Maldito Crash Bandicoot!
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Maldito Bandicoot! Há tempos eu queria destruí-lo. Minha criação mais inútil e irritante. Como se não bastasse ser um marsupial estúpido que mal sabia falar, ainda atrapalhava meus planos malignos, roubando meus cristais do poder! Mas eu estava prestes a mudar aquele cenário de uma vez por todas. Com dez cristais, eu teria energia suficiente capaz de alimentar a minha mais nova máquina: uma invenção que daria vida a um Crash grande e forte, disposto a me ajudar a assassinar o Crash original. Porém, eu ainda tinha apenas nove cristais... O décimo havia sido roubado por – adivinha quem? – o Bandicoot mais uma vez!
~*~
Desacordei Coco com minha arma de plasma e a levei para meu laboratório no gelo, mantendo-a como refém. Aquilo certamente seria o suficiente para atrair a atenção de Crash. Nada como ter a irmãzinha dele em minhas mãos para fazê-lo devolver o décimo cristal do poder!
— Meu irmão virá até você e chutará o seu traseiro, seu monstro! – bradou Coco, presa em uma gaiola.
— Acho que será o contrário, pequena Bandicoot... Ele não terá escolha a não ser me entregar o cristal. Logo logo terei poder suficiente para finalizar minha criação: o Crash gigante, o verdadeiro Crash que eu deveria ter criado décadas atrás! E vocês dois virarão farinha de átomos! A ilha inteira será destruída e eu dominarei o mundo! Mwahahahahaha!
— Por que todo vilão ama contar o próprio plano? – Coco revirou os olhos.
— Quieta! – esbravejei – Aquele cristal era MEU! MEU! Por que o maldito Bandicoot insiste em roubar meus cristais?
— Tecnicamente ele não roubou, apenas encontrou antes de você... E você usa todos os cristais em planos contra ele. Digamos que ele tem uma boa motivação para tomá-los de você.
— É, mas isso acaba hoje! HO-JE!
~*~
Após uma hora de espera, lá estava Crash em meu laboratório, com o cristal em mãos, como planejado. Tirei Coco da gaiola e encostei a minha arma de plasma no ouvido dela.
— Que bom que se dispôs a negociar, Bandicoot... A vida da sua irmã é mais importante, certo? Agora me entregue o cristal, ou ela morre! – ordenei.
Vendo que eu não estava de brincadeira, a pobre garotinha começou a se desesperar:
— Não dê ouvidos a ele, Crash! Ele quer criar um monstro que vai destruir você, a ilha e o mundo! Eu não valho isso tudo! Não entregue o cristal!
— Que belo amor fraternal, haha. Coco disposta a se sacrificar pelo irmão e pelo universo! Por que todo mocinho ama dar uma de valente?
Crash parecia nervoso. Ele obviamente não queria deixar a irmã morrer, mas também não queria ir no lugar dela. Mas eu sabia que, vendo a garota em apuros, ele logo logo tomaria uma decisão.
— Ei, Cortex, por que não mata o Crash você mesmo? – desafiou Coco – Por que precisa da ajuda de um mutante gigante? Por acaso não consegue dar conta do recado sozinho?
Crash murchou as orelhas ao ouvir aquilo. Provavelmente se perguntou por que Coco tinha dito uma besteira daquelas, especialmente na situação vulnerável em que eles estavam.
— Não consigo matar o Crash, é? – amarrei a cara.
Continuei segurando Coco com força, mas dessa vez apontando a arma para a cabeça de Crash. Atirei plasma à vontade, mas o marsupial se desviava de todas as rajadas com facilidade. Insatisfeito, continuei disparando até que... uh oh... A munição acabou!
— Enganar um vilão é tão fácil! – Coco gargalhou – Sabia que conseguiríamos sair dessa, Crash.
— Sua imprestável!
Num acesso de raiva, arremessei Coco para longe, atirando-a na parede. Crash, tão habilidoso com giros e desvios, mas nem um pouco inteligente, largou o cristal do poder no chão enquanto foi socorrer Coco para ver se ela estava bem.
— Crash, o cristal! Você largou o cristal! – gritou Coco.
Mas já era tarde demais. O cristal estava em meu poder. Coloquei a joia na máquina e... finalmente! Os dez cristais do poder estavam perfeitamente alinhados no núcleo do reator... Bastava apertar um botão para disparar o raio que criaria o Bandicoot gigante!
— Vocês já ouviram falar na evolução das espécies? O mais adaptado sobrevive. E os outros são... EXTINTOS!
Pressionei o botão com vontade. Os cristais emitiram raios púrpura no centro do laboratório, criando outro Crash, porém ENORME! Era uma montanha de músculos, tinha por volta de cinco metros de altura e uma expressão de poucos amigos. Finalmente, finalmente! Um Crash forte e agressivo, prestes a eliminar o Crash fraco e inocente, junto com sua irmãzinha tão fraca quanto. Por falar nisso, ambos estavam acuados num dos cantos do laboratório, temendo o grande monstro que caminhava na direção deles.
— Mwahahahahaha! É o fim dos pequenos Bandicoots! Vida longa ao grande Crash, o único e verdadeiro!
Meu mutante gigante agarrou Crash e Coco no ar e estava prestes a devorá-los, quando o pequeno marsupial tirou de seu bolso... uma fruta Wumpa?
— Isso lá é hora de comer, Crash? – praguejou Coco.
— Deixe o pobre Bandicoot fazer a última refeição, hahahaha! – exclamei.
Porém, Crash não tinha a intenção de comer a fruta. Na verdade, ele jogou a pequena Wumpa dentro da boca do monstro gigante, que, ao sentir o sabor do petisco, esboçou um sorriso.
— Não é possível que você decidiu virar vegetariano, sua besta-fera! – protestei aos pulos – Devore Crash e Coco agora, ou eu usarei a energia dos dez cristais para te reduzir ao nada outra vez!
O Crash gigante não pareceu ter gostado de ser chamado de besta-fera, pois largou Crash e Coco no chão e veio em minha direção, furioso outra vez.
— O quê? Você não pode confrontar o seu mestre! Eu te criei, posso muito bem te destruir! – e apertei o botão para resetar a máquina.
Não funcionou.
— Mas o quê...?
Quando vi, Coco tinha arrancado um dos dez cristais do núcleo do reator, inutilizando a máquina.
— Não! Eu não quero morrer, eu não quero morrer! – fechei meus olhos.
Entretanto, o mutante não me pegou. Abri os olhos e vi uma cena inusitada: o pequeno Crash, de frente para o monstro, encarando-o com bravura. Uma das suas mãos estava esticada na direção dele, com a palma aberta. Era uma ordem clara para ele ficar parado onde estava. Como o monstro tinha simpatizado com ele, parecia que o grandão estava respeitando o comando.
— Crash... Você... Você está me defendendo? – perguntei, atônito.
— Mas o que é isso, Crash? – questionou Coco – O Cortex sempre quis nos matar! Acabar com ele agora seria a nossa chance de restaurar a paz na ilha! Por que está fazendo isso?
Crash ficou confuso diante da própria atitude. Não sabia dizer por que me queria vivo. Mas queria. E como se não bastasse ter impedido o Crash gigante de acabar comigo, ainda tomou o cristal da mão de Coco e o colocou de volta na máquina. O monstro não reagiu. Logo vi que ele só tinha tamanho, pois era bobalhão como o original. O mutante confiava tanto no seu novo amiguinho que não acreditava que ele seria capaz de ajudar a matá-lo. Eu rapidamente entendi o recado e apertei o botão, desintegrando-o por completo. O primeiro Bandicoot, então, arrancou o último cristal mais uma vez da máquina, evitando que eu apertasse o botão novamente e criasse outro monstro maluco.
Até que o Crash não é tão idiota assim... reconheci, um pouco envergonhado.
— Hunf, voltamos à estaca zero... – bufou Coco, de braços cruzados – Vamos embora daqui, Crash!
Crash já ia acompanhá-la, mas eu não queria que eles fossem embora. Não com o MEU cristal! Eles se viraram de costas e estavam quase saindo, mas pararam no caminho, pois Coco ainda estava brigando com seu irmão por ter me deixado com vida. Confesso que foi engraçado ver o pobre Bandicoot tentando gesticular para se explicar. Ótimo. Tive tempo suficiente de distração para pegar mais munição e recarregar a minha arma.
— Deveriam saber que dar as costas ao vilão é um erro fatal! – alertei, puxando o gatilho em Coco.
Crash foi até ela após o disparo e fez uma expressão triste, achando que ela estava morta.
— Não se preocupe, Crash... Hoje não. Hoje não. Foi só um susto. Ela está apenas desacordada de novo. Eu poderia tê-la matado, eu poderia ter te matado. Mas você me salvou hoje... Não sou tão mal assim. Só queria ter uma conversa a sós contigo agora, de homem pra homem. Quero que você me diga por que me salvou. Prometo que não conto pra ela, nem pra ninguém.
Ele apontou para o cristal que estava segurando, confuso por eu não querer tomá-lo dele.
— Ah, claro, eu não me esqueci do cristal! Ainda vou recuperá-lo dessas suas patas sujas! Mas não antes de saber por que você me salvou!
Ele ficou mais confuso ainda. Por que aquilo importava tanto pra mim? Era o que ele provavelmente estava pensando.
— Não me olhe com esses olhos grandes, está bem? Eu... Eu só quero saber!
Crash deu de ombros, também não sabia o motivo. Talvez ele apenas fosse bonzinho demais e não suportasse ver alguém sofrendo. Ou...
— Crash, você gosta de mim?
Não muito a fim de dar o braço a torcer, ele saiu andando de ré, ainda com o cristal na mão.
Ao menos ele aprendeu a regra de não dar as costas ao vilão...
— Ei, você não vai embora sem me dar uma resposta! E muito menos sem me dar o cristal!
Pulei na direção dele, tentando pegar o cristal para mim, mas ele foi mais rápido e o ergueu bem no alto, impedindo-me de alcançá-lo. O bobo alegre abriu aquele sorrisão besta de sempre, segurando-me pela cintura enquanto eu ficava na ponta dos pés, tentando alcançar a joia, sem sucesso. Eu estava trêmulo, olhando para ele com um ar confuso, sem entender por que ele estava me segurando daquele jeito... e me olhando de tão perto.
— Crash, seu %$@#... Me dá o cristal!
Fui silenciado com o ato mais inesperado da história: um beijo! Crash... minha pior criação e meu pior inimigo... estava me dando um beijo? Eu... Eu confesso que não me lembrava da última vez que tinha sido beijado. Eu também não me lembrava da sensação. Eu não me lembrava de como era... bom?
Crash terminou o beijo e se deparou com a minha cara assustada. Eu, que já estava na ponta dos pés, me desequilibrei e caí no chão, olhando pra ele com pavor enquanto sentia o meu rosto esquentar. Eu havia até me esquecido do cristal.
— Crash... Não conte pra Coco!
E fugi morrendo de vergonha, deixando pra trás Crash e Coco, com cristal e tudo. Depois daquele incidente, eu não conseguiria mais olhar na cara dele por muito tempo...
Maldito Bandicoot!
FIM.
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