Maldição dos Deuses
3 Janeiro * Um chalé sorridente
O chalé 11, nem de longe tinha chamado minha atenção, mas, aquele era um típico chalé de acampamento. A pintura na madeira, descascada, a soleira era rebaixada devido ao movimento do local e o número 11 pendurado estava torto.
Quando entramos percebi que o local estava estourando, não cabia mais nem uma formiga ali dentro. Vários adolescentes, uns mais novos, já outros mais velhos. Alguns rostos sorridentes e que pareciam elfos. Outros rostos bravos e endurecidos. Eu não sabia o motivo, mas imaginava que qualquer um que ficasse ali por muito tempo iria acabar do mesmo modo.
—Oi gente, essa aqui é Giovanna Halles, campista nova – anunciou Michael.
—Normal ou indeternminada? – pergunou alguem do chalé
—Indeterminada – disse Michael
Juro que pude ouvir um suspiro de desaprovação por todo chalé. Dois garotos se aproximaram de mim. Na verdade, eles eram gêmeos, o primeiro um pouco mais baixo que o outro. Tinham cabelos castanhos meio ruivos e cacheados, olhos castanhos escuros travessos, um sorriso malandro e torto que parecia combinar com eles e uma pequena quantidade de sardas. Lembravam vagamente elfos travessos, mas por mais que parecessem um ou dois anos mais velhos que eu, pude ver que eram moleques, almas de crianças travessas.
—Gente, parem com isso. Vamos recebê-la no nosso chalé. – falou o mais alto
—Bem vinda ao chalé 11 – disse o mais baixo – Eu sou Connor Stoll
—E eu sou Travis – disse o mais alto – Stoll também, somos os conselheiros do chalé 11.
Ele estendeu a mão para que eu apertasse e eu ingenuamente ergui a minha. Quando nossas mãos se tocaram me lembrei do aviso de Michael, mas já era tarde. Levei um leve choque que percorreu meu corpo inteiro e deixou meus cabelos em pé. Todos no chalé riram, menos eu, é claro e Michael:
—Travis!! – e olhando para mim disse – Eu te avisei.
—Eu me esqueci! – retruquei.
—Não se preocupe! Agora você está muito bem vinda no nosso chalé – riu Connor.
Tentei ignorá-los para não dar uma surra, mas, pensando bem seria difícil, eles eram muito engraçados mesmo e percebi seria difícil ficar brava.
—Bem, vou te deixar aqui agora, o jantar...
—Não precisa falar, Michael. Nós sabemos!! Ela faz parte do nosso chalé, irá conosco!
—Tudo bem, mas Giovana, se precisar conversar, pode contar comigo, ok?
—Vou te procurar, chalé 7. – dei uma piscadela.
Michael abriu um sorriso radiante e se retirou. Logo em seguida olhei para cada rosto do chalé e cada beliche desorganizado e cada parte lá presente.
—Bem, — disse Travis – a gente precisa arranjar um lugar pra ela dormir, né Connor?
—É... – respondeu ele – Galera, tem alguma cama sobrando se não vamos ter de pedir um colchão ou saco de dormir provisoriamente. – gritou ele.
—Ah!! – exclamou uma garota com os olhos semelhantes aos dos gêmeos – A cama de Luke está vaga!
Ao ouvir esse nome o chalé assumiu uma expressão que misturava tristeza com raiva, era uma expressão dura. Travis disse:
—Ah... Tem razão Naila... Bem... Bruno a cama de Luke está vaga?
Um garoto no meio dos outros respondeu:
—Sim, eu estou dormindo no beliche de cima, mas se ela quiser posso ir para o debaixo.
Ele tinha o mesmo olhar e o mesmo sorriso travesso de Travis e Connor, mas sua pele era morena, bronzeada, tinha cabelos negros e curtos e olhos levemente orientais. Era da minha altura, se bobear até um pouco mais baixo. Ele era um pouco gordinho e tinha bochechas enormes e coradas. Era bem fofo.
—Ótimo – disse Connor – Pode se ajeitar lá que vamos providenciar algumas roupas e um quite de higiene ok?
Com isso, me dirigi ao beliche onde estava o menino gordinho. Fiquei observando por um tempo, o movimento do chalé já estava grande, todos riam e alguns deles iam tomar banho, quando o garoto me disse:
—Oi, meu nome é Bruno. – disse ele estendendo a mão.
—Ah, prazer Bruno, mas muito obrigada, não quero apertar sua mão.
—Não é o que você está pensando. Não vou te eletrocutar.
—Ah, não é ?
—Não. Travis e Connor estão aqui faz mais tempo e eu nunca faria isso com alguém que acabei de conhecer.
—O que aconteceu com seu pescoço?
—O que? Ah isso – disse apontando para o curativo. – Luta com dracaena. –
—O que? Dracaena?Você já teve algum treinamento?
—Não, porque?
—Dracaena é um monstro “level hard”, por ser inteligente e consciente, sabe quando atacar e descobre seus pontos fracos!! Você é uma ótima esgrimista pelo visto
Fiquei pensando se aquilo era um elogio e conclui que era. Ficamos em silêncio por alguns segundos. Quando ele fez um pedido estranho:
—Posso ver seu machucado?
—O que ??? – exclamei indignada.
—É que eu nunca vi uma ferida feita por uma dracaena e eu queria saber se elas são mesmo monstros que merecem estar no status Hard.
—Ta bem
Mesmo achando estranho retirei meu curativo, parcialmente, para que ele pudesse ver.
—Meus deuses!! O que é isso? Giovanna está muito infeccionado!! Como te deixaram sair da enfermaria?
—Eu disse que estava bem.
—Você não pode mentir assim, é a sua vida que está em risco. Sabia que as dracaenas tem veneno que mata 70% dos casos?
—Cara, você é muito nerd, hein?
—Eu? Nem, aposto que você vai ser mais.
—Eu também aposto isso – rimos — Mas, mesmo assim, gosto de pessoas inteligentes.
Ele corou, mas logo se recuperou e continuou:
—Mas, enfim, pelo menos você tomou néctar e comeu ambrosia lá? Isso melhora e muito.
—Aquela bebida azul com gosto de cookies?
—Isso.
—Então sim.
—Que bom, espero que melhore logo. Qualquer coisa se precisar de algum remédio ou estiver passando mal, eu posso te levar para o chalé de Apolo, ele é o deus da medicina.
—Pode deixar que eu sei o caminho.
Merda! Por que eu fui grossa com ele? Bruno estava sendo super gentil e atencioso comigo e eu fui grossa com ele! Essa não era a minha intenção, mas é que era muito informação nova para um dia só e eu já estava esgotada. Me senti muito mal por ter feito isso com ele. Percebi que ele estava sem graça também. Ficou calado e achei que eu devia falar alguma coisa:
—Me desculpe, é que eu estou um pouco cansada, é muita coisa nova para mim em uma dia só sabe?
—Sei, sim, não se preocupe – disse ele – Eu mesmo ainda não me adaptei á essa coisa toda.
—Quando você chegou?
—No começo de dezembro. Então, acho que não podemos perder tempo... Você quer ficar com a beliche de baixo ou a de cima?
—Por mim tanto faz. Pode ser em cima, se você não se importar, é claro. – disse
—Fechado.
—Ei, você pode me dizer o que é indeterminado?
—Claro, é quando seu pai ou mão divina, não reclamou você ainda, ou seja, não te assumiu como filha.
— Ah que ótimo! Meu dia cada vez está melhor! Agora eu tenho um pai que tem vergonha de mim!
—Giovanna não é assim! Veja pelo lado bom, tem campistas que estão aqui á anos e não foram reclamados ainda.
—O que? Anos? Quer dizer que eu posso ficar presa aqui durante anos?
—Bem...
Agora eu entendia porque alguns dos campistas do chalé de Hermes tinham expressões tão amargas, será que eu me tornaria alguém como eles?
—Você não é indeterminado.
—Isso não foi uma pergunta, foi?
—Não, posso ver que você tem o mesmo brilho travesso nos olhos que Travis e Connor.
—Bem observado. Agora eu estou tentando decifrar de quem você é filha. Pai ou mãe?
—Pai
—Hum... – disse ele me observando – não faço a mínima idéia. Mas, quem sabe se você tiver sorte ele não te assume hoje hein?
—Vish... já era, sou a pessoa mais azarada do mundo.
Ele riu.
—Giovanna, acho melhor você ir tomar banho, daqui a uma hora temos que ir para o pavilhão.
—Bem que eu queria, mas não tenho nem toalha.
—Santo Hermes!! Me esqueci!
Ele correu para o outro lado do chalé, numa prateleira. Depois de dois minutos, retornou e tinha nos braços, como prometido, um quite completo de higiene, escova de dentes, de cabelos, toalha shampoo, sabonete.
—Obrigada.
—De nada, quer que eu arrume a sua cama?
—Ahn... Pode ser.
—Ótimo. – disse ele sorrindo
—Posso perguntar uma coisa?
—Pode...
—Poque você está sendo tão gentil comigo?
—Ah... – disse ele pensando – acho que gostei de você.
Sem mais nenhuma palavra me retirei de lá e fui em direção aos banheiros, que sabia a localização graças á Michael.Quando entrei na água senti que meu corpo não estava mais cansado, não estava muito quente, alias estava fria e me deu arrepios e não era muito limpo, mas eu estava limpa e era o que importava. Tomei cuidado para que a água não entrasse em contato, mas não tive sucesso. Fiquei muito tempo deixando a agua escorrer e sentindo a fragrância do perfume exótico que exalava dela, algo que não combinava com o ambiente tão característico dos acampamentos que eu ia na infância.
Quando acabei, percebi que o quite era realmente completo. Me vesti e coloquei até uma camiseta nova que tinha visto todos usando. Era laranja, tinha o desenho de um centauro e demorei para identificar o que estava escrito: “Acampamento Meio-Sangue, Iniciante”. Estava bem larga para mim, mas isso não importava. Minha calça jeans estava um pouco suja, mas nem dava pra reparar. Penteei meus cabelos e voltei para o chalé 11. Percebi que o movimento no acampamento tinha diminuído, acho que todos se preparavam para sair para o jantar.
Chegando lá Travis e Connor me cumprimentaram sem apertos de mão. Fui direto para o meu beliche. Bruno estava deitado lá escutando música. Como estava de olhos fechados, não quis incomodá-lo. Joguei minhas coisas para o beliche de cima e arranjei um jeito de escalar até lá. Já que não tinha escadas. Eu não tinha nada para colocar ali. Observei as paredes dos lados e vi que cada parte do teto ou da parede ao lado dos beliches era decorada com fotos de amigos, artistas, e coisas que cada um gostava. Cada beliche tinha um baú que deduzi era dividido com roupas entre os dois integrantes do beliche.
Não fiquei muito feliz em pensar que teria que colocar as minhas roupas com Bruno, seria muita invasão de privacidade, mas tentei não pensar muito nisso. Algumas partes do teto do chalé estavam mofadas. Estava sentada em meu beliche e nem percebi quando uma garota apareceu em meu beliche:
—Oi, tudo bem?
—Ah!! Que susto! – gritei
—Calma, foi sem querer.
—Tudo bem, sim e você?
—Também.
—Ei, Giovana posso me sentar aí?
—Claro – respondi.
A menina se sentou na minha cama. Ela tinha uma voz dócil e cabelos compridos que iam até a cintura e eram cacheados, castanhos claros. Seus olhos eram quase pretos e ela tinha um nariz pontudo e empinadinho muito fofo. Tinha bochechas enormes como as de Bernardo. Imaginei que ela fosse uma filha de Hermes também, pois tinha um sorriso bonito e travesso.
—Qual é o seu nome? – perguntei.
—Miranda Proe. Filha de Hermes, caso queira saber.
—É, eu ia perguntar isso mesmo. – nós duas rimos. – depois de um tempo perguntei. – Ei. Miranda, posso te perguntar uma coisa?
—Claro.
—Você não enlouqueceu ainda? Quer dizer, eu em um dia já enlouqueci e você parece aceitar a idéia numa boa...
—Ah, eu já estou aqui desde meus 10 anos. Tem dois anos que frequento o acampamento.
—Nossa – respondi
—É – disse ela pensativa – Mas eu só estou aqui pra te falar que qualquer coisa que você precisar, uma blusa, calças limpas ou até um celular — disse ela e em seguido sussurrou — o que é proibido por aqui – e então continuou no tm normal de sua voz – é só me pedir, tenho muitas roupas sobrando ok?
—Obrigada, acho que vou precisar mesmo. Você é muito gentil – sorri para ela
—Ah, e se quiser conversar, nem precisa perguntar ok?
—Amei a idéia!!
—Legal... Você já está pronta para o jantar?
—Sim...
—Não quer nenhuma outra roupa?
—Ah, hoje não Mih – hesitei – posso te chamar de Mih?
—Claro, adoro apelidos. – ela deu uma piscadela amigável.
—Ok, hoje não precisa, já estou pronta.
—Ta, eu vou pro meu beliche é aqui do lado ta?
—Ta.
Ela saltou do meu beliche para o dela com uma habilidade incrível.
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