Maldição Rom
1 Capítulo 1
Aquele dia não estava lá muito bom. Sabia que mais cedo ou mais tarde parte de seu mundo cairia sobre sua cabeça, e claro que não poderia ter sido em melhor hora. Havia ido ao restaurante encontrar seu avô para que enfim eles marcassem o dia em que encontraria sua predestinada noiva, Mayura. Conhecia a moça, já que eram amigos de infância, e as famílias eram muito próximas, tanto que haviam combinado seus casamentos ainda quando nem eram nascidos.
Não podia fazer aquilo com a amiga. Não podia fazer aquilo consigo mesmo. E aquilo fora suficiente para o avô, tão tradicional e apegado aos costumes, o humilhar e romper de vez consigo. Além do escândalo dentro do restaurante, ainda teve comida jogada sobre si.
Era uma situação extremamente desagradável, já que apesar de suas origens, havia estudado e viajado por diversos lugares do mundo. O pai, um homem mais liberto das tradições acabou se casando com uma gadji, inglesa. O avô aceitou, mas não achava adequado que se misturassem tanto assim com os gadje. Quando enfim veio agora sua recusa em se casar, tudo isso lhe fora jogado na cara, que a culpa era dessa mistura. Que nunca deveria ter deixado seu pai se casar com a gadji. E o inverso era mais comum: se seu avô menosprezava os gadje, o resto do mundo odiava e menosprezava os roma.
Ciganos.
Sabia desde cedo que não conseguiria manter aquilo por tanto tempo, que mesmo tendo sido incutido nos valores ciganos, Shaka estava fadado a romper com o avô, parte da pequena família que lhe restava após a morte dos pais. E aquele rompimento era praticamente o rompimento com seu grupo, seu povo. Doía, mas estava preparado para isso. Iria superar.
A única coisa que não estava conseguindo superar era aquele sol grego maldito. Seus olhos muito azuis eram sensíveis, e a fotofobia não lhe permitia permanecer com eles abertos. Além da extrema luminosidade, o calor estava infernal, somando-se ao fato de que não havia almoçado (a comida toda voou em sua roupa e seu cabelo), lhe causavam um mal-estar a mais, e sua cabeça começava a latejar.
Resolveu se sentar encostado na parede de um prédio, nem sabia direito aonde estava, só queria se recompor e esperava que pelo menos a sombra que estava ali lhe ajudasse a respirar melhor. Também esperava que ninguém o notasse ali, mesmo que estivesse vestido com roupas que denunciavam sua etnia. Não precisava de mais aquilo.
De tão zonzo que estava, andando literalmente às cegas e cambaleando pela calçada, não havia percebido que acabara se aproximando de uma turba composta por todo tipo de gente, desde pessoas comuns até fotógrafos e cinegrafistas.
— É claro que a gente precisa sempre estar atento às pessoas mais necessitadas, à população mais vulnerável. – uma voz alta e ligeiramente familiar se fez ouvir – O povo helênico é conhecido por sua cultura e toda a filosofia oferecida ao mundo, não podemos fazer diferente com a receptividade com os xenos.
— Senhor Saga, o que vai acontecer então? O senhor planeja algo? – um entrevistador lhe direcionou o microfone.
— Sem dúvidas. Desejo bem mais pela nossa terra, mas no momento, tudo o que posso fazer são pequenas ações. – olhou ao redor e percebeu o homem jogado na parede, tudo sujo – Vejam este homem, por exemplo – e apontou para Shaka que não havia se tocado de que era com ele que estavam mexendo. E pior: filmando. – Um cigano. Alguém que merece nosso suporte e nossa compreensão, não nossos ataques.
“Espera: estão falando de mim?”— Shaka congelou naquele instante. Desejava curtir sua fossa ali quieto até se recompor, e do nada se envolvia em algo que mais parecia um comício.
— As pessoas precisam pelo menos de um empurrão, um pontapé inicial para que consigam se livrar de suas misérias e sofrimentos e enfim alcançar um mínimo de dignidade.
“Oi?”— pensava o indiano, tentando abrir os olhos, mas ainda sem sucesso. O máximo que conseguiu foi entreabrir o olho esquerdo quando viu que um homem alto e loiro se aproximava de si.
— Meu bom homem, você precisa de algo? – perguntou, sem obter qualquer resposta.
“Não acredito, o ápice da humilhação”— afundou ainda mais a cabeça nas mãos. Queria um buraco pra se enfiar e nunca mais sair.
— Imaginem o quão difícil deve ser se conscientizar de sua real situação – Saga voltou-se para as câmeras com o rosto expressando toda a compaixão que poderia demonstrar. Resolveu pegar a sua carteira e jogou ao indiano algumas notas de cinquenta euros sobre o homem abaixo de si – ao menos hoje você terá onde comer e dormir. Talvez até tomar um banho e comprar roupas novas.
Shaka ficou horrorizado quando viu as notas caírem em cima de si, ao som de aplausos e frases emocionadas elogiando a atitude de um Saga muito altruísta, ouvindo os planos de um projeto mútuo entre seu programa de televisão e parte do governo grego em ajudar pessoas em condições mais vulneráveis.
Assim que se recuperou do susto, se levantou com as notas de euro nas mãos. A este instante, a muvuca já havia se dissipado e só restava ali o dito cujo e alguns funcionários. Se aproximou o máximo que pode, recebendo um sorriso adorável do homem mais alto.
— Você pode me explicar o que é isso?
— São três notas de cinquenta euros, meu bom rapaz – falou tranquilamente como se fosse a coisa besta do mundo, uma comiseração estranha em sua voz – mas achei que vocês cegos soubessem distinguir as notas pelos tamanhos.
Não era pra se surpreender, já que Shaka não conseguia abrir os olhos, e o máximo que conseguiu foi tão pouco que o esforço lhe fez contorcer todo o rosto em desconforto, coisa que o grego havia lido como sendo consequência de uma cegueira.
— Ah! Toma aqui dez euros, acho que agora te ajuda – deduzindo que não conseguia distinguir as notas por faltarem outras notas para comparar, o loiro mais alto lhe deu mais dinheiro e se pôs a acertar sua blusa e ajeitar seus cabelos, sem nunca perder o sorriso.
Se ódio explodisse cabeças, o indiano já estaria sem a sua. O pior era que aquele homem conseguia ser racista de um jeito que não conseguia sequer enxergar.
Já estava suficientemente humilhado para começar um bate-boca no meio da rua depois de ter sido filmado e confundido com um mendigo. Recolheu toda a sua dignidade ferida, amassou o dinheiro na mão, colocando-o violentamente na mão do grego. Ergueu a cabeça, respirou fundo (sem abrir os olhos, que ainda não conseguia) e deu três tapas no ombro de Saga, que olhou desconfiado.
— Que a má sorte te persiga e que tudo dê errado!
Virou-se e foi embora seguindo a direção oposta de onde estava, deixando um grego assustado para trás.
CONTINUA
Notas finais
Gadje ?“ não-ciganos na língua cigana
Roma ?“ plural de rom na língua cigana
Rom ?“ cigano na língua cigana
Xenos ?“ estrangeiros (grego)
Apesar da denominação rom ser a mais adequada ao tratamento desse grupo étnico, no Brasil a palavra cigano ainda é utilizada sem tom pejorativo. Diferente de outros países onde já não se utilizam estas palavras por ser um termo ofensivo.
Fale com o autor