Malaxophobia

25 Enfrentando os próprios demônios


“Sabe, Henrietta... É estranho quando você tenta me ofender. Parece que está flertando comigo.”

A porta às costas da gótica foi batida com tanta força que o estrondo ecoou pela sala. Olhando para a mobília comum pelo cômodo, agradeceu internamente por estar sozinha. Seus pais estavam em seus respectivos empregos e seu irmão, que ao contrário dela não tinha matado aulas, ainda não havia chegado em casa. Teria sido de um desastre gigantesco se alguém pudesse vê-la neste estado.

Cobrindo metade do rosto nas mãos, Henrietta fitava o piso. Seu coração batia com tanta rapidez que podia ouvi-lo. Em estado de choque, sentindo calafrios, as pupilas dos seus olhos tremiam. Na verdade, não só os olhos: o tremor em suas pernas obrigou-a a se esgueirar até o sofá mais próximo. Se sentou como se suportasse o peso do mundo.

Momentos como esse diferenciavam sua postura social de lady das trevas para alguém à vontade em sua casa. Em vez de sentada numa pose elegante e natural, estava com o corpo inclinado para a frente e sentada da forma mais desleixada possível. Largou sem nenhum cuidado sua bolsa no chão. Depois de alguma hesitação por parte do antissemita do lado de fora, finalmente ouviu o carro indo embora.

Ela tinha beijado Cartman. Por própria escolha e por livre e espontânea vontade. E isso depois de deixar claro que tinha problemas com a ideia se envolver com alguém. O que mais a abalava não era o terror inexplicável que esse ato trazia junto a lembranças duras, mas o fato de que essa sensação de medo parecia menor em relação a outras vezes.

Ele veio deixando sua guarda baixa, baixa demais, até fazê-la chegar a esse ponto.

Mas ela devia ter sabido, não é? Aquele inconformista de um jeito ou de outro sempre conseguia o que queria. Ou, pelo menos, quase sempre. Devia ter imaginado que entraria num jogo perigoso assim que botou os pés nessa cidade. E assim que Eric a cobriu com um guarda-chuva em frente ao Casa Bonita.

“A famosa Henrietta... Dispensou um metido a pegador, aceitou o convite de um metido que decidiu ficar educado e agora está aqui, sozinha na chuva à beira de uma fonte. Você é muito complexa.” 

O sorriso convidativo e a segurança que ele mostrou até mesmo em seu primeiro diálogo foram mesmo muito marcantes. Não restavam dúvidas sobre Cartman admirá-la tanto quanto ela o admira, com a diferença de que o fascínio por parte da gótica era algo que já existiu antes. E ela pensou que tinha superado.

“Não posso passar por tudo aquilo outra vez. Não outra vez. Não por ele.” uma pequena Henrietta pensou antes de sair da cidade. Uma decisão precipitada, que na mente de uma criança traumatizada fazia todo o sentido. Os anos distante de South Park a tornaram forte o suficiente para não repetir o erro, a presença de seus amigos e a falta que sentiu de uma companhia agradável deram mais motivos para ficar, mas não estava pronta para a explosão sentimental que invadiria sua vida. Na forma daquele mesmo gordo babaca, manipulador e egocêntrico que a fez fugir.

A gótica teve que sorrir suavemente. Nenhuma dessas palavras que usou para ele pareciam tão negativas assim em seu ponto de vista. Cartman nunca foi diferente, se fosse não a teria interessado tanto.

Henrietta passou as mãos pelo rosto. Em que merda ela foi se meter. O pânico generalizado por ter traído a própria segurança emocional começava a dar espaço a uma pequena calmaria: Eric respeitaria seu espaço. O cara podia ter mil defeitos e uma persistência doentia quando queria alguma coisa, mas não iria forçá-la ao que não se sentia à vontade. No gordo babaca que precisava evitar, ela encontrou um grande amigo.

Se bem que amigos não se declaram daquele jeito uns aos outros. E normalmente não se beijam. Ou, pelo menos, não deveriam.

Mesmo que ninguém pudesse vê-la tão vulnerável, com alguma timidez, Henrietta passou o polegar pelos lábios. Ao fechar os olhos, recordava quase perfeitamente a sensação de beijá-lo. Um beijo consensual, recíproco, que foi bem mais além do que seu primeiro... E bom. Muito bom. Somente a lembrança já era capaz de tornar o corpo dela quente, deixando sua face com uma leve queimação.

Não era mais uma questão de somente querer mantê-lo por perto. Ela queria mais daquilo. Não deveria e não pretendia fazer, mas queria. Estava gostando da sensação fria em seu estômago, até se acostumando ao suor nas suas mãos. Podia lustrar sua coroa de Rainha da Estupidez, pois estava se traindo de novo.

— Sua boca está imunda e você está agindo feito uma virgem. — a voz de Kerstin a fez abrir os olhos. Seu coração falhou uma batida. — Se bem que você é, mas do jeito como as coisas vão...

Henrietta piscou, encarando a mão. Não estava tão sozinha assim. Num choque de realidade, a garota sacudiu a cabeça e começou a limpar o batom espalhado ao redor dos lábios.

— É sempre um “prazer” me lembrar que você existe. — olhava Kerstin, sem nenhuma emoção.

— Disponha. — respondeu com equivalente sarcasmo. — Biggle, você é boba. Ele quer você, você quer ele também... Se você se jogasse nisso logo já estariam juntos. Na verdade é como se já estivessem, mas sem as melhores partes.

— Para de tentar se meter no que eu faço. — esfregava o rosto para tentar se livrar dos resquícios daqueles sentimentos. — Você consegue ver o que se passa na minha mente. Sabe que é complicado.

— Tudo o que eu vejo é uma adolescente cheia de vontade de estar com o garoto que gosta mas que ainda tem medo de quebrar a cara. — usou de um ar tranquilizador ao falar... Mas mudou pros ares de sempre. — É burra, realmente. Está se recusando a se entregar pro único cara que te suporta, eu valorizaria a paciência que ele tem contigo se fosse você.

— Não estou me recusando. — se levantou e recolheu sua bolsa. Assumia um ar melancólico. — Eu só... Não posso. Não dá.

— Essa desculpinha cola com ele. Comigo, não. Você tem a solução dos seus problemas praticamente nos seus braços, como não consegue enxergar isso? Henrietta? — vendo que a gótica subia as escadas sem dar atenção a ela, Kerstin começava a se irritar. — O velho joguinho do silêncio, hein? Pois certo, continue ouvindo seus medos e não a sua mão. Não digo mais nada pra te ajudar já que acha mesmo que sabe o que faz.

“Ótimo.” Henrietta pensou, incerta sobre a sueca conseguir ouvir isso ou não. Como não houve resposta e a face pintada começou a sumir no agitar involuntário de seus dedos, presumiu que o pensamento ficou em sigilo. De um jeito ou de outro, precisava deixar essa baboseira romântica para lá, e o pior é que tinha que fazer isso rápido.

Por ela, remoeria essas questões e a confusão em sua mente pelo resto do dia antes de voltar a fingir não sentir nada para sua autoproteção. Só que hoje não seria possível. No último encontro dos góticos, tido no quarto de Shelly, combinaram que o seguinte seria no de Henrietta em nome dos velhos tempos. Além disso, marcaram esta como a tarde para tirar a poeira de seus instrumentos musicais.

E havia outra preocupação em sua mente, fazendo-a suar frio. Com tudo o que viveu nesta manhã, Henrietta tinha se esquecido que Pete a viu sendo carregada.

* * *

— Isso é sério? — Shelly perguntou para Michael aos sussurros, andando ao seu lado pela calçada.

— Infelizmente, é. — o líder reafirmou, ajeitando um pouco seus cabelos crespos. — Ela não gosta de falar sobre isso, em todos esses anos nunca entrou em detalhes nem com a gente. Agradeço se mantiver isso em segredo.

Em meio a uma conversa distraída, enquanto Pete andava mais à frente usando seus fones de ouvido, o casal chegou num ponto que intrigou a gótica em preto e azul neon: Henrietta tinha problemas em se relacionar romanticamente. Um tormento que carrega desde a infância, influenciando na gótica que é hoje. Isso poderia explicar por que Cartman veio pedir por apoio moral depois dela se irritar com ele simplesmente por terem segurado as mãos.

Este era um remanescente dos tempos de conformista da Marsh. Seu gosto na pré-adolescência por livros, filmes e séries de romance “água com açúcar” a deixaram com um faro afiado para identificar possíveis casais. Em termos práticos, shippava Henrietta e Cartman. Via química, compatibilidade, sinergia, tudo na mesma combinação. Só deixaria de agir nos bastidores para ajudá-lo e acalmá-la quando finalmente os visse juntos. Eric já admitiu para ela o que queria, agora só faltava a parte da gótica mais old school.

Só que essa informação descoberta sobre sua amiga de grupo poderia ser um problemão para as intenções de seu irmão postiço. Michael poderia perdoá-la depois, mas Shelly precisava contar a ele sobre isso.

Se aproximavam da casa dos Biggle. Estava no entorno das 3 da tarde, como haviam combinado. Não tinham hora certa para voltarem às suas casas. Com Pete carregando no ombro uma bag com seu contrabaixo, Michael carregando manualmente um pequeno e leve amplificador e Shelly trazendo uma guitarra azul metálica presa às suas costas por uma correia diagonal, os três góticos pararam à porta.

O casal pensou que o rapaz de cabelo bicolor tocaria a campainha da casa de sua melhor amiga, mas ele não mostrou nenhuma intenção. Estava calado desde que se reuniram, parecendo concentrado demais nas músicas que estava ouvindo. Dando de ombros, a cybergoth tomou a iniciativa.

Pressionou a campainha. Percebendo que o som era semelhante ao de um choque elétrico e não a um “ding dong” irritante, permaneceu apertando o botão continuamente. Mesmo quando Henrietta abriu a porta, segurou-a aberta na frente de todos e a encarou com seu olhar morto, Shelly permaneceu nessa chateação por longos segundos. Ao se considerar satisfeita, afastou o dedo da campainha e sorriu para a gordinha no interior com grande cinismo.

A primeira gótica do grupo olhou para os três elementos em sua porta, notando a ausência de um.

— Acho que está faltando meia pessoa. — Henrietta reportou.

— Firkle disse que ia se atrasar. — o líder esclareceu. — Talvez porque deve ser uma merda desmontar e transportar a bateria, mas ele recusou ajuda.

— Da última vez que algum de nós se atrasou, apareceu com uma novidade especial. — Shelly piscou um olho para ele.

— Que, no caso, foi você mesma. — Michael acrescentou como um elogio indireto, tendo dificuldades em não mostrar um sorriso de canto.

— Argh. — Henrietta fez um ruído de desgosto, dando as costas e saindo do caminho para eles entrarem.

O mais alto do grupo e a cybergoth se entreolharam, feito cúmplices. A garota, em específico, exibiu os dentes cerrados por ver a gravidade da situação.

Entraram na sala de estar logo depois de Pete. Para uma primeira impressão, a quantidade de fotos penduradas pelas paredes com a família Biggle completa era bem assustadora. Curiosamente, as fotos com Henrietta eram apenas da sua infância, sugerindo que diferente de seu irmão adotivo, se recusava a aparecer nas mais recentes.

E, falando nele...

— Saudações, terráqueo. — sarcasticamente, Shelly cumprimentou o loiro de óculos e roupas de CDF sentado no sofá.

— Eu diria “alienígena”. — Bradley tinha seu videogame pausado. Cumprimentou-a de volta com uma saudação vulcana, como em Star Trek.

— Sua irmã falou de você pra gente. Tu tem poderzinho de fruta mesmo?

— Por favor, não dá corda pra ele... — Henrietta implorou antes que ele se empolgasse em responder à cybergoth, esfregando os olhos para manter a calma. Bradley não era dos melhores em entender quando estavam tirando sarro da sua pessoa.

Superficialmente, o rapaz deu uma olhada nos dois góticos que já conhecia e nos aparatos musicais que os convidados ostentavam.

— Você avisou aos nossos pais que ia fazer barulho? — perguntou à irmã.

— O que você acha? — retorquiu com toda a ignorância possível. — Eles nem estão aqui, vai ficar enchendo meu saco?

— Eu não te atrapalho quando é você que está jogando.

— E eu to cagando pra isso, se ta achando ruim procura outra casa.

— Puta gorda.

— Ah, déjà vu. — Shelly disse mais para si mesma ao se ver nesta briga de irmãos.

Enquanto Bradley suspirava, desligando seu console rapidamente por meio do controle e se levantando para visitar algum amigo, a cybergoth sentiu uma vibração em seu smartphone no bolso da meia calça. Não vendo por que não fazê-lo, o pegou para verificar o que era. Por coincidência ou não, era uma mensagem de seu próprio irmão.

“Qual é a do dinheiro que o Cartman deixou aqui?” Stan tinha enviado, seguido de uma imagem.

Ao fundo da foto tirada de qualquer maneira estava o tapete de boas vindas à frente da porta de entrada da casa, um pouco arrastado para o lado, indicando que o achado de Stan foi encontrado sob ele. Ao centro, numa das mãos do rapaz, estava o que parecia um envelope feito no improviso por onde escapavam duas notas de dez dólares e uma de cinco.

Os vinte Shelly reconheceu, mas os 5 a mais a fizeram levantar uma sobrancelha. A face do papel que envolvia as notas continha uma mensagem breve, mas particularmente cômica:

“Toma, enfia no cu.

— Eric”

Segurando um sorriso, a cybergoth rolou com os olhos. É claro que isso era para ela. Recebendo um olhar discreto de Michael, digitou uma mensagem de volta:

“Isso é meu. Ou passa por baixo da porta do meu quarto ou deixa essa merda aí, não era nem pra estar mexendo.”

“Tanto faz. Sendo deixado pelo Cartman, eu é que não vou pegar isso pra mim.”

A garota deixou esta conversa de lado, partindo rapidamente para o contato de Cartman. O antissemita cumprindo sua parte do acordo e deixando um acréscimo? Isso estava estranho demais. Algo que ela ainda não sabia estava acontecendo.

“Você pagou o que prometeu e ainda deixou um extra, que porra é essa?” Shelly enviou para o rapaz, cujo contato realmente salvou como “Rolha de Poço”. As seguintes perguntas e respostas, compartilhadas depois de uma breve troca de “gentilezas”, lhe provocaram uma chuva de reações.

Primeiro, Cartman foi apresentado à verdadeira face da Luv2Pain. Segundo, ele tinha beijado Henrietta. E terceiro, ele já tinha plena consciência de que ela tinha um problema.

Cada novidade que Shelly descobria a fazia ampliar os olhos, enviando miradas de choque para a segunda gótica na sala. Pensava que seus olhares estavam sendo discretos, até Henrietta notá-los e a cybergoth precisar se conter.

Para ter acesso aos artigos góticos da Luv2Pain, era preciso passar pelo olhar avaliativo de Grief; apenas uma gótica próxima a ele poderia ter apresentado o lugar; se eles tinham ido ao shopping, significava que mataram aulas juntos; se Eric descobriu sobre sua insegurança, significava que tiveram uma longa conversa, e principalmente: os dois. tiveram. um beijo. Com “um” Shelly estava sendo pé no chão, sua esperança é que tivesse sido mais.

Foi preciso um autocontrole que ela não tinha para que não demonstrasse nada. Era como ver seu maior ship se concretizar, ou se aproximando disso. Henrietta aceitou beijá-lo mesmo tendo problemas psicológicos e emocionais, era um puta de um grande passo. Segurar a onda até poder conversar com ela a sós seria um grande problema para a Marsh.

Em contrapartida, Henrietta estava gélida. Esteve tensa desde o momento onde eles chegaram, atuando a cada segundo como se tudo estivesse perfeitamente normal. Mas o silêncio de Pete lhe passou tranquilidade: nenhum comentário sobre sua saída com um certo racista horas atrás foi feito. Seu melhor amigo não havia dito nada a ninguém.

A inquietava o fato dele parecer recluso em si mesmo. Olhava exclusivamente para seu celular, como quem procura pela próxima música infinitamente. Poderia ser a maneira dele de se manter neutro e guardar segredo, talvez.

Entretanto, aquele olhar de Shelly... Aquele modo suspeito que ela a tinha olhado, junto ao fato de ela e Eric serem amiguinhos de longa data...

Era só o que lhe faltava.

Com Bradley ao pé da porta da frente, Henrietta tomava a dianteira para subirem as escadas. Porém, um toque rápido na campainha roubou todas as atenções. Depois de um olhar interrogativo no rosto de todos, o loiro de óculos falsos abriu a porta para checar.

Era Firkle. Devidamente acompanhado.

Nessa hora, o mundo de Henrietta caiu de vez. Pete não tinha sido o único a estar no lugar errado e na hora errada: Firkle esteve no shopping ao mesmo tempo que ela, muito próximo de vê-la junto de Cartman. A prova viva de que frequentaram o mesmo lugar estava bem na garota ao seu lado.

Consideravelmente mais alta que Firkle, a garota não parecia nada tímida na presença de cinco desconhecidos mais velhos. Carregava uma parte da bateria desmontada amarrada às costas feito uma mochila, com Firkle fazendo o mesmo para compartilharem o peso. Estava vestida da mesma forma que Henrietta a viu mais cedo, evidenciando que passou pela loja de Grief: uma camiseta preta com estampa de caveira e tíbias, uma saia colegial num tom de roxo escuro, luvas arrastão sem dedos até os cotovelos, meias sete oitavos semelhantes às luvas, uma gargantilha de couro ao redor do pescoço com um aro metálico pendurado no centro, botas rasteiras pretas e um bracelete de couro com spikes no pulso esquerdo.

Diferente do gótico mais novo, que pôs de volta o seu batom, a garota não usava batom algum. Sua única maquiagem era um delineado roxo bastante marcado ao redor dos olhos. Seu cabelo estava pintado de preto, preso em duas marias chiquinhas baixas, e as pontas — incluindo as da franja — estavam pintadas num tom de roxo similar ao da saia.

Curiosamente, os dedos de Firkle estavam totalmente tingidos daquela cor. Como se tivesse acabado de ajudá-la a pintar os cabelos. Por ironia do acaso, o garoto parecia muito mais constrangido do que ela, não sabendo onde olhar e rodopiando uma baqueta numa das mãos manchadas. Pondo um punho sobre a boca, limpou a garganta antes de falar.

— Essa é a Karen. — estendeu a mão a ela para apresentá-la. A garota acenou com um sorriso gentil.

— Sua...? — Michael esperou por um complemento.

— É, eu acho. — o anão respondeu agressivamente, esperando que entendessem o óbvio. — E ela não tem nojinho de sangue e morte, é mais inconformista que o Pete.

O rapaz com cabelo de duas cores – que já não era mais o único no recinto a ter essa particularidade – olhou para Firkle sem emoção alguma depois de ouvir esse comentário atravessar seus fones de ouvido. O mais baixo o lembrou da infância, quando hesitou em esfaquear Mysterion mediante uma ordem do líder do culto a Cthulhu.

Em meio à sensação de que reconhecia Karen como a irmã de um amigo de seus irmãos postiço e consanguíneo, a cybergoth tinha um único pensamento: o anão, definitivamente, não era gay.

— Bom. — o mais alto de todos se dirigiu à novata. Desde o inchaço de falsos góticos entre eles e a grande migração para o grupo dos vampiros, precisava manter um olhar crítico. Mirava-a de cima com um olhar severo. — As roupas você tem e os gostos também. Mas isso não é mais o bastante para estar entre nós. O que te torna digna de fazer parte do grupo?

Silêncio momentâneo. Sem pronunciar uma palavra sequer, Karen tirou um cigarro do bolso e o acendeu com um isqueiro. Tragou e expeliu a fumaça com uma face de completo tédio.

— Seja bem-vinda. — suficientemente convencido, Michael se virou para ir às escadas.

Em suas diferenças de altura, a estreante e o mais hardcore do grupo trocaram olhares e sorrisos discretos antes de se juntarem aos outros. Não vendo por que questionar, os demais góticos entraram em acordo com a decisão.

Sem saber como lidar com a situação que presenciou, Bradley apenas se foi. Esperava que essa compulsão por vestir preto e fumar não fosse contagiosa.

Após tantos anos, a equipe antes formada por quatro passou a ser composta por seis. Para o alívio interno de Henrietta, nem Firkle e nem Karen pareciam tê-la visto dividindo um balde de frango com o “sétimo gótico” honorário – pois caso contrário, o anão teria feito questão de contar. Michael, que já não era muito interessado em estudos e estava um ano escolar abaixo dela e Pete, não parecia dar importância à sua ausência por um dia, assim como não parecia se importar com a ausência do mais baixo.

O que a primeira gótica do sexteto não sabia era que, para passar algum tempo com Shelly, o líder também tinha cabulado aulas. Pete havia passado o dia letivo inteiramente sozinho. Tempo o suficiente para refletir sobre o que viu pela manhã.

Ao mesmo tempo em que entravam no quarto de aparência macabra, Henrietta pensava no quanto as coisas soavam favoráveis para o seu lado. Em vez de relaxar, seu temor com a possibilidade de a situação ruir a qualquer momento apenas aumentava.

* * *

— É um Korg M1? — sentada à beira da cama revestida por um lençol negro e um cobertor vermelho, a cybergoth perguntou para a gordinha ao lado.

— Tá mais pra uma réplica. — igualmente sentada sobre a cama de casal, Henrietta tinha uma perna cruzada sobre a outra e seu teclado sobre elas. — É o tipo de coisa que se pode encontrar no Wall-Mart.

“Wall-Mart.” a recordação foi imediata enquanto ajustava manualmente seu teclado sintetizador. O tinha adquirido no exato momento em que Eric procurava por seu violino. Por sorte, ou pelo menos sorte naquele momento, ele não a tinha visto no corredor dos instrumentos. Esteve ocupado demais discutindo com sua mão. “E no fim das contas, ele não era tão lunático quanto eu mesma.”

Henrietta não dar importância ao julgamento dos pais lhes proporcionava muito mais liberdade. Todos tinham seus cigarros acesos, distribuídos em diferentes pontos do quarto. Apagando o que restou de seu primeiro cigarro da tarde num cinzeiro, Shelly analisava as muitas decorações mórbidas em cima dos móveis e nas paredes, iluminadas unicamente por inúmeras velas vermelhas. Perto dos gostos de decoração de Henrietta, Shelly se sentia como uma mera cosplayer de gótica.

Sentado numa cadeira de ares medievais, Michael regulava o amplificador a partir de uma série de botões e o sincronizava a dois microfones sem fio. Sentado no chão, Pete já não ouvia mais as suas músicas; em vez disso, apoiava-se numa parede enquanto afinava seu baixo. Com a mesma leveza que tiveram ao trazer os componentes da bateria escada acima, Karen e Firkle terminavam de remontá-la com grande facilidade sobre um tapete vermelho com gravuras disformes no centro do quarto. Cada um, respectivamente, exerceria a mesma função que tiveram musicalmente na infância.

A mais nova integrante se levantou, espalmando as mãos para se livrar da poeira.

— E aí, lolita? — a cybergoth captou a atenção de Karen, que a olhou de volta. — Sabe tocar alguma coisa ou vai ficar aí nos assistindo?

Observada por todos, a fã do horror se agachou novamente e recolheu do chão um objeto metálico quase imperceptível. Acompanhava uma baqueta fina feita do mesmo material, que ela exibiu no ar feito o artefato glorioso que não era.

O anão também olhou para os outros, esperando uma aprovação.

— Um triângulo? — o líder indagou.

— Foi o que deu pra arrumar com dois dólares — Karen sussurrou em resposta. Como uma finalização, tirou um tinido agudo do instrumento ao golpeá-lo orgulhosamente com a baqueta uma vez.

Desprovido de emoções, Michael piscou. Deu de ombros, voltando a se concentrar nos ajustes da pequena caixa de som. Se há quem use sinos de vento e até tambores indígenas na música gótica, conseguir um lugar para o triângulo não seria um grande desafio.

— Não sabia que tocava guitarra. — Firkle comentou para Shelly assim que a viu erguer o instrumento e posicioná-lo no colo. — Achei que seu único talento fosse usar essas roupas coloridas horríveis.

— Veja bem, seu merdinha — a garota sugou o ar através dos dentes. Um tique em situações de raiva que adquiriu enquanto usava aparelho. — Estou a um passo de socar a minha guitarra no seu rabo, mas é capaz de você gostar.

Para a surpresa do anão, o mesmo percebeu Karen escondendo um risinho. Firkle enviou um olhar furioso para a cybergoth, que fez uma careta debochada sem nenhum remorso.

— Na verdade não toco, ainda estou aprendendo. — prosseguindo, Shelly tirou três notas aleatórias breves movendo uma palheta pelas cordas. — Ainda bem que os estilos que vocês tocam são os cold e darkwave, a guitarra é mais um apoio que uma necessidade.

— Isso quando aparece. — Michael acrescentou. — Não tínhamos nenhuma guitarra quando participamos do show de talentos.

— Ah, eu nunca esqueci disso — a lembrança causou em Henrietta um sorriso reprimido. Não tirava os olhos das dezenas de botões e gatilhos acima das teclas. — A música ficou terrível, mas nada como criticar shows de talentos dentro de um show de talentos.

— Inconformistas pra caralho. — Shelly elogiou não ironicamente.

— Até os ossos. — a dona do quarto concordou sem nenhuma modéstia.

Dito isso, Henrietta pressionou uma sequência breve de teclas. Os tons eletrônicos tirados do sintetizador tinham uma sonoridade oitentista fúnebre, que poderia estar tanto num filme futurista quanto animando uma balada gótica. Para fãs da música gótica em geral, seria definitivamente impossível não se contagiar pela melodia. Depois de anos sem tocar uma nota sequer, Henrietta reproduzia de forma imperfeita a batida inicial de “The Cross”, feita por um grupo de darksynth.

— Ok, que tipo de magia negra você usa pra conseguir tocar esse negócio? — a cybergoth se aproximou para olhar o teclado assim que Henrietta parou de testá-lo. — Configurar um sintetizador envolve até cálculos matemáticos, eu não teria essa paciência.

— Não parece difícil quando é pra algo do meu interesse. Espera só pra ver o fiasco que vai ser o meu boletim.

“Além de não ser isso que eu gostaria de saber fazer.” passou-lhe um pensamento frustrado. Precisou reprimir seu mau humor.

— Um vocal e versos sombrios podem ser a mente por trás da música, mas os sintetizadores e a batida são a alma. — Michael estendeu um dos microfones até a cybergoth. — Não reclamaria se me acompanhasse nos vocais.

— Hã, eu não sei... — Shelly hesitou, olhando para o objeto. Da última vez onde cantou com um “namorado”, se é que poderia chamar aquele idiota grosseiro que foi Skyler desta forma, as coisas não tinham ido bem. — Henrietta, por que não canta? Não é por nada, mas sua voz faria Siouxsie Sioux se sentir destruída.

— Quê? Quer mesmo que eu cante? Não prefere arrancar meus intestinos e usar como harpa?

— Não faço a mínima ideia do que vocês estão falando, mas gostei da parte das entranhas. — de mãos juntas, Karen comentou com um sorriso gracioso.

Com expressões neutras, as góticas old school e cyber se entreolharam. O pensamento foi quase o mesmo.

— Ótimo, agora temos dois Firkles. — Henrietta deixou o teclado sobre a cama e se levantou. Passou a caminhar até uma cômoda próxima ao Pete. Uma das velas estava quase no fim, precisando ser substituída.

— Fique tranquila, vai aprender. — o anão informou à Karen. Ao mesmo tempo, não só ele como todos puderam ouvir um som de notificação vindo de algum lugar. — Quase todo gótico passa pela fase de Baby Bat, só por você querer sair dela já conta muita coisa.

— Ei, é uma mensagem do Grief. — o líder segurava e desbloqueava seu celular. Em alto e bom som, passou a ler o que lhe foi enviado para todos escutarem. — “Meus cumprimentos à garotinha dos filmes gore, boas vindas ao novo gótico militarista do grupo e um bem-vinda de volta à nossa Henrietta Biggle. É ótimo ver o grupo de vocês crescendo e saber que a cena gótica não morreu, se bem que ela sempre esteve morta. Apenas avisem ao garoto que se ele me insultar de novo pode esquecer os possíveis descontos na minha loja. É sério.”

Quatro olhares atravessaram o ar, parando diretamente na nuca da mais gordinha entre as góticas. De costas para os outros, porém quase de frente para Pete, segurava uma vela acesa e usava-a para acender uma nova sobre a cômoda. O sangue de Henrietta estava tão frio quanto a neve do lado de fora.

Sua respiração tinha parado. Seu ritmo cardíaco, antes normal, acelerou num lapso, seus olhos arregalados num desespero que não sabia administrar.

Pondo a vela acesa no lugar, virou-se para os amigos com o mínimo de confiança que lhe restava. Tudo indo perfeitamente bem... Para acabar sendo dedurada pelo Grief. Nem sabia que o Trad Goth e Michael mantinham contato.

Bom... Se acovardar e retroceder em suas decisões não era de seu feitio. Se estava no inferno, iria abraçar o diabo. Se bem que o verdadeiro diabo tinha feito compras com ela.

— Que foi? — a postura de insegurança a havia abandonado. Henrietta demonstrava uma ira absurda, e o silêncio constrangido dos outros só aumentava sua coragem. — Que foi?!

Assim que Michael fez o mínimo gesto de abrir a boca para falar, Henrietta prontamente interrompeu:

— Você! — apontou para ele. — Você trouxe Shelly pro grupo. Nenhum de nós questionou sua decisão, aceitamos seu namoro com uma conformista em transição e agora ela é uma de nós. — olhou para Firkle. — Você. Você trouxe a Karen. Acabamos de aceitá-la, todos pudemos ver que ela merece estar aqui, confiamos naquelas que você e Michael julgaram como competentes a se juntar ao grupo. E quanto a você — olhou com uma frustração sobre-humana para Shelly — Está óbvio que aquele retardado te contou o que aconteceu, tá toda empolgada aí! Você não consegue nem disfarçar suas emoções, que raio de gótica você é?!

— Uau. — Shelly sorriu com um deboche sem fim. — Meu maior crime é demonstrar felicidade pelos meus amigos, estou super arrependida.

A face da gótica gordinha se encolheu numa carranca indignada.

— Vocês dois me acusam por “gostar de um conformista” — continuou. — Agora, me olham desse jeito por aproximar um “conformista” dos nossos costumes. Mas olhem pra vocês mesmos! O único legal aqui é o Pete que respeita meu espaço e escolhas, vocês dois podem pegar a hipocrisia de vocês e enfiarem nos seus respectivos rabos — pela primeira vez, o gótico mencionado levantava o rosto para fazer parte da conversa. — E digo mais, minha opinião de quando éramos crianças não mudou. Não concordo que ele seja um conformista, e aquele narcisista desgraçado tem mais inconformismo numa única célula dele do que cada um de vocês.

A tensão no ar era palpável. Sentindo o rosto queimar, Henrietta fechou os olhos por um instante. Então, se perguntou: “por que, diabos, eu disse isso?”

Dizer aos amigos era o de menos. O problema seria essa declaração chegar aos ouvidos de Cartman por meio de uma certa gótica de azul. O idiota adorou ouvir que não era um conformista de sua boca, com essa ficaria se achando pelos próximos 80 anos.

— Henrietta. — fazendo-a retornar ao mundo, Michael estava parado bem à sua frente. Tinha uma mão sobre um de seus ombros. — Você está certa. Não cabe a nós decidirmos de quem você deve se aproximar ou não, no fundo acho que só te censurávamos pra te ajudar a se manter firme no seu propósito.

— Eu, não. — Firkle se intrometeu. — Eu tô pouco me lixando. Já sabia no que aquele olhar de vocês durante o treino das líderes de torcida iria dar.

— Como eu ia dizendo — o mais alto retomou o foco de antes para evitar mais um embate. — Acredito que falo por todos nós quando digo que estou... — buscava por alguma palavra para substituir “feliz”. — Satisfeito por você ter superado suas dificuldades. E por estar com alguém.

— Não. — Henrietta usou de uma grande frieza. Seu olhar obscurecido demonstrava isso. — Eu não estou com ninguém. Sabe que isso não pode acontecer. Não vai acontecer.

Como se a gótica tomada pela ira fosse nociva ao toque, o líder afastou dela a sua mão. Michael deu uma olhada nos demais, enxergando nos outros a mesma falta de reação.

Henrietta afastou-se, pegando seu teclado sintetizador sobre a cama e indo se sentar sobre o chão próxima ao Pete, que a fitava sem retribuição. Desejando manejar o clima pesado, não viram outra escolha senão tentar seguir com o ritmo normal.

— Peço desculpas por isso, Karen. — disse o mais baixo. — Normalmente nosso grupo não tem essas “discussões de relação”.

— O quê, isso? Isso não foi nada. Achei até bem agradável, pareceu uma conversa suave perto das discussões que vejo entre os meus pais.

Tirando Henrietta, que agora queria um tempo para si, Firkle, Michael, Shelly e até Pete trocaram alguns olhares. Era algo que todos, infelizmente, desejaram ouvir.

A principal regra para se fazer parte desse grupo de góticos depois do período em que se encheu de posers: ter passado por uma angústia significativa. Ou, no mínimo, ter bons motivos para se identificar como um dos seguidores do obscuro. Mais uma com problemas parentais? Que fosse bem-vinda ao clube. Karen estava oficialmente dentro, caso desejasse ficar.

Suspirando, Henrietta se voltou para seu melhor amigo. Com o humor soando muito melhor do que antes, o gótico de cabelo bicolor a olhou prontamente de volta.

— Obrigada por não contar. — a gordinha gratificou de modo que somente ele pudesse ouvir. O rapaz correspondeu com um sorriso sociável.

— Não foi nada. — declarou com sinceridade. Então, retomou a atenção para as quatro cordas de seu contrabaixo.

Não enxergando nenhuma outra maneira dele ter retribuído ao seu agradecimento, Henrietta não estranhou o gesto. A única parte que lhe parecia estranha dentre tudo era ele não ter jogado sua franja em nenhum momento, e não estar reclamando repetitivamente de tédio.

Mais um dia ao qual pôde sobreviver. Mais uma vez, depois de sete longos anos, precisou confrontar os seus amigos para defender seu ponto de vista sobre Cartman. Por mais estúpida que tenha sido nos últimos dias, começava a recuperar o seu bom senso. Seria questão de tempo até recuperar o controle sobre si.

Durante tarde fazendo covers de músicas góticas icônicas, um velho lema vinha à memória todas as vezes em que se lembrava de seu mais novo amigo inconformista: o amor ainda era para os fracos. Nada, nem mesmo ele, seria capaz de mudar isso. Mas que seu coração se apertava por estar em meio a dois casais felizes... Isso, não poderia negar.

* * *

Existem cheiros que você simplesmente não esquece. O de Cartman era um deles. O cheiro e a textura dos bancos dianteiros daquele carro também eram difíceis de esquecer: o idiota me jogou sobre eles depois de me carregar pela escola inteira. Agora, está acima de mim, imobilizando minhas pernas com as dele e segurando meus pulsos nas mãos. Eu estava cansada de me debater.

Olhei para aqueles olhos castanhos, e me lembrei que a cor de um deles era provida por uma lente. Olhei para a cicatriz rasa no centro do nariz, e me lembrei de como foi adquirida. O olhar dele já não tem mais aquela agressividade, aquela exigência por alguma reação minha. Ou pra que eu pare de tratá-lo como um inimigo.

Ainda assim, era um olhar selvagem. Como se quisesse me comer viva. Com o rosto ardendo, mordi o lábio por constrangimento. Eu gostava disso.

— Então... — falou num tom calmo, porém de escárnio, próximo ao meu rosto. Apertava meus pulsos com cuidado. — “Isso não vai acontecer”, não é?

— Cala a boca — desviei meus olhos dos dele. O Eric do meu subconsciente era tão imbecil quanto o real, mas muito mais perigoso. Ele sabia quando minhas declarações não eram muito seguras.

— Vai mesmo me fazer esperar mais?

— “Esperar”? Por mim, você vai esperar pra sempre.

— Continue repetindo isso. Vai ser mais gostoso quando você quebrar a cara.

— O q... — antes que eu conseguisse dizer qualquer coisa, senti a boca dele se forçar sobre a minha. Suspirando pateticamente, virei os olhos até sumirem sob as pálpebras. Não consegui resistir à vontade de fechá-los. O calor dele, junto ao movimento dos nossos lábios, causou um arrepio por toda a minha espinha. Eu estava retribuindo.

A sensação era a mesma. O gosto do beijo era o mesmo. O jeito como ele espalhava o meu batom era o mesmo, até o atrito entre nossos corpos era o mesmo. Só que... Mais intenso. Com mais espaço para nos tocarmos.

Eu queria isso. Nada, nenhuma força na Terra, nem eu mesma poderia negar. A nuvem de morcegos crescia no meu estômago, um fogo se espalhava por todo o meu corpo. E esse formigamento descendo pelo meu ventre... Isso não era normal.

O mesmo que senti quando o idiota criou pensamentos errados na minha mente antes de me jogar no carro. Isso estava se repetindo. Mas dessa vez, eu não podia apertar minhas coxas uma na outra para controlar o que sentia. Pelo menos, pensava que não; só me toquei de que ele tinha liberado as minhas pernas quando as enlacei nos seus quadris.

Foda-se. Isso estava bom, eu só queria que não parasse. Queria apertar o cabelo dele nas minhas mãos e trazê-lo mais perto, só que ele não soltava meus pulsos.

Eric...

— Hm — de lado sobre a cama, com uma mão apertando o travesseiro, algo similar a um gemido saiu de sua boca. — Eric...

Usando o celular de Henrietta às escondidas sobre o colchão, Kerstin precisou parar tudo o que estava fazendo. Virou-se totalmente pasma para a gótica em sono profundo. Se tivesse ouvidos, pensaria que a estavam traindo.

— Não acredito... — a sueca sussurrou para si mesma ao presenciar algumas microexpressões de prazer. — Ah, mas eu vou zoar tanto com a sua cara quando você acordar...

Ou, iria. Na distração, acabou fazendo o celular cair, fazendo um baque absurdo no piso de madeira. O silêncio da noite transformou o que deveria ser um barulho simples num estrondo, obrigando a garota a acordar de forma abrupta. Sem saber distinguir o que era sonho do que é real, Henrietta abriu totalmente os olhos.

— É, fodeu. — Kerstin proclamou antes de sumir, abandonando apressadamente a possessão na mão esquerda. Não estava nem um pouco a fim de encarar a reação que viria a seguir.

Controlando ambas as mãos, Henrietta as esfregou no rosto. Que horas seriam? Fosse muito cedo ou fosse muito tarde, seu corpo ainda estava cansado.

De um segundo para o outro, a calmaria momentânea pela lentidão do sono sumiu. As imagens do sonho invadiram sua cabeça de uma só vez, petrificando-a por inteiro. Seu coração bombeava em alta velocidade, mas em contrapartida seu sangue parecia mais gelado que o zero absoluto.

Essa umidade entre suas pernas... Não podia acreditar que era o que estava pensando. Ela estaria menos em pânico se tivesse urinado na cama.

Procurando manter a calma, a garota respirou fundo. Era uma gótica, se desesperar não adiantaria. Talvez aquele beijo tivesse sido um erro... Só gostaria de conseguir se arrepender.

Ouviu uma vibração no celular abaixo. Numa ânsia por qualquer coisa, qualquer merda, para se distrair daquela condição, estendeu o braço até ele para recuperá-lo do chão. Ao encolher os olhos para ver a mensagem breve que recebeu, viu que sua busca por distração a levou diretamente ao seu maior problema.

“Etta?” Eric tinha acabado de enviar para o seu número. Como ele sabia que ela tinha acordado...? Como ele tinha seu número?

Respirou fundo pelo nariz. “Calma.” segurou os ânimos com um pensamento racional. Eles eram amigos agora, era o acordo que fizeram. Não faria mal responder ao seu amigo, só precisava aprisionar seus sentimentos. Agiria naturalmente.

“É. Oi.” com o coração na mão, digitou e enviou de volta. Desde que não mencionasse a conversa que tiveram no carro ou o beijo, do que poderia falar primeiro? Esqueceu o fato dele parecer espionar seus passos ao descobrir seu despertar e seu número, pois enxergou as fotos bizarras que Kerstin mandou por essa via, com toda a certeza para Mitch. “O quê, por todas as camadas infernais, é isso que estou vendo no meu celular?”

Na conversa que tiveram em meio à madrugada, Eric a fez passar raiva e a fez rir. Aqueceu seu peito com os sentimentos que odiava e a fez ter vontade de socá-lo. Este era Eric Cartman com as pessoas que gostava, em toda a sua essência. Aquele que tanto a fazia sentir esperanças, quanto a fazia sufocar no aumento crescente de seu medo.

Quando a conversa tinha terminado, Henrietta abandonou seu celular no criado mudo. Ao mesmo tempo, tinha abandonado Cartman. Não por ser seu desejo, mas por ter sido o melhor a se fazer. Coberta até o nariz, de olhos vidrados, encarava um ponto qualquer no quarto sem se lembrar de como dormir.

O que estava fazendo com a sua vida?

* * *