Maledhiel
2 Acorde Maledhiel
Notas iniciais
Não era de se esperar que Bellort tenha aprisionado Maledhiel em seus aposentos. O reino de Artálas estava completamente indefesa com as grandes maquinas de extração de ouro e diamantes da época, além de centenas de mineradores que garimpavam cada vez mais aquelas que eram belas e férteis terras. Quando Maledhiel correu ao seu quarto, pela vergonha de seus atos, o rei ordenou que dois guardas permanecessem ali sem descanso, revezando com outros dois no turno da noite, para garantir que o elfo da noite não saísse de forma alguma. Haviam lanças apontadas na porta do quarto, e se caso o jovem resolvesse espiar o movimento no corredor, seria morto em um piscar de olhos. Mas não era a intenção de Maledhiel espiar, já que durante cinco longos anos permaneceu sentado, com suas asas recolhidas aquecendo o seu corpo, visto que desde a morte do rei e da rainha, Artálas se transformara num gelo, e nem mesmo os raros raios de sol ajudavam a esquentar o seu povo. Os reis das grandes cidades humanas montaram suas guardas defronte ao grande castelo da cidade, impedindo que qualquer outro ser mágico pudesse invadi-lo e assim resgatar o príncipe. Muitas criaturas mágicas recorreram a antigas terras, já há muito não tinham vida, e ali elas permaneceram reclusas, com fome, frio e definhando, já que não se banhavam com as águas das energizantes cachoeiras de suas terras. Artálas não tinha mais vida, e as cinzas e o desmatamento era constante já que o rei exportava a madeira para outras regiões gerando cada vez mais lucros aos seus cofres mundanos.
— Vamos seus vermes. Como podem ser mágicas se nem podem levantar essas pedras para criar o forte? – dizia um dos guardas aos elfos da floresta, escravizados e humilhados constantemente.
— O senhor precisa entender que a magia não funciona desta forma. – disse um elfo pálido pela fome.
— O que me interessa de como ela funciona, vocês não se julgam mágicos? Feiticeiros da mata? Ou será que vocês viveram a vida ordenhando vacas? – disse um dos soldados estralando um imenso chicote nas costas de um dos elfos — Elevem essa rocha a oito metros, ou um de vocês pagará com sua miserável vida.
Rapidamente vários elfos se alinharam e fecharam os seus olhos e com as mãos tentavam emanar alguma força qualquer para elevar a rocha, mas não tiveram êxito. Como dito, a magia não funciona daquela forma, e eles precisaram se banhar das águas dos rios, e se alimentar dos frutos das arvores que, agora, em sua maioria, estavam mortas. Além disso, era o rei que lhes davam força, pois a energia era canalizada totalmente nele, e isso era algo que os homens não sabiam.
— Peço desculpa meu nobre senhor, mas não podemos realizar esse feito, não temos forças. – disse um dos elfos.
— Quem sabe se... – o soldado seguiu até uma das carroças cobertas por uma lona e dali retirou uma gaiola com pequenas fadas azuis, desesperadas pela prisão — Uma delas morrerá a cada fracasso de vocês. A escolha não será minha. – disse o soldado rindo de forma cruel.
— Um dia sentira a força da natureza contra os seus atos pecaminosos. – desafiou o elfo.
— Até hoje ela só tem nos dado vitorias, elfo insolente. Agora, elevem essa maldita rocha a oito metros, ou iremos matar uma a uma.
Não será necessário narrar o que houve depois disso, pois todas as fadas que estavam aprisionadas foram esmagadas pelas mãos daquele soldado.
Maledhiel permanecia ainda em seu quarto escuro, infeliz e acordado, revivendo o momento em que seu pai fora assassinado, e que sua mãe se jogara da Colina da Morte. A sua dor ainda era grande e seu desespero pela desobediência que causara tudo aquilo parecia somente aumentar a cada minuto que se passava.
Não se sabe ao certo que dia foi, mas naquele em especial Maledhiel recebeu uma ilustre visita de uma sagaz fadinha de asas verdes, que conseguira escapar das gaiolas do carrasco. Ela apareceu na janela de seu quarto forçando a janela feita de madeira maciça e iluminou o quarto a procura do elfo da noite, que estava recolhido no canto, sentindo-se insignificante e totalmente desprovido de lucidez. Ela repousou seus pequenos pezinhos no joelho do elfo e o olhou com temor pelo o que ele havia se tornado, por uma ou duas vezes deu um pequeno salto batendo aquelas minúsculas mãos no rosto do elfo tentando o trazer a sanidade, mas parecia que tudo era em vão. Ela olhou a um lado e a outro e voou até a soleira da porta, deitou-se e esticou o seu corpinho até conseguir ver os soldados estrategicamente posicionados ali. Retornou ao centro do quarto escuro e segurou o ar. Sua mágica seria realizada ali. Fadas eram diferentes dos elfos, além de muito poderosas, eram também independentes, pois ao contrário deles, não precisavam do rei para emanar o seu poder. Além disso, são muito teimosas e bastantes difíceis de lhe dar devido a tal temperamento. Mas não aquela fadinha, já que ela conseguiu, mesmo depois de muito tempo, fugir, e estar ali ao lado do príncipe. Ela então começou a girar freneticamente e aumentou o seu tamanho, mas não se desesperem, pois não passou do tamanho de um mindinho.
– Maledhiel deve acordar. – disse ela voando até ele, que ainda e encontrava com o olhar perdido quase sem vida. — Maledhiel, acorde. – disse ela novamente, batendo suas mãozinhas na cabeça do príncipe, e depois enquanto ainda pedia para que ele acordasse, começou a chorar e a puxar os cabelos negros do elfo. — Faça da minha fuga uma vitória, você precisa acordar, precisa sair dessa escuridão que se enviou, o seu povo precisa de você. – a fadinha não estava conseguindo êxito no que queria, e então diminuiu sua luz e repousou no ombro do príncipe inerte, fazendo singelos carinhos em seu pescoço.
Haveria na manhã seguinte uma grande festa pela vitória e posse de Artálas, cinco anos já havia se passado, e dois que a fadinha era companheira de Maledhiel. Ela vivia se esgueirando dentro do castelo, em busca de água, e com um lencinho umedecido passava lentamente nos lábios do elfo, que parecia ainda não mostrar nenhum tipo de reação. Fadas são teimosas, logo ela também saia do castelo em busca de pequenas amoras e forçava Maledhiel a engoli-las, mesmo assim a mandíbula feroz do príncipe, parecia não esboçar qualquer movimento de satisfação pelo alimento. A pequena fadinha o protegeu durante todos esses tempos, e conversava com o seu colega de prisão, sempre que possível.
— Estão elevando balões e fitas por toda a cidade. – dizia ela com sua voz fina — Existe muita gente chegando das terras dos reinos dos humanos, mas que povo sem criatividade, o que é aquilo na cabeça deles? Ah, são chapéus. São horríveis Maledhiel, você precisa ver isso. – ela voou para o ombro do príncipe.
— Ouvi dizer que os humanos estão preparando essa festa para comemorar a vitória contra o seu pai, lamentável festejar pela morte do rei. Você precisa fazer alguma coisa, — dizia ela angustiada — Não pode se isolar desta maneira do mundo, o seu povo precisa de você. Vamos Maledhiel, acorde. Eu sei que assim como eu, outros não desistirão. Eu acredito em você!
Como era terrível para ela não conseguir fazer nada para que ele acordasse, ele já estava entregue aquela escuridão, e ela sabia, que ele já havia se tornando o que o povo de Artálas chamava de Homem Pedra.
Conta-se a lenda, isso é claro levando em consideração o fato de ser antiga e de que existe uma remota possibilidade de que ela seja real, de que os antigos elfos da floresta, da noite e dos mares, os primeiros mágicos criados na realidade, se revoltaram contra as ações do rei supremo, que acreditava que existiria uma chance deles se envolverem com os humanos. Obviamente que eles estavam enganados, tanto que a lei marcial do reino era justamente não acreditar neles. Mas tal revolta gerou uma briga e desta briga surgiram os primeiros exilados, que consumiram a própria alma de tanto ódio que acabaram se tornando em Homens Pedra. As fadas, que voam para lá e para cá que contavam esta historia, e elas diziam que um dia eles retornariam para se vingar, mas sempre ficavam na duvida se eles retornariam para massacrar os humanos ou o rei, e adivinhem: Maledhiel é descendente do rei supremo, logo, se fosse verdade tal fundamento, ele estaria em péssimos lençóis. Mas como elas mesmas dizem se tratar de uma lenda, tal chance de ser Maledhiel, ou até mesmo os próprios humanos, exterminados por tais Homens Pedra era quase nula. Bem sabemos que tais histórias quando passam de geração a geração são alteradas, e isso nunca foi algo que preocupou os moradores e muito menos ao rei Iorthir.
Nossa singela e teimosa fada ainda estava ali, agarrada na janela do quarto do elfo vendo a multidão chegar e menosprezando a forma como eles estavam vestidos e pela forma grotesca pela qual falavam. Ali do quarto, era possível de ver o pátio onde eram realizadas as grandes festas Artálasianas com seus efeitos dourados e cetim esvoaçantes, onde as próprias fadas encantavam para que pudessem dançar ao som dos tambores, cornetas, flautas e harpas. Agora, havia instrumentos de som grosseiro e estandartes negros com soldados em vermelho brandindo suas espadas douradas.
— Se esse ouro ainda pertencesse a eles. – vociferou a fadinha.
Já havia uma grande reunião de pessoas no pátio, comendo e bebendo e se entorpecendo com fumos esquisitos ao reino mágico, todos dançavam alegres pela vitória, quando rei Bellort se posicionou no alto da escada e pediu por silêncio.
— Meus caros visitantes do mundo humano, Cáerianos, Tártorianos e Balteonenses e certamente meus nobres habitantes de Nartoris, eis a contemplação da vitória. Por anos, meus ancestrais tentaram reaver essas terras que por direito nos pertence, esses feiticeiros que hoje nos servem invadiram e chamaram este lugar de Artálas, — o rei ironizou – sabem o que significa? Terra nobre. Mas nobre por quê? Qual a linhagem deles? Criaturas nascidas em terras longínquas que se gabam por nobreza e inteligência. Alguns de vocês já conversaram com estes imundos? Alguém consegue entender o que eles dizem? Até invadir as nossas terras, não vemos problema, — Bellort vociferou — mas a partir do momento que elas são nobres de riqueza devemos sim banhar com sangue as vestes de nosso inimigo, sem misericórdia alguma. Há não muito tempo, — continuou ele mais brando — eu resolvi buscar uma aliança com nossos conterrâneos de sangue, e confesso que muito me desanimei com a forma como fui tratado, mas eles acreditaram em mim, e eu lhes disse que daria ouro e riqueza, e que seriamos vistos pelos outros povos com temor. Eis que esse dia chegou, eis que o dia de ter o que lhes é devido se aproxima. Esses mágicos, elfos, fadas, balbuantes alados, vejam só... Criaturas horrendas. Dizem que são mestres em criar festas. Eu dou a vocês algo inesperado e sem nenhuma magia. Já viram chover diamantes? – o rei sorriu levemente, retirou e sua cintura uma corneta feita com os chifres dos balbuantes e assoprou fortemente.
A fada ficou impressionada ao ver enormes balões saindo por detrás do castelo e homens atirando toneladas de diamantes para a multidão, que entrou em total euforia pelo presente concedido. O que ela não esperar era que o rei Bellort fosse tão cruel ao ponto do que apresentou a seguir.
— Jovem todo este Maledhiel. Ele é o príncipe, — disse ele com desdém – desta Terra Nobre, ele foi o grande responsável pela nossa vitória. Ele se simpatiza com humanos. Tolo. Foi fácil e pegá-lo naquela armadilha e barganhá-lo com o seu pai. Obviamente que Iorthir desejaria o filho. Elren sua esposa é que comandava o reino, ditava as regras, tal como nossas mulheres, diga-se de passagem, ela uma amante de magia negra, jamais permitiria que o seu filho fosse sacrificado em nome de Artálas, elfos não podem ter um segundo filho, são improdutivos, por isso não se encontram aos montes, não sabem procriar e ainda dizem ser espertos. A quantidade reina, e isso Iorthir não sabia, demoramos sim para conquistar o que é nosso por direito e hoje, graças ao seu filho, tenho sua cabeça posta encima da cabeceira da minha cama, onde todas as noites eu deito e vejo seus olhos implorando pela sobrevivência de seu filho.
— Humanos não sabem de nada. – disse a fada retornando a Maledhiel, sacudindo a gola de sua túnica desesperadamente na ânsia que ele estivesse ouvindo algo.
— Vejam. – disse o rei sorridente.
Um serviçal se aproximou do rei, com uma tigela e nela a cabeça de Iorthir ainda intacta, com a boca aberta em seu ultimo grito pela vida do filho. A fada viu e levou suas pequenas mãos a boca sentindo forte enjôo, enquanto as pessoas ainda brigavam e catavam os diamantes que ainda eram jogados dos balões e outras que riam enquanto olhavam para a cabeça do elfo rei de Artálas.
A fadinha ouviu então um leve suspiro e olhou para trás se surpreendendo com os olhos amarelos de Maledhiel que pareceram ganhar vida naquela escuridão. Ouviu-se um ranger em seu corpo enquanto ele se levantava com dificuldade e tremia pela falta de força nas pernas. Maledhiel acordou, e em sua expressão se via um ódio rancoroso e em seus olhos a cor da vingança.
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