Mamãe só está cansada ...

1 Capítulo 1 Era pálido e respirava ...


Notas iniciais
Não é uma história sobre super poderes em um mundo de fantasia é sobre um mundo que muita gente conhece, mas ninguém quer falar nada.

Eu nasci desde mesmo jeito. Cesariana de emergência,quase que na mesma maternidade, a diferença é que eu não fiquei com a minha mãe nas primeiras horas que nasci. Eu fiquei no berçário.
Mas agora do meu lado tem um bebê, de poucas horas, uma menina, que quase não chora e se mexe pouco, acho que dorme. Eu não sei o que fazer com ela, exceto alimentar e limpar. Não que eu seja ingênua, mas, é desesperador ver aquele bebê ali, prontinho e dependendo exclusivamente de você.
Minha mãe sentava em uma cadeira de plástico desconfortável aos pés da maca que eu estava, no olhar dela, pude notar, ela não queria aquele bebê tanto quanto eu. Eu podia sentir o incômodo e uma parede de decepção entre nós.
Ela não queria ser avó, eu não queria ser mãe, mas ainda sim o bebê estava lá. No mesmo tempo em que eu podia chamar a assistente social e dizer que podiam levar para adoção, eu sentia uma espécie de obrigação moral de cuidar daquela criaturinha. E claro a pressão para não ser a " Mãe ordinária, descuidada" que todo mundo gosta de dizer para alguma mulher.
A noite passou devagar. Deus como eu queria que o tempo corresse.Não queria ouvir mais nenhum tipo de choro, nem meu, nem do meu bebê e de nenhuma outra criança naquele lugar. Todas as horas foram horríveis lá. Não podia sair do quarto, porque mulheres com parto de cesariana correm perigo nos primeiros dias, não pude ver tv, porque meu quarto era coletivo e a maternidade pública, passei três dias lá, sem sair da cama,apenas para ir ao banheiro, sem ouvir nada, nem ver nada. O quarto estava sempre cheio com visitas de outras mulheres e das minhas também.
Eu senti um cansaço imenso e indescritível lá queria dormir, queria sair e ver o sol,queria que pudesse voltar no tempo, queria que tudo voltasse a ser como era. Minha cabeça fervilhava coisas e ideias mas, ao olhar para aquele bebê era como se todos os meus sonhos e felicidades fossem sumindo como cinzas ao vento.
Eu não podia contar com ninguém. Minha mãe diria que é frescura, eu e minha sogra nunca nos demos bem.A enfermeiras são do tipo que dizem " Na hora de virar os olhinhos ninguém achou ruim", era como ser agredida todas as vezes que pensava em deixar tudo e sumir. Era responsabilidade demais e suporte de menos. Hoje fico pensando em quão mais suave teria sido a minha vida se uma assistente social, ou psicóloga tivesse ido falar comigo, saber o que eu sentia.
Mas nesta hora, na hora em que você vira mãe, nada mais importa, você, como você se sente, como vai ser a sua vida, rotina, sonhos, nada mais importa, apenas o bebê e o bem estar dele. Eu ja ouvi dizer que quando nasce um bebê, uma mãe nasce também, eu aprendi na pele, que na maioria das vezes, quando nasce um bebê,morre uma mulher.
Claro, agora você deve pensar " Se não quer ter um neném, porque abriu as pernas?" ou " Foi mulher para trepar, vai ser pra criar" é como se ao nascer um bebê, você deixasse de existir, e apenas a criança e suas vontades fossem atendidas.
Até hoje, mesmo depois de anos, fico me perguntando " Cadê aquelas mulheres reluzentes, sorridentes e satisfeitas, que eu sempre vi nas novelas e propagandas?"

O meu namorado, que estava em outro estado... Sim, meu namorado, você realmente acha que toda mãe é casada? Bem resolvida financeiramente e graduada em um curo de renome? Não. Sou jovem, tenho 20 anos,acabei de trancar meu curso de Publicidade e propaganda e agora, sou mãe dessa coisinha pálida e que respira em meus braços. Ele enfim chegou, não teve lágrimas, nem " Parabéns !!", nós nos olhamos, eu cansada e ele surpreso, e ambus cheios de dúvidas e medo, mas nada mais importava, seriamos egoístas se caíssemos no choro. Ele não quis pegar a neném, teve medo de quebrar. Sim eles são muito frágeis e moles, parece que um sopro pode quebrá-los ao meio.
Ela abriu os olhos e deu um sorrisinho leve ao sentir ele tocando o rosto dela com o dedo indicador, e ele sorriu também, acho que se reconheceram de algum modo estranho entre eles. Respirei fundo, tentando dizer por isso, tudo aquilo que eu queria, mas não consegui, e só suspirei mesmo.
Eu via um tempo escuro e nebuloso entre nós, choro,brigas de casais, e talvez até uma separação, e então eu seria o que mais temia no mundo, ser mãe solteira. Ser a vergonha da família e do bairro, ouvir fofocas e olhares como quem diz " Pois é, ser mãe solteira, a menina que todo mundo adorava..." Como se a minha vida estivesse em um bolão, nas mãos das vizinhas invejosas e fofoqueiras