Malaxophobia
26 Convivências e investigações
A máquina de lavar não tinha dado conta das manchas de café. Isso já era esperado e nem era nada demais, mas ainda era chato perder o casaco e os tênis que mais gostava – e ele sequer podia sentir raiva da culpada.
Andando pelo corredor principal de South Park High, Eric tinha tanto bag que guardava seu violino quanto sua mochila usual num mesmo ombro. Considerado teatral quando criança, já usou fantasias que iam desde a simplicidade de um robô de papelão à crueldade de um autêntico comprador de escravos, mas se vestir de Military Goth jamais esteve entre seus planos. O teria feito se assim fosse necessário, contudo não imaginava que se vestiria assim por influência de outra pessoa, e muito menos que o estilo iria interessá-lo.
Porém, ele não era gótico. A cada dia adquiria mais admiração por essa cultura, mas não se via fazendo parte.
Junto a uma calça jeans simples, uma camiseta preta, uma jaqueta de couro vermelho lisa e de gola baixa e seu colar com dog tags nazistas, mantinha as luvas de couro sem dedos e os coturnos de cano médio adquiridos na loja do Grief. Em termos práticos, unia seu gosto pelo visual militarista às roupas comuns em que se sentia mais confortável e mais ele mesmo. Uma mudança estética era uma solução conveniente para as roupas que não poderia mais usar.
Os corredores da escola não estavam cheios. Apesar de, inicialmente, ter tido um sonho ruim e acordado às 4 da madrugada por um instante, Cartman conseguiu ter uma boa noite de sono e se viu motivado a chegar num bom horário. E, pelo que via agora que olhava para a frente e não para o chão, a garota gótica que melhorou sua noite com mensagens e ofereceu a ele um sonho mais agradável também teve alguma motivação para chegar cedo.
Ao se avistarem, pararam na mesma direção, a muitos metros de distância um do outro. O mais surpreendente para Cartman, além de ela estar sendo corajosa o suficiente para olhá-lo nos olhos depois do dia anterior, era que ela também estava diferente do habitual. Se mais alguém prestasse atenção às suas mudanças de visual, pensaria até que tinham combinado.
Enquanto Eric tinha uma combinação de roupas totalmente nova, a de Henrietta era completamente nostálgica. O vestido médio, preto, justo e sem mangas, com uma tela tramada semelhante à meia calça sobre o colo e braços, lembrava muito o que ela usava quando criança.
O colar de crucifixo se mantinha em seu pescoço, descansando no peito. Calçava botas tratoradas de cano médio, com saltos grossos e confortáveis. Usava uma jaqueta de couro curta com fecho lateral e alguns spikes nos ombros, aberta como a de Cartman. A parte do vestido que cobria os seios tinha um decote suave.
O cabelo, a maquiagem pesada ao redor dos olhos e o batom permaneciam os mesmos: pretos como a completa escuridão. Se dissesse apenas que estava “bonita”, ele não estaria sendo justo.
Pelo olhar que ela ostentava, Eric percebeu que ela também o analisava. Sorriu de lado com um ar presunçoso, dando um passo seguido de outro na direção dela. Divertia-se com a forma como ela concentrava todas as forças em não demonstrar nervosismo ou se mover: a face da gótica não demonstrava nada, mas podia ver a tensão em suas mãos fechadas. Mesmo depois de tudo, ela não se deixava intimidar em sua presença, e Eric achava isso realmente atraente.
Quando ele parou bem à sua frente, olhando-a levemente de cima, Henrietta cruzou os braços e manteve o contato visual. O coração parecia uma bomba relógio no peito, mas a expressão tinha o potencial para congelar almas. Estava curiosa pelo que ele iria dizer.
— Então, finalmente decidiu cobrir os braços? — tirando sarro, o antissemita se referiu à preferência dela pela jaqueta. Resistiu em não mencionar o momento onde a aqueceu com um terno, ou quando a aqueceu sob o próprio braço. Depois do que ouviu na última tarde, haveria um longo caminho de autocontrole pela frente.
— Eu ainda sou muito bem aquecida pelo meu ódio, estou usando isso apenas pelo estilo. — piscou os olhos em falso desprezo.
— Estou vendo. — sorriu, despreocupado. A fim de iniciar uma conversa casual, virou-se um pouco em outra direção. Henrietta fez o mesmo. — Ouvi um pouco de Nachtmahr.
— Mesmo?
— Mesmo. Algumas músicas eu achei do caralho, outras uma verdadeira porcaria.
— É, é a mesma opinião que eu tenho. — deu de ombros. Então se animou, dentro de suas limitações. — Aposto meus cigarros que a que você mais gostou foi Code Red.
— Essa mesma.
— Ha! — se gabou por sua adivinhação, disfarçando a própria vontade de sorrir. — Uma batida brutal e um cara muito puto falando em alemão, eu sabia que seria a sua cara.
— No fim das contas não escutei só Nachtmahr, deixei o YouTube me recomendar outras bandas nessa pegada industrial.
— Tipo?
— Não lembro de todas. Die Krupps, Eisbrecher... — o domínio dele sobre a pronúncia alemã a impressionava. — Rammstein não conta, aparentemente não é gótico, mas achei foda pra caralho.
— É assim que começa. — contra a vontade da gótica, seus lábios pintados fizeram uma curva suave. Os apertou até o sorriso sumir. — Não vai conseguir controlar isso. Quando perceber, as trevas já tomaram conta de você.
— Sei. — segurou a vontade de fazer um pequeno flerte. Ela parecia mesmo interessada em fazer dele um gótico, conseguia ser melhor do que ser chamado de inconformista. — Aliás... — lembrou-se das mensagens trocadas na madrugada. — “Um morcego”?
— Ah — aceitando o deboche de bom humor, Henrietta estalou a língua. — Era bonitinho, vai.
Cartman riu. Se contentaram em ficar um momento sem dizer nada mais. Outros estudantes iam e vinham pelo corredor, alguns mexiam em seus armários e algumas conversas se misturavam. Vez ou outra, uns olhavam para os dois com curiosidade: a gótica sendo carregada pelo “maior racista da cidade” não foi um acontecimento esquecível, e as fofocas sempre correm rápido demais. Henrietta deu uma olhada nas coisas que Cartman carregava.
— Seu violino. — apontou para o instrumento coberto por uma capa preta. Seu tom foi uma junção de admiração e melancolia: o momento em que o ouviu tocar e o que veio depois passou em sua memória.
— Ah, é. — tocou onde deviam ficar as cravelhas do instrumento. — Tem encontro do clube da música hoje. Você poderia ir comigo, mas como deu uma de doida e decidiu sair...
— “Dei uma de doida”? Eu saí por culpa sua! — o estresse escalou rápido.
— Não, não. Eu só estava seguindo com a minha vida, você que saiu do clube só pra fugir de mim.
— Seu... — trincando os dentes, estendeu as mãos na direção dele na vontade de estrangulá-lo.
Com um sorriso cínico sabendo que não seria tocado, Eric nem se moveu. Podia estar temporariamente impedido de flertar, mas provocá-la ainda estava liberado. A parte de que ele só se inscreveu no Clube da Música Clássica para impressioná-la com seu violino ela não precisava saber, teria mais graça se fosse assim. A viu afastar as mãos, tentando manter a calma.
— Tá. — Henrietta franziu os lábios. — Não tá errado. Queria que tivéssemos nos entendido antes de eu sair correndo do clube da Patty, agora estou presa no clubinho da Simons.
— Jesus. — a expressão dele sumiu do rosto, então sorriu enormemente. A recordação do primeiro treino das cheerleaders o atingiu em alta velocidade. — Caralho, tu é a Vaca agora.
— É, só alegria. — tinha uma completa cara de morta.
— Já viu a fantasia completa?
— Pretendo buscá-la hoje. Pra você estar dizendo isso, deve ser pior do que estou esperando. — massageou nervosamente as têmporas.
— Pra quê você foi mudar logo pras líderes de torcida, pra início de conversa?
— Eu não queria, está bem? Já é uma burocracia fodida conseguir uma troca de clubes e os outros estavam esgotados, foi o que o Pete conseguiu arrumar.
— Quem é Pete, mesmo?
— O que tem a franja e uma parte do cabelo vermelho.
— Ah, tá. O emo.
— Ele não é... — com uma mão analiticamente levantada, pensou bem se valia a pena explicar a diferença entre góticos e emos naquele momento. — Esquece.
— Aí. — Cartman falou um pouco mais perto, estabelecendo um ar sério. — A minha conta ta no vermelho com o diretor já faz um tempo, mas posso dar um jeito de te colocar no clube da música de volta.
— Ei, não esquenta. Já me ajudou evitando que eu passasse vergonha pelas roupas de cheerleader, tá achando que eu preciso de caridade?
— Eu acho. Ai — sorrindo, segurava o braço no qual Henrietta acabava de deixar um soco. — Por que quer tanto ficar no grupo das líderes se acha uma merda? Usar uma fantasia de vaca é seu fetiche secreto?
— Porque isso significa que vou ter paz pelo resto do ano. — ignorou o comentário. — Como mascote, não preciso participar dos treinos e no dia da final de baseball posso pagar alguém pra se ferrar no meu lugar.
— Gosto do seu jeito de pensar. — sorriu de esguelha. Pareceu algo que ele mesmo faria, e na verdade fez. Mais de uma vez.
— Boa sorte desperdiçando horas preciosas durante a semana com o clube da música, eu vou conseguir meus pontos sem precisar fazer nada. — ergueu o rosto, vitoriosa.
O sino agudo e frenético do colégio disparou pelo corredor, sinalizando que deviam estar em suas salas. Se entreolharam, sabendo que as primeiras aulas do dia seriam de disciplinas optativo-condicionadas e, consequentemente, iriam para salas diferentes. Ao recapitularem o quanto se divertiram no dia de ontem, o desejo por cabularem aulas de novo foi inevitável.
A admiradora do sombrio sentiu o rosto arder. Olhavam-se diretamente. Precisava agradecer à sua maquiagem.
— Então, te vejo depois. — a fala repentina de Cartman e seu andar para longe a tiraram de seus pensamentos. — Um bom dia pra você, “vaca”.
Por um momento, a gótica se perdeu. Houve um sentimento de que algo estava errado, ou de que algo estivesse faltando. Tudo estava exatamente do jeito que tinha que ser, isso não fazia o menor sentido. Nada sobre as declarações de ontem foi mencionado diretamente, o beijo sequer tinha sido citado, estavam tratando-se feito amigos. O que estava errado?
— Eric. — num tom firme, chamou-o um pouco alto demais.
E seu chamado foi ouvido. O recente fã da música industrial, em suas roupas que uniam o banal ao gótico, se virou de volta na direção dela à mesma distância que estavam quando se viram.
— O que? — perguntou tranquilamente, mas com uma leve face de dúvida.
“É, Henrietta. O quê?” não foi Kerstin quem perguntou, mas ela mesma. Henrietta não sabia o que queria, sequer entendia por que o chamou de volta.
Então, entendeu. Ao direcionar sua atenção para os lábios dele, entendeu, e se considerou patética. Um pequeno morcego içou voo em seu estômago. Pôde sentir o sangue se tornar frio.
Primeiro, se dispôs a beijá-lo. Depois, o sonho tido essa noite, em que se deixou levar. Agora, queria outra dose, e esteve à beira de pedir. Passava da hora de impor limites a si mesma
— Podia me ensinar a tocar violino um dia desses. — lançou a primeira questão que veio à cabeça, mostrando-se segura de si. — Você tem que servir pra alguma coisa além de dirigir pra mim, seu parasita desgraçado.
— Mas olha só que filha da puta — a raiva implodiu nele, indo de 0 a 100 num segundo. — Desde que você sentou esse seu rabo no meu carro a suspensão não é mais a mesma, meus parabéns pra você.
— Falou o obeso que senta nele todo dia, seu volante deve feder à gordura do KFC.
As emoções dele ficaram bagunçadas. O pensamento de Cartman foi um, somente um: marchar na direção daquela provocadora e puni-la com um beijo agressivo. Chegou a fechar uma mão num punho apertado para segurar essa vontade.
As faces que antes demonstraram ira se acalmaram muito rapidamente. Sabiam que não era como se tivessem brigado a sério, foi mais uma boa troca de insultos. Sentiam como se a adrenalina do momento tivesse valido a pena.
— É, posso ensinar. — Eric procurou responder à pergunta anterior. Já não havia quase ninguém nos corredores.
— Ah. Legal. — Henrietta respondeu com a mesma naturalidade, porém bem menos humor. Deu meia volta para se retirar. — Até mais.
— Até. — se pôs a ir na direção contrária.
Em seu próprio rumo, Cartman se tornou pensativo. Era um jeito surreal de sentir desejo por alguém. Enquanto isso, tudo o que Henrietta queria era um cigarro. Amaldiçoava a aula que tinha que comparecer e a professora que certamente a mandaria apagá-lo.
Justamente quando Cartman passou a respeitar sua condição... Henrietta, no fundo, gostaria que ele tivesse tentado algo. Engolia a sensação de estupidez com pesar.
A gótica entrou na sala semi-lotada. Olhares de estranheza se lançaram em sua direção, como de praxe. Caminhou a passos firmes até os assentos ao fundo para se sentar ao lado de Pete, como o habitual. Sentou-se estressada, cruzando os tornozelos, e cumprimentou seu amigo com um olhar. Sequer passava pela sua cabeça que os outros a olhavam por um motivo diferente do de sempre: as tais fofocas que fluem com grande velocidade.
E, se fofocas correm, elas alcançam a muitos. Inclusive uma vampira de araque.
Roupas de cheerleader, purpurina na pele, lentes vermelhas e presas falsas. Ao lado de Lola e muitas carteiras adiante, Jenny Simons virou-se sensivelmente para enviar à gótica um típico olhar de desprezo. Porém, agora havia algo a mais: os ciúmes, a inveja, e não apenas a ordem silenciosa para que Henrietta se afastasse de seu território.
De novo isso...? Henrietta não estava com pique para essa bobagem. Considerava patética essa afixação que Jenny tinha por Cartman sendo que ele claramente não a queria mais, se não detestasse tanto o grupinho dos vampiros sentiria dó. Mas a parte de estar causando sua inveja... Isso parecia divertido. Tudo isso só por Cartman tê-la carregado na frente da escola inteira? Imagine se a Simons soubesse o que aconteceu mais tarde. Depois do uniforme de cheerleader minúsculo e de comparar seu corpo ao de uma vaca, a vampira bem que merecia.
Com um cotovelo sobre a mesa e a mão sustentando a bochecha, Henrietta lhe enviou um suave sorriso. Suave, porém maldoso. Antes de Simons esboçar uma reação, a gótica passou a se concentrar na organização de seus materiais escolares.
Deixaria a interpretação nas mãos dela. Que Jenny jogasse seu joguinho infantil sozinha.
* * *
— Bradley, meu grande amigo! — em meio ao primeiro intervalo, a voz do rapaz robusto e as pisadas firmes de seus coturnos ecoaram por todo o corredor.
— Ai meu Deus — de frente para o seu armário, o Biggle virou-se para o fã do nazismo com expressão de medo e surpresa. Agarrava-se aos livros escolares em seus braços como se fossem oferecer alguma proteção.
— Aí, deixa eu te perguntar — inclinando-se um pouco e batendo uma mão sobre o ombro de Bradley, Cartman tinha um largo sorriso. — Aquele lance sobre a sua irmã...
— Ela disse pra não dizer nada — trêmulo e atropelando-se em suas palavras, o interrompeu. Falava com pressa, dando pequenos passos para trás. — Uma vez contei ao Clyde sobre como ela gosta do café, isso trouxe muitos problemas. Henrietta não quer que eu diga nada sobre ela, não vou dizer.
— Opa, opa, opa — bem quando o falso CDF tinha se virado para ir embora, Kenny apareceu, bloqueando seu caminho. O capuz abaixado para que fosse entendido. — Por que tanta pressa, Bradley? Vamos conversar. Nós, Cthulhu, o Guaxinim e Amigos, algo que aconteceu com sua irmã anos atrás, temos tanto pra relembrar...
— Não! — desesperadamente, Bradley cobriu os ouvidos e deixou todos os livros caírem. — Eu não sei de nada, não sei de nada!
— Bradley, que porra. — Cartman se aproximou novamente. Ao mesmo tempo, Kenny recolhia as coisas do chão e as devolvia a Bradley com impaciência. — Você mandou um deus das trevas pra casa do caralho e fodeu com minha chance de governar a humanidade pra agora ficar com medo da sua irmã?
— Vocês não entendem — com um olhar de pânico, balançava a cabeça em negação. — Eu moro com ela. Henrietta é muito pior que um deus das trevas.
— Pois é. Exatamente o tipo de mulher desse cara. — o McCormick apontou para Cartman com o polegar. — Vai desenrolar o que a gente quer ou não?
— Pessoal — o segundo loiro cobria os olhos sob os óculos sem grau. — Eu não posso...
— Escuta. — o antissemita avançou contra ele, segurando-o pelo ombro de forma tão rude que o fez topar com os armários. Por mais sério que Eric estivesse, o terror sob as lentes de Bradley lhe oferecia um divertimento sádico. — Vou refrescar a sua memória. Lembre-se de um pouco do que já fui capaz de fazer. Só um pouco, não se precisa ser muito. Está com medo do que a Henrietta pode fazer? Pois saiba que posso fazer cem vezes pior... Então acho melhor começar a falar.
O Biggle engoliu em seco. Seu olhar vagava de Kenny para Cartman de forma rápida. Entre contar e ser atormentado pela irmã ou não contar e ser atormentado por Cartman, não existia melhor opção. Estava entre a cruz e a espada.
Num ato desesperado, tudo o que a dupla pôde ver foi Bradley inspirando pela boca e desaparecendo, feito o estouro de uma bolha. No lugar onde ele estava, despencaram vários cereais esféricos coloridos, que quicaram no chão feito bolinhas de ping-pong. Podiam jurar que ouviram mesmo o som de uma bolha estourando quando Bradley sumiu.
Enquanto os dois pensaram que Bradley tinha se desintegrado ou se auto-eliminado da existência, o viram reaparecer novamente a seis metros de distância ou mais, desequilibrando-se e derrapando no piso encerado antes de correr para longe deixando um livro e mais alguns cereais de menta e frutas para trás.
Descrentes da cena no geral, Cartman e Kenny olharam um na cara do outro. Não viam qualquer motivação em persegui-lo.
— É — disse Kenny. — A abordagem amigável não funcionou.
— Nem a agressiva. — Eric acrescentou.
Fitaram a direção por onde o “Cereal de Frutas” ainda corria por longos segundos.
— Ele não conseguia voar? — questionou o McCormick.
— Acho que ele esqueceu.
Deixando essa situação de lado depois de algum tempo de divagação, o loiro de capuz laranja se voltou para o mais gordo.
— Então... Você e a revoltadinha de preto.
— Ainda não do jeito que eu gostaria. Eu diria que ela já é minha, mas não entende isso ainda.
— Ela pode não entender, mas a escola toda sim. Essa gente praticamente só falou nisso ontem. — tirou do bolso da mochila surrada um celular de terceira mão e talvez de quatro gerações atrás. — Não sabia que também gostava das gordinhas.
— Ela não é gorda, é fofinha.
— Sei. — depois de três segundos olhando a tela distraído, Kenny começou a rir. Cartman o olhava com uma sobrancelha erguida. — Puta merda, olha isso.
Com curiosidade, o de vermelho olhou na tela do smartphone obsoleto. Era um meme compartilhado no grupo dos jogadores de baseball no Facebook, com uma foto do Clyde em roupas de líder de torcida e numa pose de dança que deveria ser sensual, se não fosse por quem estava sendo fotografado desprevenido. Acima do Donovan, os dizeres sarcásticos “Vão, Vacas”.
Nenhuma imagem semelhante tinha sido feita contra Henrietta. Cartman considerou sua estratégia fenomenal.
— Ficou gostosinha, até. — rindo por dentro, o gordo comentou sobre Clyde com ironia.
— E não é? Eu comia. — Kenny respondeu no mesmo tom, guardando o celular. — Como disse um velho sábio: na guerra, qualquer buraco é trincheira.
— Caralho — Cartman pressionou a ponte do nariz. Apertava as pálpebras tentando se livrar de sua imaginação. — Você comendo o Clyde, que cena lamentável.
— Ué, não gostou? Pensei que você fosse bi.
— É, Kenny, eu sou bi. Gosto de mulher e dinheiro. — soltou serenamente, fazendo o loiro rir. — Falando em dinheiro. Vai levar a Tammy Warner pra sair, pobre fodido?
— É, eu vou. Vai rolar um musical em Denver esse sábado, ela me convidou depois de eu ter bancado pra ela uma ida ao show dos Jonas Brothers. Quando nos revimos não nos demos muito bem, mas ela está tentando me dar uma segunda chance.
— Mas olha só... — Eric sorria maldosamente, incrédulo. — Quem diria, o “Kenny Conquistador” quer ficar estagnado com uma garota? Já não era sem tempo. Se você não morresse o tempo todo já teria virado um depósito de doenças, parece um rato.
— Não acho que vou conseguir alguma coisa com a Tammy. Na verdade, nem estou esperando nada. — sacudiu levemente a cabeça, olhando para baixo. — Só quero me redimir com ela. Não posso me redimir com todas as garotas que infernizei, mas com ela eu devia tentar. Foi a primeira com quem eu fui um cuzão.
— Hm. — pensativamente e sem olhar para uma direção certa, Cartman tinha uma mão sobre o queixo. — Quer saber de uma coisa? Vou te emprestar o meu carro.
Paralisado e sem reação, os olhos de Kenny brilharam e se ampliaram.
— Sério, cara?
— Sério. Você me ajuda e eu te ajudo, esse é o trato. — assentiu uma vez com a cabeça. Refletiu por mais um momento. — Além do mais, eu tenho uma puta de uma BMW. Vou dar um pouco de alegria pro casal de pobres.
— Puta que pariu, cara — o loiro começou a se aproximar dele. — Me dá um abraço.
— Sai, Kinny, porra — o afastou conforme ele lhe estendia os braços.
— Primeiro o carro elétrico quando tínhamos 9 anos e agora um de verdade, tu é um amigão mesmo.
— É, pois é. — não fez questão alguma de parecer modesto. Por alguma força do acaso, começou a se lembrar de algo. — Aliás. Legal, né, Kinny? Te dei uma moral dessas e no ano seguinte você se vestiu de Mysterion e fodeu com o meu esquema de virar herói, espero que ainda esteja satisfeito.
— Ah, era engraçado te deixar puto. Na verdade, ainda tem graça. — sorria vendo a raiva na cara dele. — Por que lembrou disso do nada?
— Por nada. — o semblante de Cartman se fechou ainda mais. O alter-ego “Mysterion” não o tinha ferrado só naquela vez... Também descobriu, a partir de Henrietta, que o herói de Kenny tinha chamado sua atenção pelo visual sombrio e que o mesmo uma vez invadiu seu quarto, ainda que na ocasião ela não estivesse sozinha. Embora soubesse que Kenny tinha sido rejeitado por ela, a “dor de cotovelo” era inevitável; era pra ter sido ele naquelas ocasiões.
Lembrar-se que Henrietta teve uma leve admiração pelos feitos do Guaxinim conseguiu acalmá-lo. — Tá. Pelo menos você dirigiu aquele carro elétrico à tarde inteira e quase evitou que eu fosse preso, já pagou sua dívida.
— E deixei meu primeiro PSP pra você num dos meus testamentos. E te ajudei a liberar as pesquisas com células tronco pra clonar uma pizzaria. E te cedi meu olho esquerdo...
— Ei ei ei, nesses dois últimos você não fez nada, eu que fiz tudo e você tava morto.
— Se não fosse pelas minhas mortes você não teria conseguido nada disso.
— E eu te dei aquele colar de Melhores Amigos Eternos.
Ambos se calaram. O argumento acabou criando um peso que nenhum dos dois esperava. Como Stan e Kyle desde sempre foram muitos mais próximos entre si, a amizade da dupla que restou no quarteto veio por se fortalecer, levando Eric a comprar para eles um pingente de amizade que se dividia em dois e oferecia um colar para cada. Só revelaram isso aos outros – ou melhor, Cartman revelou – quando precisou ganhar a causa para desligarem os aparelhos de Kenny, unicamente para que ele morresse outra vez e pudesse ceder o PSP que Eric não pôde comprar.
Na fila para comprar o PSP, em Eric teve que ir pro final, Henrietta e os amigos estiveram lá e foram um dos primeiros a comprá-lo. Mais uma chance de falar com ela na infância que havia perdido, essa era uma memória muito vívida. Como Kenny não deixou que furasse a fila, sequer podia se arrepender por tê-lo deixado morrer para conseguir o que era dele – se bem que não se arrependeria em circunstância alguma, sabia que alguma hora ele voltaria. Porém, de volta aos colares...
— Aquilo... — o mais gordo se mostrava reflexivo. — Aquilo foi gay pra porra.
— Foi gay pra caralho. — o mais pobre somou.
Fizeram mais uma pausa silenciosa, em concordância.
— Eu ainda tenho a minha metade guardada em casa. — Kenny declarou.
— É, eu também. — Eric confessou, evitando contato visual.
Calaram-se de novo. Só ouviam os ruídos de outros alunos vagando e conversando por aí. Talvez o tempo livre estivesse acabando, os intervalos exceto o do almoço eram sempre curtos.
— A gente se vê depois, então. — Cartman recolheu-se, ajeitando suas coisas. — A procura só começou, só te pago quando o trabalho estiver feito.
— Sessenta pratas, né?
— É. Vê se compra algo de comer pra Tammy com isso, deixar a mulher de estômago cheio conta muito.
— Sendo assim, boa sorte alimentando os três estômagos da sua.
— Com prazer. Até cinco estômagos, se for preciso. — sorriu, orgulhoso. Se empolgava ainda mais agora que sabia que Henrietta era uma boa companhia pra comer. — Tá zoando agora mas tu bem que queria, se fodeu.
— Só tô zoando com ela porque to puto, sua gótica não deixa de ser uma puta de uma gostosa. — deu meia volta para sair dali. — Até depois, gordo. Manda um abraço pra gostosa da sua mãe.
— Ainda bem que nem vendendo sua casa você teria o suficiente pra comer a minha mãe, babaca — afastava-se a assim como ele. — Só não mando um abraço pra sua irmã porque acho que ela tem um namoradinho gótico, agora.
— Quê? — Kenny se voltou para ele de novo, atacado por um ciúme super-protetor.
Em vez de Cartman também se virar e responder à sua pergunta, o loiro o viu continuar andando e levantando um dedo médio para ele. A indignação na face de Kenny era palpável.
Isso explicava por que Karen havia chegado em casa com roupas diferentes no dia anterior. E com um triângulo nas mãos. Apesar de seus ciúmes como irmão, o pervertido era ciente de que depois dos 11 anos Karen se tornou incontrolável – afinal, ela tinha seu sangue.
Ser humilhado e intimidado por uma gótica, para agora ter outra em casa. Que os antigos deuses o ajudassem. Ou pior: que o ajudassem a investigar a vida de Henrietta junto ao seu melhor amigo sem sofrer nas mãos dela de novo.
* * *
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