Maldições e dádivas - Mate o conjurador
2 Capítulo 1: O pequeno Eliort
Notas iniciais
Na Oca de espinhos, carinhosamente chamada de casa, Eliort já estava preparado para caçar. Usava botas de couro, roupas de caça e seu bom e velho sabrejá jazia em sua cintura. O sabre era antiquado para perfurar algum animal selvagem da floresta, mas a mesmo fora presente de seu pai, então era especial para ele. Já estava saindo de sua casa modestíssima quando sua mãe interviu sorrindo de orelha a orelha.
— Tanto sorriso provém de? – Perguntou abocanhando uma fruta de mel.
— Está preparado? – Eliort balançou sua cabeça afirmando, movimentando seus loiros cabelos ondulados. – Seu pai está voltando!
O rapaz não se conteve e alegremente apertou sua mãe num abraço, obviamente ela correspondeu amorosamente retribuindo.
Fazia anos que Pasquim não retornava a sua família, ao seu vilarejo de origem, da última vez que fora ao império, o pequeno Eliort mal tinha completado seus dez anos, agora cinco anos depois Pasquim não conseguia conter em si sua ansiedade para revê-lo.
Dispôs da noticia da mãe, o coração vigorado do jovem caçador se encheu de aflição e alegria.
— Merina já sabe? – questionou sobre a irmã mais nova.
— Sim. – Ela sorriu – todos do vilarejo já sabem, estão preparando os festejos para sua chegada.
— Que bom. – Ele olhou para a mãe e antes de sair pela porta disse: — Tenho mil motivos e um para caçar com mais êxito.
Saltitante, não via os cipós serpentinos no solo ou a chuva que ameaçava chegar, sua mente só ligava-se ao seu pai e mais nada. Eliort era um sinistro, não possuía uma maldição como Pasquim, mas desejava, clamava por uma mesmo sabendo o quão impossível isso seria, pois não renasceria das cinzas como uma fênix. Uma lebre-lobo e algumas raízes balançavam nos braços do rapaz que os girava, cantarolando o que os flautins soavam nas festanças, procurando do chão algumas frutas nas árvores gigantes, antes de escalá-las. Infelizmente encontrou algo pior, um leão Carniceiro. O animal manchado pela natureza com tons de preto e verde rugia para o Eliort, marcando seu território. O rapaz engoliu a seco o pavor do momento, chegou até tampar a sua respiração, entretanto logo lembrou-se do que fazer nessas situações, foi ai que centralizou-se controlando o medo e o pânico. Primeiro:Jamais correr ou ficar de costas e se o confronto for eminente, mostrar-se agressivo e perigoso, gritando, balançando os braços e jogando pedras ou equivalentes, podem assustar qualquer predador. E assim o fez. Mesmo que de maneira horrível e totalmente descoordenada o rapaz rugiu, gritou e lançou pequenas lascas de madeira maciça, das quais são usadas para fazerem os espinhos que protegem as grandes ocas que são feitas de uma pedra bastante maleável. O tempo para construir uma dessas moradias varia entre dez anos a vinte, ou seja, dá trabalho e outra conclusão: Moribundos preferem morrer sem teto a perderem seus preciosos tempos nas construções de suas ocas.
Voltando para Eliort e seu dilema de correr ou matar, o leão Carniceiro não se prostrou-se diante de suas ameaças, divergentemente se enfureceu ainda mais. Eliort estava disposto a fugir e o rei daquela floresta a matar. Finalmente quando o leão demonstrou seus dentes afiadíssimos que arrancariam o braço do rapaz facilmente, uma flecha atravessou a cabeça do animal. O Carniceiro caiu sobre as raízes firmes das árvores, já morto. O olhar azulado do filho de Pasquim atravessou todos os cantos para encontrar seu salvador. Pouco a pouco o barulho de passadas, e de folhas secas fora surgindo, o gerador de tal algazarra foi Irineu que lentamente vinha em sua direção. Como de costume, suas olheiras permaneciam, sua face cansada persistia e os maus cuidados fisiológicos, com o corpo e o cabelo também continuavam. O velho amigo de infância fora seu salvador, o menino da maldição da preguiça.
— Foi por pouco – Disse lentamente guardando sua besta.
— Há quanto tempo estava me observando?
— Estava caçando tranquilamente quando ouvi rugidos. Demorei um pouco a chegar, não sentia interesse e aí que vi você tentando rugir vergonhosamente. Desde então preparei minha besta e fiquei rindo do momento ali, detrás daquela árvore esperando o tempo certo para matar o leão e te salvar.
— Um tanto calculista não acha?
— Nem um pouco. – Afirmou. – Aliás, preciso ressaltar a falta de inteligência que contem meu caro amigo.
— Sou astuto, não venha me difamar. – Eliort limpou a poeira de suas roupas. – Meus pais me disseram que aprendi a andar com sete meses.
— Tudo bem. –Irineu zombou. – Mas, se um monstro ou um animal selvagem vir me atacar e em mãos tiver uma lebre-lobo não pensarei duas vezes para oferecer um humilde banquete, antes que eu seja o prato principal. –Virou- se de costas e caminhou desleixadamente em direção ao vilarejo.
Eliort poderia ser apto, hábil e corajoso, mas nunca conseguiu aprender a contar, ou raciocinar rapidamente em situações como a que passará a pouco. A leitura só fora possível com muita insistência e ajuda dos pais, que não se envergonhavam das deficiências intelectuais do filho, somente tentavam auxilia-lo nas precisões e escolhas. O garoto era asno que nem uma pedra elefante.
Para não ficar para trás acompanhou Irineu, onde tiveram uma conversa longa sobre: Caçadas, seus pais e sobre uma nova garota recém-chegada no vilarejo, da qual o rapaz de cabelos loiro branco se interessou.
— De onde ela vem? – Perguntou interessadíssimo.
— Se não me engano, de outro continente chamado Vaspúcia.
— Existem outros além do nosso? – Indagou abismado.
— Evidente.
Irineu interviu o caminho, parando ao lado de uma pedra lisa média. Eliort fez o mesmo.
— Porque parou?
— Estive pensando... – Ele colocou sua mão em seu queixo. – Os pergaminhos antigos e novos afirmam que não existem outros continentes, pelo menos nunca encontraram algo do tipo, significando que...
— Não há outros povos. – Concluiu Eliort, se achando o homem mais esperto do mundo por isso.
— Também! – Notou – Entretanto há algo ainda mais intrigante.
— E o que seria?
— A garota está mentindo para o vilarejo Eliort, ela está mentindo.
Os dois rapidamente entraram nos limites do vilarejo, após burlar pedras, madeiras, cipós e animais que atrapalhariam a correria de ambos. Irineu impôs uma força de vontade maior já que não era tão hábil quanto seu amigo, além de ter que sofrer com a maldição da preguiça. A família Rodrick, Florin, Mercel, Diagore de Irineu e Nantes de Eliort, reuniam-se envolta da garota em um grande círculo. Quando os rapazes chegaram, logo penetraram na multidão e viram a deslumbrante e viajante Léia. Ela tinha cabelos ruivos que iam até a sua cintura, olhos pequenos e levemente puxados da cor de esmeralda. Vestia um vestido longo e nobre da cor de marfim. Chamava a atenção por conta de sua beleza, mesmo que ainda tenha a mesma facha etária que Irineu e Eliort, apresentava maturidade em sua expressão. A perfeição de Léia conseguiu tirar o foco do filho de Pasquim, mas não o filho de Henrique Diagore.
— Moça. – Irineu tomou sua mão, ela deixou segurá-la. – a senhorita veio de outro continente, correto?
Ela pareceu confusa, mas devastou a dúvida rebatendo com charme e convicção.
— Sim. – Disse firme.
— Segundo os antigos navegadores e os novos, sem querer ofendê-la é claro, afirmam que não existe outro continente além deste! Como explica isso?
Murmúrios ecoaram entre a multidão. Léia demonstrou desespero e parecia querer revelar algo, mas fora impedida por uma voz.
— Não atormente mais a menina, Irineu preguiçoso! – Disse o senhor Gurgon Florin, Grosseiramente.
A família Florin era a mais reservada e conservadora. Em sua árvore genealógica mais recente podemos contar com: Kaidro filho de Gurgon o patriarca, Veneza a matriarca, mãe de Kaidro. Já Kaidro casou-se com Samêra Mercel, assim produzindo o futuro (a) neto da família que contêm três meses no ventre de Samêra.
— Não precisa se meter senhor Gurgon, mantenho minhas indagações com a convicção da certeza. – O velho careca perfurou Irineu com os olhos. – Diga que estou errado e pedirei para eu ser apedrejado. – A fitou com um sorriso investigador. Léia estremeceu, abaixou sua cabeça e seus cabelos cobriram seu rosto. Eliort roído pelas criticas dirigidas á garota se intrometeu.
— Irineu, não seja tão imprudente! – Eliort alertou.
— Tudo bem. – Ela pronunciou. – Confesso que não venho de outro continente.
A multidão se exaltou, reclamou sem eira nem beira e as famílias retornaram para suas casas circulares, que continham aqueles espinhos por conta dos predadores de inverno. Os únicos a permanecerem foram à mãe de Eliort, Merina e os três envolvidos.
— Querem explicações não é mesmo? – Léia parecia envergonhada.
— Sim, queremos – Améliz a confortou num abraço – mas, em minha casa.
Léia parecia nunca ter visto uma casa oca de espinhos, entretanto sabia o que eram talheres, pratos, copos, cadeira, mesa e outros utensílios básicos. Ainda bem. Assim que entrará na residência fora acomodada num tamborete feito de um tronco de árvore e em sua mão um copo com água já meio cheio existia. Améliz preparava a lebre-lobo juntamente com as raízes que a pouco Eliort tinha caçado e colhido. Merina estava encantada com Léia, principalmente por seus cabelos vermelhos compridos. Não por conta da cor, muito menos comprimento, mas sim pela qualidade dos fios, nunca a pequena virá cabelos tão sedosos e brilhantes, contrariamente aos seus rudes e opacos cachos loiros. Irineu emburrado continuava a perseguir a garota com um olhar de indagação. Escorado na janela a todo tempo se questionava: durmo ou ameaço, bem, em pequenas doses a primeira opção e a segunda do mesmo modo, pensou o preguiçoso. Ao fim da preparação do cozido de lebre-lobo a mãe de Eliort voltou-se a Léia que apreensiva apertava o copo já vazio ao ponto de destruí-lo com as mãos.
— Vou fazer algumas perguntas, sem abusar é claro. Tudo bem? – Perguntou Améliz, Léia afirmou. – De onde você veio?
Léia respirou fundo se recompondo da posição meio acomodada e enfim falou:
— Do império. –Revelou melancólica.
— Nossa! – Eliort soltou abismado. – Você conhece um homem chamado Pasquim?
— Pasquim... – Ela pensou.
— O líder dos amaldiçoados!
— Pasquim! – Pareceu se lembrar – Ouvi falar sobre ele.
— Sabe como ele está? Bem ele é meu pai.
A ruiva tentou puxar da memória algo relevante, mas não conseguirá muita coisa.
— Só sei que, os Abençoados e os Comuns estão muito bravos com ele.
— Por quê? – Eliort estava chocado.
— Sinto muito, eu não sei.
Eliort se curvou deixando seus cabelos cobrirem seus olhos. Pasquim era a fonte de inspiração de todos do vilarejo, em especial para seus filhos, principalmente o primogênito. Saber que o pai estaria enfrentando problemas acabava com o coração de Eliort.
— Voltando ao assunto. Deixou o império por qual motivo, senhorita... Qual é sua graça mesmo? – Perguntou Irineu venenosamente.
— Léia. – Disse. – Bem, não me sinto orgulhosa pelo motivo que saí do império, porém saibam que foi minha última opção. Meus pais são viajantes, desbravadores dos mares. Num dia eles partiram em sua missão me deixando sozinha em casa. Infelizmente a embarcação deles afundou e... – Suas lágrimas se reuniram. – Eles morreram. – Choramingou sibilando com dificuldades. – A partir de então não tenho mais suas figuras, nem muito menos as regalias que eu tinha. No império é proibido trabalhar sem autorização do imperador, então vivi lá com muitas dificuldades. Uma semana atrás morrendo de fome, roubei uma maça. Fui expulsa para sempre, por justa causa. E pensei logo em vir para cá, porque vocês são como eu...
— Excluídos. – Completou Améliz. – Não se preocupe querida, acolheremos você aqui no nosso vilarejo.
— Sério? – Seus olhos brilharam.
— Sim – Reafirmou a mulher. – E até dormirá aqui conosco, tenho uma rede sobrando. – Ela piscou para a garota.
Léia correu para seus braços e a abraçou confortavelmente chorando. Já o “pequeno” Eliort ficara quieto, mesmo estando feliz com a notícia.
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