Malditas Palavras

1 Malditas Palavras


Notas iniciais

Narrada inteiramente pelo Bert.

Eu queria fingir não saber as consequências do que essa volta vai me trazer. Odeio saber que estou voltando para os seus braços, mas serei quebrado de novo e de novo e de novo, até que eu tenha coragem suficiente para acabar com isso. Mas quando você me encara com esses olhos verdes tão despreocupadamente, me desarma por inteiro. Toda vez que ouço um “Hey, Bert” quando você está do outro lado da minha porta, eu me perco em sua voz fanhosa e tudo o que eu desejo é ouvir logo um “eu te amo, meu pequeno”.

Eu sinto raiva de mim toda vez que você me abandona e me machuca tão brutalmente quanto o som de uma serra elétrica em uma madrugada no campo, e tudo o que eu faço é aceitar! E, então, abaixo minha cabeça e me tranco em casa, desejando acordar de outro pesadelo. Desejando que, dessa vez, eu seja forte o suficiente para não voltar para você.

Porque é um ciclo vicioso, você entra em dúvida por qualquer porra. Qualquer vadia que chegue perto de você é suficiente para que saia correndo atrás, me deixando de lado. E, quando você a beija e percebe que fez besteira e que ela não tem os mesmos toques suaves que eu, já é tarde demais! O Robert Edward McCracken já se despedaçou e está lá, desejando acordar do pesadelo real que é amar o Gerard Arthur Way.

E depois de uma semana, ou duas... Ou até um mês – nunca mais do que isso — você aparece em minha porta, com cara de cachorro chutado da mudança, e o olhar tão sem vida quanto o meu e diz “Hey, Bert”. Então, fecho os meus olhos para sentir o seu cheiro de cigarro barato invadir as minhas narinas e logo estremeço com as lembranças que estouram em minha mente (aliás, estou mentindo, eu não preciso sentir o seu cheiro para ter um estouro de Way em minha cabeça. Vergonhoso, eu sei.). Mas é quando o cigarro barato está tão próximo que tudo se torna mil vezes mais intenso, o meu corpo inteiro se arrepia, a minha respiração falha e, por mais que eu tente parecer inabalável, você sabe que me ganhou sem nenhum esforço. Você sabe que eu posso relutar por mais uns dias, mas que vou acabar cedendo.

E por Deus! Uma vez eu quase consegui me ver livre de você! Uma vez eu quase consegui, me lembro claramente! Foram dois meses longe de você, dois longos meses em que, pouco a pouco, eu estava voltando a viver decentemente — ou quase – e, então, você apareceu na minha porta com o seu maldito “Hey, Bert”! Eu sentia que estava imune a isso! Quase acreditei inteiramente que você não iria me ganhar dessa vez tão fácil! E porra! Eu consegui conversar com você sem ceder às suas desculpas e aos seus toques, você se lembra? Eu consegui, Gerard! E, então, depois de três semanas, você achou que tinha me perdido e desistiu de tentar. Eu achei que você tinha me perdido, e te odiei com todas as minhas forças por achar a sua tentativa fraca, e a desistência ter sido mais forte do que o amor que você diz sentir por mim.

Mas nunca, NUNCA se pode subestimar Gerard! Você é um desgraçado infeliz que sempre tem uma carta na manga. E a sua carta, dessa vez, era fingir que tinha desistido de mim, para que eu corresse atrás de você, e porra, como sou burro! Foi justamente o que aconteceu.

Eu não precisei dizer nada, só te dar um abraço mais demorado e ploft! Você já tinha sacado tudo e tomou meus lábios vorazmente. E eu tentei me desvencilhar, juro que tentei! A minha mente gritava para que eu te soltasse, o meu coração se reprimia em sinal negativo e o meu corpo se encolhia enquanto, novamente, você ganhava a minha alma através dos meus lábios. Passado os dois segundos iniciais, o meu coração bombeava o sangue para todo o meu corpo em uma velocidade incrível e eu senti tudo aquilo que escondi de mim mesmo voltar à tona! Senti todo o meu corpo implorando pela atenção do seu, e isso realmente é deprimente, pois, se parar um segundo e pensar sobre isso, vai notar que tudo o que eu queria de você, era atenção. A sua atenção única e exclusivamente para mim.

Então, você tomou conta do meu sofá outra vez e me fez deitar em cima do seu corpo. Afundei todo o meu rosto em seu pescoço e sorvia do seu perfume barato misturado ao cigarro barato, além do cheiro da cerveja barata que você tinha bebido. E eu fiquei minutos em silêncio apenas observando o seu pescoço e lamentando o fato de não ter mais marcas minhas ali. Não havia mais arranhões, mordidas ou chupões “enfeitando” a sua pele branca e eu implorei para não achar nenhuma marca em seu corpo feito por uma vadia, ou... Quem sabe você teria se relacionado com outros homens, outra vez. Dessa última opção se salva o fato de que nenhum deles faria você sentir o que eu faço. Nenhum deles teria a puta Way na cama, como eu. Ou teriam? Você sempre negou a atração por outros homens, mas se as minhas paredes falassem, elas diriam que você deveria sair do armário e comandar a passeata GLSBT da cidade! Elas diriam que você gosta, e MUITO, de um pau em todos os buracos do seu corpo e que você só engana a sua mãe com essa pose de machão. Elas também me mandariam à merda por, novamente, estar te levando para o meu quarto e fazendo sexo selvagem como você gosta. Ah! É claro que apenas eu sei dos seus desejos de apanhar, de ser amarrado e xingado durante o sexo. O que, sinceramente, para mim é uma bobagem, porque quando os nossos corpos estão suando, eu quero te acariciar e dizer que eu te amo, eu quero que você sinta o quão é importante na minha vida e o quanto você me satisfaz, mas eu tenho que te bater, e fazer com que você implore para mim. E eu só faço isso porque é o que você gosta. Eu me sinto estranho fazendo alguém deixar a sua dignidade totalmente de lado, mas eu o faço, porque é o seu desejo.

E depois dessa movimentação toda em meus lençóis, você me olha como se eu fosse a coisa mais importante do mundo, pede para deixarmos de besteira e diz o seu maldito “Hey, Bert” de novo, seguido de um “volta para mim, vamos lá! Pare com isso e me deixe ser o homem mais feliz do mundo tendo você em meus braços” e pronto! Todo o meu esforço tinha ido pelo ralo, e tudo o que eu poderia fazer era aceitar que você me queria de volta.

Nunca importou para você quando eu te queria de volta, nunca importou se eu estava morrendo ou não distante dos seus braços, nunca importou se todas as noites eu acordava procurando o seu corpo na minha cama gelada, nunca importou todo o meu teatro para fingir que estava bem, nada nunca importou para você, Gerard. Você dizia que sim, que se importava, e queria me ver bem, mas qualquer um pode ver que você só leva em consideração o seu próprio bem-estar. Não precisa de esforço algum para notar o egoísmo Way entrando em ação 24 horas por dia.

E o pior de tudo é que eles nunca irão entender. Porque essa porra de máscara que usa para todos não está junto a você quando estamos juntos. E é a merda dessa sinceridade exclusiva que faz eu me apaixonar cada vez mais! Ninguém no mundo escuta um “eu te amo” verdadeiro vindo de sua parte, ninguém no mundo escuta as suas palavras doces antes de dormir, ninguém no mundo me abraça tão forte como se estivesse me protegendo de tudo e de todos. Ninguém tem o seu sorriso sincero, aquele que faz todos os seus dentes aparecerem e o brilho do seus olhos se intensificar, ou aquele batimento cardíaco acelerado com apenas um toque do meu corpo no seu. É impressionante como o Gerard que eu tenho, só eu conheço, e nas raras vezes que eu comento algo com o Quinn, a única reação dele é a de mais pura incredulidade “Você só pode estar brincando, Robert! O Gerard é um animal!” e eu rio baixinho, agradecendo mentalmente por ser o único que tem o Way de verdade.

E sabe, ser o único a ter você de verdade tem muitas coisas negativas; a sua sinceridade na minha presença chega a me dar nos nervos quando você comenta algo sobre uma loira gostosa que disse que te amava, e que você não sabia o que fazer com ela. E eu queria te dizer que sei exatamente o que fazer com essa vadia, mas inclui muito sangue e facas, juntamente com um saco preto e um rio longe da cidade, mas eu apenas balanço a minha cabeça e viro para o outro lado, suspirando alto, querendo ser surdo por alguns instantes. Mas você continua a tagarelar, e diz que muita gente te ama e bla bla bla, que milhões de pessoas te desejam mas só eu posso ter você. E eu sorrio bobamente, porque, apesar de não ser verdade, foi gentil de sua parte me dizer isso. Sinto o seu corpo se encaixando no meu, e um “eu te amo, e você é o único para mim” invadir os meus ouvidos num breve sussurro, e com os olhos fechados, eu respondo para você e a gente faz amor... Porque eu sou o único que não faz sexo com você, eu sou o único que diz “eu te amo” depois do êxtase estremo. E você faz eu me sentir único quando me acolhe em seu peitoral, e me beija com ternura, e eu quase chego a acreditar que você nunca mais irá me deixar. Quase.

Pela manhã, você não está mais em minha casa e, antes que eu me desespere, a porta se abre e você me aparece com café forte e mais cigarros baratos em minha sala. E quando te questiono sobre ter me deixado dormindo, você gentilmente diz que eu durmo bonitinho, como uma criança, e só uma pessoa muito malvada me acordaria sem real necessidade. Eu fico corado e você se aproveita disso para me encher de beijos, e pronto! Eu já ganhei o meu dia.

Você se tornou o dono da minha vida e também da minha casa, chegando ao cúmulo de reclamar quando as suas roupas não estão limpas, e eu acho isso a coisa mais linda do mundo porque você trouxe todo o seu guarda-roupa para a minha residência, e não larga mais do meu pé. E por Deus, só Jesus sabe o quanto eu sofro por ter o Gerard Way andando de boxer pela minha casa, não é mesmo? E então tudo volta ao mais próximo possível do normal, e você me trata como se eu fosse a coisa mais delicada da sua vida e, de fato, você faz eu me sentir assim. E, por mais que eu fale um monte de palavrões e seja um idiota com todo mundo, aos seus olhos eu sou a pessoa mais doce, e é até um pouco irônico em dizer que o Robert que você tem, mais ninguém tem.

Mais ninguém faz com que eu seja um completo romântico a ponto de fazer um jantar à luz de velas, mais ninguém faz com que eu me deite no chão e converse sobre as estrelas tão sutilmente que chega a se tornar clichê. Mais ninguém faz a minha respiração parar e a merda de todas as minhas defesas se esvair em um piscar de olhos, porque eu não quero me defender de você, e eu queria acreditar que eu não precisaria... E olha só! Ter um Bert exclusivo também tem o seu lado negativo. Ninguém além de você conhece a minha insegurança sobre perder o que eu mais amo na vida, ninguém além de você sabe que para me ganhar é só me chupar com talento (e você é a pessoa mais talentosa que eu já conheci, diga-se de passagem). Mais ninguém lida com os meus ataques de raiva, onde o mundo inteiro poderia explodir para me fazer feliz e ninguém mais saberia lidar com a porra da minha tripolaridade, que faz com que, de repente, eu me feche no quarto e, no segundo seguinte, me faz brigar com você por não estar me abraçando.

Nós nos conhecemos tão bem e, por tudo o que passamos juntos e toda a porra dessa intensidade, não sei como me distanciar de você, porque tudo o que eu mais quero é me jogar em seus braços e acreditar que não terei que sofrer com a sua ausência outra vez. Mas ainda há o fato de que eu tenho a consciência plena de que você irá me deixar mais cedo ou mais tarde, e tudo o que posso fazer é aceitar a sua decisão e esperar para você bater na merda da minha porta como está fazendo agora, e proferir as malditas palavras em 5,4,3,2,1:

- Hey, Bert. – merda! Eu te amo, seu desgraçado.

> THE END <

Notas finais

Obrigada a todos que leram.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!