Notas iniciais
Acho que até agora essa foi uma das mais difíceis de escrever. Temos poucas informações sobre os hábitos dos bruxos japoneses e também sobre a escola. De qualquer forma, fiz o que podia com as informações que tinha, e espero que vocês apreciem.
Os nomes dos personagens foram majoritariamente tirados de livros de Haruki Murakami.
Nos vemos nas notas finais!

"Pois ser sábio e amar
Excede a capacidade do homem.
— Shakespeare, “Troilo e Créssida”"

Tão cedo de manhã, Momoko é a única aluna do lado de fora do prédio dos dormitórios, fazendo o caminho para fora da área em formato de tigela no centro do vulcão onde ficava a escola.

Nem sempre foi assim. Houve um tempo em que ela teria Sakura consigo, e, juntas, as meninas, antes do sol sair, corriam para o lado de fora em seus robes de seda para assistir ao nascer do sol sobre a baia. Tímido, ele se erguia da água e deitava seus raios amarelos-alaranjados sobre a encosta do monte Suribachi. Era cheio de névoa àquela hora da manhã, e esta fazia com que, de longe, a ilha parecesse um pequeno bolo coberto de glacê. Mas do ponto mais alto da montanha, ao lado do Portal –o lugar por onde os alunos mais velhos iam para a escola, um belo Torii de madeira de cerejeira –ela podia ver tudo.

Sentiu mais do que viu a aproximação de Midori, subindo pela trilha na paisagem vulcânica. A trilha era uma série de cerejeiras mágicas que floriam o ano inteiro. Algumas pessoas diziam que não havia diferença, mas era primavera, e Momoko achava que elas ficavam ainda mais bonitas naquela época do ano.

O sol já havia se levantado por inteiro e estava quase na altura do Torii, o que significava que em breve o sino seria tocado, indicando que eles deveriam se levantar e, logo depois, seria tocado novamente para que fossem à sala de refeições. Midori estendeu uma mão para ela, e só agora Momoko se levantou para olhar o rosto já branco de pó de arroz da amiga. Midori havia passado um batom rosado na boca e seu rosto redondo tinha as bochechas coradas do frio da manhã, então, para poupá-la de passar mais tempo exposta ao frio, Momoko acetou sua mão, concordando em voltar.

Aquela era a hora onde os estudantes diurnos, dos sete aos dez anos, chegavam à escola voando nos pétreis gigantes, porque ainda não tinham permissão para usar o Torii como portal. As duas bruxas observaram as aves pousando atrás de algumas árvores densas do outro lado, e continuaram seguindo a trilha íngreme, descendo pelos jardins japoneses de lagos cheios de peixes dourados e pontes inclinadas por cima, em direção aos prédios nipônicos, com tetos curvados.

Ninguém estava do lado de fora ainda quando elas passaram pelo hall do prédio principal; por fora, feito de jade, por dentro, de papeis de parede decorados com lírios e hortênsias, subindo pelas escadas de madeira com carpete avermelhado –talvez um dia tivesse sido vermelho brilhante, mas agora tinha um tom terracota de sangue seco –e entraram no dormitório feminino, cujo acesso era dado por um portal que permitia apenas a passagem de garotas.

O dormitório tinha quatro camas baixas de madeiras de cerejeiras. Em uma delas dormia sua colega coreana Bae Kim, e a outra estava vazia, mas havia som de água corrente no chuveiro, o que significava que Naoko Tanaka, a outra colega de classe, devia estar tomando banho. A parede de madeira atrás das camas era forrada por seda desenhada com nanquim, com pássaros delicados e peixes dourados entrelaçados. Pela janela de vidro aberta passava um galho de cerejeira e na cama de cada garota estava desenhada o símbolo da Casa à qual pertenciam: Primavera para Momoko e Midori, Inverno para Naoko e Outono para Bae Kim. Havia um estranho espaço vazio à direita, onde costumava ser a cama de Sakura, mas agora estava vazio.

As meninas nem mais olhavam para o espaço, apenas seguiam como se não estivesse lá. Momoko passou para o banheiro assim que Naoko o desocupou. O banheiro era todo revestido de madeira clara e tinha uma banheira afundada no chão e um washiki. Momoko parou de frente para o espelhou e colocou um pouco pó de arroz no rosto, em seguida juntando os cabelos escuros, pesados e finos para cima da cabeça, os prendendo firmemente com dois palitos.

Em seguida, vestiu seu quimono cor de bronze e passou uma faixa vermelha de seda pela cintura. Os quimonos mudavam de cor conforme eles iam passando de ano; a cor do seu significava que ela estava em seu último ano de aprendizagem mágica, e depois da formatura, ele ficaria dourado: um símbolo de orgulho para ela e para toda a família Nakamura.

As meninas pegaram suas coisas e saíram do dormitório em direção ao salão de refeições, convergindo na direção de vários outros dos alunos em quimonos e sandálias de madeira indo pelo mesmo caminho.

O salão de refeições tinha quatro mesas baixas; uma para cada uma das Casas da escola. Os alunos se sentavam sobe suas pernas em almofadas no chão e a mesa era servida por feitiços de vento que levavam os pratos e xícaras de porcelana e barro para a mesa, assim como as refeições. Nada disso interessava a Momoko; era tudo muito familiar para que a despertasse especial interesse naquela manhã.

Momoko se serviu de sopa fria de pepino e udon, usando os hashis para enrolar o macarrão grosso e mergulhar no caldo. Os olhos de Momoko, estavam, porém, na mesa da Casa de Verão. Os alunos, apesar de não levarem mais sol do que o resto deles, pareciam bronzeados e saudáveis; brilhantes e energéticos. Os olhos escuros da menina escanearam a mesa até pararem sobre Nagasawa.

Nagasawa não a olhou de volta durante os momentos em que ela o encarou, então Momoko suspirou, voltando seus olhos para o caldo fino em sua tigela. Ela era a pessoa em toda a escola com quem ele mais deveria querer conversar, mas nunca se aproximava dela. Momoko não era apenas sua noiva, mas a única pessoa além dele que sentia falta de Sakura, e que estava disposta a falar sobre sua ausência; que não o julgaria se ele o quisesse. Mas também tinha a impressão de que o contrário não era verdade; ele a julgaria.

Mais ou menos na metade da refeição, uma revoada de cartas dobradas em origamis de pássaros voou para dentro do salão por uma abertura entre o teto de madeira e as paredes divisórias, sobrevoando as cabeças dos alunos à procura de seus destinatários. Um origami em forma de pássaro em papel brilhante cor-de-rosa se postou na frente de Momoko, que estendeu uma mão para busca-lo e o abrir.

Então o soltou como se fosse uma cobra venenosa.

Ao seu redor ninguém parecia ter notado a ocorrência, ou o papel de carta cor-de-rosa boiando em sua sopa. Momoko usou seus hashis para afundá-lo ainda mais, e o mexeu dentro do líquido até que o papel soltasse a tinta nanquim com que a carta fora escrita, e todas as letras ficassem irreconhecíveis, se dissolvendo no caldo e escurecendo sua cor.

Momoko olhou para o outro lado do salão de novo, e dessa vez um par de olhos castanhos estavam grudados nela. Nagasawa fez um gesto de cabeça, ao que Momoko respondeu com um sorriso discreto da mesa da Primavera, que era decorada com ramos de cerejeiras entalhados na madeira. Ele se virou novamente, agora para Kumiko Takahashi, seu colega de classe, que acenava com gestos expansivos, provavelmente discutindo quadribol.

Havia uma tempestade vindo na direção da ilha naquela tarde, o que significava que as aulas seriam canceladas e substituídas por treinos. Todos os times, das quatro Casas, treinavam juntos, e não separados. Assim, não perdiam tanto tempo de estudo e o espírito da escola como equipe era alimentado. Porém, durante a manhã, ainda teriam suas aulas normais, por isso, ao soar do bongo que ficava alocado no centro do salão, entre as quatro mesas, todos se levantaram obedientes, para andar até suas aulas.

Midori e Momoko andaram lado a lado, mas em silêncio. Midori vinha sendo compreensiva com ela desde que Sakura fora expulsa. Haviam sempre sido as três, mas Sakura e Momoko que eram melhores amigas. Midori não estava tentando tomar o lugar da outra, apenas deixar a amiga restante o mais confortável quanto era possível, e por isso ela era muito grata.

A primeira aula do dia era Animagia. Embora tivessem uma matéria de Transfiguração, a habilidade de se tornar outro era extremamente apreciada pelos bruxos japoneses, e a maioria deles era capaz de animagia, ao contrário, ela lera, dos bruxos europeus, onde pouquíssimos podiam se transformar em animagos, e estes eram considerados especialmente dotados pelo resto da população.

A aula se transcorreu tranquilamente, do jeito que se transcorriam as aulas em Mahoutokoro. Já estando no sétimo ano, a maioria dos assuntos de Animagia tinha a ver com a transformação em si. Estava aprendendo a fazer a Poção que os permitiria, no quarto estágio, se tornarem animagos. Porém, naquela tarde, ao invés de seguirem de onde tinham parado, o professor fez uma pausa para introduzir um assunto extra que, em sua opinião, era importante que eles soubessem sobre.

—Maletictus. –Anunciou o professor Murakami, de bigodes finos e uma barba trançada com anéis que descia até abaixo de seu queixo. –Quem aqui pode me dizer a diferença entre um animago e um maledictus?

Não muitas mãos se ergueram no ar, mas, entre as três que o fizeram, Nagasawa era uma delas; o que era bom, porque dava a Momoko um motivo para olhar para ele um pouco sem parecer indiscreta. Foi a ele que o professor deu a vez.

—Animagos são bruxos com estudo e habilidade para se transformarem em animais, por escolha própria. Maledictus são amaldiçoados: não têm escolha, não podem evitar ou desfazer o que fizeram.

O professor havia andado de um lado para o outro na classe enquanto ouvia a resposta. Quando Nagasawa terminou, apontou a varinha para ele do jeito que fazia quando gostava da resposta.

—E Lobisomens?

—Lobisomens são amaldiçoados por outro Lobisomem em algum momento da vida. –Nagasawa voltou a responder, com segurança. –Maledictus são amaldiçoados por bruxos, e a maldição é de família, nasce com eles.

A aula continuou depois disso. O professor Murakami deu várias características para diferenciar lobisomens, maledictus e animagos mesmo quando estivessem em sua forma animal. Momoko fez anotações, automaticamente, mas elas vieram acompanhadas por desenhos em tinta nanquim de ursos e lobos, de olhos selvagens ou inteligentes, e com esses ela ficou mais satisfeita do que com as palavras.

No horário do almoço, Momoko não ficou com seus amigos à mesa, mas pegou colocou sua comida em uma bandeja de madeira reta e andou até o jardim, onde se colocou embaixo de uma cerejeira, sentada em cima das pernas, a comida ao seu lado e papel brilhante em seu colo que, com a varinha e com os dedos, ela dobrou até que virasse uma cerejeira e origami, marrom-avermelhada no tronco e rosa brilhante nas folhas delicadas que ela cortara e dobrara com carinho.

O jardim estava silencioso, especialmente ali, junto do lago que se estendia por debaixo de várias pontes japonesas tais quais aquelas da pintura de Monet. Momoko estava distraída com as sombras das cerejeiras no lago de águas paradas quando, pela sua visão periférica, notou Nagasawa saindo do prédio, provavelmente em direção ao galpão onde guardavam vassouras, para se aprontar para o treino. Ele era um dos artilheiros do time de Verão, enquanto a própria Momoko era uma das artilheiras do time de Primavera.

Se pôs de pé num instante, fazendo um aceno de varinha para desaparecer seus pratos sujos para a cozinha, arrumou o quimono passando as mãos finas por ele de cima para baixo, alisando-o, e fez o caminho pelo jardim tortuoso, um tanto labiríntico, subindo uma ponte e descendo do outro lado, com seu novo origami nas mãos, em direção ao noivo.

Nagasawa a notou chegando, e diminuiu o passo, mas, afora isso, nada em sua expressão indicava estar feliz ou decepcionado em vê-la. Momoko emparelhou com ele em um segundo, e ele colocou os olhos no origami em suas mãos.

—Você é realmente boa nisso. –Disse ele, os passos lentos para estender a caminhada por um tempo mais longo. –Vi seus desenhos na aula de Animagia. Bons também.

Momoko se sentiu corando e ficou feliz pelo pó branco que ajudava a disfarçar seu embaraço. Não o havia notando a espiando na aula: devia estar excepcionalmente distraída, porque sempre o notava.

—Obrigada. –Respondeu.

Ele assentiu.

—Mas talvez você devesse, nas aulas, prestar atenção, ao invés de desenhar. –Acrescentou. Seu tom não era explicitamente reprovador, mas as palavras sozinhas já faziam o trabalho suficientemente bem. Dessa vez, Momoko corou de vergonha, e sabia que o pó não estava ajudando a disfarçar.

Ele pareceu apenas ligeiramente arrependido quando a viu virando o rosto para longe dele, para que ele não a visse corar.

—Não quis que soasse assim. –Acrescentou, um pouco mais gentil, até mesmo estendendo uma mão na direção dela. –Srta. Nakamura...

—Você pode me chamar de Momoko. –Ela o interrompeu, parando na porta do vestiário feminino. –Me chame de Momoko.

Seu tom era mais imperativo do que ela teria ousado se não estivesse se sentindo ofendida. Tinha perfeita noção de que o noivado deles, o fato de que ele pedira sua mão ao seu pai, tinha mais a ver com uma dívida entre famílias do que com qualquer afeto que ele sentia em relação a ela. Ainda assim, se iriam se casar, não havia motivo para tanta distância.

—Momoko. –Ele disse, experimentalmente. A voz suave, como alguém que fala com um animal assustado. –Não quis dizer que não é uma boa aluna. Sei que suas notas são perfeitamente exemplares...

—Estou reprovando em Poções. –Ela disse, sem saber o porquê, apenas na intenção de desmenti-lo.

Nagasawa hesitou agora, arrumando a postura. Fechou os olhos, impaciente, e os abriu de novo depois.

—Você pode ter tutoria. –Sugeriu. –Naoko poderia...

—Naoko? –Momoko repetiu o nome de sua colega de quarto, que ele dissera com tanta familiaridade. E a chamara pelo nome de batismo. –Bem, com licença, Sr. Masayasu.

E entrou no vestiário, onde ele não poderia segui-la.

As cartas continuaram vindo nos três dias seguintes. A tempestade também, então agora, para não perderem muitas aulas, eles treinavam à noite, debaixo da tempestade. A vantagem era que não precisavam se preocupar em serem vistos por aviões trouxas, mas, por outro lado, Momoko se sentia com os músculos cansados e a mente exausta ao fim da semana. A goles era invisível contra o fundo negro da noite tempestuosa e, mais de uma vez, eles não conseguiam distinguir a distância do mar abaixo e mergulhavam na água fria com a vassoura.

Quando voltava ao dormitório à noite, exausta, ela e Bae, as únicas duas jogadoras mulheres de seu ano, Midori no geral as preparava chá quente e compressas para colocarem nos músculos. Momoko espiava Naoko pelo canto do olho. Jamais fora amiga da garota, que era um tipo solitária e estudiosa, mas agora achava seus modos pretensiosos. Estava sempre com um livro no rosto e jamais aceitava ajuda das outras garotas para fazer seu coque ou pedia maquiagem branca emprestada.

Momoko também havia adquirido o hábito de, sob estresse como quando treinavam, jogando goles uns para os outros sobre o mar e sob a tempestade, usar a língua para contar seus dentes, o que fazia com que machucasse a ponta, deixando-a vermelha em carne viva.

Como não estava sendo uma semana agradável de qualquer forma, Momoko se sentiu aliviada com a chegada do sábado; e com ela, é claro, mais uma carta. Já havia se acostumado a enfiá-las no resto de sua sopa, encharcando-as até que a tinta vazasse do papel para a água e se dissolvesse. Midori já havia notado o ritual, mas ninguém mais parecia tê-lo feito; a amiga não perguntava e ela não oferecia explicações.

Sábado era dia de passeio. Outras escolas, ela ouvira falar, ficavam perto de vilas, mas em Mahoutokoro era apenas ilhas vulcânicas para todos os lados. Ainda assim, eles poderiam arrumar uma cesta de piquenique e sair dos jardins japoneses em busca de um pouco de mato verdadeiro em algum lugar, talvez à beira da praia. Midori iria com o próprio noivo, Kizuki, mas havia sido gentil o suficiente para convidar Momoko para se juntar a eles. Como Nagasawa não a havia procurado, ela não viu motivo para recusar.

Momoko estava atravessando o jardim japonês onde ficava o Portal Torii quando, no ponto mais alto da ponte japonesa vermelha que se refletia no regato abaixo, cheio de peixinhos dourados espiando curiosos e fazendo beijinhos com suas bocas de peixe, ela notou uma figura familiar, quase um fantasma, vestida de branco, com os cabelos pretos soltos ao invés de presos em um coque, olhando para ela.

Sakura não estava sozinha. Nagasawa estava com ela, de costas para Momoko, aparentemente sem notar o olhar de sua irmã por cima de seu ombro. Em outra ocasião, Momoko teria simplesmente andado para longe, mas Sakura não devia estar ali de jeito nenhum –suas vestes brancas denunciavam isso –e agora vinha em sua direção, e anunciara sua presença para Nagasawa, que vendo sua irmã sair de seu aperto, virou-se para ela.

Ficou gelada e dura, o que foi a única coisa que a impediu de sair andando dali, como Momoko tentava comandar suas pernas a fazer. Sakura se aproximou com passos hábeis, e Nagasawa veio atrás dela, mas não rápido o suficiente para pará-la, embora seu rosto estivesse estranhamente pálido, assustado como Momoko jamais vira.

Sakura se parecia como sempre, apesar de tudo. Havia sido expulsa da escola ao revelar a um garoto trouxa por quem se imaginava apaixonada sobre magia. Havia feito magia na frente dele e, é claro, seu quimono encantado da escola ficara branco, revelando sua traição. Uma vergonha para a família e para a escola. Não devia nem poder voltar à ilha, mas Momoko supôs que, como era bruxa, podia simplesmente aparatar ali sem que ninguém a impedisse.

As suas pernas demoraram a funcionar, mas funcionaram eventualmente. Antes que Sakura a alcançasse, Momoko tinha virado de volta para a escola, autoconsciente dos materiais para desenho que tinha em mãos: papel fino e áspero em rolos de pergaminho, tinta preta, pincéis. Sentia o tecido de seda de seu quimono florido azul quando ela andava, as pernas uma na frente da outra, automaticamente. Ouviu Sakura a chamar, ficando para trás, e sentiu mais do que ouviu a voz de Nagasawa, rudemente a mandando embora.

Em poucas voltas pelo jardim que rodeava o edifício da escola, ela já havia perdido os irmãos de vista.

Passou a tarde de sábado se escondendo. Havia um lugar no terceiro andar do edifício de jade, por onde ela podia escapar pela janela e ficar no telhado cor de bronze, sentada sem ser vista lá debaixo e sem poder ser encontrada por ninguém que viesse de dentro, a não ser que conhecesse o esconderijo.

Como previsto, ninguém a incomodou. Momoko teve tempo de se sentar e desenhar; pássaros em tinta preta, com olhos perfeitamente feitos sem magia, e peixinhos dourados das trevas, pareciam assim em seus desenhos; escuros e sombreados em regatos de águas paradas. Outros teriam considerado o desperdício de um sábado perfeitamente bom, mas Momoko ficou suficientemente satisfeita com a sua ocupação que tirava sua mente de questões mais urgentes.

No jantar, podia sentir os olhos de Nagasawa em cima dela, tão insistentemente que notou seu amigo, Haruki, o cutucando para chamar sua atenção, mas não olhou de volta. Se desculpou com Midori por ter faltado o encontro e prometeu fazer um retrato dela com Kizuki em outra ocasião. Ninguém parecia ter visto a exilada Sakura no campus além dela e Nagasawa; o que devia significar que os dois deviam conversar sobre o assunto, mas Momoko não queria.

No domingo à tarde, ele finalmente a achou. Estavam ela, Naoko e Bae Kim deitadas no gramado verde e macia do jardim, os pés estreitos descalços contra as carícias das lâminas verdes de grama, os quimonos colocados de lado ou sob as cabeças. Por baixo usavam vestidos comuns, de algodão, de mangas curtas ou sem mangas. O de Momoko tinha um tom pérola que combinava com suas bochechas sem maquiagem e as pálpebras rosadas, fechadas contra o sol.

Nagasawa havia se aproximado do grupo de garotas, parecendo sério sem seu quimono, em suéter cinza e calças pretas, de suspensório. A própria Momoko não notara sua aproximação até que Bae Kim a cutucasse discretamente e ela abrisse os olhos. A amigas não pareciam ver nada de estranho em sua relação, ou não comentavam. Casamentos arranjados não eram tão estranhos, e não eram nenhuma vergonha. O de Midori era uma exceção, mas Bae Kim, por exemplo, sabia que um destino não tão diferente a aguardava.

Momoko o seguiu para um canto mais afastado do jardim; ele a conduziu, na verdade, com uma mão em suas costas, gentilmente a incentivando a seguir em frente quando ela virava o rosto, curiosa, para checar a expressão dele.

Ele a parou debaixo de uma ameixeira em flor; uma pétala branca caiu em cima dos cílios dela como um floco de neve e, com gentileza inesperada, Nagasawa estendeu a mão e, com a ponta dos dedos, a retirou dos fios longos. Momoko não piscou, os olhos arregalados em surpresa enquanto, olhando para a pétala em vez de para ela, ele perguntou:

—Sakura anda tentando contatar você?

Momoko pensou nas cartas em papel rosa brilhante dobrado em origamis jogadas em seu caldo de pepino matinal, por dias seguidos.

—Sim. –Admitiu, com inflexibilidade.

Em suas mãos, Momoko não havia notado até aquele momento, haviam dois pares de bolinhos de arroz. Ele estendeu dois em sua direção quando se encostou na casca da árvore, despretensioso. Mas ela podia ver a tensão em seus ombros mesmo quando aceitou os bolinhos.

—O que diziam?

Momoko fez uma pausa, na qual ele levantou os olhos castanhos para os dela.

—Não sei. Não li as cartas.

Nagasawa exalou fortemente. Momoko ficou olhando enquanto um pouco de cor voltava ao seu rosto, intrigada e profundamente curiosa sobre todo aquele mistério. Ele ficou em silêncio, e ela também. Finalmente, depois de um ou dois minutos, exalou em voz alta.

—Bem. –Disse Momoko. –O que ela quer me contar?

O noivo a olhou com um tipo artificial de surpresa; ela podia dizer pelo modo como os olhos dele estavam abertos, e seus próprios olhos se estreitaram consideravelmente.

—Como eu poderia saber?

Só que ele sabia, e Momoko percebia isso.

A carta chegou mais uma vez na segunda. Ela trocou um olhar com Midori, notando que a amiga esperava que ela simplesmente a enfiasse no resto de sopa fria de pepino de novo. Ao invés disso, Momoko hesitou, se sentindo aliviada. Nem havia percebido que temera que, depois so sábado, a carta simplesmente não fosse vir, depois do modo como ela dera as costas a Sakura.

Nagasawa não a olhava sentado em cima das pernas na mesa de Verão. Lentamente, sem tirar os olhos das costas dele e consciente de Midori a olhando com curiosidade, ela abriu o origami em pedaço de pássaro até que fosse apenas um papel quadrado, de constituição firma, em suas mãos.

A carta começava de forma completamente comum. Momoko pegou um bolinho frito de arroz e colocou no seu prato, enquanto levantava o papel de forma que ninguém poderia ler pelos seus lados. Sakura descrevia um pouco sua vida isolada no mundo trouxa, mas com otimismo: a bondade de seus novos sogros, o esforço de seu novo marido para que ela se encaixasse e achasse coisas que a fizessem feliz longe do mundo mágico. Ela mudava de assunto tão sutilmente que Momoko quase não percebeu; primeiro, falava sobre a saudade de casa, de seus pais e, finalmente de seu irmão. Irmão que estava noivo de Momoko agora. O motivo do noivado, é claro, era o envolvimento da família com artes das trevas, e o fato de que o pai de Momoko, que trabalhava no Departamento de Execução das Leis da Magia, poder fazer algo para evitar uma forte reprimenda.

Momoko deixou a carta cair na mesa por um segundo, processando a informação. Arranjar um casamento por uma dívida era uma coisa, mas magia negra era bastante sério e muitíssimo proibido no Japão, embora ela soubesse que outros países tinham uma política mais tolerável para com o assunto.

Afundou-a, dessa vez lida, na sopa novamente.

Evitar Nagasawa por toda a semana enquanto ela pensava se devia ou não escrever para o seu pai confirmando a informação que recebera –e então decidir o que isso mudava em sua vida –se provou uma tarefa mais difícil do que ela havia previsto. No geral, não tinha dificuldades em não o encontrar pelos corredores ou nas aulas. Nas poucas aulas que tinham juntos, eles senta-se com Toru ou Haruki, enquanto ela sentava-se com Midori, Kizuki e Bae Kim. Naquela semana específica, porém, ele pareceu surpreendentemente interessado em sua vida escolar, oferecendo-se para sentar-se com ela em Poções e Aritimância. Na aula não podia conversar, e Momoko saia antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, mas não poderia agir daquela forma para sempre.

Midori não sabia exatamente o que estava acontecendo, mas, a despeito disso, uma tarde abordou Momoko.

—Sabe qual a vantagem dos relacionamentos arranjados? –Perguntou, como quem nada quer. –Os sentimentos complicam as coisas. Você pode simplesmente ir, friamente, e falar com o seu noivo arranjado sobre qualquer coisa, não é?

Momoko não levantou a cabeça de seu desenho para olhá-la.

—Suponho. –Murmurou em resposta.

No fim da semana, depois de um treino de quadribol pesado debaixo de vento forte, ela estava saindo do vestiário em suas roupas comuns quando notou Nagasawa debaixo de uma ameixeira, os olhos grudados nela enquanto andava. Respirando fundo, puxou suas saias longas para liberar suas pernas e andou na direção dele, pela grama fofa debaixo da sola dos sapatos.

—Venha comigo. –Chamou, e andou em direção ao Torii, no ponto mais alto da ilha, onde ninguém os incomodaria.

Ele a seguiu de perto, mas dois passos atrás. Quando ela parou, ele parou também, de forma que, virando para ele, estavam numa boa distância de conversa, perto o suficiente apenas para que se vissem com clareza.

Momoko desejou ter guardado a carta, para dar a ele e esperar explicações. Ao invés disso, quando colocou os fatos em voz alta não soou apenas sem sentido, mas também ofensiva a ambos: acusar a família de alguém de estar envolvida com artes das trevas era muito sério, e insinuar que seu pai ocultaria essa informação do resto do Ministério era tão sério quanto.

Nagasawa tinha um olhar muito seco quando a respondeu.

—Isso não pode ser verdade. –Declarou. –Porque não houve negociação quando pedi sua mão. A pedi por vontade própria. Nunca conversamos sobre vantagens ou desvantagens da união.

A garota hesitou. Era a primeira vez que ouvia aquela informação na vida. Seu pai deixara claro, quando foi a falar sobre o noivado e pedir sua opinião, apenas por desencargo de consciência, que os Masayasu tinham uma dívida com os Nakamura. Era apenas assumira que seria essa a razão da união.

—Você não... –Ela hesitou, colocando os pensamentos em ordem. –Sua família não está envolvida em Artes das Trevas, então?

Ele hesitou.

—Não que eu saiba. –Respondeu diplomaticamente, se aproximando dela e estendendo as mãos. Momoko viu que era mentira, mas estendeu as mãos para ele também; jamais o havia tocado de forma alguma, e as mãos dele eram quentes e macias.

—Por que me escolheu? –Perguntou.

Ele deu de ombros.

—Gosto de você.

—Nunca fala comigo. Nem se aproxima.

—Você sempre parece distraída com seu bloco de desenhos. Parece errado interromper.

—Nagasawa... se for verdade...

—Eu não estou envolvido. Não vou me envolver. Sei que pode acabar o noivado por esse motivo, mas eu realmente gostaria que soubesse que... não tenho nada com isso.

Ela assentiu. Podia ver a verdade através dele, apesar de tudo. Seu pensamento estava correndo a mil, porém. Pensou em Naoko.

—Existem garotas mais talentosas que eu. Mais habilidosas.

—Não do jeito que você é.

Houve mais um segundo de silêncio.

—Por que não quis que eu lesse a carta de Sakura?

—Pela sua honra. Ela foi exilada.

—Não sente falta dela?

—Como sentiria falta de um braço. Você sente?

—Sinto.

Ele assentiu. A olhou. O cabelo preto macio caía por cima dos olhos, enquanto o dela estava firme num coque, Ele estendeu a mão até os palitinhos prendendo seu cabelo e os puxou delicadamente. Momoko quase se encolheu quando o cabelo pesado caiu pelos seus ombros e escorreu pelo pescoço e colo. Ele pegou sua mão de volta.

—Fale comigo sobre Sakura. –Momoko pediu.

Nagasawa a olhou de uma forma estranha por um segundo. Momoko tinha os olhos no dele, curiosos. Jamais haviam realmente conversado, e agora queria ter de volta todo o tempo.

—Muito bem. –Ele pareceu pensar. –Você vai gostar dessa. Uma vez, minha irmã começou a mandar cartas misteriosas para a minha noiva...

Garotas de Durmstrang

Um Conto em Ilvermorny

Neve Em Beauxbatons

Notas finais
Bem, eu sei que o final não foi um grande plot twist, mas minha intenção nessa série de fics é falar mais sobre as escolas do que sobre os personagens. De qualquer forma, espero que tenham gostado de Momoko e Nagasawa!
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Você chegou ao fim do livro. Parabéns!