado, aparentando ser apenas um vestígio do que fora antes.
— Bem, é agora. — Ela disse, ao parar frente à porta do capitão.
— Com licença. — Grissom ergueu a mão direita, pedindo que ela desse caminho para ir primeiro.
— Tá bom. — Ergueu os braços.
O sargento bateu à porta, e sem demora, ouviu Brass gritar lá de dentro de sua sala que podiam entrar. Grissom olhou para a parceira, que assentiu; em seguida ele abriu a porta e entrou.
Hora de enfrentar a fera.
Jim se encontrava sentado na sua cadeira, recostando-se no móvel. Seu rosto era sério, mais sério que o normal. Ele fez um gesto para que Sara fechasse a porta e outro para que as persianas fossem baixadas. A morena fez o que foi lhe pedido; torcia mentalmente que a sala isolasse o som para fora.
— Olá, Brass. — disse o sargento, tentando parecer um pouco descontraído.
— Sentem-se vocês dois logo! — O capitão se mostrava um pouco impaciente.
Grissom, que estava mais próximo dele, sentou-se na cadeira frente à mesa. Já Sara hesitou um pouco, mas não podia ficar ali parada ou levaria um fora do capitão, se já não bastasse aquele olhar agressivo dele para os dois policiais.
Ela se aproximou de Grissom e sentou-se na cadeira ao lado.
— Certo. Dá pra vocês me dizerem QUE MERDA ACONTECEU?! — esbravejou alterado, movendo seu corpo para a frente.
O sargento desviou seu olhar do capitão, vindo a virar seu pescoço para o lado.
— O Ecklie está me enchendo a paciência toda a santa hora sobre vocês! Sabe o trabalho que a gente tá tendo pra abafar o caso?!
Novamente os dois permaneceram em silêncio.
— Falem alguma coisa, cacete!
— Foi um acidente! — Sara se expressou, um pouco nervosa. Assim que a ouviu, Grissom olhou-a de lado. Não aprovou o que disse, mas permaneceu quieto — Eu te disse! — Ela ergueu a mão para trás — Estávamos indo para Baker, mas precisamos parar naquele posto!
— Sabe muito bem que não é apenas sobre isso que estou puto, Sidle! — Ele a repreendeu, virando-se para Grissom — Como um sargento da polícia que já foi militar — comentou sarcasticamente — levou dois tiros de um menor de idade?!
Grissom, que apoiava a mão esquerda em sua perna, fechou-a lentamente. Irritou-se com a quase provocação do superior, justo no pior momento, no qual não estava a fim de discutir. Sara se voltou para ele, preocupada com o que ele ia dizer. O rosto do parceiro estava fechado, como estivesse prestes a explodir. Temia fervorosamente aquilo.
— O gato comeu sua língua, Grissom? — perguntou Brass sarcasticamente.
— Eu estava sob pressão, Brass. Sara estava na loja e ouvi um tiro. Fiquei desconcentrado. — Ele respondeu, tentando manter a calma.
— Esse é o problema! — O capitão ergueu a mão, apontando-a para ele — Vocês dois são policiais "treinados". No mínimo, precisavam checar o local para saber se não tinha ameaça!
— Como a gente ia saber?! — Grissom estava mais alterado, encarando o capitão diretamente nos olhos — Nós não somos robôs se você acha isso! — falou em alta voz. Enquanto isso, Sara evitava olhar para os dois homens.
— Não são, mas olha a merda que deu! Não vai demorar muito pra todo mundo saber que você quase morreu por uma idiotice sua!
Grissom não se conteve; franziu a testa. Com raiva, bateu com a muleta direita na borda mesa de Brass. O barulho não foi tão alto, mas deixou Sara mais apreensiva que antes, e o capitão, atônito.
— O que pensa que est-
— A gente estava fazendo o NOSSO TRABALHO! — Grissom apontou para baixo — Se eu perdi a concentração era porque estava preocupado com a minha parceira!
A detetive disfarçou, já que ergueu as sobrancelhas.
— Eu estou aqui, vivo, não estou? Queria que fosse o contrário?!
— Seu babaca, claro que não!
— Então o que querem de mim? Querem que eu resolva essa merda de caso? Eu estou tentando! Estou mesmo! — Antes de deixar o capitão responder, ele continuou — Vocês trouxeram Sara para me ajudar, não trouxeram?! — Apontou para ela — Ela descobriu um detalhe nas câmeras não foi? A gente foi para aquela porcaria de parque e falamos com os guardas. Agora eles serão interrogados aqui! — Com toda a força, ele se levantou bruscamente, apoiando-se às muletas — SATISFEITO?! Então me deixe em paz!
— Essa conversa não terminou! — Brass também se levantou, irritado com a atitude do sargento.
Mas Grissom não lhe deu ouvidos. Seguiu no seu próprio ritmo reduzido até a porta, abriu-a puxando-a num rápido movimento e depois saiu.
De relance, Sara observou o capitão, que levou a mão ao rosto e xingou palavras que ela não conseguiu reconhecer. Estava numa encruzilhada maldita; se saísse no momento, sem avisar, ficaria numa situação tão ruim quanto a do sargento. E se tentasse lhe dirigir qualquer palavra, temia ser retaliada. Também não queria ficar ali, esperando que o Brass disse qualquer coisa contra ela, pois estava em maus lençóis, segundo o que ouviu na conversa dele entre Grissom.
— Eu... vou falar com ele. — falou neutra, levantando-se aos poucos da cadeira.
Sem olhá-la, Brass respondeu:
— Só amanhã.
— O que?
— Vocês só vão falar com os guardas amanhã.
A detetive franziu a testa. Ficou irritada em ouvir aquilo, claro. Mas evitou questioná-lo, já que a situação não estava muito boa, longe disso. Então ela deixou a sala, quieta.
Ao sair da sala do capitão, Sara notou que sua presença chamou a atenção de alguns, que logo voltaram a seus afazeres quando esta reparou em suas atitudes. Cerrou os punhos, mas logo se desfez, irritar-se-ia à toa. Tinha problemas mais importantes.
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— O que foi?! — disse a voz irritada de dentro da sala.
A porta foi aberta, para a raiva do sargento, que se encontrava sentado em sua cadeira e de costas. Quando se virou, prestes a dar um fora em qualquer um que entrava no espaço, conteve-se. Era a morena.
Ele suspirou. Queria falar algo mas temeu exagerar; ficou em silêncio. A detetive fechou a porta, aproximou-se da mesa dele e sentou-se em umas cadeiras. O homem esperava alguma palavra dela assim que entrasse por aquela porta, mas, nada.
— Não vai falar nada? — Ele perguntou, enquanto se encontrava de lado.
— Queria saber se você estava mais calmo. — Ela deu de ombros.
— Sara, minha briga não é com você. — O sargento fez um gesto com a mão.
— Sei disso. Ainda assim, quero saber se está mais calmo.
Grissom virou a cadeira giratória para ficar frente a frente com ela.
— Eu não sei há quanto tempo vocês dois se conhecem, mas... o modo como você falou... Não imagina o que ele pode fazer?
Ainda nervoso, Grissom quis se defender, retrucar na mesma hora que a ouviu.
— Eu não- — O sargento se calou quando ela ergueu a mão direita.
— Não estou defendendo ele, Grissom. — completou-se rindo brevemente — É que... eu fiquei preocupada com você.
Ele a encarou nos olhos. Viu que não sua voz e seu semblantes eram sinceros. Aos poucos os nervos de seu corpo relaxaram, e o homem irritado perdia parte da raiva.
— Quero dizer, — disfarçou — a gente não pode saber a reação dele.
O sargento se voltou para a mesa.
— Não se preocupe comigo. — Ele balançou a cabeça, sorrindo meio de lado, surpreso pelas repentinas palavras. Só que o sorriso logo desapareceu.
A mulher sorriu brevemente.
— Acho melhor você voltar pra casa e descansar. — Sara se recostou na cadeira, cruzando seus braços.
— Não, prefiro ficar aqui. Logo logo os guardas vão chegar e quero estar preparado. — Assentiu.
— Sobre isso... — Ela olhou para o lado, voltando-se para ele — Brass acabou de me avisar que eles vão vir... Amanhã.
O sargento franziu a sobrancelha mais intensamente. Aquela raiva, de repente, voltava aos poucos.
— O que foi que ele disse? — Seu semblante era tão parecido quanto o de momentos atrás — Como ele tem a coragem de dizer isso logo agora?! — Ele se preparava para levantar.
— Ele não disse o motivo, Grissom! — Sara esticou o braço direito na tentativa de impedi-lo. — E eu não quis perguntar porque não queria mais ficar naquela sala com ele. Mas deve ser um bom motivo.
— Que merda! — disse, ao retornar à cadeira. Então bateu na mesa com a palma da mão aberta.
— Ei, se acalma, tá?! — Preocupada, a morena aumentou seu tom de voz — Também tô chateada. — disse, tentando amenizar a situação — Mas o que a gente pode fazer agora? Nada. — Balançou a cabeça.
— Ah...! — O sargento, irritado, levou as duas mãos ao rosto.
Após um breve silêncio, Sara, que o observou ficar daquele jeito, perguntou:
— Você tá bem cansado, não é mesmo?
Ele mudou sua atenção para a mulher à sua frente. Queria mentir, respondendo que estava tudo bem ou que ele aguentava a carga. Mas sabia que sentir-se-ia mal se o fizesse. Ambos selaram um acordo de paz e para seguir com uma boa relação a melhor coisa a se fazer era dizer a verdade. Afinal, eram parceiros.
— Nem imagina o quanto. — respondeu em baixa voz, quase a sussurrar.
Sara ficou satisfeita ao ver que ele foi sincero.
— Percebi, seu olhar me diz isso.
Em silêncio, os dois se encararam. Sara foi a primeira a quebrar o momento, quando se levantou da cadeira e o chamou com um gesto da mão direita.
— Venha, vou te dar uma carona no seu carro.
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