Malmequer
1 único
Pensar em festa de família sempre me dá um embrulho no estômago por eu parecer um monstro diante dos demais parentes. É engraçado, você não quer seguir aquele modelo do mundo luminoso — como o conceito de Sinclair —, mas tu fica ainda assim incomodado por ter escolhido um caminho diferente.
O caminho que Caim perambulou pela terra abandonado e o de adorar Abraxas em vez de Deus.
Mas minha mãe era a única tia que ainda não havia visto a aniversariante, a filha do meu primo completando 1 ano de idade, e ela precisava cumprir seu papel como tal. Emocionante.
Os pais estavam muito felizes no salão com a mesa decorada ao lado e a filha no colo de um deles. Recebiam todos no cerimonial muito felizes, e eu não duvidava de que realmente estavam. Não, quando me lembrava que a mãe há alguns dias havia postado no instagram o vídeo do parto que me fez quase vomitar. O que tem na cabeça desse pessoal do mundo luminoso? Eu não sei.
Eu nunca pensei em usar bebês como ostentação, confesso que foi criativo de sua parte e até relevei por aquelas imagens terem entrado sem permissão na minha mente. No meu instagram gosto de mostrar o quanto sei das coisas, coisas que você nunca ouviu falar. Sim, eu sou pedante. Podem atirar pedras, porque eu quero mesmo morrer.
Mas voltando a festa, a decoração era das princesas da Disney e tinha todas, menos Mulan e Tiana, talvez porque não havia cotas. Naquele mundo luminoso, os pais eram loiros e tinham olhos verdes, a filha também. A cor predominante no salão era o rosa, e a pequena vestia um vestido de princesa também rosa.
Eu me sentei numa mesa de plástico, que custou muito pros garçons me servirem uma coca-cola — não havia álcool porque a maioria dos convidados fazia parte da igreja —, e meus pais sentaram nas cadeiras que davam para minha direção. Ao meu lado estava minha tia e ao lado dela, seu marido. Um tio meio enjoado que já fez muitas operações, mas ultimamente eu me simpatizava com ele. Talvez porque eu comecei a achar pessoas com personalidade nada a ver mais atrativas.
Eu finalmente peguei uma coca-cola, comemorei e tudo. Minha prima passava com o namorado e se sentou conosco. Ela era outra que já fizera muitas operações e que tinha uma personalidade enjoadinha, dizem que era pelo fato do cérebro dela não ser oxigenado o suficiente. Eu dava de ombros, porque aos meus olhos ela era um ser muito interessante e muito agradável a ser estudado. Além de que, ela não fazia parte do mundo luminoso. Mesmo com as dificuldades, a garota conseguiu abrir asas e voar. Ela também era discípula de Caim, embora não soubesse, eu acho...
A festa foi passando, a comida não era boa e os garçons mal passavam na nossa mesa. Meu tio começou a chorar por ter se lembrado da mãe dele, que morreu faz alguns anos. Minha mãe foi a pessoa que ficou com ela no final, então toda vez que ele via minha mãe, ficava muito grato e chorava. Por vê-lo assim, meu lado bom despertou e eu passei a ver aqueles adultos, entrando na terceira idade, com outros olhos. Não era pena, mas era curioso que todos logo morreriam e já apresentavam problemas graves na saúde. Eu balancei a cabeça e olhei ao meu redor para me acalmar, mas foi nesse momento que entendi por que não queria ir na festa: meus primos todos casados, com mulheres lindas, com filhos, carro e tudo mais.
E eu ainda morava com meus pais e gostava de ver desenho japonês.
Entrei em mais desespero quando vi três jovens e descobri que eram aquelas três crianças da época que eu frequentava a igreja. Eram irmãs e estavam lindas. Isso me deu um susto do caralho, entendi que o tempo passou e eu fiquei parado nele. A paranoia veio e a depressão desceu a mim. Eu não era muito diferente daqueles na mesa, estávamos no mesmo barco e todos nós morreríamos. Eu, jovem, não aproveitava minha juventude e nem me tornava mais responsável. Oh, Cristo, o que aconteceu comigo?
Eu chorei na mesa como meu tio chorara algumas horas antes, mas lembro de ter terminado a noite cantando ao lado dele uma música sobre Jesus. Estávamos muito felizes, porque afinal, estamos vivos.
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