Manhunters
26 Alguns Detalhes
Notas iniciais
Silêncio, escuridão.
Onde estou...?
Quarto. Hospital.
Deitado em seu leito, o caçador relutava em dormir. Abria e fechava seus olhos como o tique-taque do relógio. Mesmo se acostumando com a escuridão do quarto, tinha grandes dificuldades em identificar o que seus olhos viam. Inquieto, observava cada canto duas vezes para se certificar que tudo estava "normal".
Num certo momento virou seu pescoço para sua direita. Ela estava lá, imóvel, dormindo provavelmente. Suspirou aliviado.
O caçador precisava, apenas, relaxar; deixar os problemas e pensamentos de lado. O sono viria e faria o seu trabalho restaurador. Então fechou seus olhos e respirou fundo.
Todavia, abriu-os subitamente. Sentiu uma brisa congelante. Calafrio.
Virou-se para a esquerda. O coração acelerou de uma hora para outra, estava ofegante.
Tinha mais alguém no quarto, observando-os próximo à janela. Parado, o contorno de seu corpo contrastava com o brilho que vinha de fora.
— Maldito. — sussurrou, cerrando seus punhos tão forte que pôde sentir as unhas pressionarem sua carne.
Aquela figura negra não respondeu e após dez segundos veio a caminhar na direção dele. Sua respiração acelerou; entrou em modo de sobrevivência. O caçador quis revidar, não se deixando vencer pelo medo que sentia, pois sentia e muito. Moveu seus braços na tentativa de pegar impulso e se levantar... porém, não conseguiu.
Moveu suas pernas, mas estavam tão bambas quanto suas mãos. Efeito das drogas que lhe submeteram. Apenas sua mente parecia ser a parte mais lúcida de seu corpo.
Não, isso não pode ser verdade. Como ele nos achou?
Ele era o próximo? Não era o dia, não estava certo.
O caçador brigou consigo mesmo numa luta impossível; por mais que tentasse, seu corpo não se mexia.
De novo não, DE NOVO NÃO!
A figura vinha aos poucos. Tudo que o caçador pôde fazer era observá-la. Não era possível enxergar seu rosto, parecia mais uma silhueta de capuz preto. Não havia nenhuma feição ou traço humano.
— Sara? — Ele chamou por ela. Nenhuma reação.
Droga.
Então se voltou ligeiramente para a figura que se aproximava. Estava escuro demais para enxergar o rosto.
— Covarde... — Riu — Vai me matar enquanto eu estiver desse jeito, não é?
Não obteve resposta.
— Porque senão eu acabaria com você seu desgraçado!
A figura, lentamente, virou o rosto em outra direção, de onde a detetive se encontrava. O caçador percebeu isso, e logo aquela injeção de coragem findou. Ele ergueu as sobrancelhas.
— Se você tocar nela... — O ameaçou, tentando mover seu corpo. Nada — Se você encostar um dedo nela eu te mato! Ouviu?!
O caçador se virou para ver a mulher que, imóvel, ainda dormia.
— Sara?! Sara, acorde!
De repente, num rápido movimento, a figura cobriu a boca e o nariz do caçador com a mão esquerda. Escura, envolta numa luva, pressionou fortemente contra ele. O caçador tentou desesperadamente reagir, mas o seu corpo fora seu pior inimigo, não se movia.
É agora que... eu vou...
Suas pupilas dilataram; seu coração estava acelerado da mesma forma quando foi baleado. Se estivesse conectado ao aparelho de frequência cardíaca, este disparar-se-ia.
Então a figura retirou do bolso de suas vestes uma arma afiada. Um punhal, que reluziu ao entrar em contato com a fraca luz vinda de fora.
Não, não, não!
Nada poderia impedi-lo. Em breve a vida do caçador seria tomada, e logo depois, a da detetive, que continuava a dormir.
Sara, acorde, acorde!
Como um raio, a figura escura como o breu enterrou a arma no peito do caçador.
— Ah...! — Tudo que saiu de sua boca foi um som abafado.
Seu corpo tremia de medo e nervosismo. Estava indefeso como um cachorrinho. Aos poucos o sangue escapava por sua boca e pelo seu peito.
Aterrorizado, o caçador olhou para a arma em seu corpo. Fez um esforço impossível para mover seu braço e tentar tirar aquilo. O medo virou pânico e desespero. A dor se fazia insuportável, mas não tão quanto às emoções caóticas que sentia.
O assassino retirou sua mão do rosto dele e pegou uma amostra do sangue que escapava por sua boca. Feito isso, retirou o punhal deslizou a mão sobre a lâmina. Deixou o caçador ali, agonizando.
Sem pressa se dirigiu à detetive.
— N-não!... — O caçador tentou balbuciar as palavras, mas a voz não saía direito. Tentou ergueu o braço direito para estancar o ferimento, mas seu corpo já não respondia.
A figura se aproximou dela. Estava de costas para o caçador, que não podia enxergar claramente já que sua visão estava turva. Mas ele pôde perceber claramente o momento em que a figura e ergueu a lâmina para o alto.
— Sa... Sara... — sussurrou, como se aquelas palavras fossem adiantar alguma coisa.
Golpeou-a num instante.
— SARA!
Eles acordaram.
— Ei!
Sem pestanejar, Sara levantou-se já com arma em punho, pronta para atirar em qualquer ameaça presente. Acendeu a luz rapidamente e apontou em direção ao sargento, que se sentou na cama devido ao choque do que acabara de ver.
— Ah...! — Ele levou a mão esquerda ao ferimento na barriga ao levantar bruscamente.
— Grissom! — A detetive exclamou, correndo em direção a ele.
Após fechar seus olhos por um instante e abri-los, Grissom observou o local atenciosamente. Ainda ofegava sem parar. Chegou a tocar em seu coração, com medo que aquilo tudo fosse verdade. De olhos arregalados, se virou para ela.
— Grissom, o que houve?! — Sara perguntou, mais ansiosa.
— Céus. Um... pesadelo... foi um... pesadelo. — respondeu de olhos fechados.
— Pesadelo?! Você gritou de um jeito que pareceu que... sei lá, estava morrendo!
— Eu pensei... que ele estava aqui.
— Ele quem? Zodíaco? — Ela ergueu os braços.
O sargento apenas assentiu.
Sara o encarou por uns segundos. Percebeu que ele não estava nada bem. Ainda ofegava, e parecia suar. Respirando fundo, ela guardou a arma no coldre.
— Ele me esfaqueou, e depois ia matar você. — Ele disse, olhando para o chão — Ele... te golpeou.
Sara desviou o olhar dele. Entendeu melhor o motivo daquele nervosismo.
— Por isso ficava me chamando toda hora? — A detetive ergueu as sobrancelhas.
— Estava acordada?
— Poucos minutos. Sou policial, qualquer barulho estranho me acorda. Eu tentava dormir, estava quase levantando e acordando você também. Mas aí você gritou e fiquei assustada. Achei até que tinha alguém aqui dentro.
— Aquilo foi real demais... — Grissom levou a mão ao peito e olhou para baixo.
O que ela podia fazer naquele momento? Perguntou a si mesma enquanto observava melancolicamente se recobrar daquele inferno.
Então ergueu a sobrancelha.
— Esqueça. Olha só, — Ela se aproximou dele e tocou em seu ombro — foi só um pesadelo. Tenta dormir um pouco, tá? — Depois disso, caminhou até a janela e deslizou um pouco a cortina para ver o lado de fora — Daqui a um tempo vai amanhecer. É melhor descansar pelo maior tempo possível já que a gente não sabe o que vai acontecer depois.
— Tá. — Grissom levou a mão direita ao rosto. O choque ainda era evidente.
Sara assentiu para ele, sorrindo de lado.
— Eu não sei se ele tá de olho na gente, seguindo nossos passos. Mas sei que ele não seria maluco de vir aqui dentro.
— Será mesmo? — Ele se virou para a janela, depois para ela.
— Se o Zodíaco tentasse vir aqui eu ia meter uma bala nele. — Sara deu uma leve batidinha no coldre da arma.
O sargento largou um meio sorriso.
Seguindo para "sua" poltrona, ela disse:
— A gente vai pegar esse desgraçado.
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O dia nasceu. O sol brilhava, como sempre. De dentro do quarto não se ouvia o cantar das aves, eufóricas do lado de fora, tampouco o som das buzinas e motores dos veículos. Era um sábado. Um sábado.
Mesmo as cortinas escuras não continham o brilho da grande estrela vinda de fora. A detetive, lentamente, abriu seus olhos e moveu minimamente seu corpo ao perceber que o dia havia amanhecido. Franzindo o cenho, ela observou cada canto do quarto no qual não se acostumara para se encontrar à realidade. O cobertor ainda cobria seu corpo; estava bom demais. A manhã se fazia fria, assim como aquele quarto. Se pudesse ficaria mais um pouco e tiraria um cochilo.
Espera.
Lembrou-se do dia de ontem. Reencontrou Grissom; conversou (discutiu) com ele; os dois analisaram os relatórios do guarda do parque; ambos "selaram" um acordo de paz; ela o abraçou.
Eu fiz isso mesmo.
Depois eles passaram a noite no mesmo quarto.
O quê?!
Quando se deu por conta, ela virou seu corpo para o lado. Encontrou-se com ele, deitado em sua cama. Levou um susto ao tomar um choque com as lembranças de ontem.
— É... — Ela balbuciou.
O sargento, que se encontrava com uma revistinha e um lápis, resolvia palavras cruzadas a uns minutos. Percebendo o movimento da detetive, virou o pescoço e falou:
— Bom dia, Sara. — Assentiu.
Ela se esgueirou para ficar sentada na poltrona.
— Bom. Que... horas são?
— Sete e pouco, eu acho.
— Sério? — Ela retrucou em deboche — Há quanto tempo está acordado? — Sara afastou o cobertor para o lado, e depois esfregou a mão ao rosto.
— Não muito. Já chamei a enfermeira. Vou pedir o café da manhã pra nós dois.
Quem disse que eu queria tomar café aqui?! Pensou um pouco irritada, mas preferiu guardar para si, evitando começar uma discussão com ele logo pela manhã. Sem contar que estaria jogando aquele "acordo" no lixo.
— Ah...! — Num súbito movimento ela se jogou de volta na poltrona e levou as duas mãos ao rosto — Eu não acredito que passei a noite aqui.
— Eu também não. — Ele deu de ombros, retornando às palavras cruzadas — E... obrigado por... me ajudar aquela hora.
— Deixa pra lá... — Sara balançou a cabeça — Tem sonhado muito com ele?
— Mais ou menos. — disfarçou — E você?
— Por enquanto, não. — Deu de ombros — Espero que esse café não demore muito.
Enfim, a detetive se levantou. Esticou-se e respirou fundo. Depois caminhou até a janela.
— Posso? — Ela perguntou, apontando para as cortinas.
— Claro.
Vagarosamente, Sara deslizou as cortinas para o lado, não querendo dar de cara com uma luz forte em seu rosto. Assim que o fez, abriu, também a janela e respirou o ar meio frio e fresco da manhã. Fechou seus olhos e deixou que a luz do sol tocasse seu rosto.
— Está pronta? — Grissom perguntou, repousando a revista e o lápis no colo.
Pensou bem naquela pergunta que acabara de ouvir. Apoiou-se na sacada da janela e depois observou a rua lá em baixo.
— Tenho que estar. — disse, depois fez uma pausa — E você?
— O mesmo.
Ela assentiu.
Uns cinco minutos depois a enfermeira Houston chegou e cumprimentou a dupla. Grissom informou a situação atual deles, pedindo o café da manhã para os dois e uma ajuda posterior, um par de muletas. Sentiu-se confiante em tomar banho por conta própria e trocar de roupas, por isso recusou o auxílio da enfermeira.
Depois de dez minutos, a enfermeira voltou com a refeição dos dois. Foi algo básico: suco de laranja e torradas integrais com manteiga. Levou menos de vinte minutos para que os dois terminassem o café da manhã, sem café. Houston também trouxe as muletas, a pedido de Grissom e a confirmação do médico. O tipo escolhido foram muletas de antebraço (canadenses).
— Não vou demorar. — falou Grissom, ao se levantar da cama. Tentou se apressar para não parecer fraco ou debilitado.
Preocupada, Sara estava prestes a se levantar da cadeira de onde estava sentada. Por mais que se irritasse com ele, não podia evitar seus momentos de receio.
— Não precisa ir se apressando, tá. Eu não vou te deixar aqui, vou só esperar lá fora.
Vai que você escorrega e... droga.
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Aquele ciclo foi diferente. Dois dias e meio se passaram, dias que pareciam meses. Boa parte do presente foi deixado para trás; Zodíaco foi esse presente "esquecido" nesse meio tempo. Às vezes a vida podia surpreender e derrubar planos como a onda fazia com um castelo de areia. Era como uma corrida para alcançar alguém, e que, de repente um obstáculo surgia do nada e atrapalhava o corredor, nesse caso, o sargento. Já a detetive não podia deixar o parceiro para trás, e precisou parar com ele. Poucos dias se passaram, mas dias que poderiam valer alguma coisa. Zodíaco estava em algum lugar no mapa, provavelmente Nevada, aguardando pelo novo grande dia, de onde tomaria a vida de mais alguém. Uma roleta russa; ninguém poderia saber quem era o próximo, mas alguém morreria com toda a certeza.
Grissom deu duas batidas na porta, indicando a Sara, que esperava do lado de fora, que podia entrar. Ela, que se sentou numa cadeira ao lado da porta, entrou logo em seguida e o encontrou próximo à cama; já de pé, ele se sustentava por duas muletas. Vestia uma calça social, sapatos pretos que usou antes de ser baleado e uma camisa branca de manga longa. Não vestia grava nem o paletó.
Sara fechou a porta e se encostou nela, cruzou os braços e lançou-lhe um sorriso satisfeito.
— Nada mal.
— Odeio usar muletas. — respondeu, dando de ombros — Mas, como não tenho escolha...
— Sua escolha é ficar aqui até melhorar, e aí não vai precisar usá-las. — Ela respondeu em deboche.
— Não, não. Tenho medo de criar raízes. — Assentiu, induzindo-a a sorrir.
Sara balançou a cabeça e depois caminhou para próximo da bolsa de viagem de Grissom, frente à cama.
— Não acredito que você vai me fazer carregar isso de novo. — A detetive ergueu as sobrancelhas, falando num tom de voz mais fino por pura descontração.
— Eu até poderia, mas tenho que evitar fazer muito esforço. — Ele sorriu, fechando seus olhos.
— Bem, eu posso fazer bastante esforço. O suficiente para empurrar você daquela janela. — Sara apontou para o canto, e o sargento se virou para observar.
— Bom saber. — retrucou ironicamente.
— Ah, ninguém merece... Vai ficar me devendo essa. — Disse, jogando a bolsa para suas costas, pegando sua bolsa na poltrona e se encaminhando até a porta.
Grissom a observou fazer seu caminho para fora do quarto. Visou suas muletas, a cama e depois a janela. Não parava de pensar naquele pesadelo. Sabia muito bem que, quanto mais progrediam naquele caso, o perigo se tornava cada vez mais evidente. E o maior problema não era o perigo que ele corria, mas o perigo que ambos corriam.
O sargento fechou seus olhos por um instante, então seguiu para fora do quarto.
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— Bom sair daquele lugar. — Ele disse, um pouco mais contente.
— Sei.
Após seguirem alguns procedimentos hospitalares, falarem com o doutor Griffin e preencher alguns documentos em relação à alta de Grissom, finalmente, os dois saíram do hospital. Era bom demais para o sargento respirar algum ar puro e se mover, mesmo que limitadamente.
Eles foram para o estacionamento. Sara deixou a bolsa de viagem de Grissom no banco de trás e levou a sua consigo. Ela ofereceu ajuda a ele para entrar no carro, mas o homem recusou. De um jeito próprio, ele abriu a porta, apoiou-se no banco e entrou, levando as muletas consigo. Sara não percebeu, mas soltou um breve gemido de dor.
— Aqui estamos. — disse ela, ao entrar no veículo e recostar sua cabeça no banco.
— Pelo visto se adaptou bem ao carro. — comentou, enquanto reparava nela.
— Pois é. — Sara deu duas batidinhas no volante, sorrindo — Nada mal, poderia me acostumar em tê-lo.
— Depois combinamos um preço e eu te vendo. — O sargento assentiu, voltado para a frente.
Ela fez uma careta.
— Pelo visto seu "humor" está de volta.
— Pois é. Temos que seguir em- — Grisom foi interrompido pelo toque do celular, guardado dentro do seu bolso direito de sua calça — Um momento.
O sargento atendeu a ligação. Sara não conseguia ouvir quem estava na outra linha e não fazia a menor questão em saber.
— Calma, senhora Danvers. Eu prometo que vou pagar o Timothy o triplo por ter cuidado do Hank nesses dias a mais.
Sara não pôde deixar de rir.
— Eu sei que o Timothy é um garoto, tá aprendendo muitas coisas, mas que mal pode ter a companhia de um cachorro? O Hank é bem treinado, se comporta muito bem.
Grissom parou de falar para ouvir o que a mulher na linha tinha a dizer.
— O que posso fazer? Fui baleado duas vezes — A mulher disse algo em voz alta — Isso mesmo, levei dois tiros. Ganhei alta, e vou ver se posso voltar ainda hoje. Não garanto nada.
Após mais umas palavras trocadas, o sargento agradeceu a mulher pelos cuidados ao seu cachorro e depois se despediu.
— Pronto. — disse, após terminar a chamada e guardar o celular.
A mulher, vendo toda aquela cena, balançou a cabeça e riu.
— Aposto que está doido de saudades dele.
— Do Hank? — Ele se virou para ela — É verdade. — Assentiu — Ele é um grande amigo.
— É bom ter alguém leal e confiável, né.
— Como assim?
— Não... — Sara gesticulou com a mão — Deixa pra lá... Vai ligar para o Brass?
Grissom a encarou por um instante, percebendo que ela se esquivou rapidamente do assunto, como se estivesse arrependida de ter começado a falar. Para evitar quaisquer possíveis discussões, evitou voltar no assunto.
— É... vou sim. — disse, pegando novamente o celular do bolso.
— Certo. — Ela assentiu, virando para a janela do motorista. Seu olhar era meio cabisbaixo, não querendo que ele a visse daquele jeito.
— Brass?
— Oi, Gil.
— Estamos no estacionamento do hospital. Recebi alta hoje e estamos prontos para seguir adiante. Já se resolveu?
— Olha só, vocês dois me deram um trabalho do cacete. Passei quase o dia todo tentando convencer o juiz de emitir os mandados.
— Mas e aí, conseguiu?
— Claro! Com quem pensa que está falando?
— Ótimo.
— Não precisam mais ficar aí. Pedi viaturas da polícia estadual para levarem os seus caras. E a merda do helicóptero.
— Todos eles, até Lewis?
— Sim.
— Perfeito. Obrigado, Jim.
Após o término da chamada, Grissom novamente guardou o celular e se virou para Sara, que percebeu o movimento e se voltou a ele.
— Pelo visto as notícias são boas.
— É. Vamos à pousada e fechar a conta. A gente volta pra Vegas hoje mesmo.
Sara lançou um meio sorriso e assentiu. Podia notar o semblante satisfeito do sargento. Não queria estragar aquele momento, mas tinha de ser realista.
— Antes disso, o xerife Wright vai querer falar contigo. As investigações ainda não foram concluídas e você é uma peça chave, Grissom.
Ele franziu a testa. Sua feição logo mudou.
— Droga, tem isso ainda... — comentou em voz baixa, visivelmente decepcionado.
— O que vai dizer a ele? A verdade ou...
O sargento olhou para a frente. Sabia que se contasse a pura verdade ele e Sara poderiam se complicar e muito. Ele não gostou de saber que sua parceira "alterou" a cena do crime para livrá-lo de quaisquer punições pesadas, como o afastamento do caso. Ainda assim, poderia ser muito pior para ele caso seus superiores soubessem que ele se esqueceu de destravar a arma porque estava com a "cabeça noutro lugar".
Uma das opções seria mentir. Criar uma história quase fantástica sobre como ele não atirou no jovem que se apresentava como uma ameaça, ou:
— Vou contar a nossa verdade. — Ele respondeu, olhando para baixo, e depois para ela.
— Pode falar que não atirou no garoto porque estava alterado psicologicamente... sob pressão. — Sara deu de ombros.
— Eu penso em alguma coisa no caminho pra lá. — Grissom comentou sério.
— Sei que não está gostando disso aí e do que vai fazer lá em Baker. — Ela disse, percebendo o tom de voz insatisfeito.
— Vou ser sincero. — Ele disse ao gesticular com a mão sem se dirigir a ela — Não.
— Deu pra notar. — A detetive se virou para o lado. Em seguida encaixou a chave na ignição e deu a partida no carro — Faria o mesmo por mim? — perguntou descontraidamente.
O sargento se virou para ela, que olhava para a frente, enquanto manobrava o carro.
— Você é minha parceira, Sara.
No momento em que o ouviu, ela se virou para ele, que a encarava neutralmente. Sem querer deixou escapar um breve sorriso.
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Enfim, o sargento e a detetive chegaram a Baker. O trajeto durou uma hora, somente, graças ao trânsito que estava bom naquele sábado. Sara foi direto para a delegacia, que de costume, estava vazia. Ambos saíram do carro; Grissom deixou o veículo sem muitas dificuldades aparentes. Os dois entraram na no edifício, e logo deram de cara com ninguém. Com pressa, Sara caminhou até a porta da sala do xerife e bateu. Após um breve momento, a porta foi aberta de dentro mesmo.
— Detetive Sidle. — cumprimentou seriamente o xerife, apertando a mão dela.
— Oi, xerife. — disse, afastando-se para que Wright pudesse ver seu parceiro — Esse aqui é-
— Gilbert Grissom. — O sargento tomou o passo à frente, encarando o xerife o mais próximo possível — Creio que temos algo a conversar.
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O xerife e o sargento ficaram por quase quarenta minutos na sala do próprio Wright. Já Sara, esperou por eles na área principal da delegacia. O lugar estava deserto, vazio, tal qual se apresentava a cidadezinha. Era outono, quanto mais os dias passavam, o clima esfriava até chegar o inverno. A porta da delegacia ficava sempre aberta, veio uma brisa fria de fora que deixou calafrios na detetive.
A todo o momento se virava para olhar a porta do xerife, e temia pelo pior, mesmo não querendo admitir. Questionava-se o tempo todo se o que fez por Grissom foi o certo. Certo, profissionalmente, não era. Eticamente? Moralmente? Não sabia direito, mas, de alguma forma, sabia que era o certo. Fez quase sem pensar, mesmo pensando. Estava preocupada com o que poderia ocorrer a ele e o próprio caso. Um pouco dos dois. Talvez mais com ele. Foi ao menos "confortada" em saber que o sargento faria o mesmo se fosse ela: "Você é minha parceira, Sara", disse.
A porta foi aberta. Grissom foi o primeiro a sair, mas Wright permaneceu dentro da sala, então o sargento a fechou. Seu rosto era sério, meio pensativo, quase irritado.
— Grissom? — Ela perguntou preocupada, após ele passar se aproximar dela.
— Vamos indo.
Sara se levantou da cadeira, olhou pela última vez a porta da sala do xerife, e depois seguiu Grissom. Não notou de cara, mas viu depois que a 9mm dele estava de volta em seu coldre.
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— Quer me contar o que houve? — questionou ela, ao dar a partida no carro.
— Oh... desculpe, me distraí aqui. — Grissom levou a mão ao rosto por breves segundos.
— Achei que algo ruim aconteceu, você parece meio... abatido.
— Pois é. Nós dois conversamos... — Fez uma pausa — ele me contou sobre parte do caso. O que ele viu... sobre McCarty e Souza...
— O que vai acontecer com eles?
— Devem ser afastados por enquanto. A mãe do garoto que morreu quer entrar com uma ação judicial alegando força excessiva. Ele levou sete tiros.
Sara se virou para Grissom rapidamente. Seus olhos arregalaram.
— Droga... — Ela disse em voz baixa — Não que eu esteja defendendo alguém, mas eles atiraram para conter aquele rapaz que era uma ameaça. Não vê o que fez com você?
— Tudo isso aconteceu por culpa minha. — A voz do sargento era melancólica. Ele balançou a cabeça e respirou fundo — O xerife disse que eu podia voltar a Vegas, mas, se precisasse depor no júri, eu teria de ir.
Ela franziu a testa.
— Pare de ficar culpando a si mesmo.
— Não precisa falar assim para que eu me sinta melhor, Sara. Eu quem causou todo esse caos. Não somente a morte do garoto-
— Você fala como se aquele garoto fosse um exemplo de vida. — Retrucou, irritada com sua posição.
— Não é isso. É que não me sinto bem em relação ao que aconteceu.
— Ninguém ficaria, Grissom.
— Agora vou voltar também com a minha reputação mais manchada que antes. — Ele falou irritado, não ela, mas consigo mesmo.
— Você quase morreu! — Inconformada, ela aumentou um pouco a sua voz — Tem que agradecer por estar aqui, vivo, pra contar a história! Que se dane a reputação!
Ela percebeu que se alterou demais.
— Tá, desculpa. — comentou, antes que Grissom reagisse — Mas... nossa, não pode ficar se lamentando assim! Sei que você considera muito a sua carreira, só que... Tem coisas mais importantes que isso.
Grissom não respondeu. Ouviu atentamente àquele discurso.
— Wright falou com você sobre Lewis? — Ela disse, tentando abafar aquele assunto?
Ele se virou para ela, depois para a frente.
— Não. — respondeu.
— Não sei se a gente devia passar na casa de... de Janie.
— Não, melhor não. — O sargento gesticulou com a mão esquerda — Vamos seguir nosso caminho. A gente encontra com ele em Vegas.
— Certo... — Sara disse, depois respirou fundo — Ficou com raiva do que eu disse?
— Não... Obrigado por isso. — Assentiu.
Ela sorriu de lado, mas logo o sorriso se desfez. Como não havia outro caminho menos longo, eles precisaram voltar pelo trajeto que seguiam para Baker, tiveram que passar novamente por aquele posto de gasolina. Os dois olharam para lá no momento em que o carro cruzou pelo local.
Grissom soltou um longo suspiro e desviou seu olhar, vindo a se concentrar nas muletas que foram apoiadas entre suas pernas. Aquilo não seria esquecido tão cedo.
Sara olhou para o parceiro, que aparentemente não se sentia bem. Como se, mesmo em silêncio, pedia para sair dali o mais rápido possível. Ela agradeceu mentalmente por ter abastecido o carro no dia anterior.
Não falou, mas queria dizer a ele que tudo ia ficar bem. Não disse por dois motivos: não se sentiu bem em dizê-lo e não tinha ideia se tudo ia ficar bem.
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