Malyn
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Madrugada de sexta-feira. Acordo por causa do calor. Esta noite está mais quente do que a de ontem, estou soando muito depois de acordar de meu pesadelo que persegue desde que me considero uma pessoa. Meu nome é Malyn, tenho 32 anos de idade. Perdi todos que amava, e hoje só tenho meu amigo Bory. Ninguém pode vê-lo, só eu, isso é uma das vantagens de ter um amigo invisível. Bory está comigo desde a minha infância, ele é meu único amigo. São 3 horas da manhã, quando olho meu relógio ao lado da minha cama, não sei o que fazer, pois perdi o sono, então tomo um banho, me visto, pego meu casaco e saio para dar uma volta, sem saber exatamente para onde quero ir.
Estou caminhando pela calçada do prédio onde moro, pensando no pesadelo que tive; Estou boiando num oceano que parece nunca ter fim, e algo me puxa pra baixo, eu tento voltar e não consigo. A última coisa que vejo enquanto estou sendo puxada para baixo, é alguém que parece estar sentado na lua. Tenho esse sonho desde a minha infância e até hoje não sei o que ele quer dizer. Enquanto caminho, sinto alguma coisa passando entre os meus pés, e dou um pulo de susto. “Deve ter sido um rato”, penso. Continuo caminhando, e quando desvio o olhar pro meu lado direito, vejo Bory, sentando na calçada do outro lado da rua. Penso em ir até ele, mas não sei por que decido ignorá-lo. Estou desde 3 horas da manhã caminhando sem rumo. Já são 4 horas e 30 minutos quando olho meu relógio de pulso. “Preciso voltar para casa”, penso. Dou meia volta em direção ao meu prédio. Quando chego, tiro meu casaco e o jogo em cima do sofá da sala, e vou ao banheiro. Fico encarando meu reflexo por algum tempo no espelho, sem saber exatamente por que. Começo a notar os detalhes em mim mesma. Meus olhos castanhos parecem cansados, meu cabelo loiro parece meio quebrado e bagunçado, minhas sobrancelhas precisam ser feitas urgentemente. Meu nariz é muito achatado e fino ao mesmo tempo, eu o odeio. Enquanto reparo nos meus defeitos em frente ao espelho do banheiro, continuo tentando entender meu pesadelo. Por que não sonho com outra coisa? Por que algo me puxa para baixo? Por que alguém estava sentando na lua? Perguntas, perguntas, e mais perguntas enchem minha cabeça até minhas têmporas começarem a doer. Abro o espelho do banheiro e pego um remédio que meu psicólogo, o Dr. Maters, me recomendou. Ainda estou sem sono nenhum quando acaba de dar 5 horas da manhã de sexta-feira. Estou apoiada na janela do meu quarto, olhando para as luzes da cidade, das casas, e do Sol que ainda custa a sair de trás das nuvens. Desisto, mesmo sem sono, vou para a cama dormir, e, que maravilha, eu consigo. Mais maravilhoso ainda é saber que meu pesadelo não voltou como sempre acontecia. Pela primeira vez em muito tempo, eu realmente dormi.
Acordo as 9 horas manhã de sexta feira, atrasada para minha caminhada, não gosto de caminhar, mas como o Dr. Maters diz que é bom para a meu bem estar, tenho que fazê-lo toda manhã. Apesar de ter dormido poucas horas, me sinto revigorada e feliz pelo fato de meu pesadelo não ter voltado essa madrugada. Eu tinha esquecido como era bom não ter pesadelos... Espera, eu nunca soube como é não ter pesadelos. Estou tão animada que visto minha roupa de caminhada, e desço para correr. Antes de sair pela porta, noto que Bory não voltou pra casa. A última vez que o vi foi quando ele estava sentado na calçada do outro lado da rua, enquanto eu dava uma volta pelo quarteirão. Fico preocupada com Bory, mesmo ele sendo um ser que só exista para mim, e que só eu possa vê-lo, fico imaginando o que acontecera com ele. Saio de casa, desço pelas escadas para esquentar o corpo um pouco antes da caminhada, e quando chega na rua, começo a caminhada. Depois de dar 3 voltas no meu quarteirão, começo a ficar ofegante, e penso que já é suficiente por hoje. Estou voltando para casa quando passo pelo mesmo local onde, provavelmente um rato, passou pelos meus pés nessa madrugada. Eu não tinha reparado, mas há um beco bem estreito ali perto, e não resisto a idéia de entrar ali para saber o que há lá.
Ao me espremer para conseguir passar pelo beco estreito ao lado do meu prédio, consigo atravessa-l o e ver o que há lá. Sinto que eu não deveria ter entrado ali, eu quero sair daquele lugar, mas meus pés não se mexem, e o motivo é Joseph, meu amor platônico na época da escola. Eu fico paralisada ao vê-lo em meio a tanto lixo que há naquele beco imundo e sujo. Ele está desacordado, em cima de alguns sacos de lixo. Ao seu lado, há sangue, comida estragada com moscas e, mais ao lado, mais lixo. Tento ir em sua direção, mas ainda estou muito apavorada com o estado dele. Além de estar imundo, ele está todo machucado, com feridas abertas na região da testa e por todo seu corpo. “Por que eu tive que entrar nesse maldito beco?!”, penso comigo mesma enquanto o observo apavorada.
Tento chamar seu nome, mas minha boca também não se move. Não sei o que houve com meu corpo para isso acontecer. “Sou uma adulta, não sou mais uma criança, preciso saber o que fazer em situações como essa”, penso. Então, agora tenho duas opções: Deixo Joseph aqui, imundo e ferido em meio ao lixo, ou o levo para casa, o ajudo, e tento ajudá-lo de alguma forma. Penso, por um minuto, em dar meia volta e voltar para casa, e fingir que nada aconteceu. Mas sei que não vou conseguir dormir se eu deixar Joseph aqui. Então,decido que vou conseguir me mover e tira-lo dali. Eu o encaro uma última vez antes de ir até ele. Quando estou perto o suficiente, me abaixo para olhar o estado de Joseph mais de perto. Não sou médica, nem nada do tipo, mas dá para ver que as feridas em seus braços são bem sérias. Parece que há cortes feitos com lâminas bem afiadas, como canivetes, facas, não sei bem ao certo. Seu braço está completamente encharcado de sangue seco. “Ele deve estar aqui a um bom tempo...”, penso. Eu analiso seu ferimento da testa, chego bem perto para ver sua ferida, parece que ele ralou a testa em algum lugar. Eu pego seus braços, num lugar onde não há feridas, e o sacudo chamando seu nome. Mas ele não acorda. Passo os braços de Joseph para cima, apoiando-os no meu ombro, e levanto o segurando. Tenho que ficar de lado para conseguir passar de novo pelo beco para sair de lá. Consigo passar pelo beco. Subo pelo elevador. Chego no meu andar e abro a porta do apartamento com dificuldade, com Joseph nos braços. Assim que entro, o levo direto para o meu quarto, e o deito em minha cama. Assim que o deito, ele começa a acordar devagar com um tosse seca. Vou até a cozinha, pego um copo de água para Joseph. Quando volto, ele já está sentado na cama, e quando entro no quarto, ele está me encarando. Fico paralisada novamente.
- Oi Malyn, quanto tempo. – diz ele com um sorrisinho entre os lábios rosados que tem.
Fico completamente apavorada pelo fato dele lembrar meu nome. Tento não parecer nervosa, para não parecer idiota.
- Olá, Joseph.
Vou até ele com o copo d’água, tentando não tremer e deixar o copo cair. Quando chego perto dele, percebo que ele ainda está olhando para mim. Então, estendo a mão com o copo de água. Ele pega e começa a beber.
- Então, o que aconteceu com você? – digo.
- Longa história. – diz ele, com o copo nos lábios.
- Entendo. Acho que você deveria tomar um banho, para que eu possa fazer os curativos – aconselho a ele.
- Ok. Por onde é o banheiro? – pergunta ele, deixando o copo na mesinha ao lado da cama.
- Segunda porta á esquerda. – informo a ele.
Ele se levanta da cama com dificuldade, se apoiando nos móveis do quarto. Eu pergunto se ele precisa de ajuda, mas ele diz que não, então não o questiono. Eu o observo mancar até o meu banheiro, e só paro quando ele passa pela porta. Dou um suspiro, com os olhos fechados. Olho para os lençóis da minha cama, estão imundos. Com manchas de sangue. Recolho os lençóis sujos, ponho-os dentro da cesta e os levo para a lavanderia no andar de baixo. Enquanto desço as escadas até a lavanderia, penso por que diabos Joseph estava naquele beco, imundo, todo machucado e desacordado. Coloco os lençóis sujos dentro da maquina de lavar e subo novamente para o meu apartamento. Assim que entro e passo pela sala, não escuto mais o som da água do chuveiro. Deixo a cesta em algum lugar da cozinha, vou ao banheiro e pego a minha caixa de primeiros socorros. Abro a porta do meu quarto, e me deparo com Joseph de toalha. Ele me encara assim que entro no quarto. Estou completamente vermelha e sem ação.
- Desculpe! – digo, fechando a porta rapidamente
- Não se preocupe, Malyn. Nós conhecemos a tanto tempo, não tem necessidade dessa vergonha. – diz ele, rindo.
- Não! Isso não é apropriado, Joseph.
- Ah, pare com isso. Vem cá fazer logo esses curativos. – diz Joseph, me chamando.
Ainda estou vermelha quando entro no quarto. Ele está sentado na cama, com um sorriso nos lábios, esperando que eu faça seus curativos.
Vou até ele, ainda com o rosto avermelhado, com a caixa de primeiros socorros em mãos. Quando me aproximo dele, me ajoelho e abro a caixa, pego um pouco de algodão com um pouco de pomada para ferimentos. Pego o braço de Joseph, sem olhar para ele. Assim que o toco posso sentir sua pele morena, quente e limpa. Sua pele é tão macia, tão suave que mal dá para descrevê-la. Começo pelos ferimentos do antebraço, vou passando devagar o algodão, com medo de machucá-lo. Enquanto vou passando o remédio, percebo que estou tremendo, mas não entendo o por quê. “Pare de tremer!”, ordeno a mim mesma. Por um instante paro, mas segundos depois, volto, pois sinto que Joseph está olhando para mim.
- Ei, olhe para mim. – diz Joseph, com uma voz tentadora e doce.
Num movimento automático, olho para Joseph. Assim que meu olhar cruza o dele, seu rosto está com aparência séria, mas segundos depois, ele sorri. Que sorriso lindo. Quando ele sorri para mim, volto aos tempos da escola, quando eu era uma criança tímida e quieta, e quando eu era “apaixonada” por ele. Penso se ele sabe sobre o meu antigo amor por ele, mas não pergunto. Por um momento, lembro das tardes que eu perseguira Joseph depois da aula, e o assistira jogando bola na rua com seus amigos. Lembro de seus cabelos pretos e grandes ao vento, e encharcados de suor enquanto brincava. Lembro também desse sorriso. Joseph mudou bastante, cortou os cabelos e cresceu... Mas esse sorriso, ingênuo e sarcástico, continua o mesmo.
- Seus olhos continuam lindos. – diz Joseph, me encarando.
É incrível o efeito que essas palavras tem sobre mim. Fico vermelha novamente, mas dessa vez com muito mais intensidade. Joseph nunca me elogiou, ou algo parecido com elogio. E parece tão verdadeiro o que ele acabara de dizer. Olho para seus lábios, pensando em como seria seu sabor. Olho para seus olhos. O olhar de Joseph me deixa completamente sem ação, sem fala, sem estrutura.
- Hmm. Obrigada, Joseph. – digo envergonhada, e o encarando.
Abaixo a cabeça para continuar com os curativos. Por um segundo consigo continuar, mas sei que Joseph ainda está me observando. Eu sinto suas mãos pesadas, macias e quentes tocarem meu pescoço, e olho para ele novamente. Não sei o que está acontecendo. Algo em meu corpo está me impulsionando para beijá-lo, mas não posso fazer isso. Sabe-se lá se Joseph tem uma namorada, ou até uma esposa. Muitos anos se passaram desde que o vi pela última vez, ele poderia muito bem já ter se casado, os até tido filhos. E eu nunca teria coragem para fazer algo tão radical. Mas algo inesperado acontece. Ele se curva para frente, onde eu estou, e começa a se aproximar de mim, com suas mãos quentes e macias no meu pescoço, por baixo dos meus cabelos. Ele se aproxima, me puxando para ele ao mesmo tempo, e olhando dentro dos meus olhos. E quando ele está a milímetros da minha boca, ainda me olhando, eu olho novamente para seus lábios. Os lábios de Joseph são extremamente carnudos e rosados. É um pecado não beijá-los. Mas não posso fazer isso. Acabei de encontrá-lo, em meio ao lixo, desacordado e todo machucado, e não faço idéia do que aconteceu com ele. Então, olho para seus lábios uma última vez, antes de recuar. Eu recuo. Ele permanece na mesma posição, meio inclinado. Penso se fiz a decisão certa em não beijá-lo. Mas o pensamento logo foge da minha mente, pois lembro que preciso terminar os curativos de Joseph.
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