Mandy Mellark (Hiatus)
17 A noite é apenas uma criança travessa.
Notas iniciais
Pov. Gale
— Oi... Está tudo bem irmãozinho?
— Irmãozinho?! Isso seria trágico, se não fosse cômico, Katniss. Há quanto tempo não me chama assim?
— Desde que eu tinha uns dez anos, para ser mais exata.
— E por que isso agora, senhorita Everdeen?
— Talvez seja porquê...
A hesitação de minha irmã em terminar a frase me fez voltar-se para ela, já que desde que ela pôs os pés no terraço da mansão e senti sua presença não me importei em olha-la, mantendo minha atenção somente nas luzes da cidade.
— Seja por quê?— incentivei-a. Após um longo suspiro, Katniss aproximou-se mais da mureta onde eu me achava recostado e continuou a frase olhando para as luzes também. Imitei sua posição com os braços cruzados sobre o muro. – Talvez porque o homem que está agora do meu lado, já não lembre mais me irmãozinho que me prometeu que seriamos muito mais felizes quando chegássemos a Capital.
— Eu continuo o mesmo, Catnip – falei em minha defesa mesmo sabendo que em parte ela tinha razão.
— Catnip... Há quanto tempo não o ouço me chamar assim. – Ela fechou os olhos como se saboreasse o apelido que lhe dei quando éramos apenas dois fedelhos. – Sinto tanta falta da gente Gale, de tudo.
— Eu sei. Às vezes também sinto... – Ficamos em silêncio, mas não foi algo incomodo, pelo contrário, fez-me retornar ao tempo em que nós dois éramos pequenos, e Katniss me seguia pelas ruas da costura, ainda no nosso antigo lar na época em que nossos pais eram vivos.
— Quando foi que tudo mudou?
A pergunta ficou pairando no ar, na verdade eu não tinha a resposta, ou quem sabe, não a que minha irmã provavelmente esperava.
Quando as coisas haviam mudado? Quando me tornei o pau mandado de meu tio sem me dar conta? Como se não tivesse outra opção a minha frente? Se pensasse muito colocaria toda a culpa nela, aquela maldita. Mas já tinha se passado tanto tempo para culpa-la pelo caminho que tomei na vida. Seria um grande equívoco. Eu sou o único responsável por minhas escolhas até aqui.
— Eu estou feliz que irá sair com a Amanda para jantar – Katniss empurrou-me pelo ombro, me fazendo sorrir e parar de pensar numa história que não me levaria a lugar algum. – Você esta gostando mesmo dela não está? De verdade?
Minha irmã parecia uma criança esperançosa ao fazer a pergunta.
— Ela é especial.
— Só isso? Hum... ela é especial. Ela é perfeita, isso sim. Se eu fosse um garoto estaria completamente apaixonado por ela.
— Quer dizer que se você fosse um garoto estaríamos competindo para conquistar Amanda Mellark?
– E sinto lhe informar maninho, eu ganharia fácil de ti...
— Ah, quer dizer que eu tenho uma irmã fura olho? Senhor obrigado por não ter me dado um irmão!— Juntei as mãos em prece e clamei aos céus, mas Katniss acertou-me uma tapa na nuca. – Ui! – reclamei.
— Palhaço... para onde pretende leva-la, sábado à noite?
— Eu pensei de leva-la no Palace... – Encarei minha irmã. – O local é suntuoso e bastante romântico. Acha que ela irá gostar?
— Ah não Gale! Você consegue ser melhor que isso, quer que a Amanda continue te julgando um babaca? Por que não mostra para ela quem você é de verdade?
— Quem eu sou de verdade? – Arqueei as sobrancelhas.
— É. Não em quem você se tornou após a passagem daquele furacão chamado...
— Katniss, por favor, não quero falar disso. Não toque no nome daquela mulher.
— Me desculpa... sei que esse assunto ainda te machuca, mas já esta na hora de esquece-la. Não sabe como fiquei feliz em saber que está gostando de alguém e mais ainda em saber que é a Amanda. Tenho uma ideia, por que não a leva no Raoul?
— No Raoul? – ela acenou sustentando um sorriso encorajador. – Acha que ela irá gostar de ser levada para um lugar tão simples?
– Eu tenho certeza, Gale. Como você mesmo disse, a Amanda é uma mulher especial, não liga para essas bobagens. E o Raoul irá ficar radiante em te rever, sabe que ele sente saudades. Você nunca mais o procurou.
— É tão bom ver como a cantina vem crescendo, nos últimos anos.
— Graças a você, Gale. Não esqueça que os ajudou no início, quando a cantina era apenas um quiosque humilde na quinta avenida.
— Eu somente retribuí a gentileza, que eles tiveram conosco quando mais precisamos de apoio. Além do mais, o mérito pelo êxito dos negócios é todo dele.
— Então? Irá leva-la no Raoul?
Talvez estivesse mesmo na hora de eu voltar as origens.
— Vou. Só espero que você esteja certa e ela goste do lugar e de tudo que irá encontrar por lá.
— Disso eu tenho certeza. Ela irá amar.
******
Há pelo menos vinte minutos, Haymitch me olhava de maneira ameaçadora, o que me deixava cada vez mais desconfortável sentado naquela poltrona minúscula no centro de sua sala. Em nada aquele par de olhos de tonalidade tão perecida com a dos meus, me lembrava do funcionário “gente boa” que trabalhava na boate de meu tio.
— Haymitch... eu gostaria de lhe dizer que minhas intenções com sua sobrinha são as mais respeitosas possíveis. – O loiro revirou os olhos e tomou mais um gole de sua cerveja.
— Respeitosas? – Riu de maneira debochada. – Conta outra Hawthorne. Quando você vinha com a farinha, o meu bolo já estava pronto e confeitado para a sua festinha. Não sabe como essa situação toda...
— Podemos ir. – Amanda disse atrás de mim, e eu não poderia ter ficado mais aliviado, no entanto ao me virar...
— Nossa!— falei, assim que fiquei de pé e me virei para vê-la. Ela arqueou a sobrancelha direita como se me questiona-se “O que foi?” – Você está tão...
— Eu estou tão...?
Nunca tinha visto Amanda vestida daquele jeito. Não que ela estivesse feia, pelo contrário. Pouca maquiagem, cabelo amarrado e um conjunto de moletom simples, que não valorizava muito as curvas de seu corpo. Para completar o look, tênis All-star surrados. Contudo ela estava.
— Linda.
— Você não esta pensando em jantar no Palace vestida assim? – Enfadado, Haymitch questionou a sobrinha. O interrompi.
— Haymitch eu não vou leva-la ao Palace – respondi sem deixar de encara-la.
— Ah não? – Amanda inqueriu, desviando a atenção para o tio, em seguida me encarando novamente.
— Não minha querida, te levarei para jantar em um lugar muito melhor e tenho certeza que vai amar.
— Se está desistindo do Palace por causa de minhas roupas, vou logo avisando que...
— Não precisa se preocupar com suas roupas. – Retirei o terno que usava e também a gravata, os colocando sobre meu antebraço. – Acho que está realmente perfeita vestida assim. Eu é que exagerei. – Ouvi Haymitch gargalhar.
– E mais uma vez o tiro saiu pela culatra. Definitivamente, esse cara é um achado queridinha.— O Abernathy disse e levantou-se para sair da sala.
— O que ele quer dizer com: Esse cara é um achado? E tiro que saiu pela...?
— Você não vai querer saber Hawthorne, vamos logo. – Cortando minhas perguntas Amanda me indicou a porta de saída.
— Nada de esticar a noite com o bonitão, mocinha. Antes das doze badaladas de 00:00hs a quero em casa. – A voz de Haymitch ecoou pelo flat antes da porta se fechar. – A não ser, que a gata borralheira pretenda virar uma bela sopa de aboboras depois disso.
Amanda revirou os olhos assim que chegamos ao térreo e a impedi de abri porta do carro para entrar. Pedi paciência aos céus fazendo a delicadeza mesmo a contrariando.
Embora estivesse emburrada e visivelmente descontente de estar na minha companhia, eu não desistiria tão fácil de lhe proporcionar uma noite inesquecível e agradável. A chuva fina que caía desde cedo na Capital quase me fez rever os planos de leva-la à cantina de meus amigos, mas a atmosfera encantadora do local certamente quebraria um pouco sua resistência em jantar comigo, e seria a minha única chance de ao menos tentar conquista-la. Ponto para a minha irmã.
*****
– Droga esses tênis estão me matando, devia ter colocado meus chinelos de dedo. – Amanda disse ao descer do carro. – Espera!
— Você vai tirar os sapatos? – Ela ameaçou tirar o All-star.
— Por quê? – Ergueu a sobrancelha em desafio. – Ficará envergonhado de jantar ao lado de uma garota descalça?
— Não, jamais teria vergonha de você em qualquer situação. É que... tenho a sensação que está usando a velha tática de fazer o rapaz se desencantar no primeiro encontro. – Amanda me fitou como se a tivesse pego no flagra. Percebi que tinha acertado em cheio, então coloquei meu melhor sorriso no rosto e lhe lancei uma piscadela. – Pois saiba que sou duro na queda princesa. Vamos?
Estendi o braço em sua direção e depois de uma longa hesitação a loirinha aceitou o gesto educado.
— Obrigado por aceitar meu convite e me perdoe por te trazer em um lugar tão simples como este – disse de maneira sincera, torcendo para que a atmosfera do lugar ao menos me ajudasse a romper suas reservas.
— Eu não me importo com o lugar, só quero que essa noite termine logo – resmungou.
*****
– Raoul muito obrigado por atender meu pedido de última hora. – Fazia um bom tempo que não via, o melhor amigo de meu saudoso pai. O grisalho, um pouco acima do peso e fisionomia alegre veio ao meu encontro de braços abertos e sorriso largo assim que adentrei a pequena cantina.
– Meu menino, não precisa me agradecer o prazer é todo meu, sabe disso. Ao menos assim você vem nos visitar. – Raoul apertou-me, Amanda aparentou curiosidade com o gesto de carinho. – Adelline, mulher venha cá! Ele chegou.
– Adele está aí? – questionei surpreso, mas as surpresas estavam apenas começando.
— Sim ela está. Veio especialmente para preparar a sua massa... – Ele me lançou um olhar arteiro. – E ela não veio sozinha, Gianni também veio junto.
— Você está brincando... Gianni está na Capital?! – Meu sorriso se alargou, desde o ensino médio não via meu melhor amigo. Saber que Giovanni estava tão perto fazia minha noite valer a pena, em especial pelo reencontro após tanto tempo.
– Meu Deus, o que temos aqui! – Por um instante esqueci Amanda e corri para a entrada da cozinha para abraçar a senhora baixinha que chegava limpando as mãos em um pano de prato, ao seu lado Giovanni sustentava um sorriso tão largo quanto o meu. – Como você está lindo, um belo rapagão.
Ela deu algumas tapinhas de leve em meu rosto, do mesmo jeito que fazia quando eu era pequeno.
– Adele sempre generosa em seus comentários – disse encabulado diante do elogio. – Que felicidade encontra-los aqui, principalmente você, Gianni. – Me referi ao meu colega, e prontamente o puxei para um abraço. – Quando chegou, por que não me procurou?
Meu amigo havia deixado a casa dos pais ainda muito jovem, para estudar medicina fora de Panem, se embrenhou em trabalhos voluntários ligados a ONGs em países assolados pela guerra civil. Gianni sem dúvidas havia se tornado um orgulho para seus velhos. Dava até certa nostalgia, visto que meu amigo estava realizando um sonho que durante muito tempo desejamos para a nossa vida.
– Cheguei há dois dias. Mal desfiz as malas. – Atrás de nós um pigarrear me fez relembrar de Amanda e do real motivo de estar na cantina de Raoul.
– Acredito que vocês terão muito tempo para matar as saudades, no entanto essa belle mademoiselle deve estar morrendo de fome. E não é educado deixa-la esperando Gale. – disse Raoul com as mãos no ombro de uma loirinha bem séria, que ficou nitidamente irritada com seu tom galanteador, contudo baixou a guarda por um instante. Aproveitei para apresenta-la a todos.
– Perdoem-me – Me aproximei dela e peguei em sua mão – Essa é a Amanda Mellark. Amanda, esses são meus grandes amigos. Raoul, Adelline sua esposa e Giovanni, o filho dos dois.
— Obrigada – respondeu, entre dentes.
— Venha cá minha menina. – Adelline estendeu a mão para Amanda, que aceitou o gesto com um sorriso tímido nos lábios. Ninguém resistia a velha senhora. – Esse menino é uma joia rara mocinha... Joia rara— frisou. A garota olhou-me expondo incredulidade como se Adele falasse de outra pessoa. – Não o faça sofrer, ele já sofreu demais nessa vida...
— Adelline... – A interrompi, tudo que menos queria era me lembrar do passado durante o jantar. – Obrigado por ter preparado nosso Tagliatelle à carbonara.
— E devo dizer que está uma delícia, já experimentei.
— Tu continua o mesmo cara de pau, Gianni.
— Eu continuo um belíssimo cara de pau, e você continua com um belo dedo para conquistar mulheres bonitas.
— Eu ainda não a conquistei, mas essa será minha meta de vida, Giovanni.
— Hum, temos um homem apaixonado aqui... – Raoul afirmou e diferente de Amanda todos rimos. Fitei-a com carinho antes do mais velho nos encaminhar ao lugar que reservara com antecedência para nós dois.
*****
– Um dólar pelos seus pensamentos – chamei a atenção da garota a frente. Era engraçado ver a loira sustentar a expressão inquieta ao notar o quanto eu era querido por todos os garçons e funcionários do lugar, sem falar na família acolhedora que estava a tratando como uma princesa. Katniss era sábia. Foi uma tirada de mestre leva-la no Raoul ao invés do Palace. – Deve estar curiosa para saber quem são eles, não é? Em especial por serem pessoas bem diferente do meu círculo de convivência.
– Não vou negar, jamais pensei em ver Gale Hawthorne acompanhado de gente tão simples quanto essas. – Adorava a sinceridade dela. Raoul, Adele e Gianni, falavam e riam alto, abraçavam sempre que possível. Resumindo eram incríveis.
– O que você sabe sobre mim, Amanda? Não, não responde. – silencie-a antes que pudesse falar algo. – Sei que fui um babaca desde que me conheceu e não me orgulho disso. Eu te pedi uma chance para te mostrar quem sou de verdade. Não nego que estou interessado em você, e não é apenas como amigo, mas poderíamos ao menos começar por aí. Amizade. Que tal? – propus.
– Me desculpe Gale, mas fica difícil tirar a impressão de bad boy metido que eu tenho de ti, principalmente quando o vejo agindo como um troglodita desalmado, como lhe vi no shopping a semana passada. Ou vai negar que se encontrasse o rapaz que lhe quebrou o nariz, faria algum tipo de maldade com ele?
Lembrar-me dos idiotas que me causaram tantos infortúnios no baile de apresentação de Primrose me tirava o humor.
— O que você faria se um carinha qualquer, chegasse a sua residência e faltasse com o respeito com a sua irmã, a tratando como um simples pedaço de carne que poderia comer em um fest food, e caso não se sentisse satisfeito dispensasse o que sobrou no prato, como se ela não fosse a pessoa mais importante do mundo para alguém?
Amanda ajeitou-se na cadeira como se tivesse ficado sem jeito ante o meu questionamento.
– Primrose e Katniss, são as duas pessoas que mais amo nessa vida. Não deixaria, nem deixarei que alguém as faça sofrer nesta vida. Então, se você acha que é uma babaquice zelar pela honra delas, assumo sou um babaca... Aquele cara que eu estava perseguindo no shopping teve sorte de não tê-lo encontrado. Ele e o irmão entraram em minha casa e desonraram minha família, trataram Primrose como uma qualquer. Quando fui defende-la ganhei um nariz quebrado de brinde...
– Eu nunca tinha pensado a coisa toda por esse ângulo... – A loirinha parecia devanear enquanto me ouvia. Na verdade, mal parecia estar ao meu lado, seu olhar se encontrava fixo nas próprias mãos.
– Amanda?
Chamei enquanto buscava segurar suas mãos que ela encarava com tamanho interesse. No entanto Emilio, um dos garçons que trabalhava no estabelecimento, nos interrompeu trazendo o carrinho com nossos pedidos. Esperei que ele nos servisse e ao notar o quanto o assunto desconcertou a minha princesa, não quis retoma-lo.
– Me fale um pouco sobre você – pedi, fazendo-a voltar da breve distração.
– Sobre mim?
– É, sobre você. Diga-me, quem é Amanda Mellark?
– ... Sinceramente, não sei, ainda não pensei nisso...
Franzi o cenho diante da resposta, principalmente da careta que a acompanhou. Logo ela ficou sem graça e continuou.
– Eu só tenho vinte dois anos, mal saí da adolescência, ainda estou confusa quanto, a saber, quem sou. Dá um desconto... – Soou indignada e ambos caímos na gargalhada, entretanto um segundo depois desarmou-me completamente ao perguntar: – Então, você começa. Quem é, Gale Hawthorne Everdeen?
Estava ali a minha oportunidade. Em pensamento agradeci mais uma vez a minha irmãzinha, afinal o sorriso da mulher a minha frente me dizia que ela havia se permitido me conhecer melhor. Nem tudo estava perdido e a noite era apenas uma criança.
Fale com o autor