Malaxophobia
28 Insegurança
— Se for gostoso e fofo — iniciou Wendy da tribuna rosa mais alta — Dou as boas-vindas à nossa nova irmã, Tammy Warner.
Todas as presentes no Comitê das Garotas, enfileiradas em suas mesas à esquerda e à direita, aplaudiram suavemente enquanto olhavam para a garota de aparelho ortodôntico e cabelos com luzes. Tammy estava de pé atrás de sua própria mesa, oferecendo agradecimentos silenciosos.
Desde crianças, as garotas de South Park reúnem-se neste mesmo lugar. Ali, debatiam sobre temas de seus interesses, criavam listas de assuntos relevantes a elas e definiam quais garotas da escola eram falsas ou não. E, na verdade, não mudou muita coisa desde então, a não ser as pautas que tratam e a aparência do local. Ainda havia pôsteres de estrelas pop e cores socialmente definidas como femininas por todos os lados, mas a decoração do local aparentava muito mais maturidade, como se tivesse acompanhado o crescimento das integrantes.
Centralizadas ao fundo da sala, estavam as três tribunas das líderes. Como mencionado, Wendy ocupava a mais alta. As duas grandes amigas do grupo dos vampiros ocupavam as mais baixas à frente: Lola e Jenny Simons. Quando eram crianças, era Bebe quem ocupava o lugar de Wendy, mas sua sabotagem na lista dos garotos mais bonitos da classe para conseguir namorar Clyde levou ao seu rebaixamento. Também estava presente na sala, porém nas cadeiras comuns.
As líderes vigentes do Comitê passaram a não se dar umas com as outras com o passar dos anos, mas nada poderia ser feito quanto a isso. Deveriam agir com maturidade e consciência para separar as coisas. Na maior parte do tempo, conseguiam.
— Infelizmente, Tammy — Jenny Simons tomou a palavra. Tammy interpretou como o momento de se sentar. — Não te convidamos ao nosso Comitê por nada.
— Há uma questão muito séria que precisamos debater. — Lola prosseguiu. — Sabemos que você e ele namoraram quando pequenos, mas você precisa entender que Kenneth McCormick não é mais como você o conheceu.
— Tammy. — Wendy assumiu o discurso mais uma vez. — Nós vimos quando você acenou para o McCormick. Veja, não é do nosso feitio interferir no que cada uma escolhe ou faz, todas podem e devem se relacionar com quem acharem melhor desde que não interfira no relacionamento de outra, mas esse é um caso especial.
— Se for gostoso e fofo — pedindo a permissão para falar, Bebe se pronunciou quase se levantando de seu assento — Kenneth é um galinha. Um grande babaca, um merda sem igual.
— Se for gostoso e fofo... — sem jeito, Tammy proferiu a frase chave. Que droga de frase era aquela...? — Meninas... Eu sei de tudo. Sei o que o Kenny fez enquanto eu estive em outra escola.
— Você sabe? — Jenny questionou, estupefata.
— Sim, eu sei. Minhas colegas do último ano me contaram tudo assim que comecei em South Park High. Por coincidência, encontrei com o dito cujo horas depois. Ele veio com aquele mesmo papinho mole comigo e o coloquei em seu devido lugar.
— Então — Bebe se interpôs — Tammy, isso não faz sentido! Por que dar atenção ao Kenneth?!
— Bebe! — Wendy chamou sua atenção. Não intervir nas decisões umas das outras era uma regra bastante real.
— Pessoal, está tudo bem. Vou compartilhar o que está se passando. O que tenho em mente pode ser útil, inclusive, pra vocês. — Tammy uniu as mãos sobre a mesa, fazendo uma pequena pausa. Tinha a atenção de todas as garotas sobre si. — Sim, eu sei o que Kenny fez. Sei que pra algumas ele prometeu o mundo inteiro, sei que de outras ele se aproveitou num momento frágil.
Em cada um de seus assentos, cada uma tinha uma versão para contar. Wendy esteve carente depois que Cartman a dispensou; Bebe pensou que Kenny via um pouco além de seus seios grandes e que desejava assumi-la, diferente dos outros; Patty não chegou a se envolver sexualmente com ele, ficaram só nas carícias e beijos, mas ele tentou em seu momento vulnerável e por pouco ela teria permitido. Nem todos os motivos que deixaram as garotas suscetíveis a se deixar levar pelo McCormick tem a ver com términos de relacionamento: algumas tinham problemas familiares, outras perderam alguma amizade e se sentiam sós, outras tinham uma autoestima baixíssima e queriam se sentir desejadas pela primeira vez. No fim, todos os contextos levaram à decisão errada.
Antes que a fama de Kenny se espalhasse, cada uma teve suas razões para acreditar nas palavras dele. Palavras que poderiam não ser as melhores, mas eram empregadas no momento certo. Além disso, Kenny não era um garoto feio; algumas simplesmente acharam-no atraente. Talvez, com Jenny, ele tivesse agido da forma mais baixa: jurou que, caso se aproximassem, Eric Cartman morreria de ciúmes, se arrependeria e imploraria para tê-la de volta. Isso não aconteceu.
As ações de Kenny só foram compartilhadas e descobertas entre as garotas quando fizeram uma reunião, feito esta. Naquele momento, compreenderam que o Comitê das Garotas não poderia deixar de existir. Não era perfeito, nem todas as integrantes eram flores que se cheirassem, mas era um círculo de apoio que funcionava relativamente e devia ser perpetuado.
— Antes que eu fale do hoje — seguiu Tammy. — Vou relembrar o ontem. Como muitas devem saber, Kenny foi meu namoradinho de infância por algum tempo.
Algumas cabeças balançaram em concordância.
— Ótimo. E, como muitas também devem se lembrar, minha reputação era terrível. Quase todos na escola ficaram sabendo que fiz um boquete num menino antes de conhecer o Kenny, todo mundo me via como uma vadia. — franziu as sobrancelhas. — E algumas nesta sala foram responsáveis por espalhar essa informação.
Silêncio total. A tensão e o constrangimento pairavam no ar. Quem quer que tivesse sido, fazia-se de desentendida.
— A questão é — Tammy prosseguiu depois de inspirar. — Algum tempo depois, Kenny pediu pra me namorar. Ora, meninas, francamente, eu não sou nenhuma boba e já não era naquela época. Fui uma menina muito precoce. Kenny queria um boquete e eu queria fazer, porra! Por acaso só garotos gostam de sexo?!
Várias bocas se abriram. Aquilo, sim, era inesperado. Em pensamento, algumas a assumiam, definitivamente, como uma vadia; outras, achavam que ela era dona de si e que tinha razão, chegando a se envergonharem. E outras, tinham uma opinião próxima ao que Eric Cartman muito provavelmente teria: “pobres quando não tem o que fazer só sabem transar.”
— Tammy... — Wendy iniciou, mas a garota em questão ergueu a mão, indicando que não havia terminado.
— Pois certo. — a garota de aparelho seguiu. — A questão é: meus objetivos podiam ser os mesmos que os dele, mas não significa que era tudo o que eu queria. Eu queria, mesmo, um namorado, e ele parecia querer isso também. Foi o que ele propôs a mim. Gostava dele, nós nos divertíamos juntos e tínhamos muito em comum. Mas, no final, ele me traiu com uma prostituta porque não aguentou esperar. Isso me deixou muito frustrada. Se desde o início ele só queria o boquete, bastava ser honesto. Mas não foi.
De olhos fechados, Tammy fez uma pausa. — Enfim. Recentemente, Kenny se fodeu nas mãos da garota gótica. Virou a chacota do ensino médio e, até onde sei, não tem incomodado garota nenhuma desde então. E aconteceu algo que me surpreendeu: Kenny está tentando conseguir o meu perdão. Segundo ele, sem nenhuma intenção por trás disso.
— Se for gostoso e fofo — Jenny se pronunciou. — Tammy. Não pode estar acreditando nisso.
— É aí que está. — a garota mais pobre mostrou um meio sorriso maquiavélico.
Em resposta, vários olhares de dúvida. Tammy se permitiu uma pausa dramática.
— É óbvio que não acredito nisso. Pelo menos, ainda, não. Por acaso alguma de vocês conhece o grande segredo dos musicais da Broadway? — viu as meninas entreolharem-se ou balançarem as cabeças em negação. Prontificou-se em explicar: — Os musicais da Broadway são cheios de mensagens subliminares. Homens pelo país inteiro levam esposas, namoradas, amigas, enfim, aos musicais com um único objetivo: ganhar um oral delas. De quinze em quinze segundos, as músicas fazem alguma referência discreta a boquete, é uma verdadeira lavagem cerebral. E eu convidei Kenny para ir a um comigo.
Jenny Simons, Wendy, Bebe e outras contorciam-se em suas cadeiras no desejo de protestar. A primeira citada chegou a se levantar e entreabrir a boca, se contendo em não fazer inúmeras perguntas: “o que você tem na cabeça?! Como pode se submeter a isso?! Como pode cometer essa traição a todas nós?!”
— Meninas... — Tammy chegava a sentir vontade de rir. — Eu não vou dar esse mole. Vejam só.
E tirou dois pequenos itens do bolso dos jeans, mostrando-os às garotas em seguida. Realmente minúsculos, eram dois objetos cônicos, feitos de borracha.
— Protetores auriculares. — explicou. — Estarei usando o tempo todo durante o musical. Não vou receber lavagem cerebral alguma, mas Kenny não vai saber disso. No dia, vou me certificar de que ele saiba sobre as mensagens subliminares. Não por mim, é claro. Quero saber o que ele vai fazer a respeito disso. É isso o que tenho em mente, pessoal.
— Bom... — Lola se prontificou. — Ok. Então, basicamente, você quer testá-lo?
— Exato. Ele quer mostrar que está arrependido e que quer fazer diferente? Pois então, prove.
— Preciso admitir, Tammy. — Jenny parecia genuinamente impressionada. — A ideia é boa. Mas e se ele escolher tentar se aproveitar de você? Honestamente, é o que acredito que irá fazer.
— Eu pretendia só esquecer que ele existe. Mas, agora que estou entre vocês... Pensei em todas compartilharmos o que fazer sobre essa parte.
— Duvido bastante que seja esse o resultado, mas... — Wendy pronunciou. — E caso ele não tente nada? O que pretende fazer?
— Vou perdoá-lo. Mas isso não significa que eu me relacionaria com ele. Estarei perdoando por mim, pra que eu pare de carregar esse peso comigo. Esse rancor que guardo e que me machuca há muitos anos. — selando os olhos, transpareceu uma grande melancolia. Olhou para o chão depois de abri-los. — Nunca foi sobre ele.
As três superiores do Comitê olharam umas para as outras. Em alguns segundos, Wendy pareceu tomar uma decisão.
— Irmã Tammy Warner — bateu um martelo do alto da tribuna central. — Você tem nossa aprovação. Não foda conosco.
Depois daquela breve assembleia, a nova integrante foi apresentada a algumas questões do funcionamento e rotina do Comitê. Nesse ínterim, Tammy teve a oportunidade de conferir as famosas listas, elaboradas e modificadas periodicamente: a lista dos garotos mais bonitos aos mais feios; a dos mais interessantes aos mais entediantes; por último, mas não menos importante, a lista dos mais desejados. Era preciso ter cautela quanto a essa última: caso alguma delas desejasse investir em algum dos rapazes que estavam no topo, era preciso deixar o Comitê de prontidão, de forma a não sacanear outras “irmãs” com o mesmo interesse.
Tammy não se surpreendeu ao ver Kenny em posições baixíssimas nas listas dos mais interessantes e dos mais desejados, mas deparou-se com sua segunda posição na dos mais bonitos, logo abaixo de Clyde – muito provavelmente, por motivos não muito honestos; depois de tudo, não pensou que isso se repetiria. Pelo visto, a índole de Kenny em nada influenciava a opinião geral sobre sua aparência.
O que considerou mais surpreendente, segundo a reputação que o nome do rapaz carrega há anos, foi visualizar as posições de Eric Cartman naquelas listas. Em quinto lugar na dos mais bonitos; em sétimo lugar na dos mais interessantes; e em segundo lugar na dos mais desejados. Novamente, abaixo de Clyde.
Quem diria?
* * *
Diante da porta da frente da casa dos Biggle, um homem robusto com um bigode escovado ajustava seu terno cinza e a gravata amarrada ao pescoço. Passou a mão pela cabeça calva e brilhante, como se sentisse falta de algo. Então, segurando com firmeza sua maleta pesada, pressionou o dedo sobre a campainha.
Deu uma olhada no relógio de pulso, aguardando ansiosamente que alguém atendesse. Então, dentro de segundos, a porta se abriu.
Ao ver a garota gótica parada à sua frente, encarando-o com um olhar morto, o homem petrificou.
Assim permaneceram, se olhando sem nenhuma expressão. Curioso, olhou através da garota e viu uma menininha punk de pé e uma cybergótica sentada no sofá, olhando para ele com um sorriso sem graça.
— Agora, entendi. — Henrietta piscou com uma expressão inerte. Virou para trás levemente. — Francamente, Shelly.
“Trago notícias quentes.” no corredor do colégio, Shelly dissera a Cartman horas antes.
“Não, espera.” o antissemita interrompeu. “Acabei de ter uma ideia. Preciso de outro favor.”
“Que seria?” a cybergótica questionou em irritação.
“Primeiro: tô atrás de informações sobre o passado da Henrietta, quero saber quem traumatizou ela e o que aconteceu. Descobri onde estudou antes de morar em South Park, talvez eu consiga descobrir alguma coisa falando com os pais dela.”
“Deixa eu adivinhar: já tentou fazer o irmão dela falar e não deu muito certo.”
“Porra. O cara consegue ser mais cagão que o Butters, se eu não soubesse que ele é adotado teria suspeitado.”
“Bem, os pais da Hen trabalham o dia inteiro. A mãe chega às sete e o pai costuma voltar pra casa tarde. Alcoólatra, mas inofensivo.”
“Hen?” Cartman levantou uma sobrancelha.
“Que foi? Tá com ciúmes?” Shelly zombou. “Ela é minha amiga, seu bundão. E aceita ‘Hen’ bem melhor do que ‘Etta’.”
O rapaz deu de ombros. Para ele, “Etta” soava como um apelido afetuoso e “Hen” como excessivamente meloso, quase não tinha a ver com a forma como se relacionavam um com o outro, tampouco combinava com a própria gótica segundo sua perspectiva. Talvez funcionasse melhor entre garotas.
“Certo.” Cartman prosseguia. “É o seguinte: quero que você leve Henrietta a algum lugar quando a mãe dela estiver em casa. Vou me apresentar como um investigador do caso da escola primária em que ela estudou antes de se mudar pra cá quando criança, o maldito colégio foi incendiado.”
“Putz, isso é a cara da Henrietta. Não acha que vai assustar a sra. Biggle?”
“Shelly, não pretendo assustar minha futura sogra.” sorriu prepotentemente, maquinando o plano e falas em sua cabeça. “Tenho tudo sob controle.”
Bom. Em teoria, teria. Era para o plano ter dado certo: Shelly levaria Henrietta e Karen para um café e depois um passeio no cemitério, deixando o caminho livre para Cartman interrogar a mãe da garota e tirar todas as informações que quisesse. Esteve em contato com Shelly durante todo o tempo, sendo informado de que tinham ido à cafeteria juntas há mais de vinte minutos e que sra. Harriet Biggle estava disponível.
No entanto, lá estavam as três góticas de estilos distintos, olhando-o analiticamente da sala de estar. Surpreendendo-o, Henrietta exibiu um meio sorriso para ele; depois, estendeu a mão até seu bigode postiço e o arrancou num puxão.
— Bela tentativa. — a gótica jogou o tufo sintético no peito do antissemita, que o pegou enquanto esfregava a pele sensível onde antes o bigode estava grudado. — Saiba que meus pais vão ficar sabendo de um investigador farsante querendo se meter nas nossas vidas.
— Uau. — Eric riu por dentro, arrancando o disfarce careca de sobre a cabeça. — Só de olhar pra mim já tem uma ideia do que eu pretendia fazer?
— Não vá se empolgando, você é mais previsível do que pensa.
“Ou você só está me conhecendo bem.” sufocou em pensamento, apesar de não ter conseguido controlar a expressão facial presunçosa. Teria que evitar flertes, afinal. Era parte do acordo. Achava interessante, e empolgante, que Henrietta não julgasse irritantes os seus planos mirabolantes e sua insistência quando tinha um objetivo.
Vendo-os conversar, Karen e Shelly se entreolhavam com um pensamento em comum: quanto tempo mais demorariam para se atacarem? Fosse lá o que “se atacar” significasse no caso deles. Karen nutria essa perspectiva desde que Henrietta defendeu o racista diante de todos os amigos. Já Shelly era, simplesmente, muito bem informada.
— Foi mal, rolha de poço. — a cybergoth se dirigiu a ele. — Tentei avisar que estávamos voltando pra cá e que ia dar merda, mas você não olha a porra do celular.
— E posso saber por que vocês voltaram?
— Já tínhamos chegado no Benny’s e pedido os cafés — Karen se pronunciou. — Mas Hen sentiu falta disso.
A gótica mais nova levantou na mão um suporte fino e preto para cigarro, encontrado na lateral da poltrona. Olhando-a de esguelha, Henrietta sentiu as bochechas corarem.
— Você precisava ver — Shelly caçoou, quase como se adivinhasse de quem tinha sido aquele presente. — Ela não queria fumar sem esse negócio de jeito nenhum.
— Eu já disse: vamos ao cemitério depois do café, fumar com isso complementa a minha estética — Henrietta se defendeu impacientemente. — E ainda tem o fator nostálgico, eu gostava de usar um desse quando criança.
“Sei.” se pensamentos fossem audíveis, a palavra teria sido pronunciada em uníssono pelos outros três elementos ao redor.
A gótica realmente gostava daquele suporte de cigarro. E de saber que Eric se lembrava que ela costumava usar um igual, acabando por oferecer um novo. Também gostava, ainda que se recusasse a confessar, da memória afetiva que o objeto carregava: tinha matado aulas com Eric, ido a um shopping maldito com ele, apresentado sua cultura, e no fim do dia...
Não pensaria nisso. Nada aconteceu.
— Bom. — Cartman retomou o foco, captando a atenção da garota à sua frente. — Já que tudo deu errado, que tal aproveitar a viagem e me convidar pra entrar? Podia me contar...
— Não. — cortando-o sem nenhuma emoção, Henrietta fechou a porta na sua cara.
Do outro lado, o rapaz ouviu a porta ser trancada a chave e ferrolho. Henrietta se voltou furiosamente para a cybergótica.
— Muy amiga, hein, Marsh?
— Em minha defesa, eu não sabia quais eram as intenções dele. — Shelly mentiu deliberadamente, tirando “o dela” da reta. — Pensei que estivesse tudo bem ele passar aqui na sua ausência, vocês parecem bem próximos desde...
— Etta — a garota se assustou e virou de costas ao ouvir Eric chamando-a da janela. Impaciente, ele a olhava com as mãos e o rosto apoiados no vidro. — É melhor dizer de uma vez, Etta! Eu vou descobrir de qualquer jeito!
Sem responder, a gótica marchou até a janela e, depois de dar a ele um olhar mortal, fechou as cortinas com força.
— Algum problema, meninas? — a sra. Biggle pôs a cabeça para fora da cozinha, curiosa com a agitação.
— Não, mãe. Tá tudo ótimo, melhor impossível — apertando nos dedos o vinco entre as sobrancelhas, Henrietta soou tão raivosa quanto gostaria.
E pensar que, há sete anos, induziu a mãe a mudarem de cidade por causa do mesmo cara do lado de fora. A vivência traz reviravoltas cabulosas, às vezes.
Quanto às “notícias quentes” que Shelly anunciara antes de Cartman despejar sobre ela os seus planos, tratava-se da informação sobre Henrietta tê-lo defendido como um inconformista digno diante dos góticos, e de que estava notavelmente disposta a continuar interagindo com ele mesmo coberta de traumas. Também não gostava de alimentar o ego dele, mas achava que Cartman deveria ficar ciente. E ficou.
Não que precisasse dessa informação para continuar motivado. Mas estava mais obstinado que nunca.
* * *
Cercada pela decoração macabra do seu quarto, Henrietta suspirou. Sentada à beira da cama, segurava a cabeça da fantasia da mascote de South Park nas mãos. O vazio nos enormes olhos da vaca malhada a encarava de volta.
Estava puta com Jenny Simons. Bem mais do que em qualquer uma das situações anteriores. Depois do que foi imposto na última reunião das líderes de torcida, a gótica estava intimada a entrar, verdadeiramente, naquela fantasia idiota durante o jogo de baseball que se aproximava. Pois certo: faria o combinado. Mas Simons se arrependeria por isso.
Largou a cabeça de feltro no interior da caixa da fantasia, abandonada às moscas ao lado da cama. Desbloqueou uma memória estranha de relatos sobre abduções de vacas naquela cidade. Poderia ser uma grande bobagem, mas diante das bizarrices que já presenciou morando ali, não arriscaria ficar perto demais do traje.
A madrugada começava a avançar. Se esticou na cama e se cobriu, disposta a ler alguns contos de horror vitorianos até pegar no sono. Depois da conversa que tivera com Simons no banheiro feminino, estava fazendo o possível para manter a mente ocupada. Consciente ou inconscientemente, era reconfortante saber que Eric estava obstinado em descobrir sobre seu passado, mas não sabia por quanto tempo duraria essa perseverança. Por quanto tempo ele continuaria se dedicando de alguma forma a ela, até...
Até encontrar outra garota interessante.
Ou, na falta de opções melhores, começar a cogitar voltar para Simons.
Puxou um dos travesseiros negros ao seu lado e o apertou ao redor da cabeça, cobrindo as orelhas como se fosse calar seus pensamentos. Ideias estúpidas, estúpidas, não podia se dar o direito de pensar nelas, não podia se importar com isso. Não devia.
Desesperada, porém soando impassível caso alguém a visse, tomou um comprimido antialérgico para pegar no sono. Não conseguiria dormir por conta própria se continuasse com esses delírios inúteis.
* * *
Inferno.
Pensei que o antialérgico me derrubaria o bastante pra eu conquistar o direito de uma noite sem sonhos.
Ok. Vamos ver o que está reservado pra mim, dessa vez. Ao menos, aqui... Posso me permitir a determinadas coisas. O último sonho foi... Interessante.
Está um negrume total. Não necessariamente escuro, já que consigo enxergar a mim mesma perfeitamente. Está mais para um enorme vazio, me lembra os olhos de contas da cabeça de vaca.
Coisa esquisita.
Olhei em volta, procurando por absolutamente qualquer coisa. Vejo uma cama de casal ao longe, muito parecida com a minha. Uma apreensão gigantesca se apoderou de mim; isso sim era esquisito. Seria possível que meus sonhos fossem chegar a esse ponto?
Gelada da cabeça aos pés, comecei a dar passo atrás de passo na direção do único objeto no cenário. Então, finalmente, avisto Eric. Estava de pé, virado para a minha direção e as mãos nos bolsos, mas não olhava pra mim.
Ainda um tanto distante, ao perceber uma terceira presença se aproximando dele, parei no lugar. É... Wendy Testaburger?
Senti como se uma lança tivesse atravessado profundamente meu peito. Vi Eric sorrir para ela, dar alguns passos em sua direção, a beijá-la ardentemente enquanto a tomava nos braços.
Com a respiração entrecortada, minhas pernas tremeram. Vi Patty Nelson se aproximando dos dois. Vi Eric parando de beijar Wendy para tomar os lábios da segunda, envolvendo a ambas ao mesmo tempo.
Então, veio Jenny, com suas patéticas roupas de cheerleader vampira, também ganhando a atenção e o beijo dele, fazendo questão de piscar debochadamente para mim. Parecia realizada por tocar nele outra vez.
Depois, chegou uma quarta garota desconhecida: loira, com um tipo corporal muito similar ao meu, exceto por seus seios gigantescos, assustadores, que por pouco não saltavam para fora da blusa, participando tranquilamente daquela insanidade. Por último, saltitando feito uma menininha, veio a garota ruiva que vi no KFC. Baixa, rosto cheio de sardas, cabelos alaranjados até os ombros, muito magra, reta como uma tábua... Exceto pelos quadris e pela bunda enorme, que não pude ver através do balcão. Agarrou o pescoço de Eric e o beijou como se fosse a melhor refeição da sua vida.
Mortificada, com a boca entreaberta, eu não conseguia me mover. Eu, simplesmente, não conseguia me mover.
Suando frio, Henrietta acordou sentindo como se tivesse levado uma pancada na cabeça. O despertador do celular, berrando uma canção gótica que ela passou a odiar, indicava que era a hora de se levantar.
O estômago dela se revirava. Se sentou e inspirou fundo, afastando uma vontade de vomitar. Sentia uma raiva, em primeiro momento incompreensível, crescer dentro dela. Arrancou um travesseiro da cama, o empurrou contra o rosto e gritou. Gritou de ódio.
Que. Porra.
* * *
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