Mandara esboçava um sorriso de contento. Tinha saído mais cedo do trabalho para queimar o banco de horas que havia feito na semana anterior. Entrou em casa tirando os sapatos, sentindo o alívio nos pés depois de tanta correria. Aqueceu a comida que deixou pronta na noite anterior, colocou uma série nova para assistir enquanto almoçava.

Estava feliz pelo descanso merecido depois de tanto esforço, os dias estavam ficando cada vez mais puxados. No entanto, como de costume, a felicidade foi passageira, não durou mais que alguns poucos minutos. Acabou no momento em que seu celular começou a apitar freneticamente, o que significava que alguém estava furioso. Pegou relutante o aparelho, abriu o aplicativo de mensagens e viu várias notificações no grupo da empresa. Clicou no ícone da conversa e rolou a tela com o polegar esquerdo, seu coração acelerou ao ler o texto violento.

Imediatamente fez uma ligação para sua superior, explicou a situação mal compreendida e pediu desculpas pelo ocorrido. Encerrou a chamada e desligou o celular. Sentou-se no sofá com as pernas dobradas, apertando-as fortemente contra o tórax, ficou encarando a tela da televisão com os olhos arregalados, o seriado pausado em uma cena sobre um julgamento no supremo tribunal.

Por que as pessoas, geralmente em cargos mais altos, faziam aquele tipo de coisa?

Humilhar subordinados, acusar deliberadamente sem prova alguma, de forma pública e escrachada. Mandara pensava que aquele tipo de gente nascia com o único propósito de acabar com a felicidade e paz alheia. E não era como se aquilo tivesse acontecido pela primeira vez, era algo recorrente, e que certamente também não seria a última vez a acontecer.

A jovem chorou copiosamente por meia hora, até que os soluços foram diminuindo até virarem nada mais que um gemido abafado. Secou o rosto com a manga do casaco e finalmente se levantou do sofá, foi até a cozinha, colocou água para ferver e preparou o bule de chá com uma mistura de camomila e erva doce. Assim que a chaleira elétrica desligou, derramou a água sobre as ervas secas e aguardou a infusão por cinco minutos silenciosos. Bebericou a bebida quente vagarosamente, a tarde de descanso já tinha terminado e ela se sentia horrível. O peito apertado, os olhos sonolentos e a falta de vontade pesavam sobre seu corpo estirado na cama.

Entrou em desespero novamente.

Ergueu-se em um sobressalto, começou a andar perdidamente de um lado para o outro, com as mãos trêmulas e dormentes apertou a própria face. Tentou pensar no que poderia fazer para acabar com aquela dor.

Nada de bom.

Enxugou o rosto e foi para a sala. Ligou o computador e entrou no seu jogo online favorito. Jogou por algum tempo, escrevendo alguns textos enquanto esperava pelo início das partidas. Foi o único momento em que esqueceu do ocorrido, um desfrutar da paz curto demais, pois novas mensagens subiram na tela de seu celular, desta vez com seu nome marcado. Eram alterações no trabalho, algo que ela temia há muito tempo, sabia que cedo ou tarde aquilo viria a acontecer. Era hora de começar a se preparar para o próximo dia, seria turbulento. Teria que suplicar por uma salvação, rezava para que alguém ouvisse seu clamor.

Pois não sabia mais o que seria do resto de seus dias de vida.

Notas finais
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Você chegou ao fim do livro. Parabéns!