Manhunters
11 Conversa com os guardas
Notas iniciais
Grissom deu duas batidas rápidas na porta e depois entrou junto de Sara. Ambos cumprimentaram o guarda, que levantou da mesa nos fundos da sala para recebê-los. Era negro, alto e magro. Não estava usando o chapéu no momento, o que deu para perceber a cabeça raspada. Tinha olhos castanhos claros e um rosto longo; sua desenvoltura forte o dava a aparência de um jogador de basquete.
— Olá, bom dia. Sou o guarda chefe Steve Hawnkins, muito prazer. — disse apertando a mão dos dois. — O capitão Brass me falou que vocês viriam.
— Bom, então já tem uma ideia do que viemos fazer aqui. — Sara completou.
— Achei que vocês já tinham resolvido esse problema meses atrás. — O guarda deu de ombros encostando-se à mesa e apoiando-se nela.
— Estamos seguindo outra vertente na investigação. Viemos entrar em contato com dois dos guardas que trabalham nesse turno: George Philip e Pedro Hernández. Eles trabalhavam aqui na noite em que Vanessa Temple foi assassinada. — falou o sargento. Soubemos que Franklin Lewis não trabalha mais aqui, por isso falaremos com ele depois. — Assentiu o sargento.
— Tá, mas eu posso saber que rumo é esse que estão tomando? — O guarda Hawnkins cruzou os braços, após uma breve risada.
A dupla se virou rapidamente para um breve olhar, como uma troca de palavras.
— Não podemos dar mais detalhes sobre o caso, guarda Hawnkins. Estamos num processo de investigação e se qualquer detalhe escapar isso vai prejudicar o nosso trabalho. — Sara fez um gesto com a mão, balançando a cabeça.
— Eu sei que isso não tem nada a ver comigo, mas me preocupo com a reputação do parque. O assassinato daquela mulher causou um grande alvoroço aqui. E se a notícia ficar se espalhando por aí novamente que vocês dois precisam falar com os guardas... digamos que... não vai pegar muito bem.
— Nós não temos culpa, senhor Hawnkins. Só queremos fazer o nosso trabalho. — Retrucou em médio tom a detetive.
Grissom, percebendo sua mudança de tom logo interferiu:
— Nós estamos investigando uma suspeita de que o assassino tenha sido auxiliado por alguém aqui de dentro. Peça aos homens que venham aqui, será mais simples ao invés de irmos até onde estão. — disse — O senhor não está envolvido no caso, senhor Hawnkins, então não precisa se preocupar. Quando tivermos uma base melhor aí contaremos mais detalhes.
O guarda Hawnkins se mostrava resistente ao pedido. Como se não quisesse que tocassem na ferida recém cicatrizada.
— Tá, vou chamá-los e terminar isso logo para não me complicar com a polícia.
— Muito obrigada por cooperar conosco, guarda Hawnkins. — Sara lançou-lhe um sorriso, mudando completamente de semblante.
Steve retornou para sua cadeira e chamou os guardas pelo rádio acoplado em sua camisa. Logo depois pediu para que a dupla aguardasse a chegada dos homens fora de sua sala. Grissom e Sara deixaram o espaço e retornaram para o “saguão”. O sargento foi o primeiro a se sentar no pequeno sofá disponibilizado para visitantes, à sua esquerda, próximo a porta. Sara fez o mesmo em seguida.
— Fique calma, Sidle. — disse o sargento ao apoiar-se sobre as pernas — A situação está sob controle por enquanto.
— Eu estou calma. — retrucou ao cruzar os braços. Ela baixou sua voz quando percebeu a vinda de Lucas que novamente passava de lá pra cá — Mas se dermos muita corda eles vão começar a enrolar, e aí não vai dar em nada. — disse — E mais: por que você contou ao guarda sobre a nossa investigação, achei que manteríamos isso em secreto. — A mulher perguntou um pouco indignada.
— Para mantê-lo do nosso lado. Você viu como ele relutava um pouco no começo.
— Eu vi, né.
— Da próxima vez eu te aviso quando for fazer algo parecido.
— Hum. — Ela revirou os olhos.
— Não vamos nos precipitar, Sidle. Tudo está sob controle. — Rapidamente o homem se levantou — Ei, Lucas?
— Hã? Sim, oi! — O rapaz correu ao encontro dele.
— Tem uma sala onde a gente possa conversar... particularmente? — Grissom perguntou apontando para si e a detetive.
— Almoxarifado. — Lucas apontou com o polegar a uma porta próxima ao banheiro, aos fundos pela esquerda.
— Obrigado. — assentiu o sargento, voltando a sentar-se — Como eu dizia, vamos ficar alerta. Até agora o guarda Hawnkins está a cooperar conosco.
— Melhor que esteja mesmo.
Meia hora depois, a porta se abriu e dois homens vestidos de guardas entraram, o que chamou a atenção dos dois oficiais. Eles levantaram ao mesmo tempo e foram ao seu encontro. Um deles era baixo, cabelo cortado tipo de soldado. Tinha a nítida aparência de um latino; esse era Pedro Hernández. O outro era um pouco mais alto, pele branca típica de um alemão, cabelo com corte médio, rosto sério, era George Philip. Tinha um rosto longo e olhos profundos, que chegavam a dar calafrios a quem o encarava por muito tempo. Sara logo fitou seus olhos nele.
— Olá. — falou o sargento após apertar a mão de ambos — Sou o sargento Grissom e essa é minha parceira detetive Sidle, somos da polícia de Las Vegas. Queremos falar com vocês sobre a noite de 2 de fevereiro, dia no qual Vanessa Temple foi assassinada, já que estavam trabalhando aqui no turno da noite.
— De novo isso? — questionou o guarda Hernández, balançando os braços — Já demos o nosso depoimento ao detetive na época. Achei que já tinham resolvido isso antes.
— Eu não sou o outro detetive, senhor Hernández. A investigação está em outras mãos agora e estamos analisando-o novamente.
Sara sorriu discretamente, desviando o olhar dos presentes.
— E o que vocês querem da gente? O Davis está no turno da noite e o Lewis nem trabalha mais aqui.
— Sabemos disso, guarda Philip. Vamos conversar com eles depois. — Sara respondeu.
— Eu não sei para quê faremos isso de novo. — O guarda Hernández balançou a cabeça, estava visivelmente incomodado.
— Se está tão irritado, por que você não vem conosco e termina com isso logo? — Grissom tocou em seu braço como se estivesse guiando-o.
— Não preciso de um advogado? — O guarda perguntou na defensiva.
— O senhor que sabe, guarda Hernández. — A detetive deu de ombros — Mas nós apenas queremos apenas conversar com vocês dois.
A porta da sala do guarda chefe se abriu e Steve saiu dela. Todos os que estavam fora viram a cena. Lucas, que trabalhava sem parar continuou com seus afazeres assim que viu o chefe sair da sala.
— Muito bem, o que está acontecendo aqui? — O guarda chefe estendeu os braços — Ah, vocês chegaram. — Disse aos guardas.
— A polícia quer falar com a gente de novo sobre o caso da mulher assassinada. — O guarda Hernández logo se manifestou.
— Não vejo motivo por que chamou a gente, guarda Hawnkins. — completou o guarda Philip — Resolvemos esse assunto antes.
Hawnkins observou os subordinados com atenção e depois se voltou para os oficiais. Franziu a sobrancelha e disse:
— O que estão esperando? Vamos terminar logo com isso.
O sargento e a detetive sorriram satisfeitos.
— Ótimo. Você primeiro, guarda Hernández.
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— Muito bem, senhor Pedro Hernández... — Sara abriu a pasta contendo os arquivos sobre o guarda.
No espaço de nove metros de comprimento e seis de largura, os oficiais e o guarda do parque estavam presentes. Hernández estava no fundo, sentindo-se meio acanhado e cercado por seus predadores.
— Não estamos te acusando, guarda Hernández. Queremos apenas que nos diga sobre aquela noite e o que viu. Onde o senhor estava naquela noite, mais precisamente às duas horas da manhã. — Sara disse enquanto observava os papéis em sua mão.
— Ah... — o homem balançou a cabeça. Levou a mão à nuca e baixou seu olhar. Chegou a dar alguns passos para o lado e depois retornou, estava relutante em falar; dava uma leve impressão que o homem temia se o fizesse — Olha só, eu vou repetir o que disse antes: Eu patrulhava a parte inferior do Lehman Creek naquela noite com os guardas Samuel Davis e George Philip. Nós três não estávamos exatamente juntos, cada um de nós rondava a área numa distância de 300 metros cada... por aí.
Ele parou para pensar mais um pouco.
— Eram mais ou menos duas e vinte... duas e meia da manhã, quando eu ouvi me chamarem no rádio. Era o Davis. Ele disse que um homem encontrou uma mulher caída no chão por causa do cachorro que deu o alarde. Ela tinha sido esfaqueada... Só sei que corri que nem um doido para o local informado. Quando cheguei... encontrei o Davis e o Philip. Vi o Davis checar o pulso da mulher e ele nem precisou falar pra saber que já tava morta.
— Lembra das expressões em seu rostos? — A detetive balançou a mão perto da cabeça.
— Estavam assustados... o cara que acampava, mais ainda. Me aproximei do corpo dela e nunca mais esqueci o que vi...
— E os outros guardas? — Grissom questionou. — O que fizeram nesse meio-tempo?
— Se me lembro bem o Philip acompanhou o homem que viu a mulher primeiro. Já o Davis... o Davis chamou pelo Lewis no rádio. Esperamos até ele chegar e depois chamamos a polícia, foi isso.
— Só isso? — Perguntou Grissom, após perceber uma pausa longa demais.
— Pelo que consigo lembrar, sim. — o guarda respondeu meio hesitante.
— Não se lembra de ter visto mais alguém? Um estranho?
O guarda deu um longo suspiro e mudou ligeiramente de expressão.
— N-não... — disse com um pouco de esforço.
Novamente o guarda desviou seu olhar. Grissom observou bem o rosto do homem e notava seu incômodo após ele tocar no assunto.
— Não. Como eu disse, estava escuro em alguns locais. Nem todos os pontos da trilha estavam bem iluminados. Carregávamos lanternas para enxergar melhor ainda. Se alguém passasse ao nosso redor seria difícil de perceber.
— Entendi... — assentiu o sargento — O que pode nos dizer sobre os guardas Philip e Davis nesses últimos meses?
— Nada de mais. Normais como sempre...
— Chegaram a comentar sobre o caso nesses últimos meses?
— Não que eu saiba. — deu de ombros — E por que iriam ficar falando? O caso por aqui foi abafado e isso foi bom para o turismo. Todos queriam apagar aquela história, e foi o que aconteceu.
— E sobre Franklin Lewis?
— O que tem ele? — O guarda ergueu uma sobrancelha confuso.
— Vimos que o senhor Lewis deixou de trabalhar dois meses após o incidente. Lembra-se do comportamento dele no dia do crime? — Sara tomou a palavra, e Grissom olhou para ela. Pareceu não ter gostado, mas disfarçou.
— Ah, eu não sei ao certo. Todos ficaram um pouco abalados com o que aconteceu... O guarda Lewis foi o último a aparecer e ficou próximo ao corpo dela.
— E como ele estava? — persistiu ela.
— Ah... Parecia estar centrado, não se deixou levar pelo nervosismo.
— E antes de ele deixar o emprego como guarda? Lembra-se de como ele agia?
— É... Não tem como lembrar direito, detetive. A única coisa que sei é que antes de sair ele estava estressado...! Não sei se era questão de família... Só sei disso. — O guarda completou aumentando sua voz, de um jeito que pudesse se livrar da questão.
— Não tiveram mais contato com ele? — A mulher perguntou, enquanto escrevia no caderno.
— Não éramos amigos. — Falou secamente. Após alguns segundos, voltou à questão — V-vocês acham que ele pode ser suspeito de matar aquela moça?
Grissom e Sara entreolharam-se rapidamente.
— Nós não podemos dar detalhes do caso no meio de uma investigação, senhor Hernández. — Sara declarou — Mas agradecemos por ajudar a polícia agora.
— Tá bom, então... — Hernández deu de ombros, parecendo estar menos desconfortável.
— Mais uma coisa: — Grissom falou, erguendo a mão — Por que o senhor e George Philip mudaram de turno e Samuel Davis, não?
Aquela pergunta pegou o guarda de surpresa. Ele, quieto, ergueu a sobrancelha e encarou o sargento com uma nítida expressão incomodada. Como se já não bastasse ter que responder tudo aquilo novamente, agora precisava se defender de implícitas suspeitas de que ele poderia ser o assassinou ou sabe-se lá o que.
— Eu estava sob estresse. Há meses vinha tentando transferir de turno. — respondeu na defensiva. Sua voz era séria, quase irritada.
— E o guarda Philip?
— Fale com ele! Somente ele pode te responder essa pergunta com clareza. — Pedro retrucou, quase ironicamente.
Após algumas poucas palavras trocadas, o sargento e a detetive terminaram sua conversa com o guarda. Sara atentou-se a cada detalhe e anotou num caderninho todos os pontos importantes daquele momento. Grissom liberou o guarda e chamou Philip. Não percebeu se os dois trocaram olhares, já que foi uma passagem rápida. Pedro não esperou e deixou a cabana.
Era a vez de George Philip, homem a quem Sara não tirava seus olhos.
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