Maldição Rom
7 Capítulo 7
— Pois bem, pode falar o que você tanto queria. Só seja rápido, porque sinto que seu irmão pode destruir toda a minha casa se eu não estiver lá pra contê-lo.
— Calma, ainda não. Peça algo, porque você parece prestes a matar alguém.
— Ainda bem que percebeu. E se sabe o que é bom pra sua pele, apenas tenha um mínimo de consciência que eu olho pra você, mas vejo outra pessoa, se é que me entende.
Essa era uma das poucas desvantagens de ser idêntico a alguém, e neste caso, era uma desvantagem das grandes. Ainda que não pudesse, entretanto, negar o direito do indiano à frustração. Saga, quando queria (ou quando não queria pensar), conseguia ser no mínimo desagradável.
— Te peço só um pouco mais de paciência, Shaka. Até agora você só teve prejuízos, imagino que posso ter uma solução pros seus problemas. Bom, talvez não a solução imediata, mas ao menos o começo dela.
— E do que se trata, Kanon?
— É aí que entra a sua paciência. Só mais alguns instantes — e terminando de falar isso, chamou o garçom e fez seu pedido.
Aquilo era estranho pro indiano, afinal, nem sabia por que estava ali, e como estava enfiado naquilo tudo até o pescoço. Não demorou muito e viu Shura se aproximando da mesa deles.
— Pronto, agora sim.
— Boa noite, Shaka, Kanon. — Shura demonstrava um pouco de surpresa ao ver seu sócio ali, mais pela ousadia de Kanon do que por ele em si. Pelo visto a conversa com o gêmeo mais novo havia surtido um bom efeito, ou ao menos assim esperava.
— Bom, antes que vocês me perguntem, já vou me adiantando porque não temos tempo a perder, e aparentemente queremos a mesma coisa: que Saga enfim vire gente.
Aquela colocação, feita daquele jeito, fez Shaka ficar surpreso. Trabalhava há um tempo considerável para os gêmeos, e via Kanon sempre estressado ou irritado, mas deduzia que ele fosse tão deselegante quanto o irmão.
— Pra mim já deu ter que, além do meu trabalho, ainda tomar conta pra ele não fazer besteira ou ter que consertar as burradas que ele faz. Preciso muito que ele enfim aprenda a ter noção, e não dá mais pra você trabalhar na base da sutileza, Shaka.
— Como assim?
— Saga precisa de um tratamento de choque — respondeu o espanhol.
— Hoje ele chegou em casa indignado por você não ser cego. Ele jurava que você fosse, eu só não sei de onde ele tirou isso.
Shaka tensiona os ombros, ficando irritado por ouvir o que Kanon acabara de dizer e também por se lembrar do maldito dia.
— Eu tenho fotofobia, e aquele dia estava claro demais. Eu também passei por um problema em um restaurante onde me jogaram o prato de comida em cima de mim. Por azar eu parei perto dele na rua. E aí foi o show de horrores que você já deve saber.
— Sim, sei… — falou pensativo — pois bem, Shaka. Eu e Shura havíamos conversado há alguns dias sobre você e suas reações, e sei que apesar de estar a ponto de esgoelar meu irmão, você está se segurando bem. Chamei o Shura aqui para que talvez a gente pudesse junto planejar algo para fazer o Saga entender de vez o erro dele.
— Você acha que isso é possível? — questionou Shura
— Sim, acho. Só que vai precisar talvez do nosso suporte, mas vai ficar boa parte disso sob responsabilidade do seu sócio.
— E qual é a sua sugestão?
— Tratamento de choque. Ele precisa ter a verdade esfregada na cara até conseguir enxergar. O grande defeito dele é ser voltado para si mesmo, e isso dificulta que ele seja capaz de olhar para as pessoas ao redor. Ele meio que não se importa, mas acredita estar fazendo algo bom, mas tudo apenas baseado em seu ego. Se acha maravilhoso por ser quem é, fazer o que faz… Não é por mal, mas ele é bem bacaba.
— E como você acha que seria possível a gente conseguir colocar juizo à força na cabeça oca dele? — questionou o indiano
— Aí que a gente precisa traçar a estratégia. Eu até poderia sugerir algumas coisas, mas dada a nossa relação profissional, sei o quão reservado você é, e não seria justo pedir isso a você. Sendo minha única ideia, acho melhor a gente tentar debater como vamos fazer isso.
— É tão invasivo assim? — estava dividido entre curioso e amedrontado.
— Na verdade, vai depender de você… — Kanon não era bobo. Ficava nos bastidores não porque ele não seria capaz de fazer o que Saga faz, só que ele é bem mais prático, e ainda que conseguisse o fazer, Saga era bem mais cativante que ele e era natural de sua personalidade. Isso fazia com que as coisas fluíssem mais fácil, mas ele definitivamente era um mestre na manipulação. Sabia que se jogasse a isca certa, Shaka cairia na sua fácil. E com essa pergunta, tudo indicava que estava no caminho certo.
Tudo o que precisava agora era fazer com que Shura concordasse para que qualquer que fosse a sua proposta, ele ficaria suficientemente balançado para aceitar.
Ainda era uma manipulação, mas o objetivo ali no fim convergia para o interesse dos três. Kanon precisava de verdade que Saga melhorasse esse lado de sua personalidade, Shaka precisava de retratação e Shura precisava que o sócio e os clientes estivessem em sintonia para que o trabalho fluísse e que não corressem o risco de perder os gêmeos como uma fonte pagadora.
E se seu plano desse certo, quem sabe ainda não traria um bônus para aqueles dois cabeças-duras? Conhecia o indiano um pouco mais que o irmão pela natureza de sua função, e percebia como ele agia com pessoas como Saga. Todas aquelas reações poderiam sim ser, inconscientemente, algo a mais.
— Pois bem, meu plano consiste em você se expor a ele. Se abrir por inteiro, sem barreiras nem nada. Ele saberia quem é você, e criando um vínculo contigo, talvez ele consiga enfim olhar o que ele fez de errado.
— E ele desenvolveria empatia suficiente para começar a clarear essas questões na cabeça dele… — complementou o espanhol, pensativo.
— Claro que eu não poderia exigir que você se prestasse a isso, pois é algo que vai além das minhas capacidades, mas juro que foi a primeira coisa que passou pela minha cabeça.
Shaka não estava em condição de responder dado seu choque. Sabia que as palavras de Kanon faziam sentido, mas se abrir assim, principalmente para o cara que quase o humilhou em rede nacional?
— Mas vamos pensar em algo diferente, dá pra ver que minha suspeita inicial de que seria muito invasivo estava certa.
Os olhos azuis que até então fitavam o nada se direcionaram pro amigo e sócio estudando suas feições. A última declaração do grego fez com que o amigo torcesse um pouco o rosto em clara resignação por perder uma boa ideia. Ele mesmo sabia que a ideia era boa, mas estava faltando coragem.
— Espera… — respirou um pouco, tentando colocar os pensamentos em ordem — Vamos primeiro tentar esgotar essa possibilidade, e depois eu vejo se concordo ou não com essa ideia.
~CONTINUA
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