Make a Wish
1 Faça um pedido
Notas iniciais
Em plena quietude, agraciado pelos primeiros raios de sol da manhã, Tsukumo Yuma descansava como um rei. Seus roncos isolados no reino de seus sonhos.
“Yuma”
Era como se a própria dama do sono estivesse chamando por seu nome, convidando-o para descansar mais um pouco
“Yuma”
Uma voz tão suave que parecia praticamente uma canção de ninar, chamando-o em sua orelha
– YUMA!
– AAAH! – O rapaz levantou completamente assustado, sendo recebido por uma sequência de risos e algumas expressões bem desapontadas.
– Sabe quanto tempo ficamos te procurando? – Disse Kotori, bem à frente dele. Não parecia nem um pouco contente – Não acredito que você estava dormindo esse tempo todo!
– Calma lá… o que está acontecendo? – Perguntou, ainda grogue – Me procurando para quê?
– Estávamos esperando você para poder ir ao festival! – Exclamou, irritada – Até mesmo a Rio-san conseguiu convencer o Shark a vir e você ficou aí.
– Eu não concordei em ir em festival nenhum – Retrucou o garoto de cabelos arroxeados, com cara de poucos amigos – Merag me disse que o Yuma tinha desaparecido, por isso me juntei a essa expedição idiota de vocês.
– Você vai conosco sim, Nash. Além do mais eu não menti, o Yuma estava realmente desaparecido, ainda que por outros motivos – Respondeu sua irmã, de cabelos azuis e franja azul clara, encarando o irmão.
– Eu não tenho tempo pra ir nesse tipo de baboseira, vocês só fizeram eu perder o meu tempo – Shark resmungou, virando-se de costas. Rio, no entanto, agarrou seu braço.
– Não foi um convite, você vai com a gente – Afirmou ela, franzindo o cenho
– Eu não vou coisa nenhuma, larga logo o meu braço, Merag – Retrucou ele, puxando o braço de volta
– Você vai sim! – Rio puxou o braço do irmão com ainda mais força, começando todo um cabo de guerra.
– Talvez fosse melhor ter deixado ele dormindo, teríamos saído daqui mais rápido – Disse Vector, sarcasticamente, olhando toda aquela situação.
– Não vamos deixar ninguém para trás. Anda, levanta Yuma – Agora foi Kotori quem agarrou o braço de Yuma, puxando-o da grama para ficar em pé
– Au… não é pra tanto – Reclamou o jovem do topete vermelho, passando a mão no braço – E que festival é esse afinal?
– Ora, Yuma-kun, hoje é o sétimo dia do sétimo mês – Respondeu Cathy, limpando alguns fios de grama do cabelo de Yuma – Heartland está comemorando o festival de Tanabata
– Ah sim… e isso significa alguma coisa? – Evidentemente, Yuma estava completamente perdido
– Tanabata é um festival antigo, que comemora o dia em que Orihime e Hikoboshi podem se encontrar ao cruzarem a via láctea – Alith explicou
– Quando é que você aprendeu sobre costumes humanos, Alith? – Perguntou o grandalhão, Gilag, que estava ao lado do rapaz.
– É importante conhecer os costumes de um povo para melhor entender os corações de seus habitantes – Respondeu o rapaz, com um sorriso galanteador
– É uma história de amor escrita nas estrelas… um festival muito romântico, não acha, Yuma-kun ? – Perguntou Cathy, nem um pouco discreta. Esbanjava um sorriso felino no rosto (:3)
– Dizem que romance não dura muito para quem fica furando os olhos dos outros – Rebateu Kotori, incomodada
– Isso é desculpa de quem a vida amorosa é uma gatástrofe – Retrucou Cathy, claramente provocando Kotori
– Como é que é?!
– Você me ouviu bem!
– Ei, ei… não é pra tanto também – Yuma tentou apaziguar a situação, as duas por sua vez cruzaram os braços e viraram as coisas uma para a outra, irritadas.
– Me larga, Merag! – Shark continuava a guerra de braço contra sua irmã, finalmente se soltando e andando começando a andar
– Nash! – Gritou Rio, chamando a atenção do irmão
– Eu já disse que não vou! – Ele se virou, já sem paciência, para encará-la. Esperava uma feição séria e irritada, mas o que viu foi uma cara chorosa, com direito a bico e tudo
– Você vai mesmo recusar o pedido da sua irmãzinha? Eu vou ficar muito chateada se você não for… – Ela disse, praticamente fazendo chantagem
Por mais cabeça dura e frio que fosse, Shark tinha um ponto fraco, que era justamente sua irmã.
Rio, por sua vez, sabia bem disso.
– Grr… – Shark resmungou algumas palavras que não puderam ser ouvidas, fechando ainda mais a cara – Que seja, então vamos logo com isso, ou então eu vou embora.
– Táticas manipulativas poderosas, Merag – Vector falou, sarcasticamente.
– Fique quieto, Vector, sua reputação não te permite ficar dando lições de moral – Acrescentou Rio, olhando brevemente na direção do alaranjado, já de volta com seu olhar cerrado.
– Maravilha, então já está decidido. Vamos logo, há muitos corações apaixonados me esperando – Alith foi até os demais, empurrando eles para que começassem a andar logo.
…
No caminho até o centro da cidade, Yuma foi notando como as ruas iam gradualmente mudando.
Haviam lanternas de papel voando acima das casas bem alto, como se quisessem subir até os céus. Também via muitas árvores de bambu pelas ruas, com diversos enfeites presos nelas. Indo desde enfeites de estrelas, origamis, redes de pesca e até mesmo trava ventos de papel.
Quanto mais distante olhava, mais via o movimento das ruas cheias, a iluminação quente da cidade contrastando com o azul escuro do céu onde podiam se ver algumas estrelas. Todas aquelas pessoas unidas para aquela comemoração.
Como poderia Yuma nunca ter notado um festival assim tão grande antes? Teria ficado em casa todos os sete de julho de sua vida inteira? Era essa a pergunta que preenchia a mente do garoto.
– Olha, eles tem Tanzakus! – Exclamou Kotori, vendo um senhorzinho distribuindo os papéis de escrita, numa pequena barraca. Não demorou muito para que ela e Cathy fossem até lá
– Tanzaku? – Questionou Yuma, que havia ficado com os demais.
– São papéis onde você pode escrever um desejo, você pendura eles nas árvores de bambu para que se realizem – Explicou Alith outra vez, praticamente um sommelier do festival – Agora, se me dão licença, tenho que virar o desejo de algumas pessoas – Ele se despediu do grupo, andando em direção ao movimento do centro
– Ei Alith, espere aí, eu vou com você… preciso aprender mais sobre esses costumes humanos – Disse Gilag, indo atrás de seu amigo.
– Para alguém que viveu aqui uma vida inteira, você até que sabe bem pouco dos costumes do seu próprio povo, Yuma-kun – Falou Vector, enquanto lia alguns dos pedidos deixados em uma das árvores
– Não é porque eu sou humano que eu saiba tudo que todos os humanos fazem, Vector – Respondeu Yuma
– E não é por isso que existe aquela disciplina de história na escola? – Rebateu, puxando um desejo da árvore para si – Sinto muito, mas o seu desejo não vai se realizar.
– Não fique por aí arrancando o desejo dos outros! – Rio deu uma dura nele, mas o alaranjado apenas riu
– E o que você vai fazer? É apenas uma travessura, não é nada pessoal. Essa é a minha diversão – Respondeu, arrancando outro Tanzaku da árvore.
– Será que vocês dois podem calar a boca? – Falou Shark, irritado com toda aquela falação.
– Enquanto vocês ficam por aí escrevendo pedidos e andando à toa, eu vou arruinar alguns desejos. Até outro dia, queridos panacas – Vector se virou de costas, caminhando pela rua e puxando tanzakus alheios, fazendo uma coleção pessoal de pedidos para si.
– Não vim aqui para ficar vendo um monte de luzes – Sem mais satisfações, Shark foi até a mesma direção geral onde Alith havia ido
– Ei, espera aí, Nash! – Rio foi andando atrás do seu irmão, aparentemente começando a discutir novamente com ele… clássica briga de irmãos.
Enquanto isso, na barraca de tanzakus, Cathy e Kotori preenchiam os seus pedidos para pendurar nas árvores de bambu.
– “Paz, amor e saúde” – Escreveu Kotori, no seu papel.
– “Que o Yuma finalmente me veja com os mesmos olhos que eu vejo ele” – Escreveu Cathy no seu papel, se esticando para alcançar um ramo da árvore e colocá-lo lá.
Kotori, nem um pouco discreta, viu o pedido de Cathy e decidiu fazer algumas alterações no seu
– “Paz, amor, saúde… e que o desejo da Cathy não se realize” – Com uma assinatura rápida, ela colocou o seu desejo na árvore.
– Ei, isso não vale! – Protestou Cathy, vendo o que Kotori havia acabado de fazer.
– Não há nenhuma regra contra fazer pedidos assim – Retrucou a garota, começando novamente outra briga com Cathy
– Se é assim – Cathy pegou outro tanzaku do ferista, começando a escrever outro pedido – “Que o desejo da Kotori não se realize” – Colocou o novo papel bem ao lado de seu outro desejo.
– Duas podem jogar esse jogo – Kotori pegou outro papel, fazendo mais um pedido – “Que o desejo da Cathy de não realizar meu desejo não se realize” – Ela entrou na disputa, colocando mais um pedido na árvore.
– Não se eu pregar meus desejos em mais árvores que você! – Neste momento, Cathy agarrou um monte de papéis, escrevendo as mesmas palavras em todos.
– Não se eu fizer isso primeiro! – Kotori também agarrou um monte de papéis, repetindo as mesmas palavras em todos.
– Boa sorte, perdedora! – Cathy saiu em disparada, colocando um desejo em cada uma das árvores que foi encontrando pela rua
– Volta aqui sua gata de meia tigela! – Foi a vez de Kotori sair em disparada atrás de Cathy, enchendo todas as árvores no caminho com seus tanzakus.
Com isso havia restado apenas Yuma, sozinho no meio da rua, que via todos os seus amigos todos de longe. Pareciam todos estar mesmo aproveitando o festival.
Gilag assistia enquanto Alith conversava com algumas garotas e garotos, usando todo seu charme para paquerar a todos. Shark e Rio haviam parado de discutir para comer alguns doces. Kotori e Cathy estavam correndo igual malucas, pregando um monte de pedidos nas árvores de bambu enquanto Vector passava em cada uma delas, retirando os desejos que elas haviam acabado de fazer.
Sem ideia alguma de onde ir, ou de quem acompanhar, Yuma caminhou até a barraca do ferista, ainda um pouco pensativo sobre aquele festival.
– Será que é verdade essa história de desejos? – Yuma pensou, ao chegar na barraca
– Quer fazer um pedido, garoto? – Perguntou o senhor na barraquinha, já bem velinho, olhando para o rapaz.
– Não sei… estou meio perdido com isso tudo para falar a verdade – Falou o garoto – Nunca vim neste festival antes.
– Você por acaso conhece a história por trás do festival?
Yuma apenas acenou a cabeça, dizendo que não.
– Há muito tempo atrás, no reino dos céus, vivia uma princesa, chamada Orihime. Ela era responsável por tecer as roupagens mais belas e celestiais de todo reino dos céus. Dizem que eram tão bonitas que produziam até mesmo sua própria melodia.
O senhorzinho pegou um tanzaku branco, começando a ilustrar as palavras que dizia, incluindo a bela princesa e suas longas roupagens
– Ela era muito talentosa, tecendo suas roupas dia após dia, noite após noite… porém, todo este serviço fez com que ela se sentisse muito solitária. – O senhorzinho continuou – Seu pai, de coração partido, quis ajudar a filha a acabar com essa solidão. Por isso ele apresentou para ela um jovem pastor de animais que conhecia do outro lado do céu, chamado Hikoboshi.
– Então esses são os dois nomes que o Alith falou mais cedo – Murmurou, completamente atento.
– Orihime cruzou a via láctea para conhecer Hikoboshi, e, quando finalmente se encontraram, foi amor à primeira vista. Ficaram perdidamente apaixonados um pelo outro, unindo-se em matrimônio… Porém, havia um problema.
– Problema? Que problema? – Perguntou o garoto, curioso
– Eles estavam tão perdidamente apaixonados um pelo outro que pararam de exercer as suas funções. Orihime parou de tecer as roupagens celestiais, enquanto Hikoboshi parou de pastorear os animais, deixando-os soltos pelo céu. Isso atraiu a atenção do pai de Orihime, Tentei – O homem prosseguiu com seus desenhos, fazendo uma modesta obra de arte em um papel tão pequeno – Furioso por sua filha parar de exercer sua função no reino dos céus, Tentei separou os dois amantes, um em cada lado da via láctea, prendendo-os na forma das estrelas Vega e Altair para que pudessem se ver mas nunca se encontrar.
– Que cruel… – Comentou Yuma
– Orihime pensou o mesmo. Diversas vezes suplicou com seu pai, para que deixassem os dois juntos novamente, prometendo que aquilo não se repetiria… mas ele não permitiu. Agora era obrigada a observar seu amado de longe, enquanto tecia suas belas roupas, acompanhada da dor e pesar de não poder mais estar junto de seu amado.
O senhor deu uma breve pausa, recuperando o fôlego antes de continuar.
– Tentei, vendo o estado de sua filha, ficou dividido. Sabia que o amor dos dois era forte e genuíno, porém, se deixasse que se vissem novamente, outra vez deixariam de fazer suas funções… por isso ele voltou atrás em suas palavras, mas com uma única condição.
– E que condição? – Evidentemente vidrado naquela história, os olhos de Yuma pareciam brilhar, imaginando tudo aquilo acontecendo.
– Os dois poderiam se ver, mas somente na sétima noite do sétimo mês. Nesta noite, sabendo da história de amor de Hikoboshi e Orihime, as aves que residem no céu decidiram formar uma ponte com suas asas através da via láctea, para que os dois amantes pudessem se ver e passar a noite juntos. Acontece que caso o céu esteja nublado ou chuvoso, nenhum dos dois consegue de ver a direção da ponte, sendo obrigados a passarem mais um ano sem se encontrar – Ele terminou o desenho, fazendo a ponte e as nuvens no papel – Caso o céu esteja limpo e os dois consigam se reunir, ambos ficam tão felizes que seu amor é capaz até mesmo de realizar os pedidos que chegam até eles no céu.
– E eles realizam mesmo os pedidos?– Questionou o rapaz, essa dúvida ainda na sua mente.
– Se o desejo for tão genuíno quanto a paixão dos dois, não vejo motivos para que eles não o realizem – Explicou o senhor, com um sorriso no rosto.
– Nesse caso, eu vou querer fazer um pedido – Disse, esticando a mão para pegar um tanzaku para si… no entanto, viu que a barraca estava vazia – Não tem nenhum?!
– Infelizmente aquelas duas garotas pegaram todos os meus papéis… – Respondeu o senhor, suspirando – O único que restou foi este aqui.
Ele entregou para Yuma o papel onde havia feito o desenho. No verso ainda havia espaço suficiente para escrever algumas palavras.
– Vai servir – Yuma então pegou uma caneta e escreveu seu pedido, com todo cuidado, pois só teria aquela chance – Pronto. Onde eu posso colocar ele?
– Em qualquer ramo de árvore de bambu que você encontrar. Quanto mais alto, mais fácil que seu pedido chegue aos céus
– Quanto mais alto, melhor. Beleza, obrigado vovô da barraca! – Com seu papel em mãos Yuma saiu correndo pelas ruas, procurando pela árvore de bambu mais alta que poderia encontrar na cidade.
Ele percorreu cada rua do centro da cidade, todos os becos e cruzamentos, olhando a todo momento para cima e quase tropeçando muitas vezes em outras pessoas… porém todas as árvores que encontrou estavam cheias de pedidos, não havendo espaço algum para o seu.
Havia chegado tarde demais para ter seu pedido realizado.
Decepcionado, Yuma acabou indo para casa, sozinho. Todos seus amigos ainda estavam no festival, aproveitando as comemorações.
Queria muito ter deixado seu desejo em uma árvore, e que ele se realizasse, mas parece que aquele era o fim da linha.
Quando finalmente foi chegar na porta de sua casa, já estava de noite. As luzes dos postes em sua rua estavam todas apagadas, talvez com mal contato, permitindo que tivesse uma vista clara do céu acima.
O céu estava rodeado por nuvens, cobrindo quase todas as estrelas. Não era um bom sinal.
Passou pelo portão e já estava prestes a entrar para dentro de casa quando notou algo diferente no quintal que não estava lá de manhã. Quando foi investigar, viu que se tratava de uma árvore de bambu enorme e limpinha, que facilmente passava da altura do telhado de sua casa.
Nela haviam três papéis coloridos, um deles contava com uma assinatura: “Roku”.
– Valeu vovô Roku! – Entusiasmado, Yuma entrou em casa correndo. Passou direto por Akari e por sua avó como um relâmpago e subiu direto para o seu quarto.
Lá, ele abriu a grande e pesada janela de seu quarto com um pouco de esforço, escalando até o telhado. Tomou cuidado com seus passos para não escorregar lá de cima até chegar no ramo mais alto da árvore de bambu.
Conseguiu colocar o seu desejo no ponto mais alto que havia encontrado em toda Heartland City, amarrando-o bem firme para que não saísse voando com o vento… mas ainda havia um problema
O céu estava completamente nublado.
Depois de escutar aquela história tão bonita do senhorzinho na barraca, não queria que essa história terminasse com um final triste, não hoje.
Por isso, decidiu que ficaria ali a noite inteira, até que elas sumissem e pudesse ter certeza que Orihime e Hikoboshi se encontrariam.
Com isso o tempo passou… e passou mais um pouco… de pouco em pouco, fazendo o rapaz se cansar de ficar em pé e acabar deitando ali mesmo no telhado.
E o tempo continuou passando de pouco em pouco, com Yuma observando o vagaroso movimento das nuvens no céu, atravessando os céus.
Aquela brisa de vento não tão fria, combinada com o fato de estar deitado, foi lentamente exaurindo o rapaz, que ficou cada vez mais sonolento.
Ele lutou bravamente para manter os olhos abertos, mas até mesmo eles pareciam cada vez mais cansados… até que finalmente se fecharam, sem que ele nem mesmo percebesse
…
“Yuma”
Alguém chamava por seu nome, outra vez
“Yuma”
Uma voz tão suave, estranhamente familiar.
“Yuma”
Isso porque era familiar… sabia se quem era!
– Espera… – Murmurou Yuma, lentamente abrindo os olhos.
Ali, viu que estava em um espaço enorme, abaixo dele percorria um rio gigantesco, por onde milhares de estrelas e partículas corriam, galáxia abaixo.
– AAAH! – O rapaz entrou em pânico ao perceber que não havia chão abaixo de seus pés, temendo que fosse cair de lá de cima, o que fez com que desse algumas piruetas sem direção, girando no ar.
– Não se preocupe com a gravidade, você não vai cair aqui – O som daquela voz fez os olhos de Yuma arregalarem. Ele virou sua cabeça, em busca de onde localizar a fonte daquela voz, mesmo que estivesse de cabeça para baixo, até finalmente encontrar de onde vinha.
Não havia dúvidas… Aquele corpo cintilante celestial, pele azulada e olhos dourados, só podiam ser uma pessoa
– Astral… – As palavras escaparam da boca de Yuma, como se estivesse descrente. O jovem se embaralhou todo, dando mais e mais piruetas até finalmente ficar para cima outra vez
– O que você… – Antes que Astral pudesse sequer terminar sua frase, Yuma voou em sua direção, agarrando-o com os dois braços e dando o abraço mais apertado de todos.
Por um momento, Astral ficou sem palavras. Estava surpreso com aquela sensação estranha… como podia estar sentindo aquele toque, se seu corpo nunca antes havia sido sólido?
Pela primeira vez pôde sentir o calor do abraço de Yuma. As mãos do rapaz segurando-o com um aperto tão forte que parecia até mesmo desesperado, como se temesse que ele fosse desaparecer em pleno ar.
Aquilo trouxe um sorriso para o rosto daquele espírito etéreo, que também aproveitou a oportunidade para abraçar a Yuma, pela primeira vez na vida.
Sentiu o contato da pele do rapaz contra a sua e percebeu a maneira como o corpo dele relaxou, mesmo que minimamente, quando suas mãos se encontraram nas costas dele.
Conseguiu até mesmo sentir os espinhos pontiagudos de seu cabelo, fazendo algumas leves cócegas no seu queixo. Também ouviu o que parecia um soluço, junto de algumas gotas quentes que escorreram pelo seu peito
– O que houve, Yuma? – Perguntou Astral, com aquela voz calma e terna que só ele tinha. Não demorou muito para que Yuma levantasse o rosto, mostrando seus olhos vermelhos e marejados – Por que está chorando?
– Foi mal… não deu pra segurar – Respondeu, com um sorriso choroso no rosto, limpando as lágrimas com o braço.
Era claro como o rapaz estava extremamente alegre.
– Como foi que você veio parar aqui? Está muito distante do seu planeta – Perguntou Astral, curioso, vendo que estavam no espaço profundo, rodeados apenas por estrelas, mais próximos de seu mundo do que do de Yuma
– Eu fiz um pedido, para Orihime e Hikoboshi – Respondeu o rapaz, que não desgrudava do abraço por nada
– Orihime e Hikoboshi? – Perguntou o espírito , um pouco confuso
– É, eles são dois amantes que ficaram presos na forma de estrelas e só podem se encontrar hoje, foi o que o senhorzinho da barraca me disse – Ele explicou, uma frase completamente absurda mas que também era completamente característica do Yuma
– Amantes estelares… será que se refere a aqueles dois? – Astral apontou em uma direção, para qual Yuma olhou logo em seguida.
Lá o rapaz viu conforme inúmeras estrelas foram convergindo, formando uma ponte que atravessava de um lado a outro daquele rio estelar.
Nas beiradas deles estavam duas figuras, apenas suas silhuetas visíveis com um brilho tão etéreo quanto o de Astral. De um lado uma fabulosa princesa, com um vestido feito de poeira estelar. Do outro, um homem, segurando um cajado de pastoreio feito de estrelas,
Com a formação da ponte, ambos foram andando um em direção ao outro, até se encontrarem exatamente no meio, unindo-se com tanta ternura quanto o abraço de Yuma e Astral, que assistiam aquilo tudo de longe.
– É, são eles mesmos – Afirmou Yuma, rindo.
– Intrigante… – Foi tudo que Astral disse, antes de voltar sua atenção para Yuma, que ainda o olhava como se fosse a única coisa no mundo – Bem, e o que você andou aprontando todo esse tempo, Yuma?
– Eu fui campeão novamente do World Duel Carnival outra vez! Enfrentei o III e o V de novo, e encontrei Droite e o Gauche também, mas dessa vez os dois não estavam caçando mais nenhum número! – Falou, tentando elaborar as ideias em sua mente – Ah é, a família do Kaito está bem, infelizmente ele deixou de duelar para ficar com o irmão, mas isso não é um problema porque eu estou sempre visitando ele… e também agora eu estudo com os imperadores barian, todos eles ficaram do bem… por mais que o Vector ainda goste de fazer algumas maldades de vez em quando.
Yuma prosseguiu, falando, falando e falando como se não tivesse mais fim, colocando em dia todas as novidades que aconteceram nestes anos desde que haviam se visto pela última vez enquanto Astral apenas se preocupava em escutar a voz do rapaz.
– Sabe… eu me tornei um duelista muito forte… você ficaria surpreso de me ver duelando hoje em dia – Ele deu uma pausa, olhando Astral frente a frente.
Astral conseguia ver as mudanças sutís que o visual de Yuma havia sofrido com os anos… não eram tantas ainda, mas havia crescido, e isso o deixou contente.
– Para mim você sempre será o medmo Yuma de sempre, que joga primeiro com o coração e depois com a cabeça – Falou Astral, levando a mão aos cabelos de Yuma, bagunçando-os de leve enquanto sorria para o rapaz
– Isso não mudou mesmo… você me conhece – Yuma riu, alegre – Eu estava com muita saudade, Astral.
– Eu também senti sua falta, Yuma. – Respondeu, brevemente – O mundo astral é um pouco quieto demais sem o seu caos por lá.
Pouco a pouco, o corpo de Yuma começou a cintilar, soltando partículas de poeira estelar e ficando mais transparente e menos sólido. Seu aperto foi ficando cada vez mais solto, sem força. Sabia que havia chegado a hora de ir
– Foi bom te ver de novo, Astral – Respondeu Yuma, olhando para Astral – Mesmo que por pouco tempo.
– Igualmente… – Pouco a pouco o abraço do rapaz foi ficando cada vez mais distante, conforme o corpo do jovem foi desaparecendo – Se cuide, Yuma.
– Pode deixar, Astral… eu prometo que vou – Aquelas foram as últimas palavras de Yuma, antes de seu corpo desaparecer completamente, deixando apenas a sensação fantasma de seu toque e calor no corpo de astral.
…
Quando Yuma conseguiu abrir seus olhos novamente, viu que ainda era de madrugada. Ainda estava em seu telhado, deitado, com o céu acima de sua cabeça estava completamente limpo, deixando que ele tivesse uma vista perfeita das estrelas de Altair e Vega ao lado da via láctea.
– Obrigado, Orihime e Hikoboshi… – Um sorriso se abriu em seu rosto, conforme se levantou rapidamente – Até a próxima, Astral.
Yuma caminhou de volta para dentro de seu quarto, fechando a janela para poder dormir. Do lado de fora uma brisa de vento chegou, carregando o papel com o seu pedido consigo, em direção aos céus, sua escrita iluminada pela luz da lua.
…
“Desejo poder ver o Astral, mais uma vez.”
…
De fato, alguns desejos realmente se tornavam realidade
…
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