Malaxophobia
29 Vitórias e quedas
O restante da semana se passou sem maiores acontecimentos. Nesse meio-tempo, Cartman voltou a incluir Kenny, vivo e intacto, em seus planos para desvendar o passado da gótica. Todos resultando em buscas infrutíferas.
Tentaram entrar em contato com ex-funcionários da WaKeeney Elementary, escola em que Henrietta estudou aos sete anos de idade, no Kansas, até vir a South Park depois de uma catástrofe incendiária em que muito provavelmente esteve envolvida. Todas as tentativas de contato, fosse por telefone ou e-mail, falhas ou sem retorno. Contatos com alguns ex-alunos, encontrados a muito custo, também sem sucesso. Chegaram a procurar os obituários das doze crianças que morreram no incêndio para tentar contatar seus pais, e nada.
Obcecado com esse objetivo, Cartman começava a enlouquecer. Planejava pegar o carro e viajar por horas até a cidade de WaKeeney. Felizmente, Kenny pôde colocar um pouco de juízo na sua cabeça.
— Se você vai continuar se aproximando da garota — dizia o loiro na sala de estar de Eric. — Por que não esperar que ela mesma te diga o que aconteceu?
— É simples. — o gordo respondia. — Saber o que aconteceu vai me ajudar nessa aproximação, não tem a ver só com dar um jeito no moleque que causou tudo isso.
— Ah, claro. — zombou com sarcasmo. — E você não pretende fazer a mãe do cara se matar nem nada assim.
— Isso são outros quinhentos, nunca disse que não pretendo.
— Cara, vai por mim. Eu desencanaria se fosse você. Você é o maior oportunista que conheço, em algum momento vai encontrar a chance perfeita de arrancar essa informação dela mesma.
Cartman pareceu pensativo. Kenny tinha um ponto, afinal. Dando de ombros, enfiou uma mão no bolso e arrancou as chaves de sua BMW M3. Jogou-as para Kenny, que as recolheu no ar, não deixando cair por pouco.
— Vaza daqui, pobre fodido. Sua Cinderela-depois-da-meia-noite espera. — deu meia volta para subir as escadas. — E cuidado com a porra do meu carro.
Encerrando com firmeza a chave numa mão, Kenny assentiu e se retirou da casa. Fechou a porta ao sair. Ao avistar a enorme BMW vermelha sobre o gramado coberto de neve, sorriu com satisfação.
Pegar o carro de Eric emprestado para levar Tammy a Denver foi combinado desde que tentou ajudá-lo a interrogar Bradley. O acordo estava sendo cumprido. Também estava grato pelos trocados que conseguiu todas as vezes em que o ajudou: graças a eles, poderia comer fora com Tammy depois do espetáculo e ainda pôde conseguir algumas roupas formais para vestir, dignas do teatro onde assistiriam ao musical. Um pouco fora de moda, claramente roupas de liquidação, mas considerou-as legais.
Durante o trajeto até a casa da Warner, pensava em como poderia causar uma boa impressão. Não que tivesse alguma intenção com Tammy; na verdade, não considerava que estivesse atraído por ela. O que julgava estranho. Era como se tivesse passado por algum tipo de castração desde que fora rejeitado e ridicularizado diante dos amigos. Por mais que quisesse estar em paz com ela, não via-se evoluindo para nada além disso.
Ao estacionar na calçada da garota, riu internamente ao vê-la em roupas igualmente esdrúxulas, mas ainda assim maneiras. Vestido médio justo, meia calça, botas curtas com saltos discretos e um excepcional casaco de pelos com estampa de pele de onça. Este último praticamente cheirava a gerações passadas e brechó. Também estava maquiada, repleta de braceletes dourados nos pulsos. Os cabelos cheios de luzes estavam presos num coque elegante.
— Boa noite, “Ken”. — ao entrar no carro, Tammy cumprimentou, bem-humorada. — Carro do Cartman, hein? Bem legal.
— Como sabe? — Kenny indagou, particularmente ofendido.
— Está escrito “SUKMABALS” na placa. — dava indícios de cair na risada. — Honestamente, espero que seja dele.
“Mas...” frustrado, Kenny apertou o volante. “Que filho da puta”. A placa, decididamente, não era assim antes.
Se encaminharam para fora da cidade num relativo silêncio, não necessariamente desconfortável. Vez ou outra, falavam e riam de causos da escola, ou Tammy compartilhava sua experiência com o show dos Jonas Brothers, que Kenny tinha possibilitado a ida.
— Aliás, uma pergunta — a garota precipitou. — Você tem carteira de motorista?
— Hã... — o rapaz se negava a olhar para ela, constrangido. — ...Claro.
— Me levando por aí sem habilitação, Kenneth? — Tammy debochou. Os braços cruzados.
— Eu... Ainda não tenho dinheiro suficiente pra tirar a carta. — sorriu, sem graça. — Já tinha uma noção de direção e Cartman me ensinou mais algumas coisas quando comprou esse carro, mas não sou habilitado.
— Ah, relaxa. — a garota disse em resposta, risonha. — Sei como é. Eu também não poderia tirar a carteira se quisesse. Se a polícia não nos parar, por mim tudo bem.
Kenny riu brevemente, um pouco mais tranquilo. Estava achando curioso todo esse bom humor da parte dela.
Sem atropelos, chegaram ao grande centro de Denver. O carro foi deixado em segurança no estacionamento do teatro, aparentemente bastante lotado àquela noite. O musical em exibição era o popular Wicked, provavelmente pela quadrilionésima vez. Depois de atestarem seus ingressos na bilheteria, caminharam lado a lado pelo imenso e sofisticado saguão, reparando em seus detalhes.
— Ei, Kenny — Tammy o chamou. O coração um tanto acelerado pela ansiedade. Tirou dois dólares da bolsa tiracolo e mostrou-os ao rapaz. — Você pode comprar um Snickers no bar pra mim? Vou na frente pra ficar de olho nos nossos lugares. Tudo bem?
— Ah, claro. Ótima ideia. Pode deixar, tô de boa hoje — recusou educadamente o dinheiro com um gesto de mão. — Pode ir. Chego em instantes.
Grata, Tammy assentiu. Seguiram por direções distintas.
Assim que ela ultrapassou as portas da sala de teatro designada, recolheu da bolsa seu par de protetores auriculares e os inseriu nos ouvidos. Com algumas mechas que soltou dos cabelos presos, cobria estrategicamente as orelhas, continuando a caminhada até seus assentos. Esperava que seu método desse certo.
Do lado de fora, Kenny alcançava o bar no saguão. Pediu dois refrigerantes médios, salgadinhos e, obviamente, o doce que a Warner pediu. Sentou-se pacientemente diante do balcão para esperar sua vez. Um desconhecido de idade similar a dele, sabe-se lá por que cargas d’água, decidiu se instalar bem ao seu lado num dos bancos altos. Kenny o ouviu pedindo um drink alcoólico.
— A Broadway é uma benção, não é? — o estranho, bronzeado, com cabelos longos e ares de surfista, puxou um papo furado.
— Hã — Kenny olhou para os dois lados com sutileza, certificando-se de que a pergunta tinha sido mesmo para ele. Respondeu de má vontade: — É. Claro.
— De quem vai conseguir um agrado hoje? — fez outra pergunta, aparentemente mal-intencionado. — Uma namorada? Uma amiga que tenta pegar faz tempo?
Kenny pausou. Se fosse possível, um círculo de loading estaria amostra em sua testa.
— Quê? — o loiro franziu o cenho.
— O que foi? Ela está por perto? — o outro rapaz se virou com sutileza, como se procurasse por alguém.
— Do que você tá falando, cara?
— Vai me dizer que você não sabe sobre os musicais da Broadway? — riu rapidamente, incrédulo. — As mensagens subliminares, irmão. Não trouxe nenhuma garota com você? Tá perdendo seu dinheiro.
— ...Mensagens subliminares?
— O boquete, irmão. É por isso que trazemos mulheres aos musicais, tem mensagens subliminares o tempo todo pra mina te pagar um por horas depois. Em que mundo você vive?
Mortificado, o loiro o fitava. Embora acreditasse que aquele esquisitão só estivesse drogado e dizendo bobagens, sentiu uma sensação gelada subir à espinha. Por sorte talvez, os refrigerantes e petiscos que pediu foram deixados à sua frente. Kenny pagou-os em silêncio, os recolheu e se levantou.
Caminhando até o salão do musical, ainda que incrédulo, as palavras daquele cara se repetiam em sua mente. Seria mesmo possível? Era surreal demais pra acreditar.
Chegando ao seu assento, Tammy lhe sorriu com os dentes cobertos pelo aparelho e agradeceu pelos lanches adicionais. Kenny sorriu de volta. Tinha chegado com timing perfeito: o espetáculo ia começar.
Atento a qualquer frase suspeita no meio das canções, Kenny assistia ao musical serenamente, bicando o refrigerante de tempos em tempos. De início, o show entregava exatamente o que esperava, com figurinos pomposos, músicas que escancaravam o enredo e cenários de contos de fadas.
Porém, depois de 15 minutos, ao detectar a primeira mensagem estranha sussurrada com muita sutileza, o loiro quase se engasgou. Percebê-las se tornou bem fácil depois disso.
Olhou para o lado. Tammy parecia alheia, com olhos brilhantes, muito envolvida com o espetáculo. Certamente, não fazia ideia. Kenny se levantou abruptamente. Segurou-a firmemente pelo braço.
— Ken? — a garota se levantou junto dele com aparente contragosto. Falava um pouco mais alto para ser ouvida acima da música, recebendo olhares desaprovadores dos casais ao redor. — O que foi?
— Precisamos ir. Agora. — a conduzia para longe a passos largos. — Depois explico. Só temos que ir.
Com os ouvidos selados, a Warner não conseguia discernir o que ele dizia. Mas conseguia formar alguma ideia. Seu coração se enchia de alívio. Não achava que ele tomaria uma atitude antes mesmo de deixar o musical correr até o fim. Bem, esse resultado também servia.
— Mas acabamos de chegar! O que houve? — fez algum charme adicional, apenas para vê-lo insistir em irem embora.
— Prometo que vou explicar, agora só temos que sair daqui.
As portas de saída, seladas, estavam cada vez próximas. Com Tammy em seu encalço, Kenny apertava o passo, em desespero silencioso. Mesmo que ela, para início de conversa, fosse quem o tivesse convidado, estava verdadeiramente temeroso com a possibilidade de um tiro saindo pela culatra, em que a garota pensaria que esteve se aproveitando de sua ignorância. “É por isso que trazemos mulheres aos musicais”, repetia a voz do garoto surfista em sua cabeça.
Não colocaria tudo a perder... Não hoje. Muito próximos da saída, Kenny dava graças a todos os deuses existentes.
Talvez fosse um deus caótico quem tivesse ouvido seus agradecimentos. Pois um holofote, talvez com o peso de duas Henriettas e um Cartman, caiu com tudo sobre ele, provocando um grande impacto.
Curvada e horrorizada, Tammy paralisou em seu lugar. Seu braço ainda estava seguro pela mão de Kenny, agora desacordado, impotente e espalmado no chão. Inconscientemente, a garota gritou. Não demorou para o resto do teatro olhar em sua direção.
* * *
Apesar da cidade ser fria, o dia estava particularmente quente em relação aos outros. As montanhas cobertas de neve, ao longe, tinham alguma luz do sol em seus picos. Talvez fosse um presente do universo, preparando a tarde para uma partida empolgante. Ao menos, dentro do possível num jogo de baseball.
Nas arquibancadas de poucos andares ao redor do campo triangular, estavam pais, mães e demais familiares dos jogadores, assim como colegas da escola que não participavam do time e garotas. Algumas delas, namoradas ou ao menos interessadas em algum dos integrantes da equipe. Do lado dos Vacas de South Park, estavam Butters, Tweek, Craig, Token, Clyde, Stan, Kyle, Cartman e alguns figurantes na reserva.
Entre os jogadores, foram distribuídas funções de acordo com suas aptidões. Como exemplo, Stan era o arremessador. Ocupava o papel principal nos jogos devido à sua afinidade de longa data com esportes. Butters atuava no interbases, pronto para correr desesperadamente sempre que necessário. Kyle, sem muita habilidade no baseball, era o campista esquerdo e torcia silenciosamente para não sobrar muito trabalho para ele. Já Kenny, que devia ocupar a primeira-base, pronto para sofrer concussões absurdas ao tentar apanhar arremessos difíceis, estava ausente. Acabou por ser substituído. Com os demais, totalizavam nove membros em campo, num espaço muito maior do que ocuparam quando crianças.
— Alguma ideia de por que o Kenny não veio? — Stan perguntou ao mais gordo.
— Não tá recebendo mensagens nem ligação. — Kyle queixou-se, olhando uma última vez no celular. — O jogo já vai começar, cara.
— Ele levou a Tammy Warner no teatro de Denver ontem e se acidentou. Quebrou um braço e três costelas, quase que morre. — irritado, Cartman vestiu a grossa luva de baseball que precisaria para sua função. — Se fodeu inteiro e me fodeu junto, tinha emprestado o carro pra ele e tive que ir até lá buscar.
Stan e Kyle se entreolharam desapontados, mas não surpresos. Incapazes de se lembrar das mortes e do azar constante de Kenny, interpretavam a reação de Cartman a um acidente grave como pura indiferença e egoísmo. Julgaram a discussão como encerrada e se distanciaram às suas posições.
O uniforme de Cartman, em verde e branco como os dos outros, o fazia parecer ainda maior do que era, como se vestisse uma armadura de combate. Usava aparatos de proteção pelo corpo todo e na mão útil levava o capacete com grade frontal que usaria para proteger o rosto. Como o maior e mais gordo da classe, deixá-lo como receptor foi uma decisão óbvia: ocupava espaço o bastante para conseguir segurar todos os arremessos falhos. Além de que Cartman era capaz de, deliberadamente, atrapalhar o arremessador adversário e garantir alguns pontos a menos para o outro time. Nesta partida final dos jogos intermunicipais, jogariam contra a cidade de East Park.
Ao longe, Liane Cartman tirava algumas fotos do filho e acenava para ele. Sem jeito, o rapaz sorriu, acenando rapidamente de volta. Porém, próxima à localização de sua mãe, Jenny Simons se reunia com as colegas líderes de torcida e interpretou aquele aceno como um cumprimento para si.
Vendo-a se aproximar alegremente, Eric olhou em outra direção e deu uma respirada funda.
— Oi! — a líder vampira o saudou com uma pose graciosa. Estava perfumada e com a pele ricamente purpurinada. — Como vai a emoção?
— Tô de boa. — respondeu, simplesmente.
— Ah, eu devia ter imaginado. Apesar de fazer parte do time, lembro que você nunca deu tanta importância pra isso. — sorriu para ele, exibindo as presas falsas. Eric se conteve para não rolar os olhos. — Aliás... O baseball é legal e tudo o mais, mas por que escolheram logo esse esporte? O futebol americano parece tão, sei lá, mais emocionante e violento.
— É... Complicado. — o rapaz desviou ainda mais o olhar.
Apesar de ter feito algum esforço para convencer o grupo a jogar outro esporte que não o futebol — implicitamente por não estar a fim de se especializar no mesmo esporte que seu falecido pai — essa decisão não tinha sido difícil. O desejo por não jogar algo que lembrasse o Sarcastball, esporte em que absolutamente todos experimentaram... as secreções do Butters, foi unânime.
— Bom, não tem importância. — Jenny disse em resposta. — As vampiras gostam. O clima, o baseball, esses pinheiros em volta... Tudo traz uma vibe de Crepúsculo. Estão todas torcendo por uma tempestade.
Apenas então, Cartman prestou mais atenção à plateia. As arquibancadas estavam abarrotadas de garotas do grupo dos vampiros, bastante atentas. Para ele, a justificativa da referência a Crepúsculo funcionava; não fazia ideia de por que real objetivo Jenny as tinha reunido ali.
Do alto da cabine do narrador, uma voz gaga anunciou ao microfone que o primeiro turno teria início. Tanto Cartman quanto Jenny perguntaram-se internamente quem julgou uma boa ideia colocar Jimmy na narração.
— Então, eu vou indo. — a Simons alisou carinhosamente o ombro dele. — Não desejo sorte. Sei que vai se sair bem.
Enquanto a vampira lhe dava as costas e se distanciava, primeiro Cartman teve uma sensação desagradável na área onde foi tocado. Sentia como se estivesse sujo, o que era estranho. Normalmente, tudo o que sentia pelas investidas dela era indiferença. Depois, estreitou os olhos em desconfiança: Jenny emanava uma tranquilidade peculiar. Tão ciente quanto qualquer um de que ele e Henrietta estavam próximos, a segurança dela era bastante suspeita. Não condizia com a forma como ela agiu mediante outras garotas por quem ele se interessou desde que terminaram.
Não vendo outra opção, o antissemita vestiu a máscara protetora e se posicionou em seu lugar. Se sentia tremendamente desconfortável agachado daquela forma constrangedora.
O jogo seguia, aparentemente, equilibrado. Jenny Simons não entendia muito bem o esporte, para dizer a verdade. Preocupava-se mais em comandar suas colegas animadoras de torcida em suas coreografias ensaiadas e gritos de guerra. O time de East Park também trouxera animadoras, o que a irritava; não pretendia dividir a atenção com qualquer elemento que não fosse o jogo. Manter os ânimos da plateia de South Park para cima não estava sendo fácil. Felizmente, tinha uma carta na manga – uma carta imensa e inconveniente, segundo ela mesma. O que levou-a a se perguntar:
— Cadê a porra da vaca?! — disse em alto e bom som para as colegas durante uma pausa na dança.
E a Vaca estava lá. Vinha faceira, caminhando em direção ao campo com uma caixa de som no ombro. Numa fantasia acolchoada, arredondada, branca com manchas pretas e uma enorme cabeça, com grandes chifres, focinho... e tetas. Foi impossível não olhar para Vaca se aproximando: a plateia a olhou, as torcedoras olharam, até alguns jogadores se desconcentraram. Seu andar cômico e suas tetas de silicone sacudindo no ventre eram quase hipnotizantes.
Entusiasmada demais para notar a segurança no andar da mascote, Jenny se encaminhou até a caixinha bluetooth sobre o gramado em que tocava uma orquestra para conduzir as coreografias. Pausou a música e recolheu um megafone do chão. Via somente duas possibilidades, e ambas eram ótimas: ou Henrietta Biggle estava naquela fantasia, teria um péssimo desempenho e viraria motivo de piada ao levantar o capacete, ou ela não estava vestindo aquilo e teria o ano letivo seriamente prejudicado.
— Senhoras e senhores! — a vampira bradou no megafone. — A Vaca de South Park!
Jenny tinha a intenção de ela mesma colocar uma música para a Vaca dançar, mas ficou desorientada ao ver a mascote chutar desengonçadamente sua caixa para longe e colocar a que trazia ao ombro no lugar. Ligou a nova caixa de som com seu pé-casco, pisando-a de cima para baixo. A música soava eletrônica e agressiva, com uma batida seca — para conhecedores, "Not Now, Not Here" da banda The Fair Sex. Era um estilo musical que causava estranhamento, mas a mascote parecia saber exatamente o que fazer com ele.
A líder vampira tinha na lembrança como funcionava a dança sem-graça dos góticos, com o mesmo movimento sem vida para a esquerda e a direita. Tamanha foi sua surpresa ao presenciar, o que deveria ser Henrietta Biggle, mandando ver sincronizada com a música. Com rebolados marcados e movimentos exagerados, era uma dança estranha e sobretudo hilária: as atenções estavam sobre ela, as pessoas riam. As pessoas a adoravam.
Vermelha e tomada por ódio, Jenny observava a Vaca dançando ao seu redor, olhando para ela de volta e debochando da sua cara como se convidasse-a para um duelo. Antes que a vampira sequer pensasse em revidar, a mascote golpeou-a com a bunda de tal maneira que a fez cambalear um metro e se estatelar na grama. Risadas se ergueram e dedos foram apontados em sua direção.
Engolindo o riso, Lola e Bebe vieram ao auxílio da líder, ajudando-a a se levantar enquanto a Vaca continuava pirulitando por aí com seus incríveis passos de dança. Jenny encarou duramente sua braço-direito, que ainda tinha um sorrisinho frouxo.
— Desculpe, Jen — Lola proferiu.
— Cala essa boca. — A Simons limpava os vestígios de grama e gelo da minissaia.
— Ah, veja pelo lado bom. — divertindo-se, Bebe cobria os lábios com o dorso da mão. — Tá todo mundo animado.
E era verdade. Perigosamente, os jogadores de ambos os times pegavam-se parando para olhar quando podiam. De acordo com suas expressões frustradas, o pessoal de East Park se arrependia por não ter pensado em trazer uma mascote, também. Mesmo que jogassem melhor que a equipe de South Park, quase ninguém parecia ligar.
Depois da animação inicial do momento em que a mascote chegou e de ser aplaudida, passou a se apresentar somente durante os vários intervalos conjuntamente com as torcedoras. Porém, dançando freneticamente e interagindo com o público sem dizer uma palavra, acabava roubando a cena todas as vezes, para o desgosto de Simons.
Em pensamento, Cartman considerava Henrietta genial: quem quer que tivesse pagado para assumir o papel da Vaca, estava se saindo muito bem. Por isso, assim como todos os outros, se surpreendeu quando a Vaca se curvou, aparentemente ofegante, ao final do intervalo que antecedia o último turno de jogo.
A partida foi retomada. East Park estava à frente, mas o time da casa tinha chance de virar o jogo caso se empenhassem. As animadoras da torcida de South Park davam tudo de si para levantar o moral da plateia nessa etapa final, não dando a devida atenção à mascote. Mas Cartman, e muitos outros, não podiam deixar de observá-la de canto de olho.
De súbito, a Vaca arrancou a enorme cabeça de feltro e largou-a no chão. Trêmula, com as mãos nos joelhos, se curvava cada vez mais. A maquiagem escura ao redor dos olhos escorria por todos os lados no rosto suado, o cabelo preto e curto estava desgrenhado e o batom preto nos lábios praticamente já não existia. Henrietta, depois de dançar numa fantasia abafada por mais de duas horas, ofegava fundo, com grande dificuldade.
Começou a tossir sem parar, desesperadamente, como se quisesse arrancar algo do peito. Até despencar, sem forças nem ar nos pulmões o suficiente para se manter lúcida. Silêncio e tensão geral.
O jogo simplesmente continuava. Ambos os times estavam concentrados num mesmo objetivo. Das arquibancadas, olhavam para a mascote sem cabeça, estirada na grama e imóvel. Nem entre a plateia, tampouco entre as animadoras de torcida, ninguém se prontificava a mover um único dedo para ajudá-la.
— Cartman! — Stan gritou para o antissemita que simplesmente abandonou sua posição. — Onde pensa que vai?! Estamos vencendo!
Realmente, dentre todos os presentes, ajudá-la não era sua função; mas ele não dava a mínima.
Tirou da cabeça o capacete de proteção e arrancou a luva de receptor. Continuava seu andar firme na direção da gótica. Alcançando-a, dispensou os equipamentos que tinha em mãos.
Pegou Henrietta nos braços. Levantou-a com dificuldade, mas com determinação. Carregava-a para longe do campo, sem se importar com olhares ou gritos de protesto alheios, deixando o jogo completamente para trás.
Embora o contexto fosse bem diferente, era a segunda vez que carregava Henrietta Biggle em público. Já não causava mais tanto impacto.
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